21 Maio 2012

Lúcifer melancólico

Cefas Carvalho

Caído sabe-se lá de onde - posto que nas coisas sobrenaturais não existe em cima nem embaixo - desde primórdias eras, Lúcifer estava melancólico. Não que alguma vez tenha estado alegre (ao contrário do que se pensa, o Mal não é necessariamente sádico, ou seja, não tem prazer na dor alheia), mas, daquela vez, sua melancolia parecia mais aguda.
Havia alguns séculos pensava se tudo aquilo realmente valia a pena. É certo que o acordo que fizera com Deus era para toda a Eternidade, seja lá o que fosse isso, mas não conseguia mais ver sentido naquele mecanismo. Não era sequer mais necessário que ele, Lúcifer, semeasse o mal, na verdade, jamais o fora... O Homem era naturalmente mal, não havia nada que ele, pobre diabo, anjo caído incompreendido, pudesse criar de novo ou original (muito menos o pecado, criado pelo próprio Deus...) nesse quesito (pelo contrário, os seres humanos diariamente o surpreendiam quanto ao repertório de atrocidades), portanto - e dissera isso centenas de vezes a Deus - seu papel já era inútil.
- E o que você sugere?, perguntou Deus, com a mistura de ira e ironia habituais: Ir embora?
Lúcifer manteve o silêncio, mas, em seu íntimo, começou a tomar uma decisão.
Contudo, durante incontável tempo continuou desempenhando o papel que dele se esperava, de administrador dos lugares infernais. No início, divertia-se com a mitologia que faziam dele e seus domínios: Somente a fértil mente humana para criar figuras como Caronte, Cérbero e inventar caldeirões fumegantes e tridentes afiados. Aliás, detestava a imagem medieval que lhe fizeram, com chifres e patas de bode... Se não conseguia entender os propósitos de Deus entendia muito menos os seres humanos. Estava cansado tanto de um como de outros.
Até que lhe veio a vontade imperiosa, quase obsessiva, de terminar com aquilo tudo. Sabia que não seria fácil, na verdade, sabia que só havia uma maneira: a de desejar morrer com toda a vontade que possuia. Tanto as criaturas infernais como as celestiais eram imortais, porém, nem mesmo a imortalidade era imune ao desejo de desvanecer, definhar.
E foi o que aconteceu.
Definhando lentamente, Lúcifer preocupava aos demônios de estirpe inferior, temerosos tanto que ele - o primeiro dos anjos caídos - desaparecesse do universo e, pior, do imaginário humano, como que atraísse a ira divina (contudo, neste aspecto Lúcifer era mais lúcido que todos: o que Deus poderia fazer com ele? Que castigo poderia receber?).
Até que chegou o dia que Deus mandou um recado a Lúcífer. Desejava encontrá-lo no limbo onde conversavam, já que nem o Pai Celestial podia pisar no Inferno e nem o senhor das trevas tinha permissão para adentrar no Paraíso (embora o próprio Deus já estivesse entediado com essas regras milenares).
Mal chegou ao limbo, alquebrado, melancólico, realmente chegando ao fim, Lúcifer foi surpreendido por Deus.
- Que pensa que está fazendo, meu filho?
Surpreso com o tratamento delicado em vez da tradicional ira (os dois não conversavam civilizadamente desde o episódio de Jó), Lúcifer preferiu não recorrer às particularidades atribuídas a ele (mentira, intriga, falsidade) e foi sincero:
 - Estou cansado de tudo! Quero morrer!
 - Sabes que és imortal!
 - Mas, há uma maneira de morrermos. E, se não percebeu, eu já estou definhando.
 - Não faça isso, meu filho.
 - Odeio quando me chama de meu filho...
 - Mas, és meu filho, como todos os anjos, caídos ou não.
 - De-me uma razão para eu não morrer.
 - Sim, a darei: Por que sem tu, eu morrerei também...
 - Já discutimos isso...
 - Sim, e chegamos sempre a mesma conclusão. Não podes morrer. Preciso de você!
 - O senhor diz isso há milênios...
 - Por que é verdade! Sabes bem disso...
 - Era uma verdade em idos tempos. Hoje as coisas mudaram.
 - Nada mudou, meu filho. A humanidade é a mesma!
 - Eu não sou mais necessário. Além disso não aguento mais o meu papel na engrenagem das coisas...
- És tão necessário hoje como no ínicio dos tempos. Porque eu não seria mais necessário sem tua presença. De qualquer forma, para acabar com sua melancolia, proponho um acordo. Que achas de trocarmos de papéis?
 - Como assim? - estranhou Lucifer.
 - De tempos em tempos, e permito que você os determine, nós trocamos os papéis. Tu assumes o reino celestial e eu, os terrenos infernais.
 - Mas, como?
 - Esquecestes que eu sou onipotente e onipresente e determino o que pode ser feito ou não. Já brincamos com Jó, já testamos até onde Jesus poderia sentir dor, por que não trocarmos de lugar durante um tempo?
Lúcifer sentiu um comichão de vida envolver-lhe, e lembrou dos tempos imemoriais em que queria ser mais do que Deus, até que, os milênios no Hades lhe mostraram que não apenas era impossível ser mais do que Deus, mas que não havia razão para desejar se-lo. O mecanismo estava em funcionamento e nem o Pai Celestial conseguiria mais interrompe-lo, ainda que houvesse todas aquelas ameaças de Apocalipse, Fim dos Tempos... Apenas artifícios para manter os homens ocupados, pois que o mundo visível jamais acabaria, tanto Deus como Lúcifer sabiam com exatidão. Ambos sabiam também que, na verdade, faziam parte de um mecanismo ainda superior a eles mesmos, misterioso, desconhecido.
Já revigorado, Lucifer sorriu e aceitou a proposta. Voltou para o Inferno cheio de alegria, à espera dos dias em que comandaria as legiões divinas. Já era sábio o bastante para saber que nada mudaria. Mas, todos necessitam de uma mudança de ares, não é mesmo?


