26 janeiro 2009

A flor e a pedra



Cefas Carvalho

Uma mulher como esta deve ter nome de flor, pensei, quando a vi pela primeira vez. Era o lançamento do livro de poesias de um amigo, e, entre o vinho e conversas tediosas, apercebi-me da mulher à minha frente.
Era linda, de pele leitosa e olhos indecisos entre o negro e o castanho. Cabelos negros presos em coque e um sorriso luminoso. Decidi que precisava conhecê-la e o destino conspirou a meu favor. Uma amiga em comum nos apresentou. Chamava-se Violeta. Contei a ela minha impressão sobre seu nome; ela riu e disse que queria ouvir mais sobre minhas primeiras impressões.
Jantamos no dia seguinte, e o vinho branco serviu como senha para que descobríssemos gostos em comum; livros, filmes, músicas, hábitos... Eu, artista plástico de relativo destaque – ou assim imaginava – ela, uma atriz e encenadora em ascensão, como vim a descobrir. Os muitos gostos em comum se tornaram cumplicidade e esta cumplicidade não tardou a se tornar amor.
Um amor que desaguou em casamento - no cartório e na igreja – e na benção de amigos e conhecidos. Nem mesmo os invejosos de plantão, eternamente alertas como Iago, conseguiram tirar um pedregulho do castelo onde erguemos nossa história de amor. O êxito emocional fez-se seguir pelo sucesso profissional; tive telas vendidas para a Holanda e a Itália; Violeta ganhou ovações e prêmios por uma ousada encenação de Medeia... Consideramos-nos preparados para conquistar o mundo. Quem ou o que poderia nos impedir? Éramos jovens, belos, inteligentes, ousados... e quando tínhamos alguma dúvida destas pretensas qualidades, os amigos e admiradores não demoravam a nos lembrar delas. Violeta era a flor, de nome e trato; eu, era a pedra, pela personalidade e firmeza em ações e opiniões. O casal perfeito, disseram. E cometemos o erro de acreditar cegamente nisso.
Não tardaram os conflitos que, como ondas noturnas, começaram a erosão no castelo do nosso amor. Ciúmes, quase sempre sem razões e intempestivos; intolerância, muitas vezes próxima da grosseria; ambos guardando rancores como quem guarda bijuterias em uma caixa. Minhas telas sofreram o efeito da crise; os temas se tornaram mais lúgubres, as cores, mais escuras. Violeta, por sua vez, desaguava nas personagens a raiva que carcomia seu coração. Atrasei a entrega de telas e diminui o ritmo de trabalho. Ela, chegava atrasada a ensaios e se tornava mais ríspida com os colegas de palco. Afinal, a maior parte do tempo era dedicada ao jogo das ofensas, da espera pela ironia para responder a uma ironia antes colocada à mesa. Os corações acelerados, a mão trêmula de medo ou ódio. E o castelo ruiu, como seria de se esperar. Os amigos, sem surpresa, testemunharam a flor se recolher ao seu jardim e a pedra rumar para a aridez do deserto.
Encontramos-nos três vezes Violeta e eu, após a separação. Ensaiamos retomar o casamento, trocamos mais frases ferinas, choramos um pouco, mas, por fim, decidimos manter-nos longe um do outro. O tempo curaria as dores, como costumam dizer e era, possivelmente, verdade.
Porém, a separação parece ter atraído a sorte contra nós. Meses depois, dirigindo com sono, voltando de uma apresentação de Macbeth, Violeta bateu o carro contra um caminhão na BR-101. Ficou meia hora sangrando presa às ferragens. Perdeu a perna direita. Estava fazendo fisioterapia e tentando se adaptar a uma prótese.
Quanto a mim? Cá estou em um restaurante, lembrando de tudo que relatei agora e esperando Violeta chegar. Ouvi sua voz atrás de mim, dizendo meu nome com suavidade. Senti sua mão em meu ombro esquerdo. Com um barulho estranho – a prótese, claro – ela sentou-se à minha frente. Talvez estivesse sorrindo. Talvez tivesse pintado novamente o cabelo. Esqueci de relatar somente este detalhe, sobre mim; uma semana depois do acidente de Violeta, senti uma imensa dor nos olhos, que tentei aplacar com colírios e soro biológico. Como a dor não passava e a vista começou a ficar enevoada, recorri a um oftalmologista para trocar os óculos. Descobri que havia contraído uma bactéria rara, similar ao glaucoma, e que estava ficando cego. Fui cirurgiado, na esperança de manter a visão, mas foi inútil. Como Édipo, como Borges, fiquei cego.
Eu e Violeta estamos aqui, rindo de nosso quinhão de sofrimento nesta vida. Um cego e uma aleijada, ela riu. Agora, não era o mundo que tínhamos para conquistar, mas sim, a vida cotidiana, como fazer um café ou fritar um ovo. Rimos disso e pedi que ela colocasse mais vinho em minha taça...

4 comentários:

Cláudia Magalhães disse...

Que lindo, amor meu!
É impossível não se emocionar!
É maravilhoso saber que existem sentimentos que nunca deixarão de existir... Que são eternos...
Te amo.

Nivaldete Ferreira disse...

Tempo apertado, mas corri os olhos... Você sempre arranja umas histórias interessantes... não tenho tido tempo de postar nada lá no meu... é assim... começando a roda viva de novo... Cadê Cláudia? Não deu um alô.... Beijos pra vocês!

Francione Clementino disse...

Parabéns cara! Mais um show comoção e exemplo de vida!

Lucian Kleyton disse...

Grande Cefas, belo texto. Muita emoção o que nos faz não só ler, mas presenciar o texto.

Abraços