01 Dezembro 2009

Desabrochando


Cefas Carvalho

Ainda que não fosse religioso, lembrei do Eclesiastes naquela manhã chuvosa de agosto: Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de afastar-se. Na verdade, eu começara a refletir sobre a questão desde que os cabelos insistiam em partir e as dores nas pernas e nas costas ficavam mais constantes. Mas, o passar dos anos não me assustava: realizado profissionalmente, bem casado com Helena, pai de Amanda, uma filha linda e saudável, eu fizera do tempo um bom amigo.
Às voltas com a administração da minha empresa de informática, recebi – naquela manhã de forte chuva – um telefonema de Helena. Disse que tinha algo importante a me comunicar. Imaginei tratar-se de contas a pagar ou o pedido para levar algo para casa. Nada disso. Entre a satisfação e indisfarçável constrangimento, ela disse que Amanda menstruara pela primeira vez.
A primeira sensação foi de uma estranha angústia. Claro que eu sabia – posto que ela tinha treze anos – que tal dia chegaria. Contudo, uma vez acontecido o fato temos uma estranha sensação de surpresa, como se tal coisa jamais fosse acontecer. Tolice. Claro que aconteceria, e naquele instante eu percebia que o fato provocaria mudanças na vida de Amanda e, certamente, na minha.
O pensamento que me invadiu foi o óbvio: a minha menina estava se transformando em mulher. Não sem certa melancolia, lembrei de quando ela era um bebê, ninada em meus braços sob o encanto de velhas cantigas. Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta...
Recordei das fraldas sujas que troquei nela e das vezes que a levantei do chão, quando caía, no exercício penoso – e por fim bem sucedido – de andar sozinha. Como um filme, todas as cenas da menina que vi nascer e crescer passaram por mim como se em despedida. Afinal, a menina não existiria mais. Daria lugar a uma mulher – antes disso a uma adolescente, com suas espinhas, neuras, chiliques e caprichos - que teria de encontrar seu espaço em meio a um mundo de homens, como se diz.
Outra recordação: das aulas de biologia. Menarca era o nome da primeira menstruação, sim, o termo me vinha à cabeça como um chicote, a lembrar de tecnicidades, de ações hormonais, do sangue, enfim. Um sangue simbólico que levaria minha menina para sempre para as terras da memória e me daria alguém diferente em troca.
Fui tomar um café na copa enquanto meu cérebro funcionava febrilmente. Pouco ou nada eu havia conversado com Amanda, embora fôssemos tão próximos, sobre menstruação e a passagem da infância para a adolescência. Talvez eu acreditasse que era um assunto para ser trado com a mãe delas, em uma conversa de mulheres. Quem sabe meu subconsciente não quisesse esconder dela própria que minha menininha um dia cresceria. De qualquer maneira eu estava arrependido de jamais ter explorando o tema. Como fazê-lo a partir dali? Como adentrar no mundo secreto que Amanda e Helena viveriam a partir de então, um mundo feito de absorventes íntimos, olhares cúmplices, alterações de humor. Era como se Amanda estivesse definitivamente abandonando o universo que eu construíra para nós dois e adentrasse em um mundo onde qualquer coleguinha de colégio teria mais peso do que eu. Recordei dos estudos que fizera nos tempos de universidade, sobre como a sociedade ocidental estigmatiza a menstruação, principalmente a menarca. Tudo tratado com segredos, olhares fortuitos, termos grosseiros. Nada da suavidade de povos ditos selvagens, mas, que celebravam a passagem de fase da menina com dignidade e alegria.
Em seguida, comecei a me sentir ridículo. Claro que Amanda continuaria sendo a filha que sempre foi, com a diferença que estava crescendo. Comecei a imaginá-la como uma flor. Era uma flor, uma flor desabrochando: uma flor que, mais tarde, possibilitaria o nascimento dos frutos, frutos que seriam meus netos e então fui inebriado pela imagem de mim mesmo correndo no jardim com os netos.
Tomei, então, uma decisão. Saí do trabalho mais cedo, passei em um shopping e comprei uma caixa de bombons com licor e um buquê de rosas brancas. Celebraria com minha filha e com minha esposa a nova fase que aguardava a todos nós. Daria adeus a menina e daria um abraço na mulher que eu teria o prazer de ver surgir aos poucos.

26 Outubro 2009

O dia em que Jesus não foi crucificado


Cefas Carvalho

Por pura coincidência, na semana passada acabei tendo como tema, em três conversas distintas, a encenação na Paixão de Cristo em Nova Jerusalém. Todas sobre como o espetáculo perdeu seu encanto com a modernidade e a “invasão” de atores globais nos papéis principais. Nada mais a ver com a coisa rústica que, dizem, existia nos anos oitenta. Hoje, me relataram, as fãs dão gritinhos enquanto Thiago Lacerda está sendo crucificado como Jesus e, sem resistir aos apupos, chega a sorrir e piscar o olho para as moçoilas em vez de sofrer e gritar Pai, por que me abandonaste?! Deve ser coisa do mundo globalizado.

Esses papos me recordaram histórias outras envolvendo encenações da paixão de Cristo. Uma delas, salvo engano, me foi relatada pelo amigo jornalista Rômulo Estânrley e ganhou manchetes de jornais à época, anos noventa. Macaíba realizava sua Paixão de Cristo habitual, os atores se empenhavam nos seus santos papéis, quando, re repente, o centurião começa a flagelar Cristo que segurava a pesada – mas de isopor, na peça, claro – cruz às costas. Eis que um sujeito que bebia suas canas desde manhã cedinho e já estava meio triscado, se emociona mais do que deveria e pula no meio dos atores com a peixeira levantada para o centurião: Aqui em Macaíba você não vai bater em Jesus, não, seu cabra safado!, e foi um tal de gente correr para todo lado. No frigir dos ovos, a intenção do bebum acabou se realizando: naquele ano, pelo menos em Macaíba, Jesus foi salvo da cruz.

Outra anedota do gênero, me foi contada há anos por uma amigo e teria acontecido num município da região Oeste deste Rio Grande do Norte. O dono de um circo mambembe resolveu montar uma paixão de Cristo no período de Páscoa. Colocou sua mulher como Maria Madalena, ele próprio no papel de Centurião e escolheu para Jesus o trapezista cabeludo que era o bonitão do circo. Pois, com o circo lotado, a trupe começou a encenar a paixão, quando, numa breve pausa, o dono do circo flagrou num canto escondido sua mulher aos beijos com o Jesus pé de lã. Possesso, resolveu se controlar e continuar o espetáculo. Contudo, quando chegou a cena de Jesus carregar a cruz sob o flagelo dos soldados romanos, a raiva bateu mais forte no marido traído e lapt lapt com o chicote nas costas do Jesus bonitão. Na terceira chibatada o Jesus olhou para trás nervoso, foi quando o cornudo não agüentou mais e gritou: Gosta de pegar mulher dos outros não, é, felá da puta, pois tome mais essa e essa!, e novamente foi gente para tudo que é lado com a confusão. Também neste espetáculo Jesus escapou da crucificação...

15 Outubro 2009

A barata

Cefas Carvalho


O bicho, enorme, asqueroso, entre o preto e o marrom, passeava pela casa, imponente, como se fosse seu dono. Para não confessar a minha filha o medo que tenho de barata, disse a Sofia que a barata se chamava Kafka e que estava nos fazendo uma visita. Besteira, mamãe, você está falando isso para disfarçar seu medo!, respondeu, do alto da sabedoria que seus seis anos lhe davam. Irritada, decidi pegar a vassoura para matar a intrusa, mas, quando ela atravessou a sala rapidamente, pelo tapete, dei dois passos para trás e quase tropecei na mesa de jantar. Viu, mãe, você está morrendo de medo!, zombou Sofia. Desafiada e já nervosa – com a barata e com a petulância da menina – perguntei se ela não tinha medo. Respondeu que não. Então por que não mata você a barata?, provoquei. Primeiro porque matar insetos é tarefa das mães, não das filhas. Segundo, porque você disse que era uma visitante. Desisti da vassoura e bebi um copo d´água para me acalmar. Não sabia se repreendia minha filha ou se tentava achar a barata debaixo do sofá. Decidi pela segunda opção, mas, após afastar o sofá, virar o tapete e quase derrubar a cortina, não tive sucesso. Sentei no sofá, fora do lugar, e comecei a chorar, baixinho. Sofia veio em minha direção e me abraçou. Mamãe, eu retiro o que disse. Matar baratas não é tarefa para as mães, mas para os pais!, sorriu. Não segurei o choro e desabei a cabeça entre as mãos. Sofia alisou delicadamente meus cabelos. Mamãe, o papai vai voltar? Não, minha filha, ele foi de vez. Tem certeza, mãe? Tenho sim, filhinha. Então vamos nós duas matar esta barata, mãe. Como é mesmo o nome dela? Kafka!, sorri. Por que este nome estranho? É uma brincadeira com o escritor muito famoso que escreveu um livro sobre um homem que se transformava em uma barata gigante. Que coisa estranha, mãe! Um dia você me conta essa história? Conto sim, juro!, sorri, voltando a sentir a alma tranqüila. Neste momento, a barata saiu de trás da cortina, parando como que para nos olhar. Sofia correu para ela pelo lado esquerdo e ela, Kafka, sem alternativas, correu para a minha direção. Golpeei-a com a vassoura, uma, duas, três vezes até que vimos, eu e Sofia, os restos do inseto esmagado e um líquido esbranquiçado no tapete. Nojo? Que nada! Nos abraçamos, morrendo de rir de nós mesmas.

14 Setembro 2009

Eu não danço


Cefas Carvalho

A festa estava um tédio, como era de se prever. Aniversário de uma prima distante, chata e prepotente. Eu me perguntava, enquanto bebia mais um uísque, porque não ia embora, quando a vi, sentada à mesa, próxima de mim, com duas amigas de cada lado. Como eu não a vira antes? Não era a mulher mais linda da festa, mas, ao contrário das outras, parecia brilhar, como as madonas das pinturas renascentistas, ofuscando quem lhe circundava. Mas, um brilho sereno e discreto. Ela olhava como se, na verdade, não estivesse ali, mas eu algum lugar longínquo. Quando percebeu que eu a olhava, sorriu rapidamente e voltou a cabeça para o lado. Voltei à minha mesa, mas não desisti de encará-la, até que, munido com a coragem dos que sentem o coração acelerar, esperei que estivesse sozinha e a abordei:
- Boa noite. Quer dançar?
- Obrigada. Eu não danço.
- Não gosta de dançar?
- Eu disse que não danço... – sorriu.
- Se não sabe dançar, eu te ensino...
Ela lançou um olhar de carinhosa reprovação que me inibiu, e parei com a insistência. Perguntei seu nome, Laura, e disse o meu, Ricardo. Ela convidou-me para sentar a seu lado.
- Há algo em você que me encanta. Não me olhe como se eu fosse um conquistador barato. Estou falando a verdade. Talvez sejam seus olhos alheios a tudo...
- Eu não sou uma mulher comum
- Eu sei disso.
- Não, você não sabe de nada – sorriu. Conversamos sobre banalidades – o tempo chuvoso, o trânsito caótico da cidade – e sobre nossos gostos – cinema europeu, literatura, poesia. Recitei trechos de Zila Mamede e Florbela Espanca para ela, que cantarolou, com uma linda voz de soprano, pérolas de Janis Joplin.
Sim, eu estava encantado por ela e as horas se passaram sem que eu sentisse, até que a festa foi chegando ao fim. Convidei-a para bebermos um último drinque no balcão, mas ela recusou. Não posso sair daqui, sorriu.
- Mas, sua família pode nos observar daqui mesmo. Aceite meu convite.
Ela sorriu, passou a mão em meu rosto suavemente e virou a cabeça para o outro lado, onde sua irmã – a quem eu já tinha sido apresentado – olhou-a com um sorriso enigmático.
- Ricardo, eu tenho que ir...
- Podemos nos ver amanhã? Dê-me seu número de celular...
- Ricardo, há coisas que você tem que saber...
- Você é casada? Noiva? Tem namorado? Seu pai é violento? Ora, se não acontece nada disso e nem eu sou um Montecchio e nem você uma Capuletto, o que mais eu preciso saber? – brinquei. Ela riu, mas amargamente e baixou a cabeça.
- Margarete está chegando. Terei que ir... –suspirou. Olhei para o lado e vi a irmã empurrando uma cadeira de rodas e a colocando ao lado de Laura.
- Ricardo, você pode ajudar minha irmã a me colocar aqui.
Compreendi tudo em um instante. Também em um instante eu teria que tomar a minha decisão. Pedi licença para tomá-la no colo e colocá-la na cadeira de rodas.
- Agora eu poderia beber o drinque com você no balcão, se não fosse hora de ir, mas infelizmente, não dançaria.
- Pois eu dançaria com você assim mesmo.
- Vamos lá, seja um cavalheiro e empurre minha cadeira até o nosso carro.
Obedeci a ordem e fomos conversando até o estacionamento. Enquanto a mãe e a irmã se despediam da minha prima chata e família, ficamos fumando e conversando besteiras.
- Posso te deixar em casa – disse.
- Você não iria querer isso.
- Eu quero isso, sim.
- Você me deixaria por pena.
- Negativo. Farei isso porque estou me apaixonando por você.
Laura me olhou e ficou em silêncio. Quando a mãe a Margarete voltaram e a família se preparava para entrar no carro, notei que Laura conversava algo com elas. Após alguns segundos de visível tensão, percebi as três mulheres me olhando e me avaliando. Por fim, Margarete veio até mim.
- Laura quer que você a deixe em casa, e nós concordamos, embora isso não seja muito comum. Podem esticar, claro, beber alguma coisa, jantar, mas tenha cuidado com ela.
- Pode ter certeza que cuidarei dela – respondi. Coloquei Laura no banco do passageiro, dobrei a cadeira de rodas para que coubesse no banco de trás e saímos.
- Viu como sou diferente das outras mulheres?...
- É sim, mas não pelas razões que está pensando.
Perguntei a ela onde queria ir, propus uma volta pela praia ou comermos uma massa em algum restaurante.
- Ricardo, se eu não fosse deficiente você me faria essas mesmas propostas?
- Claro – respondi.
- Então vamos fazer as duas coisas.
Passeamos pela orla, vimos a lua cheia e seu efeito na maré e depois comemos, não a massa, mas camarão em um restaurante simples e discreto.
Já rumo a casa dela, percebi uma névoa em seu olhar.
- Se eu não fosse deficiente, você me deixaria em casa agora?
Hesitei. Como não soubesse o que dizer, ela continuou:
- Esta noite está maravilhosa. Gostaria que continuasse assim.
- Qual a sua sugestão?
- Sou uma mulher adulta e sadia, com exceção das pernas, que não me mexem, tenho meus desejos e vontades. Você é um homem aparentemente adulto e sadio – riu – estamos nos conhecendo e temos a noite pela frente.
Não foi necessária mais nenhuma palavra. Conduzi o carro a um motel que havia ali perto.
Também não foram necessárias palavras de explicação. Claro que eu estava um pouco tenso, mas nada que o carinho e a excitação não suplantassem com sobras. Como se por instinto, como se tivesse feito tais coisas a vida inteira, levei-a de colo para a cama, depois a ajudei a tomar banho, abri um vinho e conversamos um pouco.
- Ricardo, me beije como nunca beijou mulher alguma em sua vida – pediu, de repente, deitando-se. Comecei beijando as pontas dos pés. Mandei às favas a razão, que insistia em me lembrar que ela nada sentia naquela parte do corpo. Afastei delicadamente suas pernas em busca da flor que lá havia. Senti suas unhas em meus cabelos, primeiro afagando levemente, depois com força e as horas viraram uma sucessão de prazeres. Desnecessário registrar que em nenhum momento ela me pareceu diferente.
Acordamos às sete da manhã, tomamos café, um banho rápido e deixei-a em casa.
- Eu te vejo hoje?
- Com uma condição.
- Qual?
- Se você me levar em algum lugar para dançar.
- Pensei que não dançasse.
- Com você eu dançarei.
Beijei-a e empurrei a cadeira até o hall da casa, onde Margarete nos recebeu com um sorriso aliviado. Despedi-me delas e rumei para casa. Pensei que estaria cansado, mas não consegui dormir. Coloquei uma música animada no som – What a wonderful world, cantada por Sam Cooke – e comecei a dançar sozinho. Pensando em Laura.

10 Agosto 2009

O verbo se fez carne


Cefas Carvalho

Tenho medo de objetos cortantes
Principalmente palavras
(Carito)


Com esses olhos negros de desespero você me olha como se eu fosse um objeto, não um pedaço de carne – o que seria vulgar, mas, instigante, afinal, sou mulher e mulheres gostam de olhos cobiçosos, meu bem – mas, pior, bem pior, como se eu fizesse parte da mobília – que você escolheu e comprou sozinho – desta maldita mobília escura e pesada, que não parece em nada comigo, com minha alegria, minha vontade de viver. Talvez os móveis pareçam com você, aliás, com sua alma, negra e cheia de poeira. Pensando bem, você me olha como se eu fosse uma louca, sim, eu sou louca, enlouquecida que fui pelas suas promessas, suas juras, pelos laços que você inventou para me amarrar, como um belo caçador que joga frutas no chão para atrair e aprisionar um pássaro raro. Sim, meu bem, eu era um pássaro, livre, liberta, com capacidade para voar, até que, de repente me vi presa em seus rancores, seus ciúmes, seus ódios... Por deus, não me olhe assim, odeio este olhar vazio... Mas, não quero recordar nossa triste história. Basta lembrar que, por você, abandonei meu trabalho, minha família, negligenciei meus amigos, amofinei meus gostos. Tive de guardar meus prazeres em uma gaveta e trancá-la, definitivamente. Minha vida passou a ser a sua vida. Meus prazeres, os seus. Eu ouvi a sua música, assisti os filmes que você amava, passei a comer - e a preparar – as comidas que você gostava. Não fale nada, não fale, sei que você vai dizer que não me pediu nada disso. Talvez não verbalmente, mas eu sentia em seus olhos – pesados, intensos - a pressão sobre mim, me induzindo a mudar, a deixar de ser eu mesma e me tornar algo como um fantoche. Não abra a boca, por todos os demônios, sei que você vai insistir que nunca me olhou desta forma, e que em seu olhar havia apenas admiração, contemplação e desejo. Você seria até capaz de dizer que fui eu quem insistiu na mudança, talvez para me aproximar do seu mundo, para mostrar que merecia sua companhia. Por que está se aproximando de mim, não chegue perto, não me toque. Eu sei que você não me toca há anos, provavelmente você não me ama mais. Como poderia? E quanto a mim? Você tem vontade de saber se ainda te amo? A resposta deveria ser um sonoro e poderoso não. Como eu poderia amá-lo? Talvez eu o amasse quando o via escrevendo seus livros, concentrado na escrivaninha, com a xícara de café ao lado e o cigarro repousado no cinzeiro exalando fumaça como um incenso... Sim, eu te amava então. E você, me amava naquela época? Por que não dizia que me amava? Por que ficava mudo, às vezes tão mudo quando hoje? Por que não me enlaçava – eu que achava seus braços tão fortes – e dizia que eu era a coisa mais importante de sua vida, mais que seus livros, suas músicas, seus projetos? Era só insegurança, meu bem, era só aquela bobagem de não se sentir amada, de pensar, tolamente, sei, que você não pensava mais em mim quando seus amigos e editores vinham para cá debater seus projetos e livros. Enquanto vocês fumavam e discutiam o futuro da arte, eu me trancava no banheiro para chorar, Primeiro passava um batom bem vermelho, que você odiava, depois maquiava os olhos e me punha a chorar, assistindo pelo espelho as lágrimas pintarem meu rosto de um preto meio aguado que lembra tristeza e decadência. Por deus, como eu te admirava, meu bem... Tenho que te dizer, mais uma vez, que eu menti, menti, sim, quando disse que não te amava, que tinha nojo de você e queria terminar tudo. E menti quando disse que sairia para me entregar ao primeiro homem que encontrasse na rua. Na verdade, fui para um bar, chorar e beber uma dose de uísque com vontade de morrer... depois fui para a casa da minha irmã e choramos juntas lembrando dos sonhos que tínhamos quando éramos crianças. Quando voltei para casa no dia seguinte, era para te abraçar, te pedir perdão e dizer que te amava. Não imaginei nunca que você estaria jogado no chão, imóvel, como morto. Primeiro achei que era uma brincadeira. Depois, que você tentou se matar por minha causa – é mesquinho dizer isso, mas uma parte de mim exultou, ficou lisonjeada – até que o médico explicou que você, ao subir a escada, escorregou no café que deve ter derramado – sempre desastrado... – e rolou degraus abaixo, quebrando a espinha dorsal em três pedaços. E como explicar a névoa que me passou pela mente quando ouvi que meu marido ficaria tetraplégico e mudo para sempre? Como saber se você ouve o que eu digo? Vamos, meu bem, fale alguma coisa... Vou limpar a baba que escorre de sua boca, não me olhe desse jeito. Um dia eu te amei. Talvez ainda te ame. Vamos, vou passar a toalha em você, pois a fisioterapeuta vai chegar em meia hora...

29 Julho 2009

Beleza não põe mesa


Cefas Carvalho

Não, a estética convencional não me agrada e não pretendo ser escrava da beleza tradicional, esta beleza das estátuas gregas e dos astros e estrelas de cinema. Por esta razão, arranquei as unhas, sim, uma por uma, com uma tesourinha afiada... depois foram os dedos, não todos, claro, mas, arranquei fora o dedo mindinho da mão esquerda... Ora, por que se precisa do dedo mindinho, para quê ele é necessário. Cabelos? Arranquei os fios, primeiro um por um, depois, sem paciência, em chumaços, em tufos, mas ainda sobraram alguns fios desconectados entre si... Já disse que a beleza convencional não me atrai, e, por mim, pode ser destruída, como fiz com os lábios, primeiro, enchi-os de batom, depois com uma chave de fenda, despedacei-os, quero ver eles se abrirem para um sorriso sedutor, pois sim... Bem, depois lanhei as pernas, com a mesma chave de fenda, sim, passei a chave nas pernas como quem passa um giz em um quadro negro, com conhecimento e decisão. Para completar a obra, rasguei as roupas, fúteis, banais, tecido em farrapos... Repito que a beleza não me interessa, gosto do feio – que para mim é belo - do destroçado, do imperfeito, sempre fui assim, fazer o quê? Ora, mãe, não faça essa cara! Eu digo há anos que detesto bonecas, odeio bonecas!, e você ainda me compra esta Barbie!... Sinceramente, mãe! No ano que vem posso ganhar de presente de aniversário um Banco Imobiliário?

