14 junho 2008

O carrinho de metal


Cefas Carvalho


Sujo, feio, mal ajambrado, triste em sua velha camisa do Flamengo e em seu calção roto, o menino olhava pela vitrine da loja fechada, o carrinho de ferro. Sonhara com aquele brinquedo. Imaginava a inveja dos amigos de favela ao verem o carrinho, vermelho, brilhante, novinho em folha. Não tinha comido nada naquele dia inteiro, salvo um pão com mortadela. Mas não pensava em comprar comida. Pensava no brinquedo. Percebeu que um veículo parou no meio fio, bem atrás dele. Do carro, desceu um senhor gordo, de cabelo e barbas brancas, com um sorriso no rosto. Parece Papai Noel, pensou o menino. Viu que o homem botou a mão no bolso. Ganharia uns trocados. Estava com fome, queria um sanduíche, mas se economizasse o dinheiro, poderia comprar o carrinho dali a alguns dias. Ah, quando os amigos o vissem com o brinquedo. Sentiu, de repente, uma pontada seca no peito, como uma agulha a furar sua pele. Um gosto estranho lhe subiu à garganta. Uma vontade de cuspir. Tossiu sangue e percebeu, então, a camisa do Flamengo úmida, com o tecido queimado. Olhou para o homem e só então observou a arma fumegante em sua mão direita. Caiu no chão, sentado, não sabendo se olhava para o homem ou para o brinquedo pela vitrine. Sentiu que um sono lhe invadia. Parecia Papai Noel, pensou, antes da dar a última olhada para o carrinho de metal.

5 comentários:

Délia disse...

Carrinho de metal vermelho, assim como também vermelho os sapatinhos que matavam sua dona de dançar...
Desejos que de tão grandes, cegam e matam...
Triste e belo.

concita disse...

beleza mano....

Mulher na Janela disse...

de uma beleza única, Cefas...as imagens nos chegam tristes, mas salutares.

um abraço seridoense!

Iara

Cefas disse...

Obrigado, Iara. Acompanho com atenção os blogs de vcs, muito bons! Abraço em Wescley, o Gama

VERBO SOLTO disse...

muy triste así como es la realidad de muchos niños que eston sin rumbo,sin amor.....hambrientos...
y para cambiar no es facil.no si puede olvidar de la educación.....
Y muchos países los maestros ganam un sueldo probecito...y cuando la corrupción domina es más triste aún.