24 outubro 2012

Usuário do Facebook acredita em tudo que lê


 Cefas Carvalho

Lembro que na minha infância, em meio às conversas de crianças sobre como tinha sido o fim de semana ou o que os pais tinham nos comprado, volta e meia aparecia alguém para dizer que tinha passado o domingo em Nova York ou que o pai tinha comprado uma limusine. Eu achava estranho uma criança da minha idade mentir de forma tão evidente, mas, achava ainda mais estranho que outras crianças acreditassem naquilo. Na adolescência, histórias semelhantes. Rapazes cheios de testosterona relatavam histórias de conquistas amorosas totalmente cheias de contradições e “furos”, mas, muitos amigos acreditavam. Pior: Amigos e amigos meus em 1989 diziam que não votariam em Lula para presidente da República porque acreditavam na campanha desleal de Collor que dizia que o petista, se eleito, iria tomar os apartamentos das famílias de classe média e dividir com os sem terra.
Evoquei essa sessão nostalgia para ilustrar que ao longo da minha vida inteira percebo a paixão das pessoas por acreditar. Simplesmente acredtar, crer, em algo ou alguém. Acreditar em um deus, uma religião, um padre, um pastor, um cartomante, um pai de santo, acreditar que a história que o sujeito conta na fila do banco é verdadeira, acreditar que o cara que nos pede uma esmola vai usá-la para comprar leita para os filhos. Faz parte do ser humano crer. Seja lá no que for.
Até o surgimento das redes sociais, em especial o Facebook, esta característica humana, demasiadamente humana, me parecia até discreta, cada vez mais pontual. Contudo, hoje, tenho a percepção real da necessidade humana de acreditar.
Usuários do Facebook acreditam em tudo, absolutamente tudo. Para a média deles, tudo o que se diz, o que se denuncia, o que se divulga, é verdadeiro. O axioma de que tudo é verdadeiro até que se prove o contrário, é elevado a última potência.
Desta forma, vemos pessoas letradas, bem informadas, que sempre tiveram acesso à educação formal e à informação, terem comportamento igual a uma velhinha no interior que acredita que se comer manga com leite vai passar mal.
Passamos anos no colégio aprendendo sobre como funcionam os poderes Executivo e Legislativo. Basta alguém postar uma mensagem dizendo que se compartilharmos ela um milhão de vezes, tal coisa vai virar lei.
Sabemos que as emissoras de TV são concessões públicas e também empresas privadas com fins lucrativos, e mesmo assim compartilhamos mensagens contra o Big Brother Brasil, pois com um milhão de compartilhamentos, o problema será suspenso.
Divulgamos fotos de crianças perdidas sem informações consistentes sobre sua família, cidade e bairro onde reside, telefone fixo da família, nomes dos pais.
Compartilhamos imagens de crianças doentes sem sabermos nome, idade, onde mora e qual a doença, pois a cada compartilhamento o Facebook dará 5 centavos para a família dela.
Repassamos frases engreçadas e espirituosas de literatos, atores e gente famosa sem termos certeza se realmente as frases são dessas pessoas, sem conhecemos as obras dessas pessoas.
Enfim, acredita-se em tudo. O usuário médio do Facebook decidiu que tudo que épostado na internet é verdade. Ele não lêu Clarice Lispector, na verdade tem uma vaga idéia de quem ela é, mas, viu uma frase bonita sobre flores e passarinhos atribuída a ela e decide compartilhar com os amigos. Recebe uma mensagem de que a partir de tal data o Facebook será pago e imediatamente repassa para os amigos, preocupado. “Notícias” humorísticas de sites como Kibe Loco e o Sensacionalista são repassadas e comentadas como se fossem notícias reais.
Temos a internet, temos Ipod, Smartphone, TV a cabo, mas, nosso imaginário ainda é como o dos povos primitivos que acreditavam que se fizessem a dança da chuva, os deuses derramariam tempestade sobre a terra. Mas, vamos manter a esperança. Afinal, como disse Shakespeare, “não devemos perder a fé na humanidade e na sua evolução”. Ou terá sido Luís Fernando Veríssimo quem escreveu isso? Ou Clarice Lispector.