14 Julho 2009

Ícaro


Cefas Carvalho

“One day I am going grow wings/ a chemical reaction”
(Thom Yorke, da banda Radiohead)


Era como um inseto, uma formiga, um besouro, andando pelas suas costas, na altura das costelas e subindo para os ombros. Pelo menos começou assim. Uma comichão nas costas, às vezes na pele, outras vezes como se fosse um formigamento nos ossos. No início desprezou a coceira, mas ela se tornou forte, imperiosa, quase insuportável. Desprezou o conselho da namorada - procure um médico, ela disse - e resolveu ignorar o desconforto, até que em uma tarde tediosa de julho, enquanto caminhava pela avenida principal da cidade, sentiu a dor nas costelas de forma lancinante. Contorcendo-se de joelhos, percebeu que as pessoas o olhavam com medo e fascínio, e em meio a tanta dor – como um punhal cravado em sua carne – sentiu que algo lhe brotava da pele. Olhou, aturdido, para trás e viu o imenso par de asas, viscosas e sangrentas, que lhe nascera. Percebeu tudo, então, e, entre as lágrimas da dor que não mais sentia, e uma saudade que já se anunciava, levantou vôo...

23 Junho 2009

Quando Piaf ressurgir das cinzas


Cefas Carvalho

Merda, borrei o olho!, murmurou, sentindo o lápis escorregar para a direita. Rápida e habilmente, consertou o traço preto embaixo da pálpebra. Terminado o desenho dos olhos, parte da maquiagem que mais lhe dava prazer, cuidou de passar o batom. Adorava o cheiro exalado pelos batons, principalmente os vermelhos, mas, não gostava do efeito que produziam em seus lábios. De batom, não se sentia uma mulher, ou mais mulher, ao contrário das amigas, mas, sim, como um palhaço triste que representa uma tragédia com ares de comédia.
Minha tragédia não é ter o corpo de um homem, mas, a alma de uma mulher, pensou. Talvez por esta razão, sentia-se sempre estranha com aquele vestido, os seios postiços – incômodos, pavorosos – a peruca ruiva, os olhos pintados, o batom ultrajante... Por mais de uma ocasião implorou para fazer seu show sem aquela fantasia. Mas, era inútil.
Jorge pensava que a insistência em se apresentar era pelo cachê. Que ele pensasse assim, afinal, o dinheiro quase sempre ia parar nas mãos dele. Mas, ela concordava em se fantasiar de mulher – mesmo sendo, em alma, uma mulher verdadeira – para poder cantar. Mais exatamente para poder interpretar as canções de Piaf.
Ele se apaixonou por mim quando me viu em uma boate cantando Je ne regrette rien, pensou, retocando o batom. Isso acontecera seis meses antes. A partir dali, mergulhou – com Jorge – em um universo de amor, sexo, bebida, drogas, violência física e humilhações, em doses cavalares. Já expulsara Jorge do apartamento milhares de vezes e, outras mil vezes telefonaram, em prantos, para que ele voltasse. Com Jorge, vivera céu e inferno, som e fúria, como jamais havia experimentado com homem algum.
Pensando nisso, estremeceu levemente e sorriu para si mesmo no espelho. Seu corpo soltava choques elétricos quando pensava em Jorge. E a lembrança dele se unia ao amor por Piaf... Cantarolou sua música preferida...
C'est sûr que j'en mourrais
Que j'en mourrais d'amour,
Mon amour, mon amour...

Assim como Piaf, se eu tivesse que morrer, seria de amor. Ela está enterrada em um cemitério chamado Pére Lachaise, em Paris, Recordou. Havia lido isso em alguma revista, e desde então, economizava dinheiro para ir à capital francesa e visitar o túmulo da cantora.
Foi quando lembrou - como uma pedra que lhe golpeasse a cabeça – que Jorge não estaria no apartamento quando retornasse. Havia ido embora, e, daquela vez, definitivamente, como mostrava a carta que mandara de muito longe. Voltara para a mulher e os três filhos, no interior onde nascera. Não iria mais a Paris, não conseguiria viajar sem ele.
Mas, não, não se arrependia de nada. Segurou a lágrima que iria, mais uma vez borrar a maquiagem, sorriu para sua face no espelho, levantou-se e foi para o lar onde não existia nenhum Jorge, onde não existia ninguém além dela mesma e de Piaf: o palco.
Si jamais tu partais,
Partais et me quittais
Me quittais pour toujours...

15 Junho 2009

Loteria


Cefas Carvalho

O homem alto, corpulento, pesado como o tempo e levemente encurvado, pediu licença à senhora miúda que tentava - em vão – fechar uma sombrinha velha e postou-se na bancada lateral da casa lotérica. Tirou no bolso o papel da aposta e tentou se posicionar de forma que conseguisse enxergar o quadro de resultados. Estava ficando velho e seus olhos mais cansados.
Pediu licença ao homem – também corpulento, mas, baixo e com uns olhinhos de ave de rapina – que estava riscando um bilhete no balcão. O sujeito afastou, dando espaço, olhou para o outro e disparou:
- Vai conferir a posta, amigo? Fez uma fezinha, não? Eu também fiz a minha, está aqui, ó, na minha mão. Toda semana faço três apostas, sei que um dia vou ganhar. Quem espera sempre alcança. Não é assim que diz a Bíblia? E Deus sempre premia os persistentes. Por isso eu persisto, amigão. Já pensou se a gente ganha. A primeira coisa que faço é mandar meu chefe para o inferno... Isso para não dizer pior... Aí pego o dinheirão todo e compro uma ruma de mansões, umas coberturas... Podíamos fazer umas festas de arromba, já pensou, amigão... Tudo do bom e do melhor, churrasco, carne de primeira, caviar... Não sei nem qual é o gosto, mas faço questão de caviar... E enchemos a festa de mulheres, rapaz, porque, você sabe, mulher gosta de homem estribado, com dinheiro, aí começa a chover mulher... Já pensou uma piscina cheia de mulheres e um garçom servindo uísque para a gente... Rapaz, e podemos comprar um jatinho particular, já imaginou, viajar para todo canto na hora que a gente quer?... bla blá blá...
Enquanto o homem de olhos de ave de rapina falava sem parar, o outro conferiu rapidamente sua aposta e viu que não tinha vencido. Na verdade, não acertara nenhum dos cinco números sorteados. Murmurou um até logo para o outro, que não parava de falar e voltou para casa com a cabeça tonta... Mulheres, carros, piscinas, coberturas...
Entrou em casa e, de olhos baixos, aproximou-se da esposa.
- Então, homem. Conseguiu o dinheiro e comprou o leite?
Ele não respondeu. A mulher percebeu o peso que caía sobre ele e foi para a cozinha preparar a papa de farinha para os gêmeos, que logo iriam chorar de fome. Ele foi até o quarto, olhou os bebês no berço improvisado, lamentou não ter conseguido nem o emprego desejado e nem o empréstimo com o amigo e tirou o bolso o bilhete de loteria, amassando-o e jogando no chão, ao lado do berço. Sentindo o cheiro da papa quente de farinha, tentou não chorar.

03 Junho 2009

Uma nação de cuspidores


Cefas Carvalho

Otorrinos e gastroenterogistas do Brasil, atenção! O brasileiro em geral tem seriíssimos problemas de salivação e glândulas! Pelo menos é minha humilde opinião, afinal, isso poderia explicar a paixão que o brasileiro tem pela cuspideira. É incrível como o brasileiro cospe! Em qualquer lugar que se vá, sempre vemos alguém pigarrear e, tchan!, cuspir no chão. O curioso é que os cuspidores não estão nem aí com a presença de testemunhas. Já presenciei sujeito abraçado à namorada virar a cabeça e, zás, cusparada no chão. Ela deve ter achado tão romântico... Mas, o pior é o cuspe a distância. O sujeito sequer observa se alguém está passando e puf! Lá vai o jato de cuspe meio metro à frente! Os passantes que se desviem do “atleta” (afinal, cuspe a distância é um esporte nacional). E que não se pense que cuspideira é questão de classe social. Vá em eventos sociais de “gente chique”, com “partidóns” e endinheirados... no estacionamento ou antes de entrar é a mesma cusparada. Deve ser, realmente, algo no metabolismo do brasileiro. Este escrevinhador já andou nas ruas de cidades como Londres, Paris e Lisboa e não viu ninguém cuspindo na rua. O europeu não junta saliva na boca? Não tem vontade/necessidade de cuspir? Não sei. O fato é que lá, no chamado Primeiro Mundo, não se cospe em público. Há quem diga que a questão é simples, sinal de falta de educação. Neste caso, somos uma nação de mal-educados incorrigíveis. Tanto que, em outro texto, já externei minha revolta em freqüentar banheiros químicos em eventos festivos realizados em Natal. Poucas horas após instalados, eles – pelo menos os masculinos – se tornam um amálgama de fezes, urina e papéis colocados estrategicamente para entupir o escoamento. Amigos garantem que trata-se de uma questão de Educação, um retrato do (baixo) nível do ensino nacional (seja público ou privado). Outros garantem que este tipo de educação começa em casa. Este escrevinhador não sabe e confessa já estar cansado de pensar sobre o tema. E, preciso pedir licença para cuspir. Na pia do banheiro do trabalho. Afinal, mesmo com um cesto de lixo a centímetros no meu pé direito, não preciso obrigar os colegas de redação a testemunharem minhas secreções. Com licença, e até a próxima.

PS: A foto que ilustra este post mostra o escritor marginal americano Charles Bukowski, mestre em produzir contos sobre excreções. Se não leu nada dele, sugiro começar pelos sensacionais "Crônica do amor louco" e "Mulheres".

20 Maio 2009

A vida é doce


Cefas Carvalho

Comprou uma bala para a noiva. Era pródigo em presentes para Cândida. Desde o início do namoro, a mimava com bombons, chocolates recheados, trufas... Ela adorava profiteroles. Ele a levava para bomboniéres e cafés finos, onde se fartavam com guloseimas. Com a amada, a vida era doce. Estava apaixonado por ela, queria casar, ter filhos. Ela concordava, mas nunca com muito ânimo. Ele achava que era uma questão de tempo, e continuou a fartá-la com doces, biscoitos. Até que recebeu um envelope anônimo contendo fotos de Cândida aos beijos e abraços com um homem. A foto era recente, não havia dúvida. Ela usava um vestido que ela havia lhe dado semanas antes. Chegou sorrindo ao apartamento da noiva. Ela também o recebeu sorrindo. Ele anunciou que tinha um presente para ela. Quero agora, pediu Cândida. Ele o deu. Uma bala certeira bem no meio da testa.

11 Maio 2009

O rio


Cefas Carvalho

(Baseado em história relatada por Victor Hugo Zamora)

Um rio há adormecido em cada infância,
rio seco ou de enchente, intempestivo
rio que não cresceu
(Zila Mamede
)

As nuvens anunciavam chuva, mas isso em nada abalava a felicidade do menino, que, de mão dada ao pai, chegava à margem do rio. Esperava o sol, mas, a verdade era que, estando ao lado do pai em um passeio como aquele, poderia desabar uma tempestade que não teria importância. Talvez seja até mais divertido se chover, pensou. Mas foi o sol quem deu as caras quando, enfim, chegaram à beira do rio.
Aos dez anos de idade, começava a descobrir o mundo. Pelo menos o mundo de verdade, não aquele de contos de fadas em que a mãe o trancafiava na mansão onde moravam. Começava a sentir-se um rapaz. Vontade de usar calças compridas. Uma colega de classe - Amélia – o olhava de forma estranha e pedia para lhe ensinar equações matemáticas...
Mas, nada em sua vida se comparava a um convite do pai para um passeio. Sentia o coração bater mais rápido quando o pai, com a voz grave, coçava barba e bigode e propunha saírem para algum lugar. Corria para o quarto, colocava um calção, uma camiseta branca, as sandálias de couro e se postava na porta de casa, à espera da figura grande e pesada que vestia o casaco, beijava a esposa – sua mãe – e oferecia a mão pesada para iniciarem o passeio.
Amava o pai. Mais que isso, o admirava, tanto pela sua proximidade como pela sua distância. O pai era escritor, militante cultural. Ensinava filosofia em diversas universidades, viajava muito, dando palestras. O filho sofria com os muitos dias de ausência do pai, mas ardia de orgulho em ver os livros com o nome do pai na lombada.
Naquela manhã de domingo, não havia mais distância. Apenas o sol perfeito, moderado, e o rio à frente dos dois. Sacaram do protetor as varas de pescar e após terem fixado os insetos mortos – coletados na véspera – nos anzóis, se posicionaram à beira de uma imensa árvore para esperar os peixes. Conversaram. O pai falava muito durante os passeios. Sobre tudo, sobre o céu e terra, sobre deus (ou a inexistência dele) e sobre os dinossauros (igualmente inexistentes, pelo menos na atualidade).
Contudo, naquela manhã o pai se mostrava mais silencioso, lacônico até. Certo, estava acostumado aos silêncios dele, do seu olhar distante, como se estivesse mentalmente escrevendo um livro ou formulando no espírito uma nova teoria filosófica. Mas, dificilmente o pai mantinha tanto silêncio durante um passeio. Por fim, pescaram um peixe, como sempre, no anzol do pai, como se os peixes adivinhassem... celebraram o feito e, como sempre faziam, o menino media com uma fita métrica, o tamanho do pescado. Vamos colocá-lo no cesto e levá-lo para a mãe?, perguntou o menino. Não. Este, vamos devolvê-lo ao rio, afirmou pesadamente o pai, atirando o peixe à água.
Resolveram mudar de posição e foram para outro lado do rio, de águas mais profundas e quentes. Antes disso, comeram sanduíches de frango e beberam suco de uva. O pai continuava estranhamente silencioso, embora perguntasse de quando em quando sobre seu desempenho na escola e suas leituras.
Uma leve chuva caiu, pintando o rio de borbulhas e atiçando os peixes, que fugiam dos anzóis. Quando a chuva se foi e o sol lentamente voltou, o pai propôs deixarem as varas de pesca à margem e entrar mais um pouco na água morna. Entraram no rio até a altura dos joelhos, e o menino podia sentir os peixes miúdos passando por entre suas pernas. O menino, olhava encantado para o horizonte e o pai, por trás dele, colocou a mão carinhosa e pesada em seu ombro.
- Meu filho, quando eu tinha a sua idade, pensava que o mundo era belo e grande. Sonhava em viajar, em conhecer pessoas e lugares, em aproveitar a vida. Não posso dizer que não fiz nada disso, mas, descobri que o mundo é o contrário do que eu pensava. O mundo é um lugar feio e sujo, meu filho. Sim, não faça esta cara. O mundo é governado por pessoas sem caráter, e são justamente elas que fazem as leis, que julgam as pessoas e que tem o poder de prender e soltar. O mundo é injusto, meu filho, não importa o que você faça, outras pessoas terão mais vantagens que você por relações familiares, de poder ou ainda mais espúrias. Sei que você não está entendendo muito do que digo, filho querido, mas, saiba que é verdade: este mundo não presta. Você pode passar uma vida lendo, obtendo conhecimentos, lutado para ser um humano em essência, mas de que vale isso em um mundo onde o ter vale mais que o ser. As pessoas te julgarão, como me julgam, pelo que tenho e pelo que conquistei de material. Sou um bom professor? Sou um homem inteligente? Talvez, mas só me aceitam em sociedade porque temos uma bela casa, porque temos um carro com motorista. A vida é assim, meu filho... isso porque ainda nem falei das infidelidades, das traições, das culpas, das omissões, dos interesses, das ganâncias, da estupidez, da sede de sangue que marca do gênero humano, da rede de intrigas e mentiras que rege este mundo... sim, meu filho, por que viver em um mundo como este? Que pai que ama o filho pode deixar que ele viva em um mundo como este? Um pai amoroso pode deixar que um filho querido enfrente tanta maldade, tanta dor?... É por esta razão que faço isso, meu filho, por amor demais a você, amor demais...
O menino parou de se debater e sua cabeça pendeu de vez. O pai pegou o corpo do menino no colo e, saindo da água, repousou-o na terra úmida perto de uma árvore. Sabia que tinha feito a coisa certa. Guardou as varas de pesca e olhou para o rio, tristemente.

05 Maio 2009

A ressurreição do mestre Coppola




Cefas Carvalho

Há tempos, vinha lendo nos blogs e sites especializados sobre o novo filme de Francis Ford Coppola, “Tetro”, que em breve chegará aos cinemas. Eis que dando uma espiada no blog Bazar, do amigo Alex de Souza, jornalista bom pra danado, deparo com o trailler do novo Coppola que o cidadão botou no seu blog. Após os dois minutos de cenas em p&b, cenografia caprichada, um clima nostálgico e as presenças de gente como o esquisito Vincent Gallo e a musa Maribel Verdu, fui tomado pela emoção. Será a ressurreição do velho Coppola? Sim, porque quando o vírus da cinefilia se apossou de mim nos anos 80, o homem era um mito. Havia feito “O poderoso chefão 1 e 2” (na época não havia o 3, que é de 1990) e “Apocalypse now”, filme que arrebatou minh´alma e, presumo eu, toda uma geração de cinéfilos. Ainda realizou uma obra como “A conversação”, filme denso e misterioso. Fez filmes de baixo orçamento que amo até hoje, como “Rumble fish” e “Outsiders”, além do lindo e pouco visto “No fundo do coração”. Mas aí veio a decadência: o irregular “Jardins de pedra”, o mediano “Cotton club” e o sofrível “Jack”. Certo, mesmo decadente, o homem realizou “Dracula de Bram Stoker”, um das coisas mais sensacionais que assisti numa sala de cinema, mas também cometeu um clipe imenso - e chato- para Michael Jackson. O horror, o horror... Mas eis que com “Tetro”, que conta a história de um rapaz que viaja para Buenos Aires para resgatar a história de sua família e a própria história, o Coppola dos velhos tempos pode renascer. Se até Mickey Rourke – deformado e ex-alcóolatra – tal qual fênix ressurgiu das cinzas com “O lutador”, porque não o bom e velho Coppola. Que os deuses do cinema abençoem a nova obra do velho mestre, que chega aos setenta anos.

13 Abril 2009

Semana Santa



Cefas Carvalho


Sexta-feira da Paixão


Cristo morreu pelos meus pecados. É o que dizem. Sempre detestei esta afirmação, como detesto qualquer coisa que tenha a ver com o não-visível. Não quero que ninguém morra pelos meus pecados. Dos meus pecados cuido eu. E meu pecado maior naquela sexta-feira maldita foi ter deixado Clarissa ir embora. Ou será que eu quem a mandei embora? Talvez as duas coisas. Só recordo que a vi jogando algumas roupas na mochila velha e sair de casa batendo ruidosamente a porta. Ainda pensei em correr atrás dela, mas desisti. Fiquei em casa ouvindo CDs de blues e olhando com cara de idiota para o bacalhau dessalgado em cima da pia. Iríamos fazer um bacalhau a Gomes de Sá. Clarissa não comia carne nos dias da semana santa. Para mim isso era uma besteira, eu teria adorado preparar uma picanha mal passada naquela noite, mas a paixão por Clarissa me fazia respeitar suas opiniões, pelo menos algumas delas.
Pensei que Clarissa voltaria, mas, me enganei. Tomei alguns tranqulizantes para poder dormir, com o coração pesado de tristeza e paixão.

Sábado de Aleluia


Aleluia! Clarissa telefonou. Não falou praticamente nada, balbuciou meia dúvida de palavras. Mas, telefonou. Disse que estava tudo terminado e que na semana seguinte pegaria suas coisas no apartamento. Pensei em implorar para que voltasse, em sugerir que conversássemos, mas nada falei. Escutei o que ela falou até que pareceu que ela fosse chorar e ela então desligou o celular.
Resolvi ir uma igreja católica. Claro, desprezava o catolicismo, como a todas as demais religiões, mas senti vontade de ver os fiéis louvando a um ser superior. Contudo, quando estacionava o carro próximo a uma igreja, mudei de idéia repentinamente e decidi beber algo na praia. Olhar o mar costumava me acalmar. Bebi demais, contudo, e voltei para casa totalmente bêbado, arriscando bater o carro ou ser pego pela polícia dirigindo embriagado. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Talvez fosse melhor se eu tivesse morrido.

Domingo de Páscoa


Acordei de ressaca. Bebi quase um litro de água e tive de ver na geladeira os ovos de chocolate que Clarissa havia comprado para a gente. Estávamos juntos havia três anos e todo domingo de Páscoa ela me dava um ovo de chocolate. Como sabia que eu não compraria um para ela, tratava de se presentear com um ovo, quase sempre de chocolate branco. Joguei os dois ovos fora. Também atirei o bacalhau na lata de lixo. Em seguida, vomitei e, me sentindo menos enjoado, decidi recomeçar minha vida. Tomei um bom banho, recorri a um analgésico potente e me resolvi a sair da cidade. Joguei em uma mochila algumas roupas, laptop, escova de dentes e alguns livros. Iria para uma pousada litorânea para pensar na vida nova que teria de levar.
Estava abrindo a porta do carro quando o celular tocou. Clarissa, com voz lacrimosa, disse que queria conversar e retomar nosso casamento. Pediu desculpas e exigiu que eu as pedisse. Perguntou se eu não queria encontrá-la em um bar-restaurante onde costumávamos ir. Concordei. Subi ao apartamento para deixar a mochila e rumei para o supermercado mais próximo, para comprar dois ovos de chocolate...

