14 setembro 2009

Eu não danço


Cefas Carvalho

A festa estava um tédio, como era de se prever. Aniversário de uma prima distante, chata e prepotente. Eu me perguntava, enquanto bebia mais um uísque, porque não ia embora, quando a vi, sentada à mesa, próxima de mim, com duas amigas de cada lado. Como eu não a vira antes? Não era a mulher mais linda da festa, mas, ao contrário das outras, parecia brilhar, como as madonas das pinturas renascentistas, ofuscando quem lhe circundava. Mas, que fique registrado, seu brilho era sereno e discreto. Ela olhava como se, na verdade, não estivesse ali, mas eu algum lugar longínquo. Quando percebeu que eu a olhava, sorriu rapidamente e voltou a cabeça para o lado. Voltei à minha mesa, mas não desisti de encará-la, até que, munido com a coragem dos que sentem o coração acelerar, esperei que estivesse sozinha e a abordei:
- Boa noite. Quer dançar?
- Obrigada. Eu não danço.
- Não gosta de dançar?
- Eu disse que não danço... – sorriu.
- Se não sabe dançar, eu te ensino...
Ela lançou um olhar de carinhosa reprovação que me inibiu, e parei com a insistência. Perguntei seu nome, Laura, e disse o meu, Ricardo. Ela convidou-me para sentar a seu lado.
- Há algo em você que me encanta. Não me olhe como se eu fosse um conquistador barato. Estou falando a verdade. Talvez sejam seus olhos alheios a tudo...
- Eu não sou uma mulher comum
- Eu sei disso.
- Não, você não sabe de nada – sorriu. Conversamos sobre banalidades – o tempo chuvoso, o trânsito caótico da cidade – e sobre nossos gostos – cinema europeu, literatura, poesia. Recitei trechos de Zila Mamede e Florbela Espanca para ela, que cantarolou, com uma linda voz de soprano, pérolas de Janis Joplin.
Sim, eu estava encantado por ela e as horas se passaram sem que eu sentisse, até que a festa foi chegando ao fim. Convidei-a para bebermos um último drinque no balcão, mas ela recusou. Não posso sair daqui, sorriu.
- Mas, sua família pode nos observar daqui mesmo. Aceite meu convite.
Ela sorriu, passou a mão em meu rosto suavemente e virou a cabeça para o outro lado, onde sua irmã – a quem eu já tinha sido apresentado – olhou-a com um sorriso enigmático.
- Ricardo, eu tenho que ir...
- Podemos nos ver amanhã? Dê-me seu número de celular...
- Ricardo, há coisas que você tem que saber...
- Você é casada? Noiva? Tem namorado? Seu pai é violento? Ora, se não acontece nada disso e nem eu sou um Montecchio e nem você uma Capuletto, o que mais eu preciso saber? – brinquei. Ela riu, mas amargamente e baixou a cabeça.
- Margarete está chegando. Terei que ir... –suspirou. Olhei para o lado e vi a irmã empurrando uma cadeira de rodas e a colocando ao lado de Laura.
- Ricardo, você pode ajudar minha irmã a me colocar aqui.
Compreendi tudo em um instante. Também em um instante eu teria que tomar a minha decisão. Pedi licença para tomá-la no colo e colocá-la na cadeira de rodas.
- Agora eu poderia beber o drinque com você no balcão, se não fosse hora de ir, mas infelizmente, não dançaria.
- Pois eu dançaria com você assim mesmo.
- Vamos lá, seja um cavalheiro e empurre minha cadeira até o nosso carro.
Obedeci a ordem e fomos conversando até o estacionamento. Enquanto a mãe e a irmã se despediam da minha prima chata e família, ficamos fumando e conversando besteiras.
- Posso te deixar em casa – disse.
- Você não iria querer isso.
- Eu quero isso, sim.
- Você me deixaria por pena.
- Negativo. Farei isso porque estou me apaixonando por você.
Laura me olhou e ficou em silêncio. Quando a mãe a Margarete voltaram e a família se preparava para entrar no carro, notei que Laura conversava algo com elas. Após alguns segundos de visível tensão, percebi as três mulheres me olhando e me avaliando. Por fim, Margarete veio até mim.
- Laura quer que você a deixe em casa. Nós concordamos, embora isso não seja muito comum. Podem esticar a saída, claro, beber alguma coisa, jantar, mas tenha cuidado com ela, por favor...
