01 dezembro 2009

Desabrochando


Cefas Carvalho

Ainda que não fosse religioso, lembrei do Eclesiastes naquela manhã chuvosa de agosto: Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de afastar-se. Na verdade, eu começara a refletir sobre a questão desde que os cabelos insistiam em partir e as dores nas pernas e nas costas ficavam mais constantes. Mas, o passar dos anos não me assustava: realizado profissionalmente, bem casado com Helena, pai de Amanda, uma filha linda e saudável, eu fizera do tempo um bom amigo.
Às voltas com a administração da minha empresa de informática, recebi – naquela manhã de forte chuva – um telefonema de Helena. Disse que tinha algo importante a me comunicar. Imaginei tratar-se de contas a pagar ou o pedido para levar algo para casa. Nada disso. Entre a satisfação e indisfarçável constrangimento, ela disse que Amanda menstruara pela primeira vez.
A primeira sensação foi de uma estranha angústia. Claro que eu sabia – posto que ela tinha treze anos – que tal dia chegaria. Contudo, uma vez acontecido o fato temos uma estranha sensação de surpresa, como se tal coisa jamais fosse acontecer. Tolice. Claro que aconteceria, e naquele instante eu percebia que o fato provocaria mudanças na vida de Amanda e, certamente, na minha.
O pensamento que me invadiu foi o óbvio: a minha menina estava se transformando em mulher. Não sem certa melancolia, lembrei de quando ela era um bebê, ninada em meus braços sob o encanto de velhas cantigas. Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta...
Recordei das fraldas sujas que troquei nela e das vezes que a levantei do chão, quando caía, no exercício penoso – e por fim bem sucedido – de andar sozinha. Como um filme, todas as cenas da menina que vi nascer e crescer passaram por mim como se em despedida. Afinal, a menina não existiria mais. Daria lugar a uma mulher – antes disso a uma adolescente, com suas espinhas, neuras, chiliques e caprichos - que teria de encontrar seu espaço em meio a um mundo de homens, como se diz.
Outra recordação: das aulas de biologia. Menarca era o nome da primeira menstruação, sim, o termo me vinha à cabeça como um chicote, a lembrar de tecnicidades, de ações hormonais, do sangue, enfim. Um sangue simbólico que levaria minha menina para sempre para as terras da memória e me daria alguém diferente em troca.
Fui tomar um café na copa enquanto meu cérebro funcionava febrilmente. Pouco ou nada eu havia conversado com Amanda, embora fôssemos tão próximos, sobre menstruação e a passagem da infância para a adolescência. Talvez eu acreditasse que era um assunto para ser trado com a mãe delas, em uma conversa de mulheres. Quem sabe meu subconsciente não quisesse esconder dela própria que minha menininha um dia cresceria. De qualquer maneira eu estava arrependido de jamais ter explorando o tema. Como fazê-lo a partir dali? Como adentrar no mundo secreto que Amanda e Helena viveriam a partir de então, um mundo feito de absorventes íntimos, olhares cúmplices, alterações de humor. Era como se Amanda estivesse definitivamente abandonando o universo que eu construíra para nós dois e adentrasse em um mundo onde qualquer coleguinha de colégio teria mais peso do que eu. Recordei dos estudos que fizera nos tempos de universidade, sobre como a sociedade ocidental estigmatiza a menstruação, principalmente a menarca. Tudo tratado com segredos, olhares fortuitos, termos grosseiros. Nada da suavidade de povos ditos selvagens, mas, que celebravam a passagem de fase da menina com dignidade e alegria.
Em seguida, comecei a me sentir ridículo. Claro que Amanda continuaria sendo a filha que sempre foi, com a diferença que estava crescendo. Comecei a imaginá-la como uma flor. Era uma flor, uma flor desabrochando: uma flor que, mais tarde, possibilitaria o nascimento dos frutos, frutos que seriam meus netos e então fui inebriado pela imagem de mim mesmo correndo no jardim com os netos.
Tomei, então, uma decisão. Saí do trabalho mais cedo, passei em um shopping e comprei uma caixa de bombons com licor e um buquê de rosas brancas. Celebraria com minha filha e com minha esposa a nova fase que aguardava a todos nós. Daria adeus a menina e daria um abraço na mulher que eu teria o prazer de ver surgir aos poucos.

6 comentários:

Cláudia Magalhães disse...

Nossa, que lindo amor meu! Tão doce... Fiquei, realmemte emocionada! Parabéns por tanta sensibilidade!

Beijos para o meu escritor favorito!

Te amo!

Nivaldete disse...

Bela produção, Cefas!

Pedra do Sertão disse...

Dilemas de pai. Sensações cruéis que só tendem a aumentar!!! Gostei, Cefas! abç

Nivaldete disse...

É que a vida não pára...

Paulo Jorge Dumaresq disse...

Ótimo conto, amigo. Vlw a postagem do poema. Grande abraço.

kleyton disse...

muito bom. belo texto.