31 Março 2009

Homem que é homem mata pela honra



Cefas Carvalho

O sol castiga sem dó nem piedade minha carne durante esta jornada maldita que eu faço. De Santo Antão para Cruzeiro do Norte são três léguas, como bem sabe todo sertanejo que mora por estas bandas. De cavalo, a trote lento, dá coisa de uma hora de viagem. Tempo mais que suficiente para pensar. No bem e no mal. Quanto a mim, pois nesta vida que Deus me deu só posso responder por mim, só pensava no mal. Não poderia ser diferente, depois do que Tonha me fez. E do que Lázaro me fez também, verdade seja dita. Que o Cão leve os dois. Mas, entre o sim e o não, decidi não esperar nem o Cão nem Deus – amém – fazer justiça. Vou fazer justiça eu mesmo. Pois homem que é homem mata ou morre pela honra, como dizia meu pai, que foi morto por dois policiais em tocaia por causa de uma briga de bar. Perdeu a vida, mas não a honra. Homem é assim, e Tonha sabia que estava com um homem quando começou a namorar comigo naquela quermesse de São João, há uns dois anos. Ou três, não lembro. Quem lembra estas coisas de data é mulher. O que sei é que Tonha vai pagar com a vida o que fez comigo. Com homem, ainda mais sertanejo e filho de Chico Bebé, cabra macho morto na traição por polícia, como relatei, não se brinca. Muito menos um sujeito frouxo como Lázaro, que com aqueles óculos enormes na cara e aquele cabelo abestado repartido ao meio, nunca bebeu uma cana com a gente no bar de Biduca e nem vai com a macharada para a casa de Francisquinha, para o chamego com as meninas. Lázaro talvez nem homem macho seja, como diz Zé Amorim. Mas, me disseram que ele, há muito tempo, já se chegou em Tonha. Ela é que não quis. Não consigo tirar da cabeça o que o sarnento do Lázaro disse sobre minha Tonha. O que foi que ele disse mesmo? O difícil do lembrar é porque eu tinha bebido umas canas lá em Biduca. Mas, sei que Lázaro disse alguma coisa sobre minha Tonha. Que eu tinha que cuidar dela. Por que eu tinha que cuidar dela? O que ela estava fazendo para que eu cuidasse mais? Lázaro disse mais uma ruma de coisas, mas eu não lembro. Só recordo que não gostei e que saí de Biduca disposto a fazer justiça com minhas mãos. Com sangue. Repito: o sol me castiga e me faz suar feito um porco, mas não descanso nesta jornada rumo à casa de Tonha. Ela vai pagar pelo que me fez. Nem sei direito o que ela me fez, mas Lázaro disse. O que aquele excomungado havia dito? O ruim de beber cana e conversar é isso, que depois a gente não lembra direito o que os cabras falaram. E diziam que Lázaro nem macho é. Não sei e nem sei que quero saber. Só sei que nesta vida a honra vale mais que a vida. Lázaro vai pagar também. Ele e Tonha vão pagar pelo que fizeram a um cabra macho de verdade. Lázaro disse alguma coisa sobre Tonha precisar de mais atenção. Quem é aquele diabo para saber do que minha Tonha precisa ou não? Não sei porque não sangrei aquele afrescalhado na hora. Acho que levantei, dei boa noite e saí do bar de Biduca. Como bebi muito não lembro de tudo, mas penso que foi assim. E depois acordei na rede, na casa de mainha, com vontade de botar tudo para fora. Foi quando decidi ir a Cruzeiro do Norte para justiçar Tonha. Minha Tonha, de cabelos pretos feito a asa da graúna e pele cor de melaço de cana. Eu devia ter sangrado Lázaro. Homem que é homem mata pela honra. Chego, então a Cruzeiro do Norte, apeio do cavalo e passo no bar de seu Noronha. Ele oferece uma cana, mas eu peço só água bem gelada. Que eu tenho de ter com Tonha e quero estar bom para fazer o que tem de ser feito. Bebo a água, chupo umas siriguelas, vomito um pouco no banheiro e tomo o caminho da casa onde Tonha mora com os pais. Bato na porta. Dona Mariinha atende e sorri para mim, gritando Tonha, Tonha, seu noivo está aqui! Percebo que esqueci minha peixeira em Santo Antão. Esqueci também o que Lázaro disse de Tonha. Uns dizem que ele nem é macho. Tonha vem até a sala, com seu sorriso luminoso feito vaga lume, eu sorrio, pois não tem como não se abrir em riso vendo uma coisa mimosa e linda daquelas, e eu abro os braços para aconchegar minha Tonha em meu peito.

27 Março 2009

O mundo é grande



Cefas Carvalho



Era necessário acreditar nela – na amada – como em um deus. Munido de fé, e sem qualquer evidência de que esta fé tornaria sua vida melhor ou mais feliz. Na verdade, sempre fora assim, desde os primórdios da relação, quando ela entrou em sua vida e ele permitiu que a amada – com sua beleza, sua paixão e sua fome de viver – lhe guiasse a vida como quem cede o leme de um navio em meio a uma tempestade.
Contudo, como todo cristão-novo, como todo convertido após certo tempo sem milagres, ansiava por provas, por sinais. Sabia que não conseguiria mais acreditar nela – e nem na relação – sem evidências, ainda que fossem tênues como pistas de um crime quase perfeito. Mas, necessitava de material palpável para trabalhar. Cansara dos êxtases, das orações, das promessas de fé que não se transubstanciavam em pão e vinho.
Acordaram conversar em um restaurante discreto próximo a praia, onde já haviam trocado juras de amor eterno e também destilado ódio um pelo outro. Ele chegou primeiro, pontual que era, o que lhe deu tempo para rabiscar pensamentos em um guardanapo de papel. Estava convicto do que queria – o fim da relação – mas conhecia a si mesmo, ou passara a conhecer naqueles últimos três anos, para saber que bastaria a amada caminhar pelo corredor do restaurante em sua direção, para sua alma estremecer e ele não saber mais o que desejava da vida.
Era justamente esse o problema. Acreditava na amada como quem acredita em um deus – com fé, e somente – e amava aquela mulher como a um ídolo sagrado. A imagem dela o hipnotizava, sentia-se um seguidor de seus rituais, da seita que era inventara unicamente para os dois... contudo, sabia que era impossível viver assim. Mesmo os fiéis mais fanáticos, enfurnam-se na igreja, oram de joelhos, mas depois se recolhem ao cotidiano, dormir, comer, criar os filhos, colocar a comida do cachorro...
Sabia – com a consciência dos que já passaram pela roda da tortura – que quando a amada chegasse, as palavras duras morreriam ainda em sua garganta e que o perfume dela dissolveria no ar todo o fel que destilara. Terminariam a noite entre lençóis, envolvidos em batalhas de carne, e ela juraria amor eterno, para recomeçarem, então, o circulo de agonia e êxtase que viviam.
Olhou, pela janela do restaurante, para o céu lá fora, de um azul quase absurdo e cheio de nuvens, e suspirou, imaginando como o mundo era grande. Não com ela. Ao lado da amada o mundo era só os dois, como convém aos amores loucos e às paixões suicidas. Queria a paixão, queria o amor, mas também queria o mundo real, grande, difuso, incerto...
Pagou a água mineral, desligou o celular e saiu do restaurante, rumo ao mundo, que era grande e que estava à sua espera...

23 Março 2009

A Biblia deveria ser proibida para menores


Cefas Carvalho

Faz algum tempo, escrevi crônica sobre as diferenças cerebrais entre homens e mulheres, fazendo uma analogia bem humorada entre humanos e primatas. Recebi críticas de um cidadão registrando que não existem comparações entre humanos – filhos de deus, disse ele – e animais irracionais. E recomendou que eu lesse a Bíblia. Dias depois, ao ler uma crônica erótica de minha autoria e saber que eu lancei uma plaquete intitulada “Sonetos eróticos e/ou pornográficos” uma amiga lamentou que eu gastasse tempo e energia louvando a devassidão e também recomendou que eu lesse mais a Bíblia.
Bem, resolvi seguir o conselho dos críticos. Não que eu não tivesse lido a Bíblia. Já a devorei de cabo a rabo por duas vezes (pulando os livros técnicos como Números, Deuteronômio), cada uma com um espírito diferente: na primeira vez, ainda crente na existência de um ser superior, li para ratificar essa certeza. Na segunda, já desconfiado que tal idéia poderia ser tão irreal como Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, ETs e Smurfs, li com olhos mais críticos, pinçando contradições e absurdos. Decidi nesta terceira lida, algo superficial e sem rigor cronológico, atentar para o pitoresco, o insólito, ou para ser mais grosseiro e exato, para a parte barra-pesada do livro sagrado do cristianismo.
Ou o leitor ainda acha que a Bíblia tem apenas ensinamentos edificantes e parábolas de Jesus? O livro está coalhado de episódios que nada ficam a dever ao Decamerão, de Boccaccio ou aos romances picantes de Fielding e Cleveland. Vamos, pois, aos trechos da Bíblia que poderiam – sob uma ótica moralista bem afeita aos cristãos – ser proibidos para menores de 18 anos. E que o leitor nem imagine Maria Madalena aqui. Ela é light para o padrão do Antigo Testamento.
Há alcoolismo: “Bebendo do vinho (Noé) embriagou-se e se pôs nu dentro de sua tenda” (Gênesis 9, 21). Há coito interrompido: “Sabia Onã que o filho não teria tido por seu e todas as vezes que possuía a mulher do seu irmão, deixava o sêmen cair na terra para não dar descendência a seu irmão” (Gênesis).
Bizarrices sexuais temos aos montes; adultério, incesto, ninfomania, satiríase, estupro etc. Quando Ló fugiu de Sodoma e Gomorra com as filhas para uma caverna, elas concluíram que não havia nenhum homem naquela terra com quem se unirem e continuarem a linhagem do pai. Decidiram digamos, deitar com o próprio pai para conservar sua descendência. Primeiro uma o embriagou com vinho e deitou-se com ele e na noite seguinte a irmã fez o mesmo. “E assim as duas filhas de Ló conceberam do próprio pai” (Gênesis 19, 30-35).
Mas, poucas histórias são tão insólitas (e lascivas) como a de Jacó, filho renegado de Isaac, que trabalhando com seu tio Labão resolveu casar-se com a prima Raquel, a quem amava. Contudo, na noite de núpcias, Labão entregou a Jacó não Raquel, mas sua outra filha, Lia. Jacó só percebeu a “pequena” diferença do dia seguinte, quando o casamento estava consumado. Labão concordou em também lhe entregar Raquel por esposa em troca de mais sete anos de trabalho. Assim foi feito e Jacó casou com a amada Raquel. Acontece que Raquel não engravidava, e Lia sim, de forma que Raquel deu sua escrava Bila para Jacó coabitar e ter um filho como se de Raquel. Mas, quando Lia pára de engravidar, recorre ao mesmo expediente e entrega sua escrava Zilpa para Jacó. Em suma: em uma década, Jacó teve 12 filhos com quatro mulheres diferentes e na mais perfeita harmonia (Gênesis caps 29 e 30).
Outro manancial de histórias eróticas e a do rei Davi e de seu filho Salomão. Que Davi era uma predador sexual parece evidente, tanto que apesar de já casado com Mical e Abigail, “tomou Davi mais concubinas e mulheres de Jerusalém, depois que veio de Hebron e nasceram mais filhos e filhas” (2º Samuel 5,13).
A epopéia erótica mais conhecida de Davi foi quando à noite, passeando pelo terraço do palácio, viu uma mulher tomando banho nua em outro terraço. Era Bate-Seba (Betesabá). Davi ordenou que a levassem ao palácio e a possui naquela mesma noite. Ela engravidou. O problema é que era casada com um bom soldado, Urias. Como solução para o problema, Davi mandou chamar Urias da guerra para que dormisse com a mulher e o filho passasse como do marido. Urias, em fidelidade à pátria e aos soldados que estava na batalha, recusou dormir com Bate-seba. Davi encontrou solução mais prática para o problema: manbdou Urias para a frente de batalha para deixar que fosse morto. Urias morreu em combate e Davi casou com a viúva (2º Samuel 11).
Antes de Salomão chegar ao poder, o filho rebelde de Davi, Absalão, proporcionou outra história picante: “Armaram para Abasalão uma tenda no eirado e ali, à vista de todo Israel, ele coabitou com as concubinas de seu pai” (2º Samuel 16,22). Cena de filme pornô...
Mas, vamos a Salomão, que no quesito se cercar de mulheres, dava de capote nos milionários e playboys de hoje. Diz 1º Reis, capítulo 11: “Ora, além da filha de faraó, amou Salomão muitas mulheres estrangeiras; moabitas, amonitas, edonitas, sidônias e hetéias. A estas, se apegou Salomão pelo amor. Tinha setecentas mulheres, princesas e trezentas concubinas...”
Mesmo com tanto tempo dedicado a mulheres ainda lhe sobravam algum para reinar e também para escrever. Foi Salomão o autor dos Salmos e do Eclesiastes, talvez os mais belos livros bíblicos. Ele também escreveu os “Cantares”, poema erótico encravado no meio da Bíblia. “Beija-me com os beijos de tua boca que melhor é teu amor do que o vinho”. “Leva-me à sala do banquete e o teu estandarte sobre mim é o amor”. “Já despi a minha túnica, hei de vesti-la outra vez?” e por aí vai.
Ah, e para finalizar este texto, uma curiosidade algo GLS, bem à moda do revisionismo feito pelos grupos gays (que sustentam que Zumbi e Shakespeare eram gays. Talvez o fossem, mas ter certeza, quem há de?). A relação do rei Davi, ainda guerreiro com Jônatas, filho do então rei Saul, era curiosa. Trechos suspeitos: “Acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1º Samuel 18, 1). “Jônatas fez jurar a Davi de novo pelo amor que este lhe tinha, porque Jônatas o amava com todo o amor da sua alma” (1º Samuel 20, 17). Quando Jônatas morreu, Davi se lamentou assim: “Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas, tu era amabilíssimo para comigo, excepcional era teu amor, ultrapassando o amor de mulheres” (2º Samuel 1, 26). "Brokeback mountain" perde para isso. Pensando bem, vou a ler a Biblia com mais assiduidade, como querem os críticos citados no primeiro parágrafo.

02 Março 2009

O carnaval da minha dor


Cefas Carvalho

O carnaval da minha dor começou em uma sexta-feira ensolarada como têm início os carnavais - sejam dolorosos ou não - em um ano qualquer e em uma cidade igualmente qualquer (o carnaval é igual em qualquer cidade quando o objetivo é sofrer, e não se alegrar. parafraseando Tolstói, todos os carnavais infelizes se parecem, os carnavais alegres é que são diferentes...)
Mas, voltemos à minha dor... toda ela gerada pela Colombina, posto que eu era, novamente, o Pierrô. Há quantos carnavais vivíamos esta história insana, excitante, mal contada?... Havia uma década, suponho. Eu não sabia nada sobre ela, apenas seu nome - Miriam - que ela revelou por um deslize enquanto fazíamos amor embaixo do palco das autoridades que assistiam ao desfile das escolas de samba na cidade de... deixemos para lá. E chamemos minha amada de Colombina, que é como sempre a chamei e como ela gosta de ser chamada (isso a excita, presumo).
O fato era que o que havia começado como uma fantasia (em todos os sentidos) passara a ser –pelo menos para mim – uma obsessão. Primeiro nos conhecemos, entre o confete, a serpentina, o álcool e o loló, como todos se conhecem durante a folia, entre a superficialidade e o desejo... depois o beijo, o desencontro e por fim o reencontro na noite de terça-feira e terminar a noite – e aquele carnaval – entre lençóis no meu quarto de hotel. Trocamos telefone, mas, para quê? Jamais nos telefonamos. A não ser na véspera do carnaval do ano seguinte, quando ela avisou que novamente se fantasiaria de Colombina e que queria me ver outra vez de Pierrô. Passamos o carnaval entre encontros e desencontros, ela com Arlequins, eu com Odaliscas... tentei brigar, mas ela só queria se divertir. Jurei que no carnaval seguinte não passaria mais por aquilo. Tolice. Uma semana antes da festa momesca, a Colombina me ligou dizendo em que cidade passaria o carnaval lá fui eu atrás dela, rumo a prazeres carnais rápidos e uma dose considerável de sofrimento. Identifiquei-me com a música... "Um pierrô apaixonado, que vivia só chorando, por causa de uma colombina acabou chorando, acabou chorando...” (Pierrô Apaixonado, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres)
Lá pelo quatro ou quinto carnaval que passávamos da mesma maneira, encontrando e desencontrando entre ladeiras, becos e multidões, tomei coragem e a pedi em casamento. Ela riu, argumentando que eu sequer a conhecia e continuou sua caminhada de Colombina desvairada, à procura de outras bocas, outros braços, outros pierrôs... Mas, na quarta-feira de cinzas lá estava ela em meus braços... E eu tentando fazer com que nos víssemos em outro período que não no carnaval. Inútil. “Eu gosto das coisas assim...”, enfatizou, despindo suas roupas de Colombina. Enquanto ela pegava um táxi rumo ao aeroporto (já morávamos em cidades diferentes) "O pierrô apaixonado chora pelo amor da colombina..." (Pierrot, de Marcelo Camelo, da banda Los Hermanos).
Passam os meses e fevereiro se aproximou, como sempre, trazendo consigo o Carnaval. Não telefonei para a Colombina e tampouco ela me ligou. Fiquei em minha cidade, e vesti-me de Pierrô – pela última vez – para pular sozinho meu carnaval. Eis que então que, entre lágrimas e cerveja, vi a Colombina – sim, só podia ser ela, era seu andar, seu jeito de mover os braços, de balançar os cabelos, de rir ao vento... - aos beijos com um Arlequim. Olhei fixamente para ela. Ela me viu e não esboçou qualquer reação. Era uma Colombina, mas, seria a minha Colombina? Que importava? Que mais havia a fazer? Comprei outra latinha de Skol e me entreguei à multidão que entoava uma marchinha qualquer, que aos meus ouvidos soava como a marcha fúnebre: eu estava condenado a ficar apaixonado pela imagem (literal e simbólica) da Colombina até o fim dos carnavais, ainda que toda Colombina que cruzasse meu infeliz caminho não fosse a minha... “Quanto riso, ó, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão... O pierrô está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão...”

18 Fevereiro 2009

A fonte dos desejos


Cefas Carvalho

Oscilando entre a incredulidade e a fé, ele chegou, após longa e tortuosa caminhada, à fonte dos desejos. Passara anos ouvindo falar da fonte milagrosa ao pé da montanha sagrada de M., da cidade igualmente mística de S. Homens enriqueceram após uma visita à fonte e molharem o rosto com sua água cristalina. Outros obtiveram sucesso profissional. Mulheres estéreis tiveram filhos. Dizem que um cego retomou a visão; um surdo ganhava a voz. Claro, como em toda questão de fé, não se tinha certeza em nada. Acreditar era tudo.
Suando, apesar do frio que fazia, entrou na fila para se molhar com a água sagrada. Chegada a sua vez, olhou para a pequena fonte circular, como um poço, e contemplou a água esverdeada que – diziam – obrava milagres. Com a mão em concha, apanhou uma porção d´água e molhou o rosto lentamente, como se fazendo uma oração. Fez o seu pedido.
Terminado o ritual, afastou-se da fonte, dando espaço para outros romeiros e caminhou a esmo, contemplando a beleza da montanha. Havia de esperar que seu desejo fosse realizado. Não sabia quando. Talvez a fonte não passasse de uma lenda, de mais uma ilusão dos crentes em algo além do visível.
Retornou a pousada e comeu um sanduíche de frango com cerveja. Voltaria para casa no dia seguinte e decidiu passar o restante da tarde caminhando pelos morros em volta da montanha.
Olhando o céu, de um azul desbotado, andou por uma trilha adornada por pedras cor de rosa, escorregadias. Subitamente, ao observar com atenção uma nuvem amarelada, escorregou em um punhado de folhas úmidas e despencou morro abaixo, caindo pesadamente em um emaranhado de raízes pontudas. A dor foi quem o avisou que uma delas transpassara sua carne - na altura do estômago – de um lado para outro. Cuspindo sangue e com a respiração ofegante, percebeu que estava morrendo, que não viveria mais sequer dez minutos e ardeu em felicidade em saber que seu desejo fora atendido: que alegria, vou morrer!, pensou. Desde tenra idade, queria morrer. Pensara em suicídio – lâmina nos pulsos, cabeça no forno, arma de fogo – mas a covardia era mais forte que a vontade de morrer. Queria um acidente, um acaso. Soube da fonte dos desejos e resolveu recorrer à sua suposta magia. Sorriu em sangue e morreu tranquilamente, lembrando da água esverdeada da fonte dos desejos.

11 Fevereiro 2009

De aberrações e de (verdadeiros) monstros




Cefas Carvalho

Todo cinéfilo tem uma gama de filmes que se tornam míticos de tanto que os tentamos assistir, que os procuramos, que tentamos baixá-los na internet, algumas vezes sem êxito. Na banca 7º Arte, no camelódromo do centro de Natal, encontrei totalmente por acaso um destes filmes: “Freaks”, o clássico de Tod Browning que nestas plagas tropicais ganhou o nome de “Monstros”. Nada mais errôneo. “Freaks” é um termo da língua inglesa que pode ser traduzido como “aberrações” e se refere principalmente a pessoas que são diferentes do que se chama “normal”: anões, malformados geneticamente etc. Existe inclusive uma ciência que estuda as deformações, a teratologia. Confesso que tenho um fascino por isso, e desde a adolescência coleciono informações e fotos de “freaks” (Não por acaso, “O homem elefante”, de David Lynch, foi desde os quinze anos um dos meus filmes preferidos. E Lynch é fascinado por teratologia). Bem, vamos ao filme: a trama é simples ao extremo e serve de mero pretexto para o diretor expor suas aberrações humanas na tela. Sim, os “freaks” do filme são reais. Nada de maquiagem ou efeitos especiais. O filme é de 1932, não nos esqueçamos. Não havia noções de politicamente correto no mundo e os circos com aberrações humanas eram sucesso e aceitáveis socialmente. Portanto, os “astros” do filme são anões, mulheres com microcefalia e “freaks” que fizeram história como Johnny Eck, o “homem torso”, cujo corpo terminava abaixo do umbigo; Olga, a famosa mulher barbada; e Raduan, o “homem verme”, que não tinha braços e pernas, mas ainda assim se locomovia, acendia sozinho seu cigarro (cena mostrada no filme), falava três línguas, se casou e teve filhos. Com este “elenco” recrutado nos circos, Browning fez seu filme na qual em um circo itinerante, uma ambiciosa trapezista se casa com um anão para herdar a fortuna dele e isso provoca problemas que levarão a um fim trágico. O filme foi combatido, proibido, cortado e posteriormente tido como preconceituoso e arcaico, posto que Browning teria feito o mesmo que os donos de circo: exposto os freaks como meras atrações para lidar com a morbidez e curiosidade dos espectadores. Mas, há quem discorde. Todos eles são tratados com carinho pelo roteiro e pela direção, e no frigir dos ovos o filme gera efeito similar ao causado por “O homem elefante”. Passada a estranheza inicial (inevitável, claro) nos sentimos à vontade com os freaks e logo percebemos que os monstros reais do filme são os “normais” Cleópatra (a trapezista) e o amante dela, o mau caráter Hércules. Assim como no filme de Lynch, o monstro do filme não é John Merrick, o homem elefante, mas sim o dono do circo que o explora e o agride. Na minha modesta opinião, “Freaks” acaba sendo um libelo contra o preconceito. Até mesmo na cena final, na vingança contra Cleópatra, os “freaks” são mostrados com dignidade, como gente que pode se defender e responder aos insultos e mau tratamento. Gosto de filmes que questionem os padrões pré-estabelecidos da sociedade, como o da beleza estética. Passada uma hora de filme você terá asco pela bela, alta e loira Cleopatra e terá vontade de bater papo com a anãzinha Frieda, com sua dignidade e tolerância. E perceberá que o “homem pela metade” Johnny Eck é mais alegre, educado e bom de se conviver que os outros “homens normais” do circo. Duvida? Assista o filme.