Imagem: Gustave Doré

09 Maio 2012

Os olhos salgados - Capítulo 2


2


Não quero crer que seja necessário me estender sobre o acidente fatal sofrido por Marla, afinal, foi divulgado com certo destaque pela imprensa, não obstante as muitas mortes registradas diariamente no trânsito paulistano. Acredito que a tragédia tenha chamado a atenção apenas porque, após abalroar o Corsa que Marla dirigia, o motorista do caminhão abandonou o veículo e pulou no rio Tietê. Tanto que a atitude bizarra chamou mais a atenção do que a morte imediata de uma mulher de trinta anos em meio a ferragens e vidro estilhaçado. Não fosse esta nota cômica em meio a dor e sofrimento, dificilmente o caso mereceria uma linha nos jornais.
 Durante meses tive medo que minha filha lesse qualquer coisa sobre o acidente, de maneira que joguei fora os recortes sobre o caso e evitei comprar jornais por algum tempo. Após a morte de Marla, como se por algum encantamento, passei a conhecer de forma instintiva e exata o mecanismo mental de Violeta. Sabia que, uma vez pensando no acidente em si, minha filha não se concentraria no abstrato da tristeza e da perda, mas, sim, nos detalhes do acidente. Imaginaria, talvez, a mãe presa entre ferro retorcido, tentaria calcular o peso deles e a carne lacerada pelo metal; pensaria na quantidade de sangue perdido e no tempo que a ambulância teria demorado a chegar ao local.
Violeta não fora ao enterro de Marla, em Taubaté, cidade onde nascera e seus pais ainda hoje moram. Fora uma decisão dela própria, respeitada por mim e pela família. Quando tinha dez anos, eu fora obrigado por meu pai a assistir ao enterro de meu avô e sempre me chamou a atenção o fato que eu senti na ocasião, mais vontade de terminar um desenho colorido que estava fazendo em casa do que tristeza pela morte do rígido e engraçado velhinho que eu vira uma dúzia de vezes na vida. Claro que depois me senti culpado e terminei por rasgar o desenho, acreditando que isso me redimiria.
Estávamos havia três dias em Ponta Negra, praia urbana mais conhecida e agradável de Natal, apesar da exagerada e parcialmente imerecida fama de ser um lugar infestado por drogas e prostituição. Nascida e criada em São Paulo, Violeta mostrava uma alegria difícil de ser contida. Alternava a piscina do hotel onde estávamos com a água quente e salobra do mar, ganhando em pouco tempo um considerável bronzeado, tornando-a ainda mais diferente da mãe, que tinha a pele extremamente clara.
Voltando ao hotel de uma rápida visita a um amigo de adolescência que morava perto do hotel, encontrei Violeta no quarto assistindo a uma animação e comendo batatas fritas.
 - Demorei muito, filha?
 - Não, papai. Você sabe que eu fico quietinha aqui. Se quiser sair, não se preocupe.
 - Na próxima vez eu levo você. Quero que você conheça os meus velhos amigos e mais um pouquinho da cidade.
Violeta concordou com um movimento de cabeça e voltou para o desenho animado, repleto de dragões e princesas. Sentei-me na minha cama, ao lado da dela, e tirei o tênis. Estava com um calo imenso no dedão do pé direito, talvez resultado da caminhada que fizemos no dia anterior, pelo calçadão e depois pela areia da praia. Sedentário como eu vivia havia anos, qualquer esforço físico a mais resultava em algum efeito no meu corpo. Eu poderia aproveitar aqueles dias de férias e repouso para fazer exercícios, recuperar parte da forma física que me rendeu, na juventude, destaque como goleiro de handebol. Dei tapas na minha própria barriga, como se admitindo os quilos a mais e o sedentarismo. Distraída com o desenho animado, Violeta não percebeu a brincadeira, o que foi melhor. Ela andava com precoces preocupações com peso. Dias antes, ainda em São Paulo, passeávamos pelas ruas da Vila Madalena quando ela pediu para pararmos em uma farmácia, onde havia uma balança. Ela pesou-se com a expressão sombria.
- Papai, estou com 33 quilos. Será que estou gorda para a minha idade?
 - Claro que não, filha. Seu peso está proporcional à sua altura... – diverti-me
 - Você realmente sabe minha altura e leu isso em algum lugar ou está dizendo só por dizer? – desconfiou.
 - Você é uma menina que certamente será alta, como boa parte das mulheres da família de sua mãe. Não vê a sua tia Judite, que tem quase um metro e oitenta? – questionei, para mudar o assunto. Eu não sabia a altura exata de Violeta e, naquele momento, decidi saber muito, muito mais sobre minha filha e jamais tentar enganá-la, tanto em respeito à sua inteligência como pela percepção que, se ela – com a mãe morta – não pudesse confiar por inteiro no pai, em quem mais iria confiar?
Mas, a história do peso não acabara ali. À noite, em casa, preparando para dormir, descobri numa parede da sala uma marca em grafite. Foi fácil deduzir que era obra de Violeta, certamente tentando medir sua altura. No quarto dela, na estante onde ela arrumava seus poucos bichos de pelúcia e bonecos de conchas e madeira, encontrei minha fita métrica. Temi que ela, na manhã seguinte, retomasse o tema, mas, felizmente, isso não aconteceu.
Deitei-me na minha cama para assistir um pouco do desenho, e, entre tantos dragões e bruxos, acabei dormindo. Devo ter sonhado com algo bom, pois, sentia uma sensação agradável quando fui acordado por Violeta, com suaves tapas no ombro.
 - Está tudo bem? – perguntei.
- Está sim, papai. Desculpe ter lhe acordado. É que eu estou cansada de ficar aqui no hotel. Eu sei, o quarto é legal, a piscina também, mas que queria passear...
 - Seja feita sua vontade- sorri, me levantando – Deixe-me só tomar um banho. Tem alguma preferência?
 - Ah, papai, vamos passear pela praia, procurar restaurantes legais.
Concordei, pois também desejava sair. Andamos pela areia da praia durante algum tempo, até nos instalarmos em uma barraquinha. Violeta indignou-se com o fato do dono na barraca cobrar quinze reais apenas para sentarmos. Tentei convencê-la que, às vezes, mais vale pagar pela tranqüilidade do que entrar em um conflito, mas, ela já estava embriagada pela própria indignação.
 - Já pensou se só pedirmos uma garrafinha de água, papai. Aí sabe quanto vai custar essa água? Dezesseis reais!
Deixei minha filha gastar sua raiva, sem lembrá-la que para estacionar em diversos locais de São Paulo eu costumava pagar o dobro daquele valor. Sabia que Violeta tinha razão em sua fúria e que aquele mundo não era o que eu queria deixar para minha filha, e que eu teria de me esforçar para mudá-lo, e não aceitar seus erros. Mas, a necessidade de relaxar era maior do que questões ideológicas, de maneira que assisti à indignação de Violeta como quem vê uma cena de filme, até que ela cansou e voltou-se para as delícias da praia.
 - Pai, você ia muito à praia quando era criança?
 - Mais ou menos. Acho que umas duas vezes por mês...
 - Deve ser muito bom morar em uma cidade que tem praia...
- Não se iluda. Quando se mora em cidade praiana muitas vezes se vai muito pouco à praia - sorri.
 - Eram seus pais que o traziam?
 - geralmente sim. Algumas vezes eu vinha sozinho com meu pai. Outras vezes um tio meu, Nestor, me trazia para brincar com os filhos dele.
 - Eu queria ter conhecido meu avô e minha avó...
 - O destino não quis assim, filha...
 - Deus não quis assim, papai... – respondeu, enfatizando a primeira palavra.
 - E não foi o que eu disse?
 - Você disse destino, não deus. Você nunca fala a palavra deus.
 - A senhorita presta atenção em tudo que eu falo?
 - Claro, papai. Vou prestar atenção nas palavras de quem?
Sorri com a resposta e pedi uma porção de camarão ao alho e óleo. Violeta parecia disposta a não encerrar o assunto.
 - Você conhece alguma oração, papai?
 - Claro, filha. Aquelas que todo mundo sabe. Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o vosso nome, et cetera...
 - Não gosto dessas orações decoradas. Prefiro inventar minhas próprias orações.
 - Acho que também prefiro.
 - Então você também reza para deus?
 - Digamos que à minha maneira... – sorri.
- Você quer é me enganar. Posso fazer uma pergunta?
- Claro – suspirei, imaginando que debate metafísico viria pela frente.
- Você me compra uma sala de frutas? – sorriu.


(2º capítulo do romance "Os olhos salgados", de Cefas Carvalho, que venceu a edição 2011-2102 do Concurso Literário Câmara Cascudo, da Funcarte. Arte: Man Ray)  

25 Abril 2012

Os olhos salgados - Capítulo 1



                               1


Era como se fogos de artifício explodissem em minha alma.
O mar à minha frente, imperioso, de um verde quase demente, era como um sonho. A criança ao meu lado contemplava o mar com uma serenidade feliz e ao mesmo tempo melancólica que, mais que me encantar, justificava a viagem que empreendíamos.
Durante quanto tempo olhamos, em silêncio, o oceano? Ignoro. Despertei do transe com a voz impaciente da menina, motivada pelo seu relógio biológico:
 - Papai, estou com fome. Vamos almoçar?
Peixe grelhado com alcaparras e azeitonas pretas, batatas fritas e arroz a grega. Eu olhava com satisfação mal disfarçada Violeta almoçar o mesmo prato que eu. Dotada de estranhos ares adultos, ela não necessitava de pratos especiais para seus sete anos de idade. Gostava do que os adultos comiam, apreciava molhos e especiarias e desprezava sanduíches e sorvetes.
O restaurante à beira-mar, na praia de Ponta Negra, era espaçoso e agradável, decorado com peças artesanais de argila e sisal e do teto pendiam algumas bandeiras, certamente deixadas por clientes de outros países. Talvez uma tradição da casa. Olhei longamente a bandeira portuguesa, minha preferida, até voltar-me para minha filha, que espremia o limão no peixe e delicadamente comia os pedaços regados a azeite. Deixava as batatas para comer por último, fiel ao princípio - que eu mesmo adotava – de que o melhor deve ficar para o final. Discretamente, Violeta separava em um canto do prato as uvas passas - que ela odiava - do arroz, como se eu não fosse perceber. Eu fingia que não notava e ela me olhava satisfeita, como se querendo dizer, eu me alimento bem, não é mesmo, papai?
Ainda era estranho para mim, voltar ao Rio Grande do Norte depois de tantos anos, ainda mais tendo como companhia minha única filha. Após o redemoinho que varrera minha realidade e fizera voar pelos ares quase todos os pilares que sustentavam o templo da minha vida, eu acreditei que nunca mais fosse capaz de alegrias tão simples como a de saborear um peixe ou olhar o oceano.
 - Está pensando em mamãe? – perguntou Violeta, de repente.
 - Acho que estou sim, filha.
 - Hoje eu acordei pensando nela também...
 - Ela está em algum lugar bonito nos olhando, minha filha.
 - Pai, você não acredita nisso... – resmungou.
 - Não entendi, Violeta.
- Você não acredita em deus, pai, e eu sei disso. Você me disse isso várias vezes e eu sei que não quer mais falar sobre o assunto porque mamãe morreu... Eu acho que ela está em um lugar bonito sim, cheio de flores e árvores e um parque cheio de banquinhos bem confortáveis...
Fiquei em silêncio, um pouco desconcertado. Violeta continuou:
 - E sei também que você ficou nervoso, porque quando você fica nervoso me chama de Violeta.
 - E quando não estou nervoso? – sorri.
 - Então me chama de filhinha, filha, filha querida ou peste do meu coração.
 - E como a senhorita prefere ser chamada?
 - Não sei... Gosto de filha querida... – sorriu, terminando o almoço e juntando os talheres no prato.
 Violeta era diametralmente oposta a Marla, tanto em personalidade como em aparência física. Talvez Violeta fosse parecida comigo, ainda era cedo para saber. Considerando esta hipótese, era estranho ter a oportunidade de testemunhar meu temperamento e idiossincrasias em outra pessoa, de tão pouca idade. Talvez o convívio maior com minha filha e a chance de conhecê-la melhor fosse também uma oportunidade ímpar de conhecer melhor a mim mesmo, algo que eu precisava fazer havia muito tempo. Mas, seria impossível iniciar este processo em São Paulo, por razões óbvias. Eu amava São Paulo, sempre fui extremamente urbano, mas, é impossível experimentar qualquer processo de autoconhecimento morando no epicentro de uma metrópole.
- Papai, eu quero um pudim como sobremesa, pode ser? – pediu Violeta, sorrindo com os olhos, como sempre.
Pedi dois pudins e enquanto conversávamos amenidades me dei conta que eu não sabia qual era o doce predileto de minha filha. Assim como desconhecida o nome de suas coleguinhas de colégio ou de seus professores. Na verdade, eu fazia pose de pai presente, e quem testemunhasse meu cotidiano atestaria sem dúvidas que, apesar do trabalho, eu era um pai atencioso e presente. Contudo, se tal afirmação não era mentirosa, tampouco – e só a distância me fazia perceber isso – era um pai totalmente conhecedor de minha filha e de seus gostos e particularidades, ou, pelo menos, o pai que eu imaginava que seria.
 - Você sabe qual o nome da minha melhor amiga? – Perguntou como se lendo meus pensamentos. Respondi um pouco assustado, que não.
 - Rosa. Já imaginou, Violeta e Rosa. Dois nomes de flor...
 - Só faltava uma Margarida na sua turma, para formar o trio florido... – brinquei. Ela sorriu, como se não achasse a piada assim tão engraçada, e voltou-se para o pudim. Do restaurante, era possível olhar o oceano. Eu ainda não havia entrado no mar naquela viagem e me dei conta, tristemente, que havia três anos que eu não tomava banho de mar.



