14 agosto 2007

Teu sono



Cefas Carvalho

Observo-te em teu sono, fato raro, posto que durmo pesadamente, quase não acordo durante a noite e também porque, devido a algum sortilégio do destino, quase sempre dormimos e acordamos na mesma hora, como irmãos siameses, como bonecos que uma criança força a dormir em sua brincadeira. Observo-te e imagino então em que mundo estás, em sua sagrada inocência... sei que todos os que dormem parecem inocentes, mas tu, és mais inocente do que os outros, do que eu, porque dormes falando de amor e portanto, por alguma imposição sagrada dos deuses do sono, deves também sonhar com o amor. Observo teu rosto, sereno, onde a boca entreaberta deixa escapar algo que por vezes me parecem suspiros, por vezes me parecem palavras, talvez mantras, talvez outras línguas, sânscrito, hebraico, grego antigo... talvez sussurre coisas para mim, coisas que meus ouvidos de insone não conseguem detectar (talvez eu as ouvisse se estivesse dormindo... quem sabe no sono os amantes consigam se comunicar...) Observo então seus olhos cerrados, as pálpebras que escondem as íris tremendo quase imperceptivelmente... observo teu corpo, branco quase leitoso, puro ainda que semi-despido, posto que a calcinha branca e a blusa que revela um seio não escondem de mim teu corpo... no sono, mesmo o que gera desejo também gera pureza e a excitação em potencial transforma-se em carinho, um carinho que se contém, já que um toque poderia te acordar e esta seria uma heresia que jamais pretenderia cometer. Observo mais atentamente teu braço fazendo um suporte para o rosto em cima do travesseiro, e também uma perna dobrada em V, formando um ângulo que sugere ao mesmo tempo sensualidade e tranqüilidade. Observando teu corpo em teu sono recordo das batalhas de carne horas antes, violentando a calma da madrugada com gritos, gemidos, espasmos... e penso em teu sono pesado como o despojo colhido pelo guerreiro após a cruzada vencida. Mas, nem só de belicismos vivem meus devaneios sobre teu sono... vejo o copo d´água semi-vazio sobre a mesa ao lado da cama e recordo que disseste, antes de dormir, que aquela água lhe parecia mais saborosa naquele momento do que um vinho. Também vejo na mesa, como se velando teu sono, os livros que te emprestei – cinco, salvo engano, um Saramago, duas peças de Shakespeare, um livro de humor – e que não terminaste de ler (lês todos os livros de uma vez, com paixão, com impulso...) Eis que de repente se moves, vira o rosto para o outro lado, fecha a perna fazendo uma linha com a outra perna, resmunga ou suspira algo ininteligível... talvez esteja sonhando... com quê? Tolice tentar adentrar o campo dos sonhos alheios... melhor imaginar que ela está sonhando com os anjos (embora eu espere que ela esteja sonhando comigo, não com anjos púberes poetando asas e harpas). Por fim, percebo minhas pálpebras começando a pesar e percebo que minha vigília pelo sono dela chegará ao fim, pois que Morfeu me convida lentamente para adentrar no mundo dele. Observo-te então pela derradeira vez na noite (ou pela derradeira vez na vida, já que como diz a máxima popular ao futuro a deus pertence e o armagedom poderá chegar nesta noite ainda...) como quem se despede, agradecendo a um deus desconhecido, a um deus em que não acredito pela dádiva de partilhar com você o momento do teu sono. Durma em paz, amor!

3 comentários:

Anna disse...

Muito bom.

Cefas disse...

Obrigado, Anna. E entre em contato.

Cláudia Magalhães disse...

Lindo, meu amor! Vou dormir mais vezes pra inspirar você! kkkkkk
Te amo, meu querido, pra sempre...