04 Fevereiro 2009

Fome



Cefas Carvalho

Matei meu pai. Comi carne humana.
Tremo de tanta felicidade.
(Pasolini em Pocilga)


Acordou com uma fome mitológica. Com os olhos ainda enevoados de sono, sem preocupações inúteis com um banho ou higiene bucal, abriu a geladeira e pegou uma caixa de leite integral, um melão e preparou um sanduíche de presunto. Arrumou-se rapidamente para não chegar atrasado ao trabalho e, sem esquecer de pegar uma maçã para comer enquanto descia as escadas, começou a fazer telefonemas pelo celular.
O escritório de publicidade onde trabalhava ficava a um quarteirão de onde morava, costumando demorar o tempo de uma caminhada de dez minutos para ir de um a outro. Contudo, naquela manhã cinzenta percebeu, ainda no meio do caminho, que continuava com fome. Deteve-se em uma padaria, comprou um pastel de queijo e sentiu o prazer de comer enquanto andava. Chegou à agência, limpando os restos da comida na barba e na gola da camisa.
Tentou afundar no trabalho, como sempre fazia, mergulhando em textos, imagens e conceitos, mas, em dado momento percebeu que uma estranha fome parecia roer seu estômago. Na copa da agência, tomou um café com bolachas cream cracker, mas constatou que este lanche só fizera a fome aumentar. Sentindo dores no estômago e fraqueza nos ossos, esperou pacientemente chegar a hora do almoço, quando desvencilhou-se nos companheiros de trabalho e se refugiou em um restaurante barato.
Fez um prato incomum – para seus padrões alimentares - com bife, arroz, feijão, macarrão, farofa e salada. Terminando o almoço, pediu um pão com manteiga e uma laranja. Depois, um pudim de leite, que considerou insosso, e duas xícaras de café. Levantou-se com a sensação de que tinha aplacado a fome de forma definitiva e que sequer agüentaria jantar mais tarde.
Engano. Mal deu dois passos na calçada, sob o sol causticante, percebeu, horrorizado, que a fome continuava. Pensou em procurar um médico, cogitou telefonar para a irmã, nutricionista. Ou simplesmente ir para casa dormir e acordar sem a sensação de fome. Contudo, não poderia se enganar, e, na pior das hipóteses, muito menos enganar a seu próprio corpo. A fome que lhe carcomia, apesar do que já havia comido até então, era real, dolorida.
Sem muitas alternativas e beirando o desespero, entrou em uma pastelaria e debastou três pastéis de carne, um de queijo e uma coxinha de frango, ajudado por dois copos de caldo de cana. Na saída, deliciou-se com um sorvete de baunilha. Caminhou alguns passos em direção a agência e teve de admitir para si mesmo: continuava faminto.
Cansou de lutar contra si mesmo e contra os instintos do seu corpo; resolveu assumir a fome, ainda que por alguns instantes de desespero e incredulidade e refugiou-se em uma conhecida churrascaria ali perto. Durante um par de horas, refastelou-se com picanha, maminha, frango, cupim, lingüiça, fraldinha, filé mignon; saboreou farofa, vinagrete e arroz; experimentou feijão verde, pediu batatas fritas, enfim, comeu em uma refeição o que normalmente levava dias para ingerir. Estranhamente, ao término da epopéia de carnes, sentia-se leve como um bailarino. Preciso ir ao médico urgentemente, pensou. Porém, ao contrário do que acontecera horas antes, sentia-se bem com seu corpo, como se o organismo e os alimentos (e a necessidade deles) tivessem chegado a um acordo de cavalheiros.
Ao sair do restaurante, percebeu que não conseguiria trabalhar. Telefonou para a empresa pretextando uma doença súbita e, alegremente, foi a um shopping. Ignorou as vitrines chamativas e os cinemas, que tanto amava. Ancorou na praça de alimentação e iniciou uma turnê pelos restaurantes: experimentou comida tailandesa (pato apimentado), saboreou sushis e sashimis, provou de tutu à mineira e baião de dois... comeu o que pode, enquanto o dinheiro lhe deu condições, até começar a usar o cartão de crédito. Olhou a própria barriga; ninguém jamais diria que ele tinha se alimentado tanto naquele dia. Também não sentia nenhuma vontade de ir ao banheiro. Teria se transformado em algo estranho? Seu corpo teria aprendido a processar a comida de forma diferente?
Saiu do shopping Center à noite e, com fome, não sentia nenhuma vontade de ir para casa. Subitamente, o estômago lhe doeu, como se recebesse um golpe de agulha. Havia uma pizzaria por perto, mas teve senso de perceber que seu corpo não queria massas ou queijos. Precisava de carne. Mas, ao pensar em retornar à churrascaria – com o pouco crédito que lhe sobrara nos cartões – sentia que comer mais picanha não o satisfaria. E a fome lhe golpeava como um soco. Sentou-se em um banco de praça escuro no parque, para apertar os braços contra a barriga. Foi quando percebeu o adolescente um pouco à sua frente. Olhava a estátua de Saturno com devoção, como um escultor estuda as formas da modelo que vai retratar. Não devia ter mais que dezessete anos e era branco e magro.
Aproximou-se do rapaz pedindo um cigarro. O jovem respondeu que não fumava. Ele iniciou uma conversa sobre a estátua e conseguiu atrais a atenção do rapaz. Propôs verem outra estátua – de Diana, deusa da caça – do outro lado do parque. Percebeu que estavam praticamente sozinhos naquele lado do gramado e que a escuridão deixava tudo na penumbra. Um pouco antes de chegarem à Diana, em, um trecho particularmente escuro, ele apontou para o jovem uma estrela que brilhava no céu. Quando o rapaz levantou ingenuamente a cabeça para ver, recebeu o golpe de canivete, no meio das costelas.
Ele rodou o canivete até formar um buraco oval na carne do menino. Depois golpeou-o várias vezes, no coração, no pescoço, na barriga. Com uma habilidade que lhe era desconhecida, começou a destripar a carne e se deliciar com seu calor e com o sangue grosso. Arrancou os olhos do rapaz e os comeu. Fez o mesmo com os dedos, o fígado e as coxas. Tentou comer uma orelha, mas a carne era muito dura.
Por fim, vendo a massa disforme de carne retalhada e tripas do que fora um jovem, limpou-se com a camisa, guardou o canivete no bolso e sentiu, pela primeira vez naquele dia feliz e maldito, que a fome havia, enfim, passado.
Foi para casa com a certeza que alguém o abordaria, que iriam prendê-lo. Nada. Protegido pela escuridão e pela indiferença dos outros, chegou ao seu apartamento cansado, mas satisfeito. Tomou um banho quente e deitou-se. Pensou vagamente na carne crua e no sangue que comera e bebera. E de como era bom deitar na cama com o estômago satisfeito.
Dormiu para uma noite sem sonhos.

26 Janeiro 2009

A flor e a pedra



Cefas Carvalho

Uma mulher como esta deve ter nome de flor, pensei, quando a vi pela primeira vez. Era o lançamento do livro de poesias de um amigo, e, entre o vinho e conversas tediosas, apercebi-me da mulher à minha frente.
Era linda, de pele leitosa e olhos indecisos entre o negro e o castanho. Cabelos negros presos em coque e um sorriso luminoso. Decidi que precisava conhecê-la e o destino conspirou a meu favor. Uma amiga em comum nos apresentou. Chamava-se Violeta. Contei a ela minha impressão sobre seu nome; ela riu e disse que queria ouvir mais sobre minhas primeiras impressões.
Jantamos no dia seguinte, e o vinho branco serviu como senha para que descobríssemos gostos em comum; livros, filmes, músicas, hábitos... Eu, artista plástico de relativo destaque – ou assim imaginava – ela, uma atriz e encenadora em ascensão, como vim a descobrir. Os muitos gostos em comum se tornaram cumplicidade e esta cumplicidade não tardou a se tornar amor.
Um amor que desaguou em casamento - no cartório e na igreja – e na benção de amigos e conhecidos. Nem mesmo os invejosos de plantão, eternamente alertas como Iago, conseguiram tirar um pedregulho do castelo onde erguemos nossa história de amor. O êxito emocional fez-se seguir pelo sucesso profissional; tive telas vendidas para a Holanda e a Itália; Violeta ganhou ovações e prêmios por uma ousada encenação de Medeia... Consideramos-nos preparados para conquistar o mundo. Quem ou o que poderia nos impedir? Éramos jovens, belos, inteligentes, ousados... e quando tínhamos alguma dúvida destas pretensas qualidades, os amigos e admiradores não demoravam a nos lembrar delas. Violeta era a flor, de nome e trato; eu, era a pedra, pela personalidade e firmeza em ações e opiniões. O casal perfeito, disseram. E cometemos o erro de acreditar cegamente nisso.
Não tardaram os conflitos que, como ondas noturnas, começaram a erosão no castelo do nosso amor. Ciúmes, quase sempre sem razões e intempestivos; intolerância, muitas vezes próxima da grosseria; ambos guardando rancores como quem guarda bijuterias em uma caixa. Minhas telas sofreram o efeito da crise; os temas se tornaram mais lúgubres, as cores, mais escuras. Violeta, por sua vez, desaguava nas personagens a raiva que carcomia seu coração. Atrasei a entrega de telas e diminui o ritmo de trabalho. Ela, chegava atrasada a ensaios e se tornava mais ríspida com os colegas de palco. Afinal, a maior parte do tempo era dedicada ao jogo das ofensas, da espera pela ironia para responder a uma ironia antes colocada à mesa. Os corações acelerados, a mão trêmula de medo ou ódio. E o castelo ruiu, como seria de se esperar. Os amigos, sem surpresa, testemunharam a flor se recolher ao seu jardim e a pedra rumar para a aridez do deserto.
Encontramos-nos três vezes Violeta e eu, após a separação. Ensaiamos retomar o casamento, trocamos mais frases ferinas, choramos um pouco, mas, por fim, decidimos manter-nos longe um do outro. O tempo curaria as dores, como costumam dizer e era, possivelmente, verdade.
Porém, a separação parece ter atraído a sorte contra nós. Meses depois, dirigindo com sono, voltando de uma apresentação de Macbeth, Violeta bateu o carro contra um caminhão na BR-101. Ficou meia hora sangrando presa às ferragens. Perdeu a perna direita. Estava fazendo fisioterapia e tentando se adaptar a uma prótese.
Quanto a mim? Cá estou em um restaurante, lembrando de tudo que relatei agora e esperando Violeta chegar. Ouvi sua voz atrás de mim, dizendo meu nome com suavidade. Senti sua mão em meu ombro esquerdo. Com um barulho estranho – a prótese, claro – ela sentou-se à minha frente. Talvez estivesse sorrindo. Talvez tivesse pintado novamente o cabelo. Esqueci de relatar somente este detalhe, sobre mim; uma semana depois do acidente de Violeta, senti uma imensa dor nos olhos, que tentei aplacar com colírios e soro biológico. Como a dor não passava e a vista começou a ficar enevoada, recorri a um oftalmologista para trocar os óculos. Descobri que havia contraído uma bactéria rara, similar ao glaucoma, e que estava ficando cego. Fui cirurgiado, na esperança de manter a visão, mas foi inútil. Como Édipo, como Borges, fiquei cego.
Eu e Violeta estamos aqui, rindo de nosso quinhão de sofrimento nesta vida. Um cego e uma aleijada, ela riu. Agora, não era o mundo que tínhamos para conquistar, mas sim, a vida cotidiana, como fazer um café ou fritar um ovo. Rimos disso e pedi que ela colocasse mais vinho em minha taça...

14 Janeiro 2009

O envelope amarelo



Cefas Carvalho

Estava em casa assistindo televisão e bebendo café com leite quando ouviu o som da campainha. Pensou que era um dos filhos, sempre esquecem a chave!, ou o vizinho querendo emprestado alguma ferramenta, sempre o fazia! Pelo olho mágico não viu ninguém, e intrigado, abriu a porta. Percebeu em cima do tapete da entrada um envelope grande, amarelo. Pegou-o e entrou em casa. Que diabos será isso?, pensou, imaginando uma cobrança ou um engano. Nada estava escrito no envelope. E estava aberto. Com a mão, retirou de dentro uma série de folhas de papel grampeadas. Sentou-se para ler. Logo na primeira página, ficou intrigado. Viu o nome de Marcos Alexandre, seu amigo de infância, e em seguida, uma série de informações sobre ele: nome completo, identidade, CPF, data de nascimento, signo, ascendente, onde morava, nome dos filhos etc.
Na página seguinte, outra surpresa, esta maior: uma série de informações sobre a vida de seu amigo. Leu um pequeno trecho: “Apesar de casado com Iracema, Marcos mantém um relacionamento extraconjugal com Celeste, professora da rede pública de ensino e que mora no bairro das Quintas, há pelo menos cinco anos. Seus amigos sabem disso. Seus filhos também”. Ficou preocupado com o que leu. Seria uma brincadeira de mau gosto? Passou a página. Lá estava o nome de Carlos Buarque, companheiro de trabalho e de peladas no fim se semana. Na primeira página, a mesma coisa: informações básicas, número do RG, endereço, e-mail, número de contas de banco. Na página seguinte, informações mais bizarras: “Carlos, embora um pai de família considerado exemplar, assediou sexualmente a sobrinha de 15 anos, e há alguns anos, manteve um caso com uma garota de 14”. Respirou fundo. Aquilo estava muito estranho...
Continuou a passar as páginas. Leu então o nome de Raimundo Santarém. Tratava-se de um antigo desafeto com quem chegara a trocar desaforos havia alguns anos. Era um homem ranzinza e meticuloso, que gostava de esfregar sua verdade na cara dos outros. Com atenção, leu as informações básicas do inimigo, na verdade já as conhecia. Passando a página, deparou-se com mais uma surpresa: descobriu que o homem esnobe e orgulhoso de sua retidão, não apenas estava do SPC e Serasa, como ainda devia uma fortuna para bancos. Seu carro do ano, da qual se gabava, não passava de uma compra por leasing e estava prestes a ser tomado por um outro banco. Passava cheques sem fundo. Por três vezes, recorrera a agiotas. Era um fracassado, em termos financeiros.
Mais páginas. Descobriu o nome da secretária do escritório onde trabalhava, Clarissa Maciel, evangélica ferrenha, que tentava convencê-lo a aceitar a palavra de Deus, mas na igreja que ela frequentava, claro. Lendo, descobriu que ela fizera – já convertida - dois abortos de um homem casado com quem mantinha um envolvimento secreto. Também batia na mãe setuagenária, a quem mantinha em uma espécie de cárcere privado. Chegou à página de seu chefe, Patrício Guimarães, homem espirituoso e alegre, orgulhoso da vida que levava. Contudo, segundo o relatório detalhado, tentara o suicídio havia um ano, quando a mulher – que costumeiramente o traía, revelação que o surpreendera – o abandonara e aos filhos para viver com outro homem. Após ela ser rejeitada pelo amante, voltara para Patrício.
Meu Deus, de onde veio isso? - Indagou-se, já com um estranho contentamento. Pensou no que poderia fazer com tantas informações. Tinha consciência que saber das coisas era um trunfo em quaisquer circunstâncias. Percebeu que tinha a vida de muita gente – que gostava ou que odiava – em suas mãos. Não dizem que informação é tudo? - Divertiu-se. Continuou a ler. Descobriu coisas ocultas e estranhas sobre a vida dos vizinhos, da atendente da farmácia, do dono da padaria do bairro. Sentiu-se um deus. Parou de ler, encheu um copo de uísque e acendeu um cigarro. Não cabia em si de tanta euforia. O que posso fazer com tantas informações? - Pensou. Como tirar vantagem deste presente que o destino colocou em minhas mãos?
Alegre, percebeu que faltavam poucas páginas para terminar o relatório. Continuou a ler, esperançoso em saber mais informações sobre desafetos, amigos e conhecidos. Teve uma surpresa ao ler o nome de Eduardo Pinheiro. Era seu filho. Pulou a primeira página, com todas as informações de praxe, todas detalhadas e absolutamente corretas. Na página seguinte, sofreu um baque: descobriu que o filho o odiava, que cheirava pó havia meses, que fora ele – o filho amado – quem furtara produtos em um supermercado na rua vizinha.
Abatido, continuou a leitura. Chegou então ao nome de Laura Pinheiro, sua filha adolescente. Entre mentiras e intrigas, descobrira que ela fazia assaltos regulares à sua carteira. E ele que sempre pensara que as cédulas eram subtraídas pela esposa, para seus badulaques e futilidades. Mas, o pior estava por vir: descobriu, na leitura amarga, que Laura não era sua filha. Era o produto maldito de uma rápida traição da sua esposa.
Sabia o que viria nas últimas páginas do relato, agora macabro. Leu com alguma dor o nome de sua esposa, Lucia Bertioga Pinheiro. Bebeu de um gole o uísque e armou-se para a leitura que viria. Soube então que ela já o traíra algumas vezes, como descobrira amargamente na leitura anterior, que mantivera um caso com um amigo da família e pensava seriamente em abandoná-lo. Que ainda desprezava seu comodismo profissional, comentava com as amigas o esfriamento – quase morte – de sua vida sexual com o marido.
Correu para o banheiro. Ligou o chuveiro e deixou-se ficar na água gelada por imprecisos minutos, talvez horas. Cansado e com frio, desistiu do suplício. Enxugou-se, e ainda trancado no banheiro ouviu o barulho da chave girando na maçaneta da porta e o barulho do sapato da esposa. Pensou em matá-la e depois se matar. Cogitou gritar, quebrar a sala inteira. Primeiro iria olhá-la nos olhos, fingir não saber de nada, pressioná-la contra a parede. Saiu com a decisão de confrontar a mulher falsa com quem vivera ao longo dos anos.
Na sala, encarou-a. Surpreendeu-se com o olhar de fúria impresso em seu rosto.
- Quem é Vanda? – perguntou a esposa.
- Como assim?
- Já sei de tudo.
- Tudo o quê?...
- De você e Vanda. Sei que tem uma filha com ela. Cecília, não é mesmo?
Engoliu a seco. Tentou falar, a mulher não deixou.
- E o caso que teve com minha prima Janaína, foi bom? E ter transado com ela na nossa cama no reveillon do ano retrasado, foi bom, seu canalha?
Tentou se defender, mas não encontrava palavras no vazio imenso que se apossara dele. Sabia que era tudo verdade, não teria como contra-argumentar. Percebeu então na mão da mulher uma série de folhas de papel. E debaixo do seu braço esquerdo, um envelope amarelo...