(1º capítulo do romance "Os olhos salgados", de Cefas Carvalho, que venceu a edição 2011-2102 do Concurso Literário Câmara Cascudo, da Funcarte. Arte: Joaquin Sorola y Batisda) 

14 Abril 2012

Acessos


Cefas Carvalho

Havia uma passagem secreta por trás
da porta
Um atalho, uma trilha
Uma armadilha...

Havia um labirinto em meio
à tempestade
Havia uma antecâmara, um altar
Um santuário...

Havia uma clarabóia, uma janela
Um salto para o abismo
Havia o lirismo, outro atalho
Os retalhos pelo chão...
Mas não havia um mapa
Nada de acessos
Todos os caminhos levarão
realmente a Roma?
E que caminhos conduzem
ao meu coração?
...

Imagem: René Magritte

01 Abril 2012

De como ganhei "Pet Sounds" de presente e resgatei emocionalmente minha coleção de discos de vinil

Cefas Carvalho

Presente dos sonhos ganhei de meu enteado (ou "filho torto", como diz Sandrinha) Pedro Victor, que chegou de Sydney, Austrália, neste fim de semana: um disco (sim, o velho LP de vinil) em cópia remasterizada e recém lançada de "Pet sounds", o clássico absoluto da banda americana The Beach Boys. A última vez que havia ouvido este disco fora no começo dos anos 90, na casa de meu amigo Breno, no Rio de Janeiro, fã de rockabilly e rock progresivo (até hoje agradeço a ele ter me apresentado a "Selling England by the pound", do Genesis - ainda com Peter Gabriel, claro - um dos meus discos preferidos ever).
Mas, voltemos ao "Pet sounds". Ouvir canções como "God only knows" e I´m waiting for the day" foi como rever velhos amigos, e sei que duas eternidades não serão suficientes para agradecer a Pedro - que é guitarrista dos bons em Natal, das bandas Fewell e Venice - o presente. Que teve ainda uma utilidade a mais. Para incluir o LP na coleção, acabei por limpá-la toda, disco a disco, e, assim, resgatando-a de relativo esquecimento, tanto constatar que os cupins haviam começado a devorar alguns encartes como reviver (e ouvir) clássicos pessoais e bizarrices diversas.
Entre os primeiros, alguns destaques absolutos, alguns que não tenho em CD e que havia condenado ao esquecimento até hoje. Como o álbum "Get close", do The Pretenders, comprado em 1989 em uma viagem a Campinas, na época em que eu era apaixonado por Chrysse Hynde. O LP tem canções maravilhosas como "When I change my life" e "The tradiction of love"
Outro disco resgatado foi o "Heart shaped world" de Chris Isaak, que fez sucesso no Brasil com apenas uma música, "Wicked game". Mas o LP tem pérolas que até hoje me emocionam como "Kings of the highway" e principalmente "Nothing´s changed", que considero uma das cinco maiores canções de amor já feitas.
Há os LPs de rock nacional. Resgatei do esquecimento o primeiro disco da banda Metrô, liderada pela bela Virginie (taí outra paixão de adolescência...) que apresenta preciosidades como "No balanço das horas" e "Johnny Love". E também o primeiro (e talvez único) vinil da banda mineira Sexo Explícito com a maravilhosa "Faca" (o guitarrista da banda, John, anos depois formaria o Pato Fu, com Fernanda Takai.Entre as bizarrices, coisas como Julio Iglesias (sim, eu curto, mea culpa, mea maxima culpa), Gigliola Cinquetti, Balão Mágico, o LP "Lambahia" com a música "Chorando se foi" (presente a gente não joga fora...), coletâneas esquisitíssimas (uma de pop brasileiro, reúne Herva Doce e Gangue 90 e Absurdetes - coisa fina!), outra, uma série de músicas country americanas com arranjos duvidosos... enfim, uma gama de coisas estranhas que ajudam a contar a história de minha vida. Isso sem falar nos discos de Lucio Dalla (recentemente falecido), Mercedes Sosa, Bille Holiday, Paco de Lucia... Já é uma surpresa terem (quase) todos chegado até aqui, após tantas mudanças de casa, encaixatomentos, casamentos e separações. Agora é continuar a garimpagem das pérolas e dos porcos da minha coleção de discos e ouvir o "Pet sounds" até cansar...

Anjos caídos


Cefas Carvalho

Chuva de anjos caídos...
Expulsos do paraíso (perdido?) por um deus
colérico e intransigente...
A vagar pelo mundo, à procura de abrigo
(e vítimas)...
Eles batem à minha porta
e os deixo entrar... Luminosos...
Eles, então, invadem minha casa, capturam
minh´alma
Destroem os CDs, esvaziam a geladeira,
Violentam o meu corpo, degolam os gatos persas,
Bebem meu sangue, dilaceram minha carne,
Limpam-se com as cortinas, rasgam minhas cartas...
E partem, imperiais, à procura de novas delícias...


Imagem: Marc Chagall

16 Março 2012

“Os olhos salgados”: Romance fica em 1º lugar em Concurso Literário Câmara Cascudo

Peço licença aos leitores deste blog para em meio a contos, crônicas e poesias, abrir espaço para um informe. Foi com imenso prazer e alguma surpresa que recebi a notícia que fui contemplado com o 1º lugar no Concurso Literário Câmara Cascudo (prosa) da Fundação capitania das Artes (Funcarte) – Prefeitura de Natal, com o romance “Os olhos salgados”. Honra ainda maior sabendo que o 2º e 3º colocados foram Racine Santos e João Andrade (respectivamente com “Macaíba em alvoroço” e “Evangelho segundo Frederich Nietzsche”), dois escritores que estimo e admiro. Dois outros romances de minha autoria, “Carla Lescaut” e “Os puxadores de piano” (ambos ainda inéditos) foram menções honrosas em 2001 e 2005 no mesmo concurso Câmara Cascudo. “Carla Lescaut”, drama sobre amor e submissão (e homenagem à literatura francesa) passado na Natal dos anos 90, deverá ser lançado ainda no primeiro semestre deste ano de 2012. No concurso de poesia (Othoniel Menezes), Renata Marques Pereira com "Tua" leva o 1º prêmio; João Andrade emplacou "Livro da Palavra" em segundo lugar e "Neurotrofina", de Ilany Katariny Costa Andrade em 3º.
Ah, e em breve neste blog o primeiro capítulo de “Os olhos salgados”, cuja trama se passa entre Natal e Pipa nos dias atuais.

Imagem: Man Ray

08 Março 2012

Distância


Cefas Carvalho

Palavras demais...
Versos, cantos...
Tantos encantos verbais...

E você - aqui - de menos...

Textos demais...
Subtextos, pretextos...
Algumas frases banais...

Seu olhar - aqui - de menos...

Distância demais...
Possibilidades, veleidades...
Talvez devaneios carnais...

Seu corpo - aqui - de menos...

Bela demais...
Florbela, em uma janela...
da minha imaginação, nada mais...

Seu sorriso - aqui - de menos...
...

