15 fevereiro 2011

As leitoras de Renoir



Cefas Carvalho

Devoto que sou da pintura impressionista (como também o sou da literatura francesa do século 19), tenho Gauguin, Manet e Cezanne entre meus favotitos eternos. Mas, de todos os impressionistas, o meu favorito sempre foi Renoir. Não sou estudioso de artes plásticas, portanto, não gosto nem analiso por critérios e padrões técnicos. É gosto e empatia mesmo. Tem muito a ver em ter conhecido a obra de Renoir ainda criança (vale um agradecimento público aos meus pais por terem me comprado a coleção Gênios da Pintura quando eu tinha dez anos de idade) e pela impressão – perdão pelo trocadilho – que ele e os demais impressionistas me causaram.
De Renoir, gosto de quase tudo. Da leveza de “Mulher com sombrinha” ao raios-X social de Paris em “O baile no moulin de La Gallete”. Mas, tenho encantamento mesmo é pelas leitoras de Renoir. Sim, o mestre pintou diversas telas em que jovens se dedicam (às vezes com atenção, às vezes negligentemente) à leitura de livros. Sempre imaginei que livros seriam aqueles. Romances da época? Poesias? Aquelas meninas preferiam Stendhal ou novelinhas água com açúcar?
A devoção das leitoras de Renoir aos livros me remete a um trecho que li em algum livro de Balzac ou Stendhal (ah, maldita memória que me falha!). Dois jovens aristocratas parisienses conversam sobre a beleza e formosura de tal moça, quando um deles critica: “Ela é bela, mas culturalmente deixa a desejar. Tudo bem que sabe tocar piano e canta algumas árias de óperas. Também lê um pouco, pelo menos aqueles romances clássicos históricos que estão fora de moda...
Espere aí, então o rapaz considera a moça inculta porque ela apenas toca piano, canta trechos de ópera e lia Alexandre Dumas e Walter Scott? Que se dirá das moçoilas de hoje, às voltas com as novidades do BBB, ascenção profissional, mundo fashion e novidades para o cabelo? Daí talvez meu fascínio pelas leitoras da Belle Epoque. O fascínio por uma cultura social – a da leitura – que parace estar morrendo, principalmente no Brasil, triste país dos trópicos em que ler em lugares públicos (praças, recepções de clínicas médicas, filas de banco) é não apenas raro e estranho, como visto com maus olhos. As leitoras, o impressionismo, Renoir, tudo parte de um mundo que parece cada vez mais ultrapassado e condenado ao fim.

4 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Post muito bom, amigo. . Confesso que é difícil escolher entre Gauguin, Renoir e Cézanne...Mas sou mais Cézanne.

Estou sempre por aqui
Abração

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Cefas Carvalho disse...

Olá, Nahud. Lembrando que Cezanne era o pintor favorito do meu escritor favorito, Hemingway. Abração.

frizolete@gmail.com disse...

Primor de texto, Amigo!
E a obsessão com o corpo, mutilado desde cedo pela jovens de hoje?
Fico com Renoir e aposto que suas leitoras liam poesia, ora, ora...rs.

Abraço,

Rizolete

Cefas Carvalho disse...

Rizolete, querida. Valeu o comentário e o bom humor. Cá para mim, tenho que uma e outra moçoila arriscava ler "Relações perigosas", de Laclos ou "Madame Bovary". Abração.