06 Janeiro 2009

A menina do cemitério


Cefas Carvalho


Essa história aconteceu há pouco tempo, mas, somente agora, ganhei forças para contá-la.
Nascido em Pendências, mas órfão de pai e mãe desde a infância, fui criado em Natal, mais exatamente em uma tranqüila rua do Alecrim por minha tia Lucia e por seu marido, que eu chamava de Tio Baltasar. Ele, coitado, morreu de cirrose no dia do meu aniversário de quinze anos. Minha tia passou a ser minha única referência afetiva e vice-versa. Jamais tive o que me queixar dela ou da vida. Fui bem criado, estudei em ótimas escolas, entrei na universidade e por fim formei-me em Educação Física.
Incentivado por tia Lucia, fui fazer um curso de um mês em Recife sobre técnicas desportivas. Foi na capital pernambucana, porém, que recebi a noticia que tia Lucia havia morrido, vítima de infarto. Confesso que viajei chorando durante as quatro horas de ônibus que separam Recife de Natal.
No enterro, no Cemitério do Alecrim, poucos parentes, uma e outra amiga e eu, me sentindo pela primeira vez sozinho no mundo. Após todos irem embora, ainda fiquei um bom tempo a olhar para os túmulos e mausoléus, até que o zelador gentilmente me mandou embora, advertindo que era hora de fechar.
No dia seguinte voltei ao cemitério. Depositei mais flores no túmulo de minha tia. Sem que ninguém me visse – era proibido fumar ali, me dissera o zelador – acendi um cigarro a vagar pelas ruas no cemitério. Tantos anos morando no Alecrim e eu jamais entrara ali até então, afinal, meu tio fora enterrado no interior e nenhum conhecido ou amigo jamais fora sepultado naquele solo.
Na segunda semana sem tia Lucia, trabalhando em uma escola apenas de manhã e com a tarde e noite livres, passei a dedicar mais tempo a pensar na morte em si do que na perda específica da minha tia. Não sentia vontade de sair ou beber com os amigos, e tampouco estava atrás de companhia feminina, posto que havia terminado um longo namoro havia alguns meses. Também comecei a ir três vezes por semana ao cemitério, ambiente que me parecia cada vez mais familiar. Fiz amizade com o zelador, os funcionários. Conheci a administradora do local, dona Lenilde. O cemitério tem o poder de convidar à reflexão e mais que morbidez a visão de tantas pessoas que se foram me trazia uma estranha espécie de paz, em lugar de repulsa ou morbidez.
Em uma dessas tardes, passeava pelos túmulos, contemplando alguns imponentes, como o de Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, quando de repente avistei uma jovem na minha frente, a me olhar como se eu estivesse fazendo algo errado.
- Estou observando você há alguns dias...-sorriu
- É, eu estou vindo aqui com freqüência respondi, atordoado com a abordagem.
- Eu também gosto muito daqui. É calmo, tranqüilo, tão diferente do mundo...
- Você mora aqui no Alecrim?
- Exatamente.
- Qual seu nome?
- Aurélia – sorriu. Um sorriso doce, sereno. Reparei então na menina, de longos cabelos castanhos se derramando pelo vestido azul claro. Os olhos, imensos, vivos, fixos em mim. Deveria ter entre dezoito e vinte anos. Bela como poucas eu tinha visto.
- Bem, vou te deixar na sua caminhada. Até logo – sorriu, se afastando. Tentei falar algo para impedi-la de ir, mas as palavras não saíram. Pensei em rodar pelas ruas do cemitério, que afinal não era tão grande assim, mas desisti. Voltei para casa com uma sensação estranha, de quem deixou para trás algo importante.
Passei boa parte da noite pensando na menina. Aurélia, lembrei do nome.
No dia seguinte, retornei ao cemitério. Talvez nem tanto para prantear sobre o túmulo de tia Lucia, mas para procurar Aurélia. Não foi difícil encontra-la. Passeava entre os túmulos, como se o local fosse um parque, não um cemitério.
- Boa tarde.
- Boa tarde, Aurélia.
- Lembra meu nome...
- Claro. Como poderia esquecer? – sorri. Ela perguntou o meu – Carlos – o que não fizera no dia anterior.
- Gosto daqui – comentou com ar triste – Acho que já me acostumei
- Qual a sua idade?
- Quantos anos você me dá
- Vamos ver...dezoito?
- Errou...- disse, após certa hesitação. Eu estava certo que ela tinha dezoito.
- Vou tentar novamente...dezenove?
- Errou de novo. Mas desista, não vou dizer minha idade...
- Está bem, você manda.
- Vamos passear pelo cemitério? – indagou. Eu já o fizera tantas vezes sozinho naqueles dias tristes...Que bom seria faze-lo com uma mulher linda pela qual eu estava fascinado.
Pelas ruas do local, contemplamos os imponentes mausoléus familiares, vimos os túmulos dos judeus, com inscrições em hebraico...Aurélia me levou também para os túmulos dos três soldados ingleses que morreram no oceano, em 1944, durante a 2º Guerra Mundial e que foram sepultados em solo natalense.
- Todos os anos as famílias e oficiais ingleses vem aqui no cemitério rezar pelas almas deles e limpar os túmulos. Pode observar que são dos mais conservados deste cemitério... – explicou. Fiquei impressionado com seu conhecimento do local. Algo mórbido, sem dúvida, mas todo mundo tinha algo de louco. Das mulheres que eu conhecera até então quantas não tinham hábitos mais estranhos que os de Aurélia?
Por fim, andando por uma rua solitária, entre túmulos mal conservados, paramos subitamente, como se tivéssemos combinado. Olhei-a com atenção, enquanto sentia meu coração disparar.
- O que foi? - perguntou
- Você é muito linda... – respondi. Não precisamos de mais nada para nos enlaçarmos em um beijo. Assim ficamos por um bom tempo, sem palavras. Apenas os lábios e os braços em movimento.
- Está na hora de eu ir... – comentou, vendo que já estava anoitecendo
- Eu te deixo em casa
- Negativo. Você vai, e eu fico. Depois vou para casa.
- Por que isso?
- Eu quero assim.
- Mas eu quero te ver.
- Você vai me ver. Mas, aqui.
- Por que? Não consigo entender.
- Não precisa entender, basta concordar. Amanhã á tarde aqui mesmo, está bem, meu amor?
Como resistir? Concordei com aquela maluquice. Fui para casa meio apaixonado meio aborrecido. Por um lado, estava enfeitiçado por aquela mulher, por aqueles beijos...Por outro pensava se ela não queria me fazer de palhaço. Teria ela se comportado da mesma forma com outros homens? Seria uma tara dela querer se encontrar apenas no cemitério?
De qualquer maneira, no dia seguinte lá estava eu no cemitério. Estava acontecendo um sepultamento, portanto, de início não consegui encontra-la com o fluxo de pessoas. Por fim, na rua colada ao muro da rua Rafael Fernandes, bem próxima ao mausoléu da Liga Operária Norte-riograndense, encontrei a minha Aurélia.
Durante duas horas praticamente só nos beijamos e trocamos palavras de carinho. Mas, eu estava decidido a dar um rumo novo à nossa história.
- Vamos ao cinema,
- Não quero.
- Para onde você quer ir? Basta dizer que iremos.
- Quero ficar aqui mesmo
- Mas Aurélia...
Ela começou a lacrimar... – Quero que goste de mim do jeito que sou... – murmurou.
Como não ceder? Ficamos lá, entre os túmulos e fugindo do olhar desconfiado e vigilante do zelador. Ao ir embora –sozinho – pensei em ficar de tocaia na porta do cemitério e segui-la quando saísse, mas fiquem temerosos de ser flagrado e envergonhado de minha baixeza, fui para casa. Passamos a nos encontrar no cemitério. Em duas semanas, foram pelo menos seis encontros. Era estranho, admito, e parece absurdo, mas eu estava feliz, e quando se está feliz, tudo parece normal. Imaginei que ela tivesse vergonha de sua família, com um pai alcoólatra ou coisa parecida. Poderia ser também que fosse muito humilde e não quisesse que eu visse onde morava. Seja como for, decidi que enquanto eu estivesse me sentindo bem com a situação, não forçaria a barra. Um dia ela vai querer ir a um cinema, à praia, e então poderemos viver como um casal normal, pensei.
Contudo, em uma tarde algo nublada, fui ao cemitério e Aurélia não apareceu no local combinado, em frente ao túmulo de João Câmara. Esperei por uma, duas, três horas, até o cemitério fechar, e nada. Andei a esmo pelas ruas em volta do cemitério, entrei em bares, procurei em paradas de ônibus e nada. Voltei para casa com uma tristeza sólida sobre a minha cabeça.
No dia seguinte, lá estava eu de volta ao cemitério. Andei pelas ruas e nada. Até que, próximo à capela, encostei-me em um tumulo deteriorado e coloquei as mãos nos olhos. Fui despertado deste breve transe por um funcionário do cemitério, um rapaz alto que eu sempre via mas jamais havia trocado duas palavras. – Tudo bem com o senhor? – perguntou.
- Mais ou menos – respondi.
- Eu posso ajudar em alguma coisa?
- Na verdade, não. Estou esperando uma menina...
- Se é para visitar algum túmulo, eu até posso ajudar a encontra-la. Se for para namorar, como tantos aqui tentam fazer, o zelador não vai gostar nada disso.
- Bem, eu fico até sem jeito, mas é quase isso... – confessei. Ansioso para contar minha história insólita para alguém, resolvi fazer daquele trabalhador meu cúmplice. Relatei minha história com detalhes, e no fim, olhei-o como se pedindo uma solução.
- Eu moro aqui na Ary Parreiras desde moleque e conheço quase todo mundo por aqui. Qual é o nome da menina? Se ela morar por essas bandas eu devo conhecer.
- O nome dela é Aurélia. Aurélia Galvão Barreto, se não me engano.
- Aurélia Galvão Barreto? – assustou-se - Você está maluco, homem?
- Por quê?
- Olhe para o seu lado, homem e deixe fazer brincadeiras para me apavorar - Você está encostado justamente no túmulo de Aurélia Galvão Barreto. Ela morreu em 1932, aos dezoito anos, em um incêndio aqui mesmo no Alecrim...

05 Janeiro 2009

Dolores


Cefas Carvalho

Chamava-se Dolores. Como Dolores Duran, uma das heroínas de minha vida. Mas ela não conhecia Dolores Duran, não sabia nem quem era. Talvez sua mãe também não conhecesse a cantora e tivesse escolhido o nome por gosto, capricho ou influência, sabe-se lá. Mas, nada disso importa. Conheci Dolores em uma noite sem lua e sem estrelas, quase amaldiçoada, em um bar tipo inferninho nas Rocas. Surgiu na minha frente como quem vinha do nada – ou de algum dos quartos fétidos do bar onde as meninas operavam seus programas rápidos – e sorriu como se já me conhecesse havia muito. Também sorri e com um movimento sutil de cabeça convidei-a para sentar à mesa. Ela aceitou e bebeu da minha cerveja. Conversamos sobre a vida em geral e sobre nada em especial e pude perceber o quanto era estranhamente bela e triste. De uma beleza sofrida, claro, pele queimada, não de manhãs de praia, mas de quem veio do sol do interior. Cabelos maltratados, olheiras emoldurando um olhar castanho melancólico. Talvez meus amigos a achassem feia. Mas, aos meus olhos – também sofridos, admito – Dolores me pareceu bela como poucas.
Bastou meia hora para que eu me resolvesse a convidá-la para sair. Paguei sua saída do bar (exigência inegociável da dona do estabelecimento para quem quisesse sair com as meninas da casa) e fomos no meu carro para um motel em Mãe Luíza. Pedi cerveja, um jantar – ela estava morrendo de fome – e depois mergulhamos no mar sem fundo dos amores carnais envolvidos em dor e carência. No fim das contas e dos gozos, percebi que – como muitas vezes acontecia comigo – eu era um náufrago a me agarrar na bóia de amores circunstanciais e comprados. A diferença é que Dolores não parecia apenas estar trabalhando. Era como se ela também fosse uma náufraga.
No dia seguinte paguei o motel e deixei-a no inferninho onde morava. Trocamos números de celular e prometi telefonar e também voltar para outra noite juntos. Horas depois, já no trabalho, dei-me conta que Dolores em espanhol, significava “dores”. Os nomes femininos em língua espanhola muitas vezes evocam sentimentos: Dulce (Doce), Soledade (Saudade), Angustias, Martírio... e lembrei-me de um livro de Jack Kerouac – Tristessa – sobre uma jovem mexicana, igualmente bela e triste. Uma mulher chamada Tristeza..., pensei, com amargura, lembrando que a mulher sem destino e sem futuro que povoava meus pensamentos, ela mesma carregava no nome a antítese na alegria e da felicidade.
Voltei à minha vida normal, seja lá o que isso significasse, e confesso, esqueci-me de Dolores por alguns dias. Passada uma semana, porém, a lembrança dela me veio e me doeu na pele como uma agulha. Corri para as Rocas. Tudo continuava igual, o inferninho decadente, as mesas sujas, os sorrisos falsos das meninas... também Dolores estava lá e continuava igual. O mesmo olhar sofrido, a mesma atenção para comigo... era como se o tempo não se movesse naquele bar. Pedi uma cerveja, depois outra, depois uísque com coca para ambos e por fim acabamos em outro motel, novamente afogando nossas mágoas no corpo um do outro. Desta vez, contudo, consegui saber mais coisas sobre ela... já tinha sido casada duas vezes, tinha dois filhos, um de cada pai, era de Sousa, na Paraíba, mas com família em Pau dos Ferros... gostava de viajar e samba... Tinha estudado, fizera o segundo grau completo, gostava de escrever, chegara a sonhar, em certa altura imprecisa da vida, em ser professora numa cidadezinha do interior... Propus que viajássemos juntos. Para onde?, perguntou. Para lugar nenhum, respondi, na estrada decidimos... Pipa, João Pessoa, Recife, Tibau, Areia Branca... o vento seria nosso mapa. Com um sorriso triste ela concordou. Acordamos que faríamos a viagem no final de semana seguinte, quando eu prepararia tudo e ela inventaria uma desculpa para a dona do bar para não termos que pagar a saída. Vivi uma semana normal, mas algo excitante com a perspectiva da insólita viagem. Nada comuniquei aos amigos nem à família (como fazê-lo?). Na manhã de sábado, por fim, estacionei o carro em frente ao prédio abandonado nas Rocas onde havíamos combinado. Esperei durante quarenta minutos. Eu já me preparava para telefonar para ela quando aproximou-se do veículo uma mulher que eu conhecia do inferninho. Vinha me trazer um bilhete de Dolores, que fora embora com todos os seus pertences no dia anterior e nada dissera sobre seu destino: “Meu querido, descobri que sou dona das minhas dores e não quero dividi-las com você nem com ninguém. Não nasci para ser feliz. Melhor eu ir embora enquanto é tempo. Beijo. Dolores”. Guardei o bilhete no porta-luvas e peguei a estrada. Para onde? Quem sabia? Que importava?

23 Dezembro 2008

Em sonhos


Cefas Carvalho


In dreams I walk with you
In dreams I talk to you
(Roy Orbison em In dreams)



Molhado de suor, acordou de repente e ouviu aquela música lenta e repetitiva, como um mantra, e pensou que ainda estava sonhando. Percebeu, após alguns segundos, que o som vinha do CD Player, que deixara ligado. Levantou-se a contragosto e desligou o som. Aproveitou que estava de pé e arrastou-se sonambulamente até a cozinha, para beber um copo de água bem gelada. Não resistiu a um gole de Coca-Cola, bebida na garrafa, e retornou ao quarto. Tinha medo de não dormir e ao mesmo tempo, medo de dormir. Dormir significava esquecer... mas também significava sonhar, e nos últimos tempos seus sonhos eram, assim como a música, lentos e repetitivos.
O sonho era basicamente a presença dela, primeiro surgindo do nada, quase dançando, como uma Isadora Duncan etérea e irreal. Depois ela falava alguma coisa... mas ele não conseguia ouvi-la. Sabia que ela falava seu nome, podia ler seus lábios, mas o restante da mensagem lhe era misterioso, como se ela falasse uma língua estranha e há muito morta.
Por fim ela se aproximava dele e lhe beijava, suavemente, como em um balé. Ele desejava segurá-la junto a ele, mas, por alguma razão, não conseguia fazê-lo. Ela inevitável que ela se fosse. Para algum lugar misterioso e obscuro onde sua entrada não era permitida. E então ele acordava, banhado de suor, mesmo com o ar condicionado ligado na potência máxima.
Em outro sonho, quase a mesma coisa acontecia, com a diferença que a entrada dela era antecedida pela presença de um palhaço, se fazendo de mestre de cerimônias. Um palhaço colorido, mas pouco alegre, na verdade, triste em sua maquiagem desbotada e a lágrima pintada que lhe caía do olho esquerdo. Em uma linguagem exótica, como se usando de palavras arcaicas ou com um sotaque estranho, ele anunciava a entrada dela, que vinha, dançarina esvoaçante, lhe beijava e partia.
Havia um terceiro sonho, na qual ela e o palhaço chegavam juntos, e passavam vários minutos rindo descaradamente dele. Em seguida ela contraía o rosto como se arrependida e lentamente se aproximava dele, enquanto o palhaço ia sendo tragado pelas sombras. Ela o beijava suavemente e, com passos de dança, retornava para de onde veio e onde não era permitido a ele sequer avistar.
Aquela noite estava tão desesperada quanto as noites anteriores, como sempre era desde que ela se fora. Mas, resolveu enfrentar seus próprios sonhos. Decidiu que tentaria dormir, ajudado pelos comprimidos de sempre, e, uma vez sonhando, não apenas enfrentaria o palhaço triste como seguiria a amada até o reino das sombras para onde ela mergulhava.
Demorou a dormir. Cantou lentamente diversas músicas, assobiou, olhou pela janela a noite cinzenta que se fazia, ridiculamente contou carneirinhos, até que a soma de fazer tantas coisas e ao mesmo tempo nada fazer o levou ao mundo do sono.
Sonhou, como quase sempre, que o palhaço chegava. Contudo, conscientemente, resolveu nada fazer com ele. Queria esperar a chegada dela. O palhaço cantou alguma magia em alguma língua e por fim ela chegou, cheia de véus transparentes, um girassol nos cabelos, etérea e inalcançável. Fechou os olhos á espera do que aconteceria. Sentiu a respiração quente dela e anteviu o beijo suave que ela lhe daria. Recebeu o beijo como quem recebe uma benção e assistiu à sua lenta partida, em passos de balé. Subitamente, reagindo contra as leis daquele sonho, conseguiu fazer com que as pernas andassem e correu para ela. Percebeu o palhaço, com um olhar assustado caminhar em sua direção. Inútil. Com um movimento rápido, forte e inesperado, golpeou-o com a mão direita fechada e assistiu a sua queda sangrenta no chão.
Ela abriu uma cortina negra, feita de sombras e entrou. Ele, a um passo dela, fez a mesma coisa e entrou em algo que parecia uma caverna negra, um mundo infernal. Não conseguia vê-la, mas sabia que ela estava lá. De repente, ouviu ela falando algo que aos seus ouvidos pareceu uma prece: não me abandone jamais...
Acordou, então, suado, com um grito dele próprio. Demorou alguns segundos para perceber que estava lacrimando e dificilmente foi ao banheiro lavar o rosto. Sentou-se no sofá da sala e chorou copiosamente. Pensou em telefonar para ela, mesmo sendo de madrugada. Pensou em dar cabo da própria vida, como talvez fosse melhor, desde que ela se fora e sua vida mergulhara naquela sequência de sonhos e tristezas.
Pegou o celular e discou o número dela. Tocou cinco vezes até que atenderam. Para seu espanto e sua dor, ouviu do outro lado da linha a voz do palhaço triste a debochar de sua dor...
Molhado de suor, acordou de repente e ouviu aquela música lenta e repetitiva, como um mantra, e pensou que ainda estava sonhando. Percebeu, após alguns segundos, que o som vinha do CD Player, que deixara ligado. Aliás, que a esposa deixara ligado. Olhou para o lado e viu a amada dormindo, respirando pesadamente e com o lençol abraçado ao rosto. Levantou-se e desligou a música. Foi até a cozinha onde viu na mesa os pratos com os restos de atum com ervas que jantaram na noite anterior. Depois fizeram amor como havia muito não faziam e dormiram nos braços um do outro. O estranho era sonhar todas as noites o mesmo sonho: que havia sido abandonado pela amada e que ao dormir sonhava com um palhaço triste e uma dançarina enevoada. Comentara isso com a amada que sorrira: isso é medo de me perder... é normal sentir isso quando se ama, porque eu também tenho medo de te perder...
Ele sorriu para ele mesmo, abriu a geladeira e bebeu um copo de leite gelado. Em seguida aninhou-se ao lado da amada para dormir.

16 Dezembro 2008

Feliz Natal em junho ou dezembro!


Cefas Carvalho

Este escrevinhador leu nos blogs que um astrônomo australiano pode ter descoberto que o nascimento de Jesus não teria acontecido em dezembro e sim em junho. E dois anos antes do que se pensava. De acordo com Dave Reneke, a "estrela de Natal" que, segundo a Bíblia, teria guiado os Três Reis Magos até a Manjedoura, em Belém, não apenas teria aparecido no céu seis meses mais cedo.
O astrônomo explica que a conclusão é fruto do mapeamento dos corpos celestes da época em que Jesus nasceu. O rastreamento foi possível a partir de um software que permite rever o posicionamento de estrelas e planetas há milhares de anos.
Baseando-se no Evangelho de Mateus, que descreve a aparição de uma "estrela" como sinal do nascimento de Jesus, Reneke identificou a conjunção dos planetas Vênus e Júpiter, que teriam emitido uma forte luz que poderia ter sido confundida com uma estrela. "Vênus e Júpiter chegaram muito perto no ano 2 a.C refletindo muita luz. Não podemos dizer com certeza que esta era a estrela de Natal descrita na Bíblia, mas até agora esta é a explicação mais plausível que já vi sobre isso", disse Reneke à BBC Brasil.
A notícia não mexeu muito comigo, ateu iconoclasta que sou. Mas, diverti-me sozinho pensando que o cristianismo ocidental pode estar há dois mil anos comemorando o Natal na data errada.
Há muito já desmistifiquei a festa de natal. Não pretendo ultrajar os amigos cristãos que vêem na data o momento de pensar em Cristo e na fraternidade universal. Tampouco quero estragar a ansiedade dos filhos e da amada, à espera dos presentes de natal. Não, nada disso. Respeito a opinião dos amigos e como quase todos, troco presentes na noite natalina e me farto com a ceia de natal. Só não acredito que a data sirva para qualquer tipo de reflexão ou de transformação. Assim como datas cívicas (Dia da Independência, Proclamação da República) não fazem ninguém refletir sobre a nação, mas sim proporcionam um belo churrasco ou ir a praia com a família, que ninguém é de ferro.
Se o astrônomo tiver razão, que celebremos o nascimento de Jesus em junho. Tudo bem que na Europa e nos EUA não é época de inverno e neve, portanto, toda a mística do natal gelado e com trenó do Papai Noel iria por água abaixo.
Em julho ou em dezembro, como sempre foi, o natal é uma bela festa e serve, sim, para congregar a família, rever os amigos e sermos todos um pouquinho mais felizes, como é válido. Só não venham me dizer que a data é para refletir sobre o nascimento do menino Jesus, pobre e sofrido em uma manjedoura. É uma hipocrisia light, feita sob encomenda para nos sentirmos menos culpados. Ninguém pensa no menino Jesus ou nas crianças pobres de Felipe Camarão enquanto se farta com tender e bacalhau e se enche de vinho. Infelizmente. E feliz natal para todos nós.

10 Dezembro 2008

"Ela vestia veludo azul..."