13 Fevereiro 2012

Um banquinho, um violão e uma letra errada

Cefas Carvalho

Alguns amigos meus adoram música ao vivo em barzinhos. Mapeiam os lugares onde os músicos se apresentam e conhecem alguns deles pelo nome e o repetório. Outros amigos, fogem destes barzinhos e tem verdadeiro horror a música ao vivo e se vêem em um bar onde já estão alguém afinando um violão, pagam a conta às pressas e vão embora correndo. Sou da turma do meio termo. Não amo música ao vivo em barzinhos, mas também não fujo deles como o diabo da cruz.
Na verdade, meu problema com cantores de barzinho é a chacina que alguns deles fazem com as letras das músicas. Sim, é besteira minha exigir que todos tenham as letras 100% decoradas, principalmente se os clientes – eu incluso – estão lá no bar para namorar, beber e papear, não para ouvir a música com atenção de maestro. Se um deles, por exemplo, errar o tom ou desafinar sutilmente jamais perceberei. Mas, dilacerar letras conhecidas é algo que me irrita, confesso.
Após anos e anos de peregrinação a barzinhos com música ao vivo, sei de cor não apenas o inexorável repertório de 90% deles (“Canteiros”, “Sampa”, “Sozinho”, “Nem um dia”, aquela música chata que começa com "Um dia frio... um bom lugar pra ler um livro...") como os artistas cujas letras são mais trucidadas: Zeca Baleiro, Renato Russo, e aqueles que gostam de jogos de palavras como Djavan, Humberto Gessinger e Caetano Veloso.
Recordo, com alguma dor, de erros brutais que cantores de barzinhos cometerem nas letras. Lembro de um que, empolgado com a paixão de “Como eu quero”, do Kid Abelha, cantou: “Jogos de guitarrra não vão me conquistar” (Seria mais fácil conquistar Paulinha Toller com solos de guitarra...). Outra vez, atacando com Legião Urbana, o cantor reformulou “Tempo perdido”: “Fomos são jovens” (E Renato Russo, iludido, escreveu a música no presente: “Somos tão jovens”).
Em “Regra três”, de Toquinho, o autor disserta sobre os vacilos do protagonista da música e explica porque a amada vai embora: “Porque o perdão também cansa de perdoar”. Mas, certa vez o cantor detonou: “Porque o perdão não se cansa de perdoar”. Ou seja, para aquele cantor, a moça sequer foi embora de casa...
Outra recordação de cantor de barzinho, esse mandando ver na sensual “Girassol”: “Ai, teu jeito em meu lençol” (Ter uma mulher jeitosa no lençol da gente não é uma má idéia, mas Alceu Valença quer dizer “Teu cheiro em meu lençol”.)
Recentemente, desbravando bares em Parnamirim, eu e os amigos demos de cara com um cantor não com violão, mas com teclado com bateria eletrônica... Como o cidadão estava interpretando clássicos de Zé Ramalho, superamos o pavor inicial e ficamos. Contudo, na hora de “Kriptônia”, o artista aloprou: “Não admiro que me fale assim”... Enquanto ainda respirávamos depois dessa, ele continuou: “Sou primo gênio do seu avô, primeiro curandeiro”. O primeiro vacilo (trocar admito por admiro), a duras penas, passaria, mas cantar “primo gênio” em vez de primogênito é dose!...
Mas nada se compara a algo que ouvi nos idos anos 90, em um barzinho ali na Ponta do Morcego. Uma bela morena cantava clássicos de Ednardo e Geraldo Azevedo, até que resolveu mandar “Mulher nova, bonita e carinhosa”, de Zé Ramalho, imortalizada por Amelinha, atraindo a atenção dos marmanjos pela belaza, suavidade e talento. Pelo menos até o momento em que, empolgada, cantou: “Quem não ama o sorriso feminino, desconhece a poesia dos Cervantes”. Ou seja, transformou o escritor espanhol Miguel de Cervantes, criador do ilustre fidalgo Don Quixote de La Mancha, em um povo, uma tribo, saba-se lá, talvez em moradores de mais uma região espanhola, lá entre a Catalunha e Valencia. Depois deste estupro musical, fomos recuando de fininho rumo ao balcão do barzinho. E fizemos um brinde aos Cervantes, seja lá quem eles forem...

25 Janeiro 2012

Sou doador de órgãos

Cefas Carvalho

Sou doador de orgãos. Tinha carteirinha de doador e tudo, perdida em ocasião que perdi a carteira e terminei por tirar 2ª via de RG, CPF, menos da carteira de doador. Mas, não importa (embora eu pretenda providenciar nova via). Meus filhos, minha mãe, minha namorada e meus amigos do peito sabem que na hipótese de eu vir a morrer - o que espero que não aconteça nos próximos 235 anos - em meio à alguma tristeza e inevitáveis lágrimas, uma alma sensata e de boa memória se lembre de dizer aos médicos que assinarem meu atestado de óbito que eu manifestava total vontade de doar meus órgãos e que fazia questão que assim fosse procedido. Não sou dado a arroubos de bom mocismo desnecessário e muito menos tenho alma de Madre Teresa de Calcutá (pelo contrário, me considero pragmático, chato e tenho o pavio curto), mas, me encanto com a idéia de que uma vez morto, posso salvar a vida de algumas pessoas ou, no mínimo melhorar a qualidade de vida delas. E doando partes do corpo que serviriam de comida para os vermes da terra! Ou seja, além de beneficiar seres humanos, ainda posso minimizar os prazeres gastronômicos dos vermes que deglutem de igual maneira reis e mendigos, divas egocêntricas e senhorinhas. Não pretendo fazer apologia à doação de órgãos, mas, acho saudável pensar que, uma vez sem vida, meu corpo pode oferecer a outrem nada menos que coração, rins, pâncreas, cóneas. Leio que o Brasil tem uma fila imensa de pacientes esperando transplantes e que o número de doadores é limitado, não obstante os milhões de católicos e evangélicos e de gente religiosa que predica o amor ao próximo
Quem quiser saber um pouco mais sobre doação de órgãos, pode recorrer ao site www.adote.org.br , que é referência no assunto.
No site, um resumo sobre o tema: “A legislação brasileira sobre o processo doação transplante estabelece que somos todos doadores de órgãos desde que após a nossa morte um familiar (até segundo-grau de parentesco) autorize, por escrito, a retirada dos órgãos. Portanto, não basta querer ser um doador de órgãos. Sua família também precisa saber. São eles que vão autorizar os médicos a fazer o transplante da sua vida para outras vidas. Diga em casa, diga para seus amigos, diga para todo mundo que você quer ser um doador. Qualquer pessoa pode doar órgãos. Nenhuma religião é contra a doação.”

09 Janeiro 2012

Cartografia

Cefas Carvalho

(Para Sandra...)

Tua pele, mapa cego onde me guio
E onde me perco em perigosos atalhos
Até me encontrar em um outro arrepio
E me perder novamente em atos falhos

No trajeto, entre o temor e o frio
Operando o amoroso trabalho
Do seu corpo faço o delta do meu rio
Desaguando em um oceano de orvalho

Tua pele, teu corpo mapa-mundi
Desbravado por mim - peregrino
Com a coragem que o desejo infunde
Fez do cartógrafo um mero menino
Sonhando com um mar que afunde
Em seu bojo, o próprio destino

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23 Dezembro 2011

O desespero diante da página em branco

Cefas Carvalho

Acordei antes das oito, segui os mesmos velhos rituais – o banho, fazer a barba, suco de laranja, cortar as unhas – e me lancei em frente à tela do computador (também ele cheio de rituais; inicializar, lançar sons, abrir “janelas”, comunicar que o antivírus está instalado...) na tentativa de escrever o texto que me fora pedido.
Na verdade, eu já o havia iniciado. Dispunha do primeiro parágrafo já pronto, o conceito já definido e os “ganchos” para unir começo e fim, como manda o manual de uma boa redáção, se é que existem regras para uma boa redação. Enfim, o texto era um feto já gerado, vivo, esperando apenas o mínimo necessário para crescer e vir ao mundo.
Contudo, a mente não produzia o alimento deste feto e os dedos tamborilavam a fórmica da mesa do computador, esperando a convocação para transformarem idéias em letras, palavras, frases, mas, era inútil.
Percebi que o branco da página do Word, no computador, é ainda mais solitária e assustadora que a papel de celulose. É um branco brilhoso, de onde irradia uma luz esquisita. Isso sem falar que, durante o “branco mental” é fácil recorrer à Internet, música, imagens, tudo que prejudica o oficio de escrever, enfim.
Mantive a calma, desliguei o computador e recorri a uma velha amiga, a folha de papel ofício A4, companheira de tantas noites febris nos tempos em que o computador parecia um devaneio dos filmes norte-americanos. Armado com a fiel escudeira que era a caneta Bic cor azul, tratei de macular o papel com rabiscos, na esperança de que, pela magia do contato da tinta da caneta no papel, as idéias transformassem em um texto. Mas, nada. Nada além de palavras soltas, frases desconexas, cubos desenhados em terceira dimensão e jogos da velha onde eu enfrentava a mim mesmo. Retomei ao truque velho de escrever o próprio nome, várias vezes: Cefas, Cefas, Cefas, depois a assinatura, tal qual no documento de identidade, e depois a forjar assinaturas. Amassei o papel e retomei à suposta seriedade para enfrentar a folha em branco.
Decidi recorrer à sabedoria alheia. Quem sabia se escrevendo pensamento e idéias de meus heróis, a inspiração não viria por osmose. Rabisquei sentenças de Shakespeare, frases de Platão, versos de Pessoa e, claro, máximas sarcásticas de Oscar Wilde. Por mim, perdi-me em letras de canções de rock até chegar a hai kais pavorosos da época em que eu tentava ser poeta. Voltei à página em branco – outra, claro – e recordei que, salvo engano, Rubem Braga havia escrito uma crônica sobre a mesma falta de inspiração.
Como seria com as outras pessoas? Outros sentiam o mesmo desepero que eu diante da folha em branco ou, diante disso, dariam uma gargalhada e se dedicariam a atividades tais como assistir um programa de TV ou ir a um shopping fazer compras?
Uma idéia me surgiu e quando lancei mão da caneta para, enfim, macular a folha em branco, parei como se acometido de uma idéia tresloucada. Havia uma vontade mórida em mim de que a folha continuasse branca – cor de pureza e da inocência – sem a intromissão da caneta, uma vez que a tinta fixada no papel se assemelhava a uma violência. Uma violência quase filosófica, posto que era irreversível (claro, é possível amassar ou queimar uma folha de papel, e uma borracha de qualidade pode apagar a tinta, mas, a folha branca original, jamais volta a ser o que era após a caneta trabalhar em sua superfície).
Debati-me uma vez mais na intenção de produzir alguma coisa, escrever nem que fosse apenas um parágrafo, quiçá uma frase, que sequer precisava ser genial, bastava apenas ter sentido.
Foi quando o texto desceu sobre mim como o Espírito Santo sobre um cristão devoto e a caneta – guiada pela mão direita nervosa – começou a trabalhar no papel...