- Pode ter certeza que cuidarei bem dela. E agradeço a confiança – respondi. Coloquei Laura no banco do passageiro, dobrei a cadeira de rodas para que coubesse no banco de trás e saímos.
- Viu como sou diferente das outras mulheres?...
- É sim, mas não pelas razões que está pensando.
Perguntei a ela onde queria ir, propus uma volta pela praia ou comermos uma massa em algum restaurante.
- Ricardo, se eu não fosse deficiente você me faria essas mesmas propostas?
- Claro – respondi.
- Então vamos fazer as duas coisas.
Passeamos pela orla, vimos a lua cheia e seu efeito na maré e depois comemos, não a massa, mas camarão em um restaurante simples e discreto.
Já rumo a casa dela, percebi uma névoa em seu olhar.
- Se eu não fosse deficiente, você me deixaria em casa agora?
Hesitei. Como não soubesse o que dizer, ela continuou:
- Esta noite está maravilhosa. Gostaria que continuasse assim.
- Qual a sua sugestão?
- Sou uma mulher adulta e sadia, com exceção das pernas, que não me mexem, tenho meus desejos e vontades. Você é um homem aparentemente adulto e sadio – riu – estamos nos conhecendo e temos a noite pela frente.
Não foi necessária mais nenhuma palavra. Conduzi o carro a um motel que havia ali perto.
Também não foram necessárias palavras de explicação. Claro que eu estava um pouco tenso, mas nada que o carinho e a excitação não suplantassem com sobras. Como se por instinto, como se tivesse feito tais coisas a vida inteira, levei-a de colo para a cama, depois a ajudei a tomar banho, abri um vinho e conversamos um pouco.
- Ricardo, me beije como nunca beijou mulher alguma em sua vida – pediu, de repente, deitando-se. Comecei beijando as pontas dos pés. Mandei às favas a razão, que insistia em me lembrar que ela nada sentia naquela parte do corpo. Afastei delicadamente suas pernas e mergulhei na flor cravada entre elas. Senti suas unhas em meus cabelos, primeiro afagando o couro cabeludo levemente... Depois senti os dedos com mais força, e, então, as horas viraram uma sucessão de prazeres. Desnecessário registrar que em nenhum momento ela me pareceu diferente de qualquer outra mulher. Minto. Na verdade ela era diferente das outras sim, de uma maneira que me seria difícil explicar, mas que meu coração já começava a compreender.
Acordamos às sete da manhã, tomamos café, um banho rápido e deixei-a em casa.
- Eu te vejo hoje?
- Com uma condição.
- Qual?
- Se você me levar em algum lugar para dançar.
- Pensei que não dançasse.
- Com você eu dançarei.
Beijei-a e empurrei a cadeira até o hall da casa, onde Margarete nos recebeu com um sorriso aliviado. Despedi-me delas e rumei para casa. Pensei que estaria cansado, mas não consegui dormir. Coloquei uma música animada no som – What a wonderful world, cantada por Sam Cooke – e comecei a dançar sozinho. Pensando em Laura.

8 comentários:

Cláudia Magalhães disse...

Que lindo, amor meu! Emocionante, mesmo! Esse meu marido continua me surpreendendo! Aproveito para registrar que você é o meu escritor favorito e dizer que eu te amo muito, meu Cefinhas!
Beijos.

Paulo Jorge Dumaresq disse...

Conto de muita sensibilidade, Cefas. Parabéns! Estou com o "Taxidermia" para te passar. Forte abraço.

Nivaldete disse...

Haja criatividade!...Contos jorram na sua página..., como água. parabéns!

Cefas Carvalho disse...

Valeu a visita, Paulo. Estou louco para ver o "Taxidermia". Abração!

Anônimo disse...

Obrigado pelo comentário, Cefas. Darei um jeito de aparecer sempre por aqui. Com mais calma do que hoje. Tô numa correria ultimamente, que só vendo. Fui.

Abraços.
W. Gorj

Mulher na Janela disse...

texto que aposta na sensibilidade múltipla da palavra....poucos conseguem fazer isso em prosa e poesia!

beijos do seridó!

FFF disse...

Belo texto cara!

? disse...

muito, muito bom