Cefas Carvalho


Tive minha vida mudada por um filme. É certo que livros, músicas, bandas de rock também mudaram minha vida, de uma forma ou de outra, mas neste texto falaremos de cinema. Cinéfilo desde a pré-adolescência, daqueles de adorar a magia da projeção cinematográfica, como o menino Totó de “Cinema Paradiso”, poderia listar uma penca de filmes que me encantaram e me impressionaram. Contudo, foi “Veludo azul” o filme que mudou efetivamente minha forma de ver o cinema, de ver a vida em geral e a minha própria vida. Porém, não se trata do filme da minha vida (que é “Verão de 42”) nem o que mais vezes assisti (“Jesus Cristo Superstar”, que vi 19 vezes contadas, cantadas e catalogadas). Tudo bem que assistir “Hair”, em 1988, foi uma espécie de revelação divina e o filme foi responsável direto por eu deixar crescer os cabelos nos anos dourados da juventude, mas nesta altura “Veludo azul” já tinha feito minha cabeça.
A paixão começou nos idos de 1986, quando, adolescente tímido recém chegado no Rio de Janeiro, passava boa parte do meu tempo assistindo filmes, fosse na TV (nos bons tempos em que a Rede Globo exibia clássicos à noite), vídeo-cassete e cinema. Na tela grande, gostava de filmes bem hollywoodianos, tipo “Passagem para a Índia” e “Amadeus”, sucessos à época. Mas, nas resenhas dos cadernos culturais dos jornais os críticos só falavam de um tal “Veludo Azul”, do americano David Lynch, que era instigante, macabro, melhor filme do ano etc. Bateu a curiosidade de assisti-lo, claro, mas deparei com um problema: a censura do filme - sim ela existia naquele tempo e era razoavelmente rigorosa - era 18 anos. Eu mal contava dezesseis. Preferi não arriscar ser barrado no cinema e convenci papai e ir comigo, me autorizando para o bilheteiro a entrar. Lá fomos nós em uma tarde de sábado na sala 1 do finado (tornou-se uma sede da Igreja Universal...) Cine Lido, na Praia do Flamengo. Entrei na sala como uma pessoa e duas horas depois, saí outra.
Tudo me encantou e me impressionou no filme. Papai pouco se impressionou com o filme e até cochilou uma meia hora - velho hábito dele - na sala de projeção. Para quem desgraçadamente não viu o filme, um resumo: a trama é extremamente simples. Jeffrey (Kyle McLaughan, alter-ego e sósia do diretor) vive uma existência pacata naquelas cidadezinhas insípidas dos Estados Unidos quando de repente encontra uma orelha em um jardim. A partir deste fato corriqueiro, ele trava contato com a bela e misteriosa Dorothy (Isabela Rosselini) e com o perigoso Frank (Dennis Hopper, espetacular!) e se envolve com pessoas e situações que mostram a ele que o mundo não era exatamente cor de rosa como ele pensava.
Em suma, a experiência que Jeffrey viveu na trama, vivi durante a exibição do filme. Ao se acenderem as luzes eu tinha certeza que, como Jeffrey, jamais veria o mundo da mesma forma. Como diz a namorada de Jeffrey (Laura Dern) em uma cena, “este é um estranho mundo”.
E coisas estranhas não faltam no filme: um vilão que respira gás hélio e chora com músicas antigas, um travesti dublando Roy Orbison, perversões sexuais, gente morta em pé, como um abajur... uma série de bizarrices tão comuns que evocam Caetano Veloso: “de perto, ninguém é normal”.
Há a trilha sonora... está gravada no HD da minha mente a cena em que Isabella Rosselini canta o clássico “Blue velvet” aos sussurros, na boate... “she wore blue velvet, bluer than velvet was her eyes…” E Dean Stockwell dublando “In dreams” do mestre Roy Orbison? E o uso da belíssima “Love letters”? Mas nada se compara ao cinismo agridoce da cena final, um pastiche de final feliz com Julee Cruise - cantora fetiche de Lynch - cantando a macabra “Mysteries of Love”. Seria impossível eu sair imune a tal filme. Não saí. Tanto que no dia seguinte comecei a abandonar - embora não totalmente - os dramas tradicionais de Hollywood e adentrar no terreno pantanoso de Scorcese, Woody Allen, Jim Jarmush, à procura de sensações como a que “Veludo azul” me proporcionou. Daí para mergulhar no universo de Bergman, Almodóvar,Pasolini, Saura e Scola foi um passo. E adeus dramas lacrimosos com Sally Field e Sissy Speacek. E adeus filmes como “Robocop” e “Os Goonies”. Passei a economizar meus trocados para descobrir filmes estranhos nos cineclubes.
Quatro anos depois, David Lynch faria mais um filme que se inscreveria a fogo em minh´alma: “Coração selvagem”, um on the road maluco com Nicholas Cage e Laura Dern, músicas de Elvis Presley, sangue a rodo e uma estética alucinada. Assisti ao longa sozinho, em um cinema vazio e sujo em São Paulo, com a consciência que aquele filme também mudaria minha vida. Mudou, mas aí já seria uma outra história. Lynch continuaria agradando aos devotos com a série “Twin Peaks”, que para quem não se lembra mudou a história da televisão americana e filmes como “A estrada perdida” e “Mullholland drive - Cidade dos Sonhos”. Filmes sem pé nem cabeça e sem lógica, mas, que diabos, quem precisa de lógica na vida ou no cinema? Assistir a um filme de Lynch é uma experiência extra-sensorial. Nem todos gostam, é claro. Mas, quem vai ver um filme de Lynch é bom saber que vai adentrar um universo alucinado, pessoal e surreal. Este ano ele lançou nos EUA e na Europa seu mais novo filme, “Inland Empire”, que dificilmente chegará nestas terras cinematográficas tomadas por Piratas e Aracnídeos e comédias americanas cretinas. Enquanto isso, resta aos lynchmaníacos, espécie de confraria de gente que não bate muito bem da bola (alô, Rosa Williams!) e que sabe que o mundo real não é este que vemos, rever toda a cinematografia do cineasta mais esquisito do mundo. Afinal, she wore blue velvet...

05 Dezembro 2008

Deixem o Tom fumar em paz


Cefas Carvalho


Torturar, fatiar, eletrocutar, agredir, esfaquear, esbofetear, trair, enrolar, pode! Fumar não pode. Esta é a conclusão a que este escrevinhador forçosamente chegou ao ler em um site uma informação bizarra: o desenho animado de Tom e Jerry, que fez a minha alegria na infância e a de onze em cada dez crianças de várias gerações, vem sendo duramente criticado na Inglaterra depois que um espectador telefonou para o Ofcom (órgão regulador da programação de TV no país) reclamando que o gato Tom costuma fumar, e isso representava um péssimo exemplo para as crianças.
Efetivamente no episódio "Texas Tom", o gato azarado tenta impressionar uma gatinha enrolando um cigarro, acendendo-o e fumando-o com uma mão. No outro episódio, o "Tennis Chumps", o adversário de Tom fuma um grande charuto. Resultado: em boletim publicado em seu website, a Ofcom apontou preocupações de que fumar na televisão possa influenciar a esse hábito. A empresa que licencia o desenho concordou em editar algumas cenas de fumo de Tom e Jerry. Quem diria, Tom e Jerry censurados e com cenas cortadas em um país democrático e em pleno século 21!
Mas, o curioso é perceber que o mesmo espectador que tanto se ofendeu com o cigarro do felino não se importou com toda a violência do desenho. Sim, pois Tom e Jerry, ao lado do Papa Léguas, é um manual quase didático de como impingir dor e sofrimento a um inimigo. Já assisti a Tom ser retalhado, esquartejado, torrado, agredido com bigornas, ter os dentes quebrados um a um, sempre pelo rato Jerry que o faz com um sádico sorriso e sem nenhum resquício de culpa. O curioso é que eu não lembrava de ter assistido aos episódios que Tom fuma cigarros. Devo ter assistido, mas nem por isso comecei a fumar.
Da mesma forma, também adorava Tom e Jerry nem por isso retalhei ou carbonizei minhas irmãs e meus amigos. Ah, e também ouvi muito heavy metal quando adolescente, em especial Iron Maiden e Metallica, meus preferidos nesta seara. A obra prima do Iron Maiden é "666-the number of the beast" (666 – o número da besta), que evidentemente fala sobre o demônio, ou como queria mestre Guimarães Rosa, o cramulhão, o capiroto, o tinhoso. Bem, o fato é que embora ouvisse a música com razoável freqüência, nem por isso adentrei nos caminhos de adoração do demo. O politicamente correto é positivo porque luta pela cidadania e defende os direitos das minorias, mas tem lá seus exageros. Desenho animado não influencia criança alguma. Nem os mais violentos tipo Papa Léguas, nem os alucinados tipo Pokemon e nem os edificantes e mimosos como Bambi, Cinderela ou Pocahontas. Criança alguma fica boazinha ou adentra os caminhos da maldade com base em desenhos animados. Animação só diverte, mesmo com excessos. Discutir a qualidade dos desenhos é outra coisa. E neste aspecto, convenhamos que Tom e Jerry são dos melhores. Deixem o pobre Tom fumar em paz!

21 Novembro 2008

À flor da pele



Cefas Carvalho

Quando menina, mirrada, magrinha, um toco assim de gente, caiu feio na terra empedrada, quando brincava de pique-esconde com os moleques na rua. Foi para casa choramingando, cheia de arranhões e ferimentos pincelados com sangue. A mãe, enternecida, passou mertiolate nos braços e pernas da menina e advertiu-a que ela sentiria dor por alguns dias. Mas, a dor que sentiu era quase uma cócega agradável. Depois, divertiu-se arrancando as cascas das feridas mal cicatrizadas, testemunhando um fio de sangue brotar novamente e também um líquido amarelado.
Caiu outras vezes, brincando, correndo, jogando handebol, arranhou-se, e cada vez que via o sangue jorrar da carne lacerada sentia, além da dor imediata, uma estranha satisfação. Começou a brincar com as feridas como outras meninas brincavam com bonecas. Tornou-se íntima de seu próprio sangue e de sua carne sempre aberta, sempre mutilada. Percebeu que tinha de esconder este estranho comportamento da família.
Mais crescida, encontrou um novo prazer em se depilar com a pinça. A sensação dos fios saindo de sua epiderme lhe proporcionava tal prazer que ela se descobriu enquanto mulher – sensações de gozo e um formigamento no sexo – quando arrancava pêlos das sobrancelhas, braços, pernas e virilha. Não queria o puxão rápido, indolor. Desejava a agulhada dolorida, o arrepio da dor mais lenta.
Na adolescência, tornou-se uma moça estudiosa, quieta e enigmática. Enquanto as amigas investiam em decotes e biquínis, ela escondia o corpo o máximo possível. Ao despir-se, contemplava no corpo as marcas do prazer que arrancava de todas as maneiras: arranhando-se com chaves, lanhando as pernas com canivete, roendo as unhas eternamente em sangue... No dia em que fez dezoito anos, tendo recusado todos os presentes e mimos dos pais, precisou ir ao dentista. Precisando ter um dente obturado, decidiu que queria fazê-lo sem anestesia. O dentista recusou-se e, em casa, ela descobriu novo prazer trincando os dentes com um garfo até ver o sangue escorrer pelas gengivas.
Incentivada pelos pais e pelas amigas, começou a sair mais, para, supostamente, divertir-se. Em uma boate, enquanto as colegas dançavam, ela percebeu um rapaz brincando com a ponta de um cigarro em sua própria mão. Sentiu uma vontade desenfreada de beijar e cheirar aquela mão de carne queimada e não tardou a travar contato com o rapaz. Ele mostrou como fazia aquilo, na verdade uma maneira banal de sentir dor e controlá-la, e ela pediu que ele fizesse tal brincadeira com ela. Não na boate, ele respondeu. Onde você quiser, ela sorriu. Horas depois perdia a virgindade e aliou o prazer sexual com a descoberta da carne queimada pela brasa do cigarro. Começou a fumar. Comprou charutos e percebeu que a brasa do charuto beijando sua coxa lhe proporcionava sensações mais agudas que os beijos do namorado. Terminou o namoro e procurou novas sensações; arranhar-se com facas de pão, arrancar fios de cabelo com os dedos, morder os cantos da boca de forma a destilar sangue... iniciou uma frase extremamente criativa quando a maneiras de se mutilar e descobriu que seu prazer era inconciliável com a vida familiar. Em meio a constantes atritos com os pais, passou a gerenciar uma loja de tatuagens e decidiu morar sozinha.
Trabalhando em meio à carne sendo queimada e colorida, descobriu novos prazeres com agulhas, tintas, ferramentas e brocas, e á noite, conciliava namoros ocasionais que pouco ou nada lhe acrescentavam, e bastante solidão, assistindo a filmes e comendo pipoca, em meio a brincadeiras com lâminas e facas de cozinha.
Em uma manhã cinzenta, não desejava conversar com os colegas de trabalho e deixou-os no restaurante habitual preferindo refugiar-se em um bar estranho, sujo, quase em frente ao trabalho. Lá, almoçando um bife mal passado com arroz e fritas, observou à mesa em frente um homem que tomava uma cerveja e com uma pequena chave de fenda, arrancava a frio as unhas da mão esquerda, em um ritual estranho e, para ela, fascinante. Inventou um pretexto para entrar em contato com ele, e como esperava, foi convidada para sentar-se à mesa.
Olhou-o de perto com a devida atenção. Era bem mais velho que ela, talvez beirando os cinqüenta anos, tinha uma barba mal feita e olhos amarelos, adoentados, mas que guardavam malicia e algo de mal. Tinha ares de pirata e latrocida. Seu mau hálito, ela o sentiu assim que ele perguntou seu nome e disse que ela era linda, como se querendo queimar etapas para seu evidente desejo. Ela teria nojo dele não fosse a visão inebriante das suas unhas em sangue, dos dedos calosos em uma mão marcada e forte, de estivador, de assassino.
Na gangorra entre o asco e a excitação, deixou-se levar para um quarto de hotel decadente onde, encantada, descobriu nele marcas e cicatrizes em todo o corpo. Amou o latrocida de olhos cerrados, sentindo em suas costas os nacos de unhas arrancadas. Pediu que ele puxasse seus cabelos, que a esbofeteasse, que apertasse seu pescoço... sentiu prazer como nunca; descobriu que podia – e devia – aplicar a dor e a mutilação ao amor físico. Perguntou a ele, enquanto se vestiam, não seu nome, informação que não lhe interessava, mas, porque arrancava as unhas até o sangue. Porque gosto, respondeu, com um sorriso maníaco. Sentir dor é bom, concluiu.
À noite, em casa, não conseguiu assistir a filmes, comer pipoca ou conversar com as amigas pelo telefone. Munida de compressas de gelo e mercúrio cromo, lembrou da tarde que tivera, das unhas arrancadas daquele homem pavoroso que a encantara. Olhou no espelho imenso que mantinha na parede junto à cama as muitas cicatrizes em seu corpo nu. Cicatrizes que como palavras, como frases, contavam a história de seu corpo, de sua vida.
Decidiu, no dia seguinte, procurar no mesmo restaurante barato onde almoçara, o homem estranho que se mutilava. Se não o encontrasse, perguntaria, iria atrás de seu paradeiro. Continuava com nojo dele, mas não podia mentir para si mesma; ele lhe dera o que ela desejava.
Afinal de contas, pensou, sorrindo, sentir dor é bom!...

05 Novembro 2008

A Ilha do Fim do Mundo


Cefas Carvalho

Começou como uma brincadeira.
Abrindo o mapa mundi para planejarmos nossa viagem a Lisboa, imaginamos uma outra viagem, esta, para algum lugar distante, perdido, algo como o fim do mundo.
Entre vinhos e queijos, sonhos e risos, elegemos a Escócia como o nosso fim do mundo particular e ideal. Razões para isso não faltavam: a Escócia ficava próxima a Londres, metrópole que conhecíamos e que serviria como ponto de apoio para a aventura. Também porque queríamos um fim do mundo estruturado, confortável, preferencialmente com clima frio. Também favorecia o fato da Escócia ter algo de mágico... talvez pelos castelos, pelo Lago Ness e seu lendário monstro...
Do sonho, passamos ao mapeamento, à prática: descobrimos ilhas isoladas ao oeste da Escócia, bem distantes de Glasgow e Edinburgh. Nomes como Ilha de Berneray, Ilha de Skye, Castlebay e Benbecula começaram a fazer parte do nosso imaginário. Eu e Clarissa pesquisamos itinerários, pousadas idílicas, preços de passagens aéreas e férreas, cotação da libra. Pela Internet sondamos instalações, preços... logo a viagem algo irreal para a Ilha do Fim do Mundo ganhou mais espaço em nossos corações e mentes do que a viagem real, a ser empreendida para Lisboa. O que poderia frear nosso sonho? Éramos jovens, ambos com a idade de Cristo quando morreu, não tínhamos filhos e estávamos profissional e financeiramente estruturados. Queríamos conquistar o mundo, e certamente riríamos de quem nos dissesse que o mundo não existia apenas para ser conquistado por nós.
Viajamos a Lisboa, como tinha de ser. O que relatar da viagem às terras portuguesas? É certo que conhecemos a linda capital lusitana, que andamos de mãos dadas pela Avenida da Liberdade até desembocar no Tejo, que experimentamos todas as delícias de bacalhau disponíveis nos restaurantes e bares e que fizemos amor na mais linda das pousadas de Coimbra, olhando o sol nascer. Mas, também trocamos ofensas muitas e diversos espinhos verbais.Maculamos o Castelo de São Jorge com uma briga estúpida e que beirou a violência física e encharcamos a bela cidade do Porto com os ciúmes dela e com minha intolerância.
Retornamos ao Brasil decididos não apenas a nunca mais viajar juntos, como a terminarmos nosso relacionamento. Não havíamos sequer desarrumado as malas da viagem com os presentes para amigos e parentes quando me vi obrigado a, com o coração comprimido, a arrumar minhas malas com roupas e coisas básicas. Foram dois dias em um hotel, imaginando o que fazer da vida e procurando um apartamento para alugar. Até que Clarissa me telefonou, propondo um encontro. Marcamos em um restaurante oriental perto da praia, onde costumávamos ir com freqüência.
Quando eu a vi, no restaurante, mais linda do que nunca e com os olhos ainda soltando faíscas, apesar da vermelhidão e do cansaço, pensei em me ajoelhar aos seus pés e implorar para que voltássemos. Não foi necessário. Serenamente, ela propôs que puséssemos uma pedra no passado recente e que retomássemos nosso casamento, mais que isso, nossa história de amor.
Na mesma noite peguei minhas coisas no hotel e rumamos para uma pousada em uma praia num município litorâneo próximo. Jurei para ela, mas, principalmente para mim mesmo, que jamais a deixaria novamente.
Retomamos o casamento, o cotidiano e também os sonhos. Voltamos ao mapa da Escócia. Encontramos mais cidadezinhas com nomes estranhos, próximas da Islândia e do Pólo Norte. Começamos a comprar libras e a economizar dinheiro. Passamos a trabalhar e a fazer planos unicamente em prol da viagem para a Ilha do Fim do Mundo. Clarissa sugeriu que, se nos apaixonássemos pelo lugar, fizéssemos planos de morar lá definitivamente. Talvez comprar uma pousada. E vivermos de amor, cerveja preta, rosbife, livros e músicas. O que mais da vida eu poderia pedir?
Tudo isso que relato aconteceu há alguns anos. Hoje, moro em Ullapool, uma cidadezinha bem ao norte da Escócia, como se saída de um conto de fadas. Trabalho em um pub local, servindo cervejas. Todos são educados e gentis comigo e me chamam de The solitary man, por razões que o apelido, em inglês, explica por si só e que sintetiza minha vida e o que ela será para sempre.
Quanto a Clarissa? Morreu em um acidente de trânsito na avenida principal da cidade. Voltava para casa com uma pizza e duas garrafas de vinho no banco de trás do carro e nossas passagens para Londres e conexão para Glasgow no porta luvas do carro. Era o nosso sonho materializado, porém, destruído pela precipitação de um motorista de caminhão que tentou uma ultrapassagem arriscada e desnecessária. Ele fugiu sem prestar socorro, após o acidente. Espero sinceramente que tenha ido para o inferno e que lá permaneça por várias eternidades. Meu consolo é que Clarissa não sofreu, tendo morrido na hora e, segundo a médica que atendeu, com um estranho sorriso nos lábios. Após a tragédia, queimei uma das passagens aéreas juntamente com os mapas, guias de viagens e informações sobre a Escócia. Em seguida, vendi tudo que tinha e rumei para as terras frias – onde estou até hoje – para conhecer a Ilha do Fim do Mundo, ver seus lagos, seus castelos, suas montanhas, por mim e por Clarissa. Coisa que faço todo dia. Até a hora sagrada em que terei de morrer, aqui nesta Ilha do Fim do Mundo onde encontro Clarissa todos os dias e de onde não sairei jamais...

24 Setembro 2008

Minha vida de cineclubista


Cefas Carvalho

Houve um tempo em minha vida em que eu passava mais tempo nos cineclubes e nos bares do que em casa. O curioso era como eles estavam relacionados entre si. Era como se fosse impossível assistir um filme nos cineclubes sem a discussão depois, regada a chopes e tira-gostos. Bem, os bares, por si sós, dariam um texto á parte, longo e cheio de história. Falemos nos cineclubes, por ora. Atrevo-me a dizer que sem eles minha adolescência não teria sido a mesma coisa.
Descobrir o Cineclube Estação Botafogo, em meio às futilidades e idiossincrasias dos jovens cariocas dos anos oitenta, foi uma revelação divina. Lembro do primeiro filme que assisti lá, entre os quinze e dezesseis anos: "Nós, que nos amávamos tanto", de Ettore Scola. Foi um deslumbramento. Tanto o filme em si – lindo como poucos – como a sensação de estar em companhia de quem também amava cinema e o discutia. Assisti a muitos filmes sozinho: "O baile", "Carmem", "Veludo Azul" (este pela terceira ou quarta vez), e muitos outros.
Aos poucos fui ganhando amizades que gostavam de cinema e comecei a ir ao Estação em turma. Recordo de Paulo de Tarso, o Kalunga, Anderson Háber, João Marcelo, Paulo César, Rubinho Jacobina (estes, amigos meus até hoje), Sérgio Rueda, Pluft, Alan Kilder, Carluxo, Gabriela, Mônica, Maira, além das amizades feitas no próprio Cineclube ou na livraria em anexo onde comprei livros raros que me acompanham até hoje, e também cartazes de cinema que decoraram meu quarto por muitos anos. Foi quando começou a fase do Cineclube-Bar. Havia o Bar do Ópera, o bar do Casseta e Planeta, o Amarelinho na Cinelândia, os botecos sem nome, onde bebíamos em pé e era prova de macheza comer ovos cozidos coloridos.
Até hoje tem filmes que identifico com os cineclubes. Como "Os demônios", de Ken Russel, que eu Paulo César assistimos no Estação Botafogo e ao fim, iniciamos uma salva de palmas que durou minutos. Meses depois, um amigo que disse que a hábito que bater palmas após as sessões havia virado moda no cineclube. Houve também "Saló", de Pasolini, o filme mais barra pesada do mundo. Trinta pessoas pagaram ingresso e só vinte chegaram até o final da sessão. Recordo também de "O anjo exterminador", de Buñuel, quando, ao fim, para fazer blague com a trama do filme, eu e Paulo Kalunga fingimos não conseguir sair da sala de exibição do Estação Botafogo. Teve outra vez que assisti a "Tommy" no Centro Cultural Cândido Mendes munido de quatro camparis no cérebro...
Fui morar em São Paulo, e aí começou meu caso de amor com os finados Cinecubes Bijou e Oscarito. Mais solitário do que gostaria, acabei tendo companhia em Bergman, Kurosawa e Antonioni nas noites frias paulistanas. Depois ia para alguma cantina no Anhangabaú ou no Brás (onde morava) beber vinho quente com canela e escrever sobre os filmes assistidos. Mas, a cultura de cineclube não é feita só com medalhões. Havia os filmes desconhecidos, de diretores que ninguém conhecia e vindos de países longínquos. É preciso lembrar que eram tempos pré-Internet e pré-Google. As pesquisas sobre filmes eram feitas na marra, com base nas revistas (ah, a saudosa Cinemim e a resistente Set) e no boca a boca. Um amigo sabia quem era um misterioso diretor polonês, aí indicava para os outros, e assim por diante. Desta forma, assisti a muitos filmes estranhos, como "Repo Men", "Liquid Sky", "Fome de viver". Havia as sessões surpresa. Pagávamos a entrada e sentávamos sem saber qual seria o filme exibido. Isso sem falar das sessões à meia noite.
É necessário falar ainda do Cineclube Natal. Poucas vezes o freqüentei nos idos tempos, mas particularmente lembro-me de uma vez, na qual eu e Paulo César assistimos "Apocalypse Now", quase em frente ao Colégio Maria Auxiliadora, em 1988, sob efeito de, digamos, substâncias estranhas. O drama de guerra já é estranho por si só, então, juntamos Tomé com Bebé, como se diz no interior. Claro que estes dias atuais de DVD, Moviecons e Cinemarks são bons, mas nada supera o charme da cultura cineclubista. Que tenta voltar. Vale a pena registrar o belo trabalho de Nelson Marques e companhia com o cineclube Natal, que exibe bons filmes (já assisti lá, entre outros, "Café da manhã em Plutão" e "9 canções"). O Cineclube Natal exibe filmes no TCP, Nalva Salão Café e Assembléia Legislativa. Maiores informações no blog www.cineclubenatal.blogspot.com

16 Setembro 2008

O navio


Cefas Carvalho

Leu o que havia escrito. Não gostou. Ou gostou de forma estranha, um gostar sem realmente apreciar. Na verdade, nunca amava o que escrevia. Ou talvez amasse, mas de forma inusitada, como deve ser o amor. Escrevera daquela vez sobre um navio, que, colhido em alto mar por uma tempestade, começava a afundar no oceano. Nunca estivera em um navio, antes, pelo menos não quem se lembrasse. Teria feito uma analogia? Que seria o navio? Sua vida? O amor que poderia se afogar no oceano do dia a dia? Ou, seriam apenas suas leituras passadas, remotas – Moby Dick, Odisséia – que vinham brincar em sua mente e o induzir a escrever. O navio afundou, pois então. Havia um barco salva vidas, mas apenas um e todos os quinze tripulantes fizeram um pacto para, juntos, morrerem no navio sagrado que construíram e com o qual sonharam em conquistar o mundo, ou pelo menos, um mundo, como o famigerado Cortés. Era o fim da história, então. Releu o que havia escrito. Sorriu para si mesmo e pensou se queria realmente ter escrito sobre um navio que afundada e um pacto de morte. Acendeu um isqueiro e queimou a folha de papel no cinzeiro...