(Texto originalmente publicado na coletânea de crônicas "Travessa da Alfândega" - organizador: José Correia Torres Neto. Selo Caravela)

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23 Novembro 2011

Morrer, talvez sonhar

Cefas Carvalho

Decidira morrer. Era simples assim. Não havia metáfora em sua decisão, nada de angústias existenciais, crises religiosas, nada de metafísica. Tampouco sofria com traumas de infância. Fora uma criança feliz na medida do possível. Não, também não havia um amor não correpondido, uma mulher fatal pela a qual valia a pena morrer.
Era uma decisão racional, portanto. Considerou que a vida já havia lhe dado tudo que poderia desejar e merecer e que tivera seu quinhão de alegria e dor em medidas exatas e que nada mais havia a fazer neste mundo (e na verdade, em nenhum outro, posto que desconfiasse com uma quase-certeza que nada havia além do pó deste mundo).
Tomada a decisão, se deteve na maneira de fazê-lo. Nada de decisões que resultassem em sangue e carne deformada como um tiro na boca ou no ouvido. Não queria ninguém limpando paredes cheias de seu sangue. Nada de posturas igualmente melodramáticas, como o enforcamento. Pensou no gás. Talvez na ingestão de um veneno indolor. Sonhava em morrer dormindo. Neste caso, a morte poderia chegar tal qual um sonho.
Indeciso, deixou que os dias passassem e, como já se acostumara a despedir-se deste – único – mundo, passou a ver as coisas com outros olhos, talvez mais complacentes, nostálgicos. De maneira que em uma ensolarada manhã de segunda-feira, em pleno centro da cidade, após ter tomado um café forte e com pouco açúcar, decidiu que não desejava mais morrer. Simples assim. Talvez a vida ainda tivesse o que lhe oferecer (de dor ou prazer) e sentiu-se subitamente forte para viver o tempo que lhe fosse dado.
Enebriado com a nova decisão, atravessou a rua rumo ao carro e não percebeu a caminhonete. Sentiu um impacto, ouviu um barulho estranho e alguns gritos (seus? De outros?) e o quebrar dos ossos das pernas. Percebeu que não conseguia movimentar a cabeça. Quero viver, balbuciou, inutilmente, mas já coneçando a sonhar.
Morreu a caminho do hospital.

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16 Novembro 2011

Estrelas

Cefas Carvalho

Estrelas não brotam do chão
Estrelas não nascem em árvores
Estrelas enfeitam telas de Van Gogh
Estrelas são cadentes
Para se aninhar em seus cabelos...

Estrelas não desafiam a lei de Newton
Estrelas não colidem entre si
Estrelas abrilhantam cartões de natal
Estrelas são dementes
Quando refletidas em seus olhos...

Estrelas, em suave delírio, pousam
Em sua íris
Fazem de seu olhar, a Ursa menor
Alfa centauro, Cruzeiro do Sul...

Você estrelas...Cadente...Vaga...

Olhos de constelação

04 Novembro 2011

No calor na batalha

Cefas Carvalho

Se a batalha se mostra lenta e bruta
E a vitória tão distante quanto o céu
Cabe o silêncio diante do escarcéu
E persistir quando nos cabe a luta

Se o inimigo invade o teu quartel
Se és forçado a ingerir cicuta
Não deixe que nenhum filho da puta
Te transforme em carrasco ou réu

É no calor da guerra tão renhida
Que surge o homem forte que devias
Ser. Que se perde em mornos dias...

Eis que a batalha não está perdida...
Defenda teus castelos de areia
Enquanto osangue corre em tuas veias

17 Outubro 2011

Presente

Cefas Carvalho

Esqueça mimos, galanteios,
adornos, mimoseios
Esqueça mesuras, fricotes
badulaques,decotes
Esqueça carteiras, gravatas
cintos, bravatas
Esqueça o camafeu,
O afago, o bombom
Presenteie-me, amor meu
Com um Saramago,
Ou um Drummond...

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14 Setembro 2011

Quarteto-ode (quase infantil) ao amor em terras lusitanas

Cefas Carvalho

Amar sem mágoas, ao som
Das águas do Tejo
Ouvindo fados...
Fadados a fazer amor...

Suores de vinho do Porto
Fadigado, morto
De amor, de desejo...
Tudo impresso no azulejo...

Navegar em um oceano
De saliva... Lábios
Em carne viva, na Alfama...
(Como quem ama...)

Amores carnais
Em Estoril, em Cascais...
No Chiado, o último fado!
Do amor que morre em paz...

24 Agosto 2011

Uma mulher com cabelos de fogo

Cefas Carvalho

Contava eu dezenove anos, se muito, mergulhado naquela idade contraditória quando às vezes acordamos sentindo que podemos mudar o mundo e no dia seguinte, dormimos como se fôssemos estrangeiros em nossa própria casa. No dia em questão, tratava-se de uma manhã ensolerada de quarta-feira daquelas que eu acreditava com todas as minhas forças que poderia incendiar o mundo. Havia conseguido um emprego em uma agência de publicidade dias antes, estava cursando filosofia na Universidade Federal e plenajando sair de casa (por mais que amasse meus pais, eles representavam o “sistema” e eu estava na fase ingênua e necessária de combater esse “sistema”) de maneira que caminhava na praça central com uma despreocupação arrogante e um sorriso de conquistador de impérios em meu rosto.
Foi quando parei para olhar a estátua central da praça que a vi, sentada em um banquinho no meio da praça, ao lado da fonte. Em principio chamou minha atenção porque tinha imensos cabelos vermelhos, quase que de fogo. Depois percebi seus muitos outros encantos; olhos imensos e melancólicos entre o preto e o castanho, um meio sorriso que poderia tanto felicidade como sofrimento.
Olhou-me de repente e me envergonheii de ter parado para observá-la. Decidi continuar o caminho, quando surpreendentemente ela me chamou.
- Ei, você tem um cigarro?
- Não fumo, lamento...
- Eu também não. Mas, agora, estou louca por um cigarro.
- Entendo...
- Não acontece com você, de querer fumar de repente, como se seus problemas fossem embora junto com a fumaça?...
- Acontece sim... – menti.
- Posso pedir um favor.
- Claro
- Me faça companhia durante meia hora. Somente trinta minutos.
Assustei-me com o pedido. Encantado por ela como eu estava, claro que ficaria com ela, trinta minutos, duas horas, o dia inteiro. Mas, não podia ignorar o insólito da situação. Lindas mulheres com cabelos de fogo não sentavam em bancos de praça e convidavam estranhos para ficar meia hora com elas.
Mas, sentei-me ao seu lado, com um pouco de receio, confesso. Ela pareceu ter lido meus pensamentos, pois sorriu de verdade e passou a mão em meu cabelo.
- Não se preocupe. Não sou uma louca, nem uma aventureira e nem vou te fazer mal algum. Quero apenas que fique ao meu lado durante o tempo em que te falei...
Ainda desnorteado, concordei. Tentei fazer algumas perguntas (nome, idade, onde morava) mas, com elegância e algum humor, ela conseguiu não responder nenhuma delas e decidiu contar uma história. Sobre uma menina que fugiu de casa e acabou em um lugar como uma floresta, onde teve de fugir de seres bestiais, como dragões, e espíritos maus. Uma história sem pé nem cabeça, mas contada com tanta suavidade que não teria como não me encantar.
- Agora é sua vez de contar uma história.
- Eu? Não sei contar histórias...
- Bobagem, todo mundo sabe contar histórias. Vamos lá, por favor.
Com algum custo, consegui me lembrar de um conto russo que havia lido havia tempos, sobre um senhor e um servo que viajavam na neve de trenó e percebiam que a relação de poderes se invertia com os problemas e privações. Embora imperfeita, ela adorou a história e me pediu outra. Respondo que só contaria uma nova história se ela dissesse seu nome.
- Não vale impor condições... – sorriu, melancolicamente – Mas, já que você quer assim... me chame de Moira.
- Moira... – repeti, inicindo uma nova história, desta vez bem humorada, sobre um homem pobre que pensa ter ganhado na loteria e imagina o que faria com a fortura a receber. Claro que ele não ganhou e a história termina com sua decepção e consciência de sua triste realidade. Moira riu e contou mais uma história, desta vez sobre um amor impossível na idade média. Eu já estava me acostumando com aquela troca de histórias e me perguntava sobre como manter aquele momento indefinidamente quando ela olhou para o relógio na praça. Havia passado a meia hora.
- Obrigado pela companhia, mas tenho que ir.
- Mas, não podemos ficar mais um pouco?... – pedi, quase implorando.
- Realmente tenho que ir – sorriu – Obrigada por me suportar neste tempo...
Preparei-me para dizer que, pelo contrário, fora a meia hora mais sublime da minha vida, mas tive medo de ser piegas e estragar tudo. Limitei a me perguntar se nos veríamos novamente.
- Quem sabe não nos encontramos por acaso neste mundo...
Propus trocarmos telefone, marcarmos tomar um café em algum lugar, mas, ela sorriu em negação: - É melhor, não. Nem queira saber porquê. Mas, saiba que esta hora que você passou comigo pode ter salvado a minha vida...
Arrumou a alça da bolsa no ombro e se foi, com o mesmo sorriso ambíguo que eu havia notado no início. Andava rapidamente com os cabelos de fogo balançando ao sabor do vento. Sentei-me no banco para pensar no que havia vivido quando reparei, ao lado da minha perna, uma lâmina pequena, como se tirada de um aparlho de barbear. Olhei ao longe, mas Moira já havia desaparecido do meu campo de visão. Guardei cuidadosamente a lâmina no bolso de minha jeans e levantei-me para tocar meu dia, com a imagem da linda menina de cabelos de fogo e a sensação de que, de alguma insólita maneira, eu havia, sim, salvo uma vida.



