15 julho 2010

A velha camisa com estampa da janis Joplin


Cefas Carvalho

Adolescente desejoso de rebeldia que eu era nos idos anos oitenta, obviamente construía com régua e compasso meus símbolos desta suposta rebeldia. Posters de filmes e de bandas de rock pregados a durex nas paredes e camisetas com estampas de astros de rock, palavras de ordem (mas não de progresso) e ídolos juvenis, também faziam parte deste “panteão rebelde”.
Rebeldia em dose dupla, diga-se de passagem. Contra os pais (que por mais amorosos que fossem, simbolizavam “o sistema”) e contra os adolescentes “certinhos”, fossem os CDFs ou os famigerados playboys e suas roupas de “marca”. Então, contra todos e contra ninguém, como diria o Capital Inicial, dá-lhe usar camisetas com estampas de Che Guevara, Legião Urbana, R.E.M, frases de ordem contra a Rede Globo etc e tal.
Mas, nenhuma camiseta do gênero – nenhuma peça de roupa, na verdade – marcou tanto como aquela com a estampa da Janis Joplin. Sorridente, largada, colares no pescoço, óculos imensos... Como se fosse a qualquer momento fumar unzinho ou soltar uma gargalhada (como no finalzinho de “Mercedes Benz”).
Comprei a supracitada camiseta no início dos anos 90, numa tarde agradável na feirinha hippie de Copacabana. Estava acompanhado da até hoje amiga Gabriela Vilar, que também gostava de camisetas e badulaques do gênero. De início, era apenas uma camiseta como qualquer outra do estilo. Depois me percebi adotando-a como minha roupa oficial de eventos artísticos em geral e roqueiros em especial.
Foi com a camisa da Janis Joplin que assisti ao show do Guns ´n´ Roses no Rock in Rio de 1991, quando a banda ainda era (ou parecia) séria. Com a mesma camisa, um pouco suja, admito, assisti a dias depois aos metaleiros tirarem Lobão do palco a base de garrafadas no mesmo Rock in Rio. A camiseta ainda esteve no meu peito em uns dois shows do Ira! Em mais uns dois dos Titãs, e em mais uma dezena de shows diversos, bandas de amigos, bandas iniciantes, MPB etc e tal.
Também era uma espécie de amuleto para eventos culturais em geral. Com a camisa da Janis, fui a lançamentos literários, flertei com poetas esvoaçantes, chorei mágoas em saraus, freqüentei coquetéis onde passei um pouco do ponto (etilicamente falando, claro) e também com a camisa estava em dezenas de migrações a cinemas e cineclubes. Em suma, a camiseta era minha fiel companheira, a piece of my heart, se me é permitido o questionável trocadilho.
Bem, mas, o tempo passa. A vida adulta bate à porta, vem casamento, filhos, necessidade de batalhar o leite das crianças, etc. Mas, a camiseta ainda resistiu alguns anos, e não me furtei a trabalhar com ela algumas vezes, embora já reconhecesse que estava puída e que milimétricos (mas, visíveis) furos começassem a aparecer.
Decidi guardar a camisa como troféu, como já havia feito com uma do time do São Paulo e com outra verde-limão pavorosa que eu havia ganhado de uma quase-namorada numa viagem tresloucada a Taubaté, interior paulista. Contudo, a série de mudanças (de casa, de cidade, de vida) fez com que a camiseta sumisse. Provavelmente virou pano de chão e nem percebi. Tem nada não. A camiseta original e tudo que passei com ela estão na memória. Dia desses compro outra (ou mando fazer) e volto a estampar no peito a velha Janis de guerra.

(Texto publicado originalmente na revista Salto Agulha- Nº 0, julho de 2010)

13 comentários:

Rizolete disse...

Comoventemente nostálgica: é isso aí, meu amigo! Sobre a Janis, você também guarda o LP Joplin in Concert, com Summertime na Lado 2 (tem até o Lado 4!)?
Um abraço,

Rizolete

Hytalo disse...

Confesso.. que é uma nostalgia sem tamanho, mas o que importa é que é uma historia e tanto e o fato de aqui você deixar escrito mostra o quanto a vida pode ser significante se passarmos a da valor a simplicidade das coisas e afinal vivencia-las com mais intensidade.

Cefas carvalho disse...

Cara Rizolete. Tenho sim, em vinil. Embora nõ tenha mais a vitrola (tinha uma, mas em verdade não era minha, e é uma longa - e outra - história). Tenho uns 3 vinis da Janis. Beijo!

Nivaldete disse...

Retrato 3x4 bem tirado
de uma época...

Abraços.

Marilena' disse...

Gostei muito deste seu post :)

obrigada pelo comentário ;)

disse...

Muito bom texto. Escuta vê se aparece ok, te coloquei novamente nos meus favoritos rsrs
Não demore rssr

Luciene Danvie disse...

Um saudoso texto!

Também usei uma camiseta com foto da Janis e acho que ela teve o mesmo destino da sua. Mas ainda guardo uma foto dela grudada no mural de recados do meu quarto. Curiosamente e não sei ela foi a única que ficou.
Diferente de você não fui a shows de bandas de rock dos anos 80, até mesmo porque eu tinha menos de dez anos. Acho que aqueles anos ecoaram mais tarde na minha adolescência e eu compartilhei com vocês um tempo que não foi meu: Coisas da linguagem universal da música!!!!

Abraços.

disse...

Cefas hoje postei um post e falei de ti no meu post. Feliz dia do amigo. Paz!

Cefas Carvalho disse...

Sim, Luciene, a música (a arte em geral) tem essas coisas. Por minha vez, me sinto contemporâneo do Pink Floyd e do Genesis mesmo eles tendo lançado suas obras primas quando eu era criança.

Ah, Rô, vou dar uma passada por lá e conferir o post.

Beijo nas duas!

Vanessa Souza Moraes disse...

Quanta tinta estragada pelo durex, rs.

uma tal de Ti. disse...

sou louca por este tipo de história. amo sentimentos.
amo histórias. amo pessoas.

lindo texto. eu já vivi algo parecido. mas sem 'amuleto'. só eu mesma com meu coração!

Deus abençoe. tá lindo o blog.

Iara Maria disse...

nostalgia é o que se diga mesmo...

tantas recordações... a memória é o melhor poço pra atravessar e trazer escrituras tão bem feitas como essa!

beijos...

Baal disse...

amei o texto! Me fez lembrar que tb tive uma camiseta da Janis Joplin e usei-a por muitos anos e para tantos lugares, só que não era preta, era azul, quase um índico blue...que nostalgia, para não dizer que viagem com esse texto!