01 Setembro 2008

Encantamento



Cefas Carvalho

Eu sabia que estava encantado por ela. Também conhecia o mundo – e as mulheres, mas afinal elas e o mundo são a mesma coisa – para saber que ela também estava encantada. O bar estava quase deserto, à meia luz, o som ambiente despejava Marisa Monte, ela traja vestido preto, o vinho branco...quase a perfeição, enfim. Bastava que eu não desse um passo em falso. Não dei. Falava sobre poesia, literatura, cinema, um pouquinho de política só para apimentar...opinamos sobre o referendo do desarmamento só para mostrarmos um para o outro que estamos atualizados com o mundo lá fora. Tolice, não havia mundo lá fora. Havia apenas os imensos olhos tristes dela, sempre parecendo à beira das lágrimas. Mas ela não chorava e nem eu a deixaria chorar. Ela apenas sorria com aqueles lábios de quem vai devorar o mundo. Ou a mim. Ela então perguntou se eu gostava do perfume dela...aroma de pitanga...foi quando o encantamento se tornou quase sólido, de tão presente. Sabíamos que um beijo era questão de tempo. E foi. No estacionamento, antes de chegarmos ao carro, enlacei-a e o encantamento continuou... agora amalgamado com o desejo... O fim da noite seria inevitável...mas, a realidade conspirava contra nós. Ela casada, eu idem. Ambos com compromissos nas próximas horas. Marcamos outro encontro discreto e fortuito para dali a uma semana. Estou encantada, suspirou. Eu também, respondi, no mesmo tom de voz ofegante. Quando nos deixamos, não sem custo, eu continuava em estado de encantamento. Mal poderia esperar a semana passar para revê-la... Todavia, a semana passou – afinal, o tempo sempre passa – e chegou o dia do encontro. Ao contrário da semana anterior, trabalhei quase até a hora de vê-a e cheguei no restaurante ainda sob a pressão e certo mau humor do trabalho. Ela demorou a chegar, o que aumentou minha irritação. O restaurante estava mais cheio do que da outra vez, com um barulho aos meus ouvidos insuportável. Pensei em mudar de restaurante quando ela chegou. Estava bonita – sempre o era – mas sem maquiagem e de calça jeans e blazer, parecia mais uma mulher de negócios, como as tantas que eu tinha que lidar todo dia, do que com a mulher sensual por quem eu havia me encantado. Também parecia cansada e de mau humor. Confessou que tivera problemas no emprego, mas decidimos não falar sobre isso. Pedimos vinho, mas, tenso, eu teria preferido uma dose de uísque. Ela reclamou que o vinho não estava suficientemente gelado. Ela tentou conversar sobre um livro que estava lendo, mas não prestei muita atenção... Cogitamos jantar, mas por fim, concluímos que era melhor não fazê-lo. Inventei que tinha um compromisso importante e ela respondeu, aparentemente aliviada, que compreendia. Olhamos-nos com atenção, algum pesar e uma boa dose de tédio, e ambos compreendemos, então: o encanto tinha acabado.

26 Agosto 2008

Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres


Cefas Carvalho


Olhou-se no espelho, radiante de felicidade, e disse para si mesmo: “Hoje vou conseguir morrer!” Sentiu-se então mais leve com este pensamento, sem aquele peso nas costas que lhe parecia todo o peso do mundo. Coçou a barba cerrada que sujava seu rosto e pensou em raspá-la. Tolice, raciocinou, não fará diferença posto que hoje vou morrer. Pegou o barbeador manual na pia e suavemente passou pelo braço, passeando a lâmina, na sua pele. Mas não moveu a lâmina no sentido horizontal, o que cortaria suas veias. Não queria morrer sangrando em um banheiro de hotel e tinha dúvidas se a pequena lâmina conseguiria provocar um ferimento que o levasse a uma morte rápida e indolor. Sim, queria morrer, mas não desejava sofrimento. Já tivera seu quinhão de sofrimento na vida e não queria mais uma cota na hora sagrada em que decidira deixá-la.

Saiu do banheiro e atirou-se na cama. Era como se estivesse em casa, como se estivesse em um lugar familiar. Foi quando atinou que não se lembrava do nome do hotel onde estava. Procurou descobrir nos lençóis, nas fronhas, em um possível cardápio em cima do frigobar. Nada. Não se importou mais com isso. Queria apenas pensar em morrer. Pensou em se atirar pela janela, mas o que menos desejava era alarde e espalhafato. Pensava também que tal tipo de morte atrapalharia muitas pessoas, talvez interrompesse o trânsito lá embaixo e não queria que isso acontecesse. Também imaginou com horror que a queda livre, ainda que brutal, talvez não o matasse, e sim apenas o deixasse tetraplégico. Seria pior que a morte. Começou a idealizar outro tipo de suicídio, quando percebeu que não sabia em que andar se encontrava. Na verdade, não recordava de ter entrado no hotel ou de ter preenchido a ficha na recepção. Pensou em abrir a janela para respirar ar puro e calcular onde estava, mas por alguma estranha razão desistiu da idéia. Também desprezou a idéia de telefonar para a recepção ou descer. Por alguma razão, tinha a certeza de que deveria permanecer naquele quarto e levar a cabo a decisão de simplesmente morrer. Foi quando observou, em cima da mesa ao lado da cama, um revólver calibre 38, velho e funcional. Jamais usara uma arma na vida, mas quando pegou o revólver experimentou uma sensação de familiaridade, como se já tivesse vivido aquela cena.

Acariciou a arma como quem faz carinho em um gato e conferiu se estava carregada. Tinha uma bala apenas, mais que suficiente para sua empreitada. Conferiu o cão da arma, engatilhou a bala e instalou o dedo indicador da mão direita no gatilho. Levou o revólver à têmpora, onde, sempre lera sobre isso, não havia a menor possibilidade escapar vivo uma vez atirando. Olhou em volta na tentativa derradeira de encontrar algo, um objeto, uma cor, um símbolo, que lhe parecesse familiar ou que fizesse lembrar algo. Inútil. Tudo lhe parecia inócuo e distante. Queria morrer e sabia que aquela era a hora. Pressionou o gatilho e ouviu dentro de sua cabeça, como um trovão, o barulho demente do tiro. Morri, pensou, tremendo de felicidade.

De repente, abriu os olhos. Sentiu o buraco em sua cabeça e a bala presa na parede. No mais, tudo continuava silencioso e deserto. Estava em pé, consciente e sem sentir dor. Aliás, não sentia qualquer sensação. Pegou um canivete do bolso e talhou um corte na mão esquerda. O sangue, ou um líquido parecido com ele, escorreu, mas não sentiu qualquer dor. Sabia que poderia retalhar dedo por dedo da mão que não sentiria rigorosamente nada. Descobriu então, entre o horror e o conformismo: já estava morto havia tempo. Só não havia percebido isso...

20 Agosto 2008

Coração: jogo de dados


Cefas Carvalho



Sentia o coração apertado, como se uma mão forte e impiedosa o esmagasse. Além de oprimido, o coração, acelerava como se na expectativa que algo fosse acontecer. Mas, sabiam ele e seu coração, que nada aconteceria naquele momento. Estava triste e só, como deveria ser. Dúvidas, tinha muitas: se deveria ter feito o que fez, arriscar a felicidade como quem aposta fichas em um jogo de dados... Certezas eram poucas. Entre elas, a de que não deveria escrever poesia, muito menos mostrá-las aos amigos. Divulgá-las, seria um pecado mortal. Apesar do que todos pensavam, não se deve escrever poesia quando se está muito triste. O fundo do poço não é amigo dos bons versos. Também decidiu não desfilar sua dor como quem passeia com uma roupa nova em uma passarela. Sua dor seria confinada ao quadrado sujo de uma solitária mesa de bar ou ao retângulo de uma folha de papel ofício branca, pronta a receber rabiscos, planos, idéias, frases soltas e desconexas... Aos garçons dos bares, aos amigos – falsos, em profusão, e verdadeiros – aos filhos e patentes, apenas sorrisos polidos e levemente melancólicos. Para não enlouquecer, escreveria. Como um louco, como se fosse morrer se não o fizesse. Escreveria de tudo: contos, crônicas, roteiros de viagens imaginárias, tabelas de campeonatos de futebol igualmente imaginários, desejava apenas ver a tinta azul da caneta correndo sobre o papel... desenharia cubos, rabiscaria plantas de casas, traçaria anjos e demônios... havia quem procurasse - quando da tristeza – o auxílio dos entorpecentes e outros prazeres fáceis. Preferia se afundar no trabalho e nas palavras, as queria em profusão, em excesso. No fio da navalha onde caminhava, entre a serenidade e o desespero, sabia que a verborragia poderia lhe salvar, ou, na pior das hipóteses, servir como ungüento.
Poderia escrever uma carta de amor. Para ela. Poderia escrever seu nome mil e uma vezes...
Poderia começar a escrever um romance, sobre um amor destinado a correr o mundo e a conquistá-lo, mas que se perdeu na vala fácil dos ciúmes e do cotidiano.
E foi isso que fez.

14 Agosto 2008

Lana


Cefas Carvalho


Chamava-se Lana, como na canção de Roy Orbison. Ela era bela e triste, como todas as canções do Roy. Conheci-a em um bar, lugar sagrado onde geralmente conhecemos as pessoas importantes que marcam a nossa vida. É tolice tentar descrevê-la. Bem sei que não tinha uma beleza convencional, tampouco era dona de imensos olhos azuis, como nos clichês românticos. Era bela e normal. Estava sozinha na mesa, iluminando o local com seus olhos melancólicos e oblíquos, como diria Machado de Assis de sua Capitu. Ganhei coragem para abordá-la e me convidei para sentar à sua mesa. Ela concordou, disse como se chamava – Lana... – e conversamos sobre tudo e sobre nada... Compartilhamos nossas tristezas, rimos das nossas parcas alegrias nesta vida, descobrimos que ambos estávamos sozinhos e à deriva, tanto naquela noite como na própria vida, e por fim convidei-a para passar a noite no meu apartamento. Compramos uma garrafa de vinho tinto barato, pegamos um táxi e nos trancamos em nosso pequeno universo. Foi uma noite inesquecível, com Lana em meus braços...daquelas noites que não deveriam terminar nunca. Terminados os jogos amorosos, cogitei pedir seu número de telefone e perguntar onde ela morava, e talvez jurar aos seus pés que queria vê-la mais mil vezes, mas considerei que quando acordássemos, pela manhã, eu faria tudo isso e muito mais. Dormi o sono dos justos e dos exaustos de tanto amar. Acordei com uma leve ressaca por volta das onze e quando dei por mim, percebi que Lana não estava mais no quarto. Não estava mais no apartamento, havia ido embora. Dando uma geral pela casa, percebi que tudo estava em ordem, ela não levara nada, mas também não deixara nada. Talvez só ainda mais tristeza dentro de mim. Recordei, mais melancólico do que nunca da canção de Roy Orbison: Oh beautiful Lana...

30 Julho 2008

Os papas só pensavam "naquilo"



Cefas Carvalho

Conversando dia desses com um amigo sobre atualidades e trivialidades, comentamos sobre a seqüência crescente de padres envolvidos em pedofilia e escândalos sexuais. "Antigamente isso não acontecia", suspirou, lamentando as mazelas deste nosso "admirável mundo novo". Contestei, registrando que fatos do gênero acontecem desde que o mundo é mundo, mas o homem teimoso como todo taurino, não arredou pé da sua idéia. Como também sou taurino, e além de teimoso, chato, decidi jogar as provas do que eu defendia na cara dele. Lembrei que havia lido meses atrás uma resenha sobre um livro cujo curioso título me interessou: "A vida sexual dos papas".

Corri até a finada AS Livros da Salgado Filho e eis que achei escondido numa prateleira no segundo andar o dito cujo. Após me certificar que não era uma picaretagem caça níqueis e sim um estudo sério (feito pelo historiador Nigel Cawthorne, editado pela Prestígio/Ediouro em 2002, R$ 40) comprei o livro. Tão bem escrito e cheio de fatos e anedotas que devorei suas trezentas páginas em três dias. O livro é delicioso não apenas para ateus (nobre categoria na qual este escrevinhador se inclui), agnósticos, iconoclastas e interessados em história de modo geral, mas para qualquer um que se disponha a entender que como diz o próprio Eclesiastes, "não há nada de novo sob o sol". Perversões sempre existiram, talvez tenham até diminuído, pelo menos no seio (ops) da Igreja Católica Apostólica Romana.

Mas, vamos ao livro. Ele relata que a mensagem cristã de abstinência ou moderação sexual caiu bem em uma Roma às voltas com perversões dos poderosos e liberalidade sexual. Contudo, com o passar dos séculos e tão logo os papas se ligaram à Casa Imperial e ao poder (papa Vitor I, em 190, foi o primeiro a manter relações cordiais com o imperador) a situação se inverteu e a cultural sexual romana contagiou o clero e a Igreja. Começaram a proliferar casos de padres envolvidos em escândalos sexuais, embora seja preciso ressaltar que nesta época o celibato era recomendado, não imposto aos padres.

Segundo Cawthorne, Sisto III (432) chegou a ser julgado pela sedução de uma freira. Zacarias (752) foi o primeiro pontífice a usar roupas paramentadas com ouro e jóias e abriu caminho para seu sucessor Leão III (795) inaugurar a era dos grandes banquetes papais. Ele teve, durante a vida e inclusive como papa, três esposas, que lhe deram 8 filhos, e no final da vida cercou-se de três concubinas. Mas na Idade Média tudo iria piorar...o século 10 ficou conhecido como o período da "pornocracia papal" quando duas prostitutas, Teodora e Mariozia manipularam o clero e o colégio de cardeais durante décadas.

Tudo começou quando Teodora deu sua filha Marozia, de 15 anos, de presente para o papa Sérgio III (904). A partir daí, elas entraram em ação, até que Marozia conseguiu fazer em 931 que seu filho João XII fosse ungido papa. Segundo os historiadores, ele era bissexual e sádico e escandalizou a Igreja ao ordenar bispo um menino de 10 anos. Cinqüenta anos depois, um menino de 12 anos, Benedito IX seria eleito papa, e reza a história que ele era não apenas bissexual e zoófilo, mas praticante de satanismo.

O século 11 é marcado por discussões teológicas sobre masturbação, sodomia e posições sexuais (isto daria pano para a manga em outra crônica...) e neste contexto o celibato foi oficializado pelo vaticano no Concilio de Piacenza em 1095. No mesmo dia, a Igreja decidiu vender como escravas as esposas dos padres que eram casados. Mas, permitia que os padres tivessem uma - apenas uma, que fique claro, concubina, desde que pagassem ao papado uma taxa anual.

Neste contexto (estamos na bruta Idade Média, é bom não esquecer) e cada vez com mais poder e impunidade, proliferam histórias bizarras de papas: Anacleto II (1130) estuprava freiras, Gregório X teve que afastar da Igreja seu amigo o bispo de Liége porque ele tinha 70 concubinas e 65 filhos, Bonifácio VIII (1294) teve como amantes ao mesmo tempo uma mãe e sua filha, Clemente VI (1342) comprou um bordel para o papado (inclusive recentemente o historiados Joseph Mc Cabe descobriu a escritura do negócio, “feito em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”, segundo o documento), Inocêncio VII (1510) em seu leito de morte só queria um alimento: leite materno. Arrumaram-lhe uma ama de leite. Seu médico teve a brilhante idéia de fazer-lhe uma transfusão de sangue e arrumou três jovens para isso...as três morreram no processo.

Mas, reza a história que o pior de todos os papas foi Alexandre VI (1492-1503), nascido Rodrigo Borja na Espanha e que na Itália teve o nome mudado para Bórgia, dando origem à poderosa e trágica família. Este papa era assassino, mutilador, torturador e um predador sexual, tendo entre seus feitos, seduzido uma mulher e suas duas filhas e tido um longo caso com sua própria filha, a célebre Lucrecia Bórgia. Segundo o livro de Cawthorne, Alexandre VI foi eleito papa graças ao voto de um monge que pediu em troca uma noite com Lucrecia, na época com 12 anos. Rodrigo nem hesitou em ceder a filha...

A partir de 1600, rareiam as histórias picantes envolvendo papas, por pelo menos duas razões históricas: a Reforma, que gerou o protestantismo e obrigou a Igreja Católica a se repensar, e o surgimento dos livros impressos, que possibilitaram a disseminação de idéias e histórias com maior rapidez e quantidade. Desnecessário dizer que a partir do século 19 a força da imprensa e da mídia tornou quase impossível a tolerância da opinião pública a deslizes dos papas. O que não quer dizer que eles não aconteçam... De qualquer forma, o que vem à tona são os casos envolvendo padres. Mas nada que se compare ao que os papas já fizeram, a institucionalmente em boa parte dos casos. Bem, uma vez contemplado com tantas histórias, gravuras, fatos documentados meu teimoso amigo capitulou e teve que admitir que - pelo menos no passado – suas santidades só pensavam mesmo "naquilo"...

21 Julho 2008

O amor é um pássaro rebelde



Cefas Carvalho

Era tão simples. Bastava pedir perdão. Eu sabia que ela iria me perdoar. Bastava um telefonema, portanto. Ou mandar um buquê de rosas com um cartão de desculpas. Ela já havia me perdoado antes, como eu a ela. Desde o dia em que nos conhecemos, em uma festa, apresentados por uma amiga em comum. Eu jamais vira uma mulher com os olhos tão brilhantes, como mais tarde confessei. Ela assinalou que seus olhos brilhavam por minha causa. Naquela noite, dançamos muito, e em mais de uma oportunidade tive de pedir desculpas quando pisei em seu pé, mau dançarino que sempre fui, o que gerou muitas risadas. Horas mais tarde, já na cama, no porto seguro de meu apartamento, ela me pediu desculpas por ter pensado em pedir um táxi e sair às pressas, como quem foge. Estava feliz e sentia dificuldade em administrar a própria felicidade, confessou. Com o perdão de lado a lado, iniciamos nosso romance, amalgamando o mais terno dos carinhos com o fogo da paixão. Ela pediu em uma tarde chuvosa, enquanto passeávamos em um parque, que eu definisse o amor. O amor é um pássaro rebelde, respondi. Ela sorriu, sabia que era um trecho da ópera Carmem. Gostava de ópera, como de música, como de literatura, teatro, poesia e comida japonesa, como eu. Cuidado, pois os pássaros rebeldes não suportam ficar na gaiola e podem morrer nas grades, tentando sair dela, sorriu. Respondi que, da gaiola onde eu estava, jamais tentaria sair. E era verdade. Contudo, mesmo dentro da gaiola, dois pássaros rebeldes bem poderiam, mesmo sem querer, se ferir. Em alguns momentos fui eu quem a feriu, exaltado diante de tanto sentimento. Outras vezes, foi ela quem me agulhou, desconcertada com a profusão do mesmo sentimento. Ambos pedimos perdão um ao outro e a paz voltava a reinar em nosso castelo feudal de amor, onde costumeiramente levantávamos uma ponte levadiça para nos protegermos dos falsos amigos, do mau olhado, das leviandades, inimigos implacáveis do amor. Desta forma, o tempo foi passando e nosso amor, tal como um pássaro rebelde, perseverava, mas se debatendo nas grades da gaiola. Alternamos planos – ter filhos, viajar para os lugares dos nossos sonhos – com os fantasmas do rompimento. Chorei e gerei lágrimas. Até que em uma noite quente como o inferno, ela perguntou se eu a amava. Respondi que sim, mas com uma distração fatal, posto que minha mente vagueava em idéias diversas e meu coração estava pesado, graças a uma discussão tola na noite anterior. Diante da minha resposta ela nada falou. Foi para o quarto, leu um livro e adormeceu. Rabisquei em um papel minhas malditas idéias, tomei um copo de leite quente e fui dormir ao seu lado. Religiosamente, estivesse ela dormindo ou acordada, eu a beijava no rosto, à guisa de boa noite. Mesmo dormindo, ela ensaiava um meio sorriso quando eu a beijava. Naquela noite desgraçada, por sono ou negligência, não a beijei. Quando acordei, na manhã seguinte, ela não estava na cama. Nem no quarto ou em qualquer lugar na casa. Suas roupas não estavam no armário, perto das minhas. Encontrei na mesa um bilhete, escrito em letra nervosa, onde ela explicava que percebera que eu não a amava mais. E que não suportaria mais viver comigo sem ter a certeza do meu amor. Pensei em ligar imediatamente para seu celular, ou para a casa da sua mãe, mas, por alguma razão, não fiz nem um nem outro. Não tenho nada que pedir perdão, pensei comigo mesmo e voltei a dormir. Horas depois, ao acordar novamente, a dor me acertou em cheio, como um soco. Era tão simples, bastava pedir perdão, como das outras vezes. Mas, o orgulho era um pássaro tão rebelde quanto o amor, de maneira que fiquei me jogando nas paredes da minha gaiola imaginária até me decidir por procurá-la e pedir perdão. Seu celular estava desligado. Liguei para a casa dos pais dela. Uma tia, aos prantos, atendeu e me deu a sentença: ela havia se matado, com uma mistura de tranqüilizantes, uísque e formicida. Era tão simples. Bastava ter pedido perdão na hora certa. Abri a geladeira, bebi um copo de leite gelado e saí pela casa fechando todas as janelas, para em seguida vedá-las com massa. Abri a tampa do forno, liguei o botão do gás e descansei a cabeça na grade de ferro, esperando o momento em que eu teria a chance, felizmente, de pedir perdão a ela. E dizer que sim, eu a amava. Até à morte

15 Julho 2008

Uma ciranda em volta da fonte


Letra: Morrissey

Tradução livre: Cefas Carvalho

(Obs: Abaixo da tradução, segue a letra de “Reel Around the fountain”, canção de Morrissey/Marr, da banda inglesa The Smiths, gravada para o álbum “The Smiths”/1984)

Chegou a hora da revelação
De como envelheceste uma criança
Tomando-a pela mão...