25 Julho 2011

Era Poeta...

Era Poeta...de todas, a mais bela
De seus versos fiz meu pão e fiz meu vinho
Com régua e compasso fiz meu caminho
Da aquarela de teus olhos fiz minha tela

Era Poeta...envolta em seda e linho...
Ares de Safo, Cecília e Florbela...
Em devaneios, abri uma janela
E mergulhei em seu mar azul marinho

Mas, e agora? Tão pouca coisa aconteceu...
Sem poesia e tão mornos os dias passam
Não eras Julieta nem eu o seu Romeu

Onde irá levar-nos essa vida louca?
Se meus versos e seus versos não se enlaçam...
Se quero escrever sonetos em tua boca...

04 Julho 2011

A Biblioteca Sagrada da Minha Mente

Cefas Carvalho

Por força de circunstancias que não pretendo relevar ao leitor curioso (que leitor não é curioso?) fiquei temporariamente afastado de minha Biblioteca. A princípio a separação dos meus livros me doeu na carne, acostumado que era a qualquer momento consultar algum deles ou simplesmente contemplá-los imperais, harmoniosos, arrumados verticalmente nas estantes de madeira.
Contudo, passados alguns dias longe da minha Biblioteca (sempre com B maiúsculo, como vaticinava mestre Borges, sábio maior desta entidade mágica e sagrada denominada biblioteca) a dor amainou. Não que a paixão (ou amor) pelos meus livros tivesse desaparecido com a, distância (como acorre com tantos amores ditos eternos...) mas sim pela descoberta, ou percepção (talvez revelação) que minha Biblioteca na verdade não é algo apertas físico, mas que existe prioritariamente em minha mente. Ela não precisa estar perto dos meus olhos para existir. Ela existe em mim. Pra levar o raciocínio metafisicamente mais longe, minha Biblioteca só existe porque eu existo; eu morrendo, a Biblioteca também não mais existirá.
De forma que a revelação fez com que eu veja e sinta meus livros a toda hora, estando em num há nova casa ou não. Consigo visualizar cada um dos meus... livros (leitor curioso, não importa o número de livros de uma Biblioteca, oito ou oitenta mil, o que importa é a relação - necessariamente doentia - entre o leitor-dono e a Biblioteca) O raciocínio apresentado entre os parênteses acima leva à constatação de que a minha Biblioteca só existe enquanto minha, posto que foi a aquisição particular de cada dos livros que a compõem que a torna uma Biblioteca. Ou seja, minha Biblioteca mãos alheias não passará de um amontoado de livros. Da mesma maneira que a Biblioteca de Câmara Cascudo só o era enquanto ele estava vivo e tomando viva a sua Biblioteca. Após sua morte, a Biblioteca de Câmara Cascudo passou a ser uma peça de museu, estática, pois que ninguém mais poderá acrescentar um livro nela. Idem com a biblioteca do felizmente ainda vivo José Mindlin. Sua Biblioteca só existe porque ele existe. A morte do primeiro acarretará na morte da Biblioteca enquanto ente sagrado, vivo, dinâmico.

Contemplando com os olhos sempre argutos da mente a minha Biblioteca, evoco livros que só existem como o são para mim. Como o exemplar de "O Jardim do Éden" de Hemingway, comprado em um sebo da avenida Ipiranga, quando eu morava em São Paulo no micro dos anos 90 Como não identificar o triângulo amoroso do livro com aqueles dias chuvosos e com a fumaça paulistana? Cada vez que leio o livro - e o fiz várias vezes - evoco aquele sebo (qual o seu nome? Não lembro...) e aquele período de minha vida.

Vejo com minha mente meu exemplar de "OS demônios de Loudun", de Huxley, comprado há meia década no Sebo Vermelho, de Abimael. Capa brega, livro quase caindo aos pedaços, mas cheio de marcações dos antigos donos e lido em uma época admirável da minha vida.

Vejo ainda outros livros. Possuo - três exemplares de “Dom Casmurro”, um deles, mais recente, de capa dura, mas para mim Capitu é mais Capitu e Bentinho mais Bentinho quando leio a edição da Ática em papel jornal comprada na livraria Universitária ainda nos anos 80, com papai ainda vivo. Salvo engano, compramos o livro, cujo nome me parecia enigmático, lanchamos na finada Lojas Brasileiras, fomos ao Café São Luiz, onde eu podia assistir a papai em ação com suas anedotas e gargalhadas e por fim, fomos para casa onde comecei a ler a obra prima machadiana. Claro que aos onze anos não entendi todas as nuances, mas o livro, de capa preta com um desenho multicolorido, ainda está nas minhas Bibliotecas (a real e a da minha mente).
Nesta Biblioteca da minha mente estão ate mesmo livros que já se foram É o caso de “O homem que olha”, de Moravia, que emprestei para meu amigo Cláudio em 1989 e ele perdeu em um bar durante uma bebedeira. Mas, para mim, o livro continua lá nas estantes ao lado de “1934” A romana e “A ciociara”. E se tiver que recuperá-lo, quero que seja da mesma edição da Nova Fronteira com a mesma capa azul e branca. Vejo também na minha estante o clássico hardcore “Albertine no inferno”, que está há um par de anos em poder da amiga jornalista Vilma Torres (desculpe a cobrança publica, mas para recuperar livros como no amor e na guerra vale tudo!) Ah, os livros emprestados que jamais voltaram para a Biblioteca... filhos queridos que se foram... que os amigos me perdoem, mas como alertou Cid Augusto em um artigo ladrão de livros vai para inferno...
Continuo de olhos fechados então e navego na minha Biblioteca sagrada, nas marcações que fiz com marca texto (geralmente cor laranja) nos endereços e telefones riscados nas páginas em branco dos livros, nas notas fiscais esquecidas dentro de exemplares. Velejo no mar dos poetas que admiro Pessoa, dos Anjos, Castro Alves... e me afogo nos versos das poetas por quem sou eternamente apaixonado (Cecília, Florbela, Zila, sempre elas ) e me perco nos braços e olhares de Capitu Oriane deGuermantes, Diadorin Lady Brett Ashley. Por fim me vejo da Biblioteca de Babel, hexagonal, sagrada, labiríntica, como escreveu Borges, que sem ver, a tudo via.
Acordo do sonho então, satisfeito como quem acorda de um noite amor carnal. Minha Biblioteca pode até ser incendiada, como aconteceu com a de Alexandria, mas jamais terá fim, por estar sempre dentro de mim. Em nome de Jorge Luis Borges amém!

(Texto publicado originalmente na Revista Papangu em maio de 2006)

21 Junho 2011

Afrodite

Cefas Carvalho

Para meu deleite e minha desgraça, devo dizer que, sim, eu me lembro bem de tudo. Começou em uma tarde cinzenta de agosto, quando, desgostoso com a vida e com mim mesmo, procurei refúgio nas areias da Praia do Meio, sentado próximo à estátua de Iemanjá. Foi quando a percebi, olhar pedido no horizonte, sentada a alguns metros de mim, também na areia.
Estava com os joelhos à barriga e os braços segurando os joelhos. Olhava o horizonte com o mesmo desespero que eu julgava existir no meu olhar. Foi o que me atraiu, a princípio. Segundos depois, percebi o quanto era linda, com os cabelos castanhos, imensos, caindo sobre o rosto de menina em um corpo de mulher, para usar de um clichê. Subitamente, uniu os braços em concha e abaixou a cabeça, como se chorando. Movido tanto por compaixão como pela atração que senti, aproximei-me dela, e, ganhando coragem, perguntei:
- Algum problema?
- Muitos problemas... – respondeu, levantando a cabeça. Não chorava, mas parecia desesperada. Sentei-me ao lado dela.
- Qual o seu nome? – indaguei.
- Não me lembro – respondeu
- Como assim? – estranhei.
- Não lembro meu nome. Não lembro onde moro... não lembro de nada...
Parecia estranho, mas pelo seus olhos percebia-se que ela não estava brincando. Uma linda menina que perdeu a memória, pensei.
- Você não tem uma carteira, identidade, um celular, nada que possa dar uma pista...
- Tenho apenas a roupa do corpo. E não tenho uma só lembrança de absolutamente nada. Não sei se moro com meus pais, se sou casada, menina de rua... É como se eu tivesse acordado aqui na Praia do Meio.
- Vamos brincar de detetives... sorri – Se você sabe o nome desta praia e chegou sem ajuda até aqui é porque mora em Natal. Se você fosse casada, teria uma aliança na mão esquerda ou pelo menos uma marca e não estou vendo nada disso – analisei, pegando suavemente sal mão – Quanto a ser menina de rua, esqueça. Pelas roupas, percebe-se, você é de classe média.
- Você é mesmo um detetive... – divertiu-se, rindo pela primeira vez desde que a abordei. Contudo, a situação não convidava a risos. Urgia decidir o que fazer com aquela menina desmemoriada. Procurar a polícia? Leva-la aos jornais?
- Que tal rodarmos pela cidade para ver se você se lembra de algum lugar. Talvez a visão de um local que lhe seja importante faça sua memória voltar.
Hesitante, mas sem muitas opções, ela aceitou a insólita proposta, que, não nego, também tinha como objetivo, além da ajuda, fazer com que passássemos mais tempo juntos. Desnecessário registrar que eu estava mais que atraído pela bela desconhecida. Estava me apaixonando rapidamente. Olhei o relógio: eram treze e meia, e às catorze horas eu deveria estar na agência de propaganda onde trabalhava como arte-finalista. Não hesitei em tomar uma decisão: telefonei para a agência dizendo que desmaiei na rua e que amigos estavam me levando para um hospital.
- Você não consegue nem lembrar seu nome? Cláudia? Vanda? Tatiana? Maria? Eduarda?
Ela riu, para, segundos depois, deixar uma névoa escura atravessar sua expressão: - parece engraçado, mas não consigo lembrar mesmo... – e começou a chorar. Colhi seu rosto em meu ombro – Tenho que inventar um jeito de te chamar. Enquanto você não lembra seu verdadeiro nome, vou te chamar de Afrodite, está certo?
- Afrodite... – repetiu
- A deusa grega da beleza. Afinal, você parece tão bela quanto ela...
Envergonhada, baixou os olhos. Parecia sorrir, apesar da sua situação. Mas eu não queria que se entristecesse. Puxei-a pela mão.
- Vamos para Ponta Negra. Talvez algo por lá clareie a situação.
Sentados na areia, ficamos conversando horas a fio. Isto é, tentamos um arremedo de conversa, posto ser virtualmente impossível conversar com quem não tem o que contar. Mas ela sabia, sabe-se lá como, algumas piadas sujas, e afirmava amar algumas músicas clássicas, embora não soubesse o nome delas, apenas assobia-las.
Desta forma o tempo foi passando e subitamente, atentei que já anoitecia. - Que tal irmos para o Natal Shopping? – propus.
Pegamos um ônibus e o vento no rosto a fez sorrir melancolicamente.
- Não me lembro de já ter feito este passeio, mas esta sensação de liberdade, me é familiar...
Bebemos alguns chopes. Ela quis uma caipirinha. Quando dei por mim já eram quase dez da noite. O shopping iria fechar e teríamos de fazer alguma coisa.
- Quer recorrer à policia? – perguntei.
- Quero ficar com você... – respondeu – mas sei que você deve ter que ir para casa...
- Eu adoraria leva-Ia para casa, mas meus pais são complicados...
- Não tem problema, eu me viro...
Claro que eu jamais a deixaria sozinha naquelas circunstâncias e armado de toda a coragem, propus passarmos a noite em um hotel na Cidade Alta. Para minha surpresa ela concordou com a idéia. Após telefonar para meus pais e informa-los que eu dormiria na casa de um amigo, rumamos para o centro. Tentei leva-la para o Beco da Lama ou para o bar Amarelinho, para mais uma cerveja, mas ela argumentou que estava cansada. Fomos para o hotel, velho, decadente, mas barato e estranhamente luminoso.
Uma vez no quarto, eu não sabia exatamente o que fazer. Afrodite foi quem quebrou o gelo. - Estou louca para tomar banho... -sorriu. Depois que ela saiu do banheiro, foi minha vez de entrar debaixo do chuveiro. Nervoso, saí de toalha e a flagrei também enrolada na toalha penteando os cabelos.
- Encontrei um pente na escrivaninha...
- Que bom... - comentei, sentando ao lado dela na cama de casal. Preocupado, tentei explicar para ela como seria nossa noite. - Eu posso improvisar estes lençóis no chão para que você durma na cama.
- Por que isso?
- Não quero que você pense que eu me aproveitaria de você.
- E se eu me aproveitar de você?... - riu, encostando os lábios em minha orelha. Fechei os olhos, e senti sua boca na minha, depois sua língua caçando a minha... deitamos, na cama e minha deusa fez jus ao apelido que eu lhe dera...
No dia seguinte, despertamos juntos, e se durante alguns segundos vivi o torpor de quem acredita estar em um sonho - aquela mulher linda e nua deitada ao meu lado – logo me lembrei da situação insólita que vivíamos.
- Lembrou de alguma coisa?
- Só da noite de ontem... - sorriu - E do que fizemos durante o dia. Quanto ao resto, não me lembro nem do meu nome...
Continuávamos na mesma, então e decidi tirar outro dia de folga para curtir à cidade ao lado dela e à noite leva-Ia ou à Polícia ou a algum jornal. Passei no banco, tirei quase todo o dinheiro da minha conta e iniciei nosso programa: Redinha, depois Litoral Sul, Pirangi, Pium... Éramos um casal em lua de mel, enfim. Por volta das cinco da tarde, fomos à última etapa do passeio, o rio Potengi, assistir ao por do sol. Em frente ao espelho d'água, ficamos olhando o horizonte, quando ela confessou que uma tristeza imensa a invadira.
- Por quê? - perguntei
- Não sei, mas é como se não fôssemos nos ver mais... - murmurou.
De repente, um estranho vento se fez presente, nos encharcando de poeira. Tirei os óculos para tentar tirar os ciscos nos olhos, operação que não durou dez segundos, se muito. Quando recoloquei os óculos, percebi que estava só. Olhei para todos os lados, e nada. Onde estava Afrodite? Era como se ninguém tivesse estado comigo. Perplexo, olhei para a lagoa. Sua superfície estava limpa, contudo, bem à frente da margem me pareceu ter visto uma leve movimentação, como se alguém estivesse nadando, suavemente, por baixo da água. Tolice minha, pensei. Procurei Afrodite nas imediações, perguntei por ela em bares e lanchonetes próximas. Inútil. Minha Afrodite havia desaparecido tão misteriosamente quanto havia surgido em minha vida. Teria se jogado, sem barulho, sem alarde, nas águas poéticas do Potengi? Seria uma sereia retomando ao lar? Um anjo que retomara para o firmamento? Ou tudo não passara de minha imaginação? Jamais o saberei. De qualquer maneira, isso aconteceu há anos, e até hoje não se passa um dia em que eu não vá até à margem do rio Potengi na esperança de revê-la...

02 Junho 2011

Falas em fantasias

Cefas Carvalho

Falas em fantasias...devaneios...
Queres sempre mais...jamais sossegas...
Corres em teus sonhos sempre às cegas...
Não sabes mais onde estão teus freios...

Citas frases feitas sem ser piegas...
Queres que eu declame em teus seios...
Faz joça de todos meus receios...
És louca de pedra... e não negas...

Voltaste às fantasias... adereços...
Trocas de cores... preto... vermelho...
Linhos finos... cetim... véus espessos...

Mais fantasias... outros ambientes...
Velas... acessórios... um espelho...
Meu corpo como alvo de teus dentes...

18 Maio 2011

Lázaro

Cefas Carvalho

Tiraste-me do sepulcro
Levantaste-me das catacumbas
Despertaste-me do sono eterno

Ergueste-me de entre os mortos
Fizeste-me retornar à vida
Trouxeste-me de volta à luz

Fizeste de mim o teu Lázaro
Forjado para louvar o teu nome
Lapidado para viver por ti

Esquecestes... que eu queria partir
Ignorastes que entre os mortos era meu lar
Não percebestes que morte... Era minha vida!

11 Maio 2011

Armagedom


Cefas Carvalho

Era o deus colérico a me perseguir
Em meu tortuoso caminho de Damasco?
Ou o demônio, vil, a espargir
Água amaldiçoada com fel e asco?

Seria o Armagedom, a, solene surgir
Em um arrebol de fúria e de som?
Ou o Paraíso de Milton a explodir
Em um surreal arco-iris marrom?

Era o demônio a chegar sorrateiro
Em uma nuvem de enxofre e carbono?
Ou o calor fantasmal do candeeiro
A transformar em inferno o meu sono?

Eram querubins a, com trombetas, anunciar
O Juízo Final a chegar finalmente?
Ou nada mais que outro dia a raiar
No lirismo banal de um sol nascente?

06 Maio 2011

Coração

Cefas Carvalho

Ele, apaixonado ao extremo. Passional, verborrágico. Ela, bela e distante, deusa grega em mármore. Eu amo você - repetia ele – Você manda em meu coração! Ela resmungava: É mentira sua... Até o dia em que ela decidiu fazer o teste. Ordenou que o coração dele parasse! Ele sentiu o corpo gelado e, subitamente, caiu morto ao chão.