Uma ciranda em volta da fonte
Recebo teu tapa em meu rosto
E o aceito, neste instante!

Quinze minutos ao teu lado
Sabes que eu jamais diria “não”
Todos diziam que estavas virtualmente morto
E como estavam todos errados...

Quinze minutos ao teu lado
Sabes que eu jamais diria “não”
Todos diziam que eras maria-vai-com-as-outras
E não estavam de todo errados...

Chegou a hora da revelação
De como envelheceste uma criança
Tomando-a pela mão...

Quinze minutos ao seu lado
Sabes que eu jamais diria “não”
Ninguém reconhece teu valor
Apenas eu, meu amor!

Sonhei contigo noite passada
E por duas vezes caí da cama gelada
Portanto, faça de mim uma borboleta
Em sua coleção
Mas, “leve-me para o abrigo de tua cama”
Nunca disseste a quem tanto te chama
Duas colheres de açúcar, por favor
Podes até bancar a mais fina flor
Pois também eu, o farei...

Um encontro lá na fonte
Um empurrão bem no meio do pátio
Algo que aceitarei com lentidão...

Quinze minutos ao seu lado
Sabes que eu jamais diria “não”
Ninguém reconhece teu valor
Apenas eu, meu amor!

********************

Reel around the fountain

It's time the tale were told
of how you took a child
and you made him old

It's time the tale were told
of how you took a child
and you made him old

Reel around the fountain
Slap me on the patio,
I'll take it now...

Fifteen minutes with you
well, I wouldn't say "no"
Oh, people said that you were virtually dead
and they were so wrong

Fifteen minutes with you - Oh, I wouldn't say "no"
Oh, people said that you were easily led
and they were half-right

Fifteen minutes with you - Oh, I wouldn't say "no"
Oh, people see no worth in you, but I do

I dreamt about you last night
and I fell out of bed twice
You can pin and mount me like a butterfly
But "take me to the haven of your bed"
was something that you never said
Two lumps, please
You're the bee's knees
but so am I

Oh, meet me at the fountain
Shove me on the patio,
I'll take it slowly...

Fifteen minutes with you - Oh, I wouldn't say "no"
Oh, people see no worth in you, but I do

07 Julho 2008

Chuva


Cefas Carvalho


Nove e quinze da noite
Uma canção de Cartola inunda a sala
Uma chuva rala cai lá fora
Cubos de gelo dançam em transe
Em um copo sempre cheio.

O copo não se esvazia
O coração, sim.

Onze e quinze da noite
De uma noite que não terá fim
Um vazio que transborda o mundo...
Cubos de gelo bailam em delírio
Em um copo sempre presente

Enfim, o copo se esvazia.
O coração também.

30 Junho 2008

Cavaleiro andante


Cefas Carvalho


Sou um cavaleiro andante. Por Deus que, com minha arma e meu escudo, honrarei o brasão de minha família e não perecerei nas mãos destes malditos que me perseguem! Se me escondo neste aposento escuro deste castelo amaldiçoado é porque os infiéis são em grande número e preciso permanecer vivo para defender meu rei e meu castelo. Os malditos querem me capturar e me submeter a incontáveis torturas. Ouço ruídos e percebo que os vilões estão atrás de mim. Preciso fugir deste calabouço e partir para minhas nobres epopéias, matando dragões e salvando donzelas. Sou um cavaleiro andante, repito, e com minha armadura e minhas armas, levo a justiça até os confins do Reino, com a benção do meu rei, imperador destas terras, e de Deus Nosso Senhor. Empunho minha espada sagrada e aguardo os ímpios adentrarem o aposento. Gritos de guerra e urros quase bestiais. Percebo que a legião de feiticeiros, todos de branco, começa a me cercar. Dois dos mandriões carregam consigo um pano mágico, com o qual querem me aprisionar. Outro feiticeiro tem entre os dedos a agulha do demônio... Não se aproximem de mim, seres infernais, afastem-se de um cavaleiro ungido pelo rei, larguem-me cães do inferno...

*

- João, onde coloco essa vassoura?
- Lá no almoxarifado. Rapaz, hoje o homem estava brabo. Ele segurava a vassoura como se fosse uma espada...
- Esse aí está cada vez mais doido. Trabalhar em hospício é assim mesmo, meu caro...
- Mas com a injeção que tomou, vai dormir até amanhã. Ei, hoje tem jogo lá no caminho do bairro?
- Rapaz, acho que sim. Bater uma bola é bom depois de um dia desses. E o cara gritando que ia salvar princesas, hein?...

14 Junho 2008

O carrinho de metal


Cefas Carvalho


Sujo, feio, mal ajambrado, triste em sua velha camisa do Flamengo e em seu calção roto, o menino olhava pela vitrine da loja fechada, o carrinho de ferro. Sonhara com aquele brinquedo. Imaginava a inveja dos amigos de favela ao verem o carrinho, vermelho, brilhante, novinho em folha. Não tinha comido nada naquele dia inteiro, salvo um pão com mortadela. Mas não pensava em comprar comida. Pensava no brinquedo. Percebeu que um veículo parou no meio fio, bem atrás dele. Do carro, desceu um senhor gordo, de cabelo e barbas brancas, com um sorriso no rosto. Parece Papai Noel, pensou o menino. Viu que o homem botou a mão no bolso. Ganharia uns trocados. Estava com fome, queria um sanduíche, mas se economizasse o dinheiro, poderia comprar o carrinho dali a alguns dias. Ah, quando os amigos o vissem com o brinquedo. Sentiu, de repente, uma pontada seca no peito, como uma agulha a furar sua pele. Um gosto estranho lhe subiu à garganta. Uma vontade de cuspir. Tossiu sangue e percebeu, então, a camisa do Flamengo úmida, com o tecido queimado. Olhou para o homem e só então observou a arma fumegante em sua mão direita. Caiu no chão, sentado, não sabendo se olhava para o homem ou para o brinquedo pela vitrine. Sentiu que um sono lhe invadia. Parecia Papai Noel, pensou, antes da dar a última olhada para o carrinho de metal.

13 Junho 2008

Ele, a Realidade, os Livros e os Outros



Cefas Carvalho

Escapava à realidade se afundando nos Livros. Ou melhor, entrava – quando nos Livros – em uma realidade paralela, mais ordenada. Em mais de uma ocasião, ao longo da vida, imaginou se a realidade não consistia nos Livros, sendo o chamado mundo real uma mera ficção, de qualidade duvidosa. Quanto a escapar à realidade, fazia isso desde criança; para não ouvir os pais discutindo, para não participar das brincadeiras violentas e idiotas dos colegas de escola e dos amigos da rua onde morava. Sempre que a realidade lhe aborrecia ou lhe seria dolorosa, abria um Livro, qualquer Livro. Tinha as suas preferências: a princípio Monteiro Lobato, Julio Verne, Alexandre Dumas, a coleção Vaga Lume... Com o passar dos anos, foi se acostumando ao mundo como ele era: perigoso, misterioso, falso – mas manteve o hábito de se esconder nos Livros. Um esconderijo que, na verdade, se tornava cada vez mais voluntário, prazeroso e absorvente. A esta altura, já abandonara Conan Doyle e Agatha Christie e começava a descobrir Machado de Assis, Jane Austen, Emily Bronte... Percebia que os Livros, além de fuga à realidade, podiam não apenas relatar aventuras e convidar à elucidação de mistérios, mas também estimular a reflexão, criar imagens e retratar realidades complexas, estranhas. Cresceu, então. A realidade à sua volta mudou. Ficava cada vez mais séria, e os Livros também. Descobriu Orwell, “1984” o impressionou... Caiu em suas mãos “Fahreinheit 451”, que também o marcou... Adentrou o mundo dos espelhos e sombras de Borges, refugiou-se nos clássicos franceses e russos. Agora, o que antes era indiferença para com ele passou a ser intolerância. Havia os Livros. Havia a realidade. E havia os Outros. Eles, os Outros, ou o mundo, o que lhe era a mesma coisa, começaram a lhe tentar impor regras. Era obrigado a dançar, ouvir músicas histéricas em volume máximo, contar piadas sem graça, se divertir, enfim. Passou a ser tratado como anti-social. A princípio não levou a sério. Tinha os Livros. Tinha Balzac, Kazantzakis, Saramago, por que precisaria dos outros? Percebeu que os Outros passaram a não mais lhe dirigir a palavra. Não se importou. Afinal, o que tinha a falar com os Outros? Até que um dia, inventaram leis proibindo ler Livros em lugares públicos. Passou a ler em casa, trancado na solidão confortável do seu quarto. Ouviu dizer que ler seria proibido. Não se importou, como sempre. Leria ainda mais trancado, a sete chaves, em casa. Um dia, entraram em sua casa, de repente, e o levaram para uma espécie de tribunal, escuro, sombrio, frio, como em um livro de Kafka. Sem falar muito sobre o que estava acontecendo, tiraram-lhe os Livros. Perguntaram-lhe se os renegaria, se aceitaria queimá-los. Seria libertado e, melhor, aceito no convívio dos Outros. Viajaria, gozaria a vida. Respondeu afirmando que leria até quando pudesse. Furaram-lhe os olhos. Em meio à dor lancinante lembrou-se dos poetas cegos que tanto lera; Borges, Milton, Glauco Mattoso, lembrou de Édipo... Ó treva indescritível que me envolves, nuvem que não consigo dissipar... Não precisaria dos olhos. Tinha todos os Livros que lera em sua mente. Começou a recitar poemas que amava, de Lawrence, Neruda, Bandeira... Cortaram-lhe a língua. Sangrando, ao chão, escreveu com o dedo na poeira do piso um verso. Morreu com um sorriso nos lábios, e com cada palavra de cada Livro que lera na vida em sua mente. Os Outros correram para ver o que ele escrevera: Bendita a morte que é o fim de todos os milagres...

05 Junho 2008

E meu coração precisa dos seus passos



Cefas Carvalho

Acelerado, aos coices, feito cavalo indomado, meu coração dispara quando meus olhos testemunham a entrada dela na sala. Aos olhos, meros escravos do coração, cabe o deleite de testemunhar sua beleza, a pele de porcelana, o olhar luminoso saído de uma musa de Da Vinci, o sorriso que muito insinua e pouco revela... ao coração, navio na tempestade, desgraçado que se perde a bombear sangue aos saltos, cabe a sensação que o corpo inteiro vai explodir. Percebo, com o coração aos arranques, que ela se aproxima de mim; é a vez do olfato entrar em cena, mal cerro os olhos... sinto seu perfume, cujo aroma não consigo identificar, mas que se torna inconfundível quando mesclado à sua pele... Ela fala algo, mas também não consigo identificar, talvez pronuncie verbos sagrados na língua dos anjos, linguagem que não domino e jamais dominarei, posto que aprendi desde cedo a linguagem terrível dos mundos infernais... mas sua voz faz meu coração aumentar seu ritmo, como vendaval que sacode freneticamente as plantas... Abro os olhos então e testemunho seu sorriso. Ela se volta, suave e elegantemente e anda em direção ao sacro lugar onde, adivinhava eu com o instinto infalível dos que amam, seria nosso encontro. Percebo, então que meu coração precisa dos seus passos e a acompanho como as crianças seguem a melodia mágica do flautista...

23 Maio 2008

Uma mulher vestida de lua



Cefas Carvalho

Quando percebeu os olhos dela fixos nos seus, compreendeu que aquela mulher entraria na sua para nunca mais sair dela. Como se ligados por algum código secreto, começaram a conversar como se o fizessem havia anos, como se conhecessem de outros tempos, talvez de outras vidas. Sem hesitação, sem pudores, ele pegou na sua mão e teceu elogios à sua beleza, aos seus olhos brilhantes. Celebrou sua pele clara, leitosa, como se fosse feita de lua. Era uma mulher toda vestida de lua. Não tardou que os lábios de um procurassem os do outro, como velhos cúmplices. O beijo se deu como se fosse impossível existir um mundo onde não se beijassem. Falaram sobre si mesmos, sobre a vida e sobre o futuro, juntos. Fizeram planos, viagens, filhos, obras, alegrias e prazeres. Juraram um para o outro não apenas uma vida eterna em comum, mas a felicidade eterna, quimera talvez mitológica, mas que estavam dispostos a tentar. Ele jamais se sentira tão feliz em sua vida de tantos dissabores. Deram as mãos e foram caminhar na floresta, sob as bênçãos da lua cheia e das estrelas que venciam o firmamento. Caminharam como se flutuassem. Até que por um único e breve instante ele largou a mão dela, e, aturdido, a viu flutuar, até levantar-se do chão e voar a uma distância onde não poderia alcançá-la. Ela olhou para baixo e percebeu o desespero dele, mas não havia o que fazer. Ele percebeu que ela se fora, se unir à lua, se perder no brilho inefável daquela noite mágica e trágica. Acordou de repente. Apertou os olhos, à guisa de despertar definitivamente e olhou em volta. O relógio marcava nove e quinze da manhã. Papéis e livros se espalhavam em volta do colchão, disputando espaço com as latas de cerveja amassadas e o cinzeiro sujo. Olhou o porta-retrato, onde a foto dela ainda perseverava, como uma ferrugem que se une ao metal. Olhou seu sorriso luminoso, seus olhos de paixão, sua pele da cor da lua... lembrou do sonho que tivera. Pensou em telefonar para ela, mais uma vez. Mas, desistiu. Não poderia ter a lua em suas mãos. Fora feliz e deixara a felicidade escapar entre seus dedos. Perdera para o firmamento.

13 Maio 2008

Pai, por que me abandonaste?



Cefas Carvalho

Dor... que sabem estes infelizes sobre a dor? Não me venham com as dores da alma, as dores do espírito... estas são curáveis com o tempo, com uma palavra doce, com uma recordação dos dias felizes... a dor que conta é a gerada pelos cravos entrando na carne, dilacerando veias e ossos... uma dor que começa funda, intensa, depois vai diminuindo e se tornando estranhamente estável, como uma anestesia, só que à base de dor. Depois vem o cravo, um só, que entra nos pés entrelaçados, com uma única martelada, potente, decidida. A dor dos pés é mil vezes mais intensa que a das mãos e é possível ouvir os ruídos dos ossos estilhaçados pelo aço... Que sabem eles sobre dor, portanto? Não há dor que se assemelhe a esta. Não existe chibata ou espinhos em forma de coroa que possam gerar mais dor que os preços a grudar um corpo em dois pedaços de madeira a fazer - da carne e da madeira - uma maldita cruz, que nada tem de sagrado. É um método de infligir dor e morte a um homem, que deixa de sê-lo após pregado na madeira como um animal. E passam as horas e a dor nem aumenta e nem diminui, apenas se modifica. Vem em ondas, em camadas. Uma dor aguda, latejante, que quase leva à inconsciência, mas, infelizmente, não é forte o suficiente para trazer o sono ou tirar a vida. Dor... que sabem ou saberão tantos milhões de infelizes sobre a dor? Só sabe sobre a dor quem tem três cravos imensos mesclados ao corpo e vê àquela desgraçada mulher que teve a má sorte de me parir chorando na areia ao testemunhar com os olhos que a terra há de comer o filho maldito pregado em uma cruz de madeira. O que, em meio a tanta dor, eu poderia gritar para o mundo, senão Pai, por que me abandonaste?

12 Maio 2008

Caiu a máscara de Jajá



Cefas Carvalho

Pessimista (ou realista) que sou, nunca fui muito de acreditar que as pessoas podem mudar para melhor. Geralmente, mudam para pior. Também nunca fui muito de crer que de um rio poluído pudesse sair água potável. Mas, eis que a realidade por vezes nos surpreende e nos brinda com coisas inusitadas. Neste sentido, tive uma alegria nos últimos tempos com o ilustre senador José Agripino Maia, de quem jamais esperei ter qualquer tipo de satisfação. Após tantos anos acompanhando os "rabos de palha" de Jajá e seus vitupérios contra o Governo Lula e qualquer coisa se assemelhe à Esquerda e aos movimentos progressistas, tive a satisfação de assistir a um ato falho do "democrata" em pleno Senado, por ocasião da sabatina à ministra Dilma Roussef sobre o dossiê contra os "tucanos". Agripino, tomando como base uma entrevista da ministra à Folha sobre seus tempos de presa política na época da ditadura militar, questionou se ela não mentiria no Senado como mentiu quando presa e torturada. A resposta de Dilma já entrou para a história da política brasileira e dos Direitos Humanos no país. "Numa democracia, se fala a verdade, mas numa ditadura se mente para salvar a vida dos iguais, para não morrer". Lembrou ainda que estavam em lados opostos nos anos 70, Dilma, guerrilheira, e Jajá, curtindo com a família as benesses da ditadura, prefeito biônico que foi. Dilma foi aplaudida e se entrou como investigada, saiu como heroína. Na opinião de muita gente, e minha, Agripino lançou a candidatura de Dilma à presidência da República. Leio que muitos oposicionistas se irritaram com Jajá, posto que ele não deveria ter colocado Dilma na condição de torturada por um regime brutal. É que no processo mental de Agripino, não houve ditadura e sim "revolução", como muitos ainda tratam o Golpe Militar de 64, que privou o país dos diretos básicos durante duas décadas. Talvez o ex-pefelista tenha saudades dos tempos em que familiares seus eram nomeados governadores sem disputa de votos democrática. Talvez o senador ache realmente que os jovens que se insurgiram contra um regime opressor devessem sofrer um pouco no pau de arara para "tomarem jeito". O ato falho de Agripino reflete como pensa e sente parte da elite brasileira na faixa dos 50 anos, que, no fundo, tem nostalgia dos tempos em que os militares batiam primeiro e perguntavam depois e que os prefeitos eram ungidos com base na amizade que tinham com os militares mandatários de plantão. Caiu a máscara do senador. Bem vindo à democracia, Jajá.

02 Abril 2008

Nascente


Cefas Carvalho




Descobri, enfim, a nascente

do Potengi

Ele nasce na minha infância...



Rio feito de água e memórias

de uma Natal que não mais existe

(Se é que Natal existiu algum dia

a não ser na minha imaginação

e nos delírios de Cascudo...)



Assisto ao pôr do sol

no Potengi

Como se fosse a última vez que o faço...

14 Março 2008

Não, não e não!



Cefas Carvalho

Tarde dessas, na Livraria Siciliano, depois de tomar um café expresso, folheei, por alguma mórbida curiosidade, um destes livros de auto-ajuda, que me provocam verdadeiro asco e que fazem a fortuna de gente como Leo Buscaglia, Shiniashiki e picaretas do gênero. Já havia dado uma olhada rápida naqueles livros que versam sobre como encontrar o amor e naqueles com analogias sobre águias e passarinhos, mas naquela tarde descobri um livro onde o autor – cujo nome felizmente não lembro – tinha fascinação pela palavra “sim”. Com base em supostas teorias psicanalíticas e sociológicas (pobres Freud e FHC) o autor defende que devemos ser “afirmativos e positivos” e que devemos dizer mais “sim”, para nós mesmos, para nossos amigos, para os filhos... Pois instantaneamente reagi ao “psicólogo-sociólogo” e inventei minha própria filosofia do “não”. Pois, em tom de auto-bravata e, confesso, deboche, decidi me aferrar ainda mais ao “não”. Não acho que o Brasil seja o país do futuro, não tenho orgulho em ser brasileiro, não choro ao ouvir o hino nacional, não torço pela seleção canarinho na Copa do Mundo, não, não e não. Não acredito mais na Esquerda brasileira, não confio na polícia do nosso país (principalmente depois de assistir a “Tropa de Elite”). Não vou conversar miolo de pote na fila do banco, nem vou dar umas moedas para o mendigo profissional que dá expediente na pracinha. Não vou dizer que respeito todas as religiões, posto que respeito as pessoas, mas não os credos, e não vou acreditar que deus está em todas as coisas, pois ainda que ele exista duvido que esteja nas baratas, nos pedófilos e nos serial killers. Não vou achar que tudo vai dar certo num passe de mágica ou por obra divina, já que acredito no postulado de Geraldo Vandré que quem sabe faz a hora não espera acontecer. Não, não vou acreditar que devo sorrir para todos porque isso vai me fazer bem. Não vou deixar de tomar café em quantidades industriais porque a última pesquisa na Suécia decidiu que cafeína faz mal. Não deixarei de comer pizza, massas e de beber minha sagrada cerveja gelada. Não vou fazer tudo que meus filhos pedem, para que não cresçam mimados e alienados, achando que o mundo é deles, correndo o risco de queimarem índios pensando se tratar de mendigos. Não vou deixar de ler à noite de me madrugada para poupar minha vista, assim como não vou deixar de ouvir música em alto volume para preservar meus tímpanos. Também não vou deixar de me entregar ao amor com medo de sofrer e não vou poupar esforços para este amor cresça tal qual o musgo na pedra, cantado por Violeta Parra em “Volver a los 17”. Em suma, minha vida é cercada de “nãos” em vez de “sims” e é com estes “nãos” que vou a tocando até o dia malfadado em que em vá desta para melhor ou que, como é mais provável que aconteça, eu volte a ser pó, posto que do pó devo ter vindo.