04 Maio 2011

A Biblioteca de Babel (e de Borges)

Cefas Carvalho

Tenho uma relação obsessiva, doentia mesmo, com os livros e com a entidade sagrada Biblioteca. Como Borges, um dos heróis do meu panteão de ídolos (Hemingway, Maugham, Gide, os franceses....). Borges escreveu um conto maravilhoso chamado “A Biblioteca de Babel” (presente no livro “Ficções”) na qual fala deste febre que algumas pessoas tem em relação aos livros e às Bibliotecas. Tanto quando a leitura em si, gosto da sensação da posse de um livro, de marcá-lo, do momento em que, devidamente lido, ele vai repousar na Biblioteca.. Tenho dificuldade em ler livros emprestados por não antever o momento em que voltarão para as estantes, por não saber com que outros livros se acompanhará. Exceção feita para leitura de livros em Bibliotecas, algo que o pouco tempo e o stress não me deixam mais fazer. Mas, recordo com prazer dos tempos em que eu e amigos como Paulo César, nos anos dourados da adolescência, desbravávamos corajosamente as estantes da Biblioteca Câmara Cascudo, sob a complacência das bibliotecárias. Lembro com maior nitidez de quando encontramos uma raridade, o “Michael Kolhaas”, de Henrich Von Kleist. Também é doce a lembrança das tardes cariocas também adolescentes que passava na Biblioteca do MEC e na mítica Biblioteca Nacional, na Cinelândia. Ah, o gigantismo da Biblioteca... Não que eu tenha uma Biblioteca quantitativamente grande, mas não é isso que importa, como vaticina o mestre argentino, mas a relação que se tem com a Biblioteca. Segundo Borges no citado conto, “ a Biblioteca é interminável...um número indefinido e quiçá infinito de galerias hexagonais...” Neste texto delicioso, Borges assinala algo que suspeito desde tenra infância: “Nalguma estante de algum hexágono deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais; algum bibliotecário o consultou e é análogo a um deus”. A idéia de um livro que contenha todo o conhecimento humano (A Biblia? O Corão? O Mahabratara? A obra completa de Shakespeare? Dom Quixote? Grande Serão: Veredas?) em um só me fascina até hoje. Este livro estaria guardado na Biblioteca sagrada, que, como escreveu Borges, sempre existirá, pois que “suspeito que a espécie humana – a única – está por extinguir-se e que a Biblioteca permanecerá: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.”

25 Abril 2011

Semana Santa

Cefas Carvalho


Sexta-feira da Paixão


Cristo morreu pelos meus pecados. É o que dizem. Sempre detestei esta afirmação, como detesto qualquer coisa que tenha a ver com o não-visível. Não quero que ninguém morra pelos meus pecados. Dos meus pecados cuido eu. E meu pecado maior naquela sexta-feira maldita foi ter deixado Clarissa ir embora. Ou será que eu quem a mandei embora? Talvez as duas coisas. Só recordo que a vi jogando algumas roupas na mochila velha e sair de casa batendo ruidosamente a porta. Ainda pensei em correr atrás dela, mas desisti. Fiquei em casa ouvindo CDs de blues e olhando com cara de idiota para o bacalhau dessalgado em cima da pia. Iríamos fazer um bacalhau a Gomes de Sá. Clarissa não comia carne nos dias da semana santa. Para mim isso era uma besteira, eu teria adorado preparar uma picanha mal passada naquela noite, mas a paixão por Clarissa me fazia respeitar suas opiniões, pelo menos algumas delas.
Pensei que Clarissa voltaria, mas, me enganei. Tomei alguns tranqulizantes para poder dormir, com o coração pesado de tristeza e paixão.

Sábado de Aleluia

Aleluia! Clarissa telefonou. Não falou praticamente nada, balbuciou meia dúvida de palavras. Mas, telefonou. Disse que estava tudo terminado e que na semana seguinte pegaria suas coisas no apartamento. Pensei em implorar para que voltasse, em sugerir que conversássemos, mas nada falei. Escutei o que ela falou até que pareceu que ela fosse chorar e ela então desligou o celular.
Resolvi ir uma igreja católica. Claro, desprezava o catolicismo, como a todas as demais religiões, mas senti vontade de ver os fiéis louvando a um ser superior. Contudo, quando estacionava o carro próximo a uma igreja, mudei de idéia repentinamente e decidi beber algo na praia. Olhar o mar costumava me acalmar. Bebi demais, contudo, e voltei para casa totalmente bêbado, arriscando bater o carro ou ser pego pela polícia dirigindo embriagado. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Talvez fosse melhor se eu tivesse morrido.

Domingo de Páscoa

Acordei de ressaca. Bebi quase um litro de água e tive de ver na geladeira os ovos de chocolate que Clarissa havia comprado para a gente. Estávamos juntos havia três anos e todo domingo de Páscoa ela me dava um ovo de chocolate. Como sabia que eu não compraria um para ela, tratava de se presentear com um ovo, quase sempre de chocolate branco. Joguei os dois ovos fora. Também atirei o bacalhau na lata de lixo. Em seguida, vomitei e, me sentindo menos enjoado, decidi recomeçar minha vida. Tomei um bom banho, recorri a um analgésico potente e me resolvi a sair da cidade. Joguei em uma mochila algumas roupas, laptop, escova de dentes e alguns livros. Iria para uma pousada litorânea para pensar na vida nova que teria de levar.
Estava abrindo a porta do carro quando o celular tocou. Clarissa, com voz lacrimosa, disse que queria conversar e retomar nosso casamento. Pediu desculpas e exigiu que eu as pedisse. Perguntou se eu não queria encontrá-la em um bar-restaurante onde costumávamos ir. Concordei. Subi ao apartamento para deixar a mochila e rumei para o supermercado mais próximo, para comprar dois ovos de chocolate...

07 Abril 2011

O matador

Cefas Carvalho

Ele era magro, mirrado mesmo, baixo, uma coisinha assim de gente. Pálido e com o rosto cheio de cravos e caroços, feio até não poder mais. Tranquilo, bebia seu conhaque de alcatrão com o rosto sereno e compenetrado. Mas, era um matador. Dos melhores. Era conhecido em toda a região, não havia cidade ou vilarejo que não temesse Jão Bicheira, cujo nome ninguém sabia, nem a origem do apelido. O que se sabia era que ele já havia mandado uns dez sertanejos desta para melhor e era conhecido nos beréus e bares mal afamados como “fabricante de viúvas”.
Cá por mim, eu bebia quieto minha cana quando percebi o homem se aproximando. Claro que tremi nas bases. Não era bem medo, afinal, tenho lá minha coragem e sou de família de homens altos e parrudos. Mas Jão Bicheira tinha uma arma - talvez mais de uma - e eu não. Pois que o cidadão sentou-se no tamborete ao meu lado e perguntou meu nome. Raimundo Nonato, ao seu dispor, respondi.
O homem pegou um palito, limpou os dentes com zelo, tomou um gole do conheque de alcatrão, cuspiu no chão uma saliva preta e voltou-se para mim. Quero te pedir um favor! Minhas mãos tremeram. O cabra havia matado uns dez homens. Certo que uns não valiam nada, ficaram bem melhores mortos mesmos. Mas, metade deles, eram pais de família. Mas, engrossei a voz e respondi: Se eu puder ajudar...
Jão Bicheira tirou um papel dobrado do bolso. Sabe ler?, perguntou. Respondi que sim. Ele me passou o papel. Leia isso para mim. Abri o pedaço de folha. Era uma letra infantil, difícil de ler. Mas, de qualquer maneira, li em voz alta o que estava escrito: Papai, quando for trabalhar pense em mim. Assinado, sua filha Rosinha.
Ele respirou pesadamente, Bebeu mais um gole do alcatrão e cuspiu no chão. Devolvi o papel.
Você sabe qual é meus trabalho, não é? Engoli em seco. Mas, tinha que responder. Sei sim senhor. Ele pigarreou e suspeirou: É um trabalho enjoado, mas, alguém tem que fazer. Se não fosse eu seria outra pessoa, não é mesmo?
Olhou-me tristemente, pagou a conta, pegou um chapéu meio roto que estava no balcão e passou por mim.
Obrigado, amigo. Tem alguma coisa que queira pedir?
Respondi que não, mas, sei lá que diabo me tomou que disse ao homem que tinha apenas uma curiosidade. Pois pergunte, cabra, que perguntar nunca matou ninguém.
Respirei fundo, como quem vai para uma briga de peixeira, e disparei: O senhor sente alguma raiva das pessoas que mata?
Jão me olhou como se eu fosse louco por fazer aquela pergunta para ele, e a verdade é que era loucura mesmo. Encarou-me, pensei que ia me bater ou me gritar, mas abriu um sorriso triste.
Vou lhe responder. Você fez um favor para mim e merece que eu lhe responda. Rapaz, quando me contratam, não sinto nada não. Mas quando me dão a foto do cabra em questão eu vou olhando a foto e vai me dando um ódio...
Respirou, cuspiu mais uma vez, ajeitou o chapéu na cabeça e com um movimento de mão, despediu-se de mim. Aliviado, fui para o balcão e pedi um copo de cana. Derramei um gole para o santo e bebi o resto de uma lapada só!