20 setembro 2012

Perfis de mulher: Aurélia, a menina do cemitério

Cefas Carvalho

Essa história aconteceu há muito tempo, mas, somente agora, ganhei forças para contá-la.
Nascido em Pendências, mas órfão de pai e mãe desde a infância, fui criado em Natal, mais exatamente em uma tranqüila rua do Alecrim por minha tia Lucia e por seu marido, que eu chamava de Tio Baltasar. Ele, coitado, morreu de cirrose no dia do meu aniversário de quinze anos. Minha tia passou a ser minha única referência afetiva e vice-versa. Jamais tive o que me queixar dela ou da vida. Fui bem criado, estudei em ótimas escolas, entrei na universidade e por fim formei-me em Educação Física.
Incentivado por tia Lucia, fui fazer um curso de um mês em Recife sobre técnicas desportivas. Foi na capital pernambucana, porém, que recebi a noticia que tia Lucia havia morrido, vítima de infarto. Confesso que viajei chorando durante as quatro horas de ônibus que separam Recife de Natal.
No enterro, no Cemitério do Alecrim, poucos parentes, uma e outra amiga e eu, me sentindo pela primeira vez sozinho no mundo. Após todos irem embora, ainda fiquei um bom tempo a olhar para os túmulos e mausoléus, até que o zelador gentilmente me mandou embora, advertindo que era hora de fechar.
No dia seguinte voltei ao cemitério. Depositei mais flores no túmulo de minha tia. Sem que ninguém me visse – era proibido fumar ali, me dissera o zelador – acendi um cigarro a vagar pelas ruas no cemitério. Tantos anos morando no Alecrim e eu jamais entrara ali até então, afinal, meu tio fora enterrado no interior e nenhum conhecido ou amigo jamais fora sepultado naquele solo.
Na segunda semana sem tia Lucia, trabalhando em uma escola apenas de manhã e com a tarde e noite livres, passei a dedicar mais tempo a pensar na morte em si do que na perda específica da minha tia. Não sentia vontade de sair ou beber com os amigos, e tampouco estava atrás de companhia feminina, posto que havia terminado um longo namoro havia alguns meses. Também comecei a ir três vezes por semana ao cemitério, ambiente que me parecia cada vez mais familiar. Fiz amizade com o zelador, os funcionários. Conheci a administradora do local, dona Lenilde. O cemitério tem o poder de convidar à reflexão e mais que morbidez a visão de tantas pessoas que se foram me trazia uma estranha espécie de paz, em lugar de repulsa ou morbidez.
Em uma dessas tardes, passeava pelos túmulos, contemplando alguns imponentes, como o de Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, quando de repente avistei uma jovem na minha frente, a me olhar como se eu estivesse fazendo algo errado.
- Estou observando você há alguns dias...-sorriu
- É, eu estou vindo aqui com freqüência respondi, atordoado com a abordagem.
- Eu também gosto muito daqui. É calmo, tranqüilo, tão diferente do mundo...
- Você mora aqui no Alecrim?
- Exatamente.
- Qual seu nome?
- Aurélia – sorriu. Um sorriso doce, sereno. Reparei então na menina, de longos cabelos castanhos se derramando pelo vestido azul claro. Os olhos, imensos, vivos, fixos em mim. Deveria ter entre dezoito e vinte anos. Bela como poucas eu tinha visto.
- Bem, vou te deixar na sua caminhada. Até logo – sorriu, se afastando. Tentei falar algo para impedi-la de ir, mas as palavras não saíram. Pensei em rodar pelas ruas do cemitério, que afinal não era tão grande assim, mas desisti. Voltei para casa com uma sensação estranha, de quem deixou para trás algo importante.
Passei boa parte da noite pensando na menina. Aurélia, lembrei do nome.
No dia seguinte, retornei ao cemitério. Talvez nem tanto para prantear sobre o túmulo de tia Lucia, mas para procurar Aurélia. Não foi difícil encontra-la. Passeava entre os túmulos, como se o local fosse um parque, não um cemitério.
- Boa tarde.
- Boa tarde, Aurélia.
- Lembra meu nome...
- Claro. Como poderia esquecer? – sorri. Ela perguntou o meu – Carlos – o que não fizera no dia anterior.
- Gosto daqui – comentou com ar triste – Acho que já me acostumei
- Qual a sua idade?
- Quantos anos você me dá
- Vamos ver...dezoito?
- Errou...- disse, após certa hesitação. Eu estava certo que ela tinha dezoito.
- Vou tentar novamente...dezenove?
- Errou de novo. Mas desista, não vou dizer minha idade...
- Está bem, você manda.
- Vamos passear pelo cemitério? – indagou. Eu já o fizera tantas vezes sozinho naqueles dias tristes...Que bom seria faze-lo com uma mulher linda pela qual eu estava fascinado.
Pelas ruas do local, contemplamos os imponentes mausoléus familiares, vimos os túmulos dos judeus, com inscrições em hebraico...Aurélia me levou também para os túmulos dos três soldados ingleses que morreram no oceano, em 1944, durante a 2º Guerra Mundial e que foram sepultados em solo natalense.
- Todos os anos as famílias e oficiais ingleses vem aqui no cemitério rezar pelas almas deles e limpar os túmulos. Pode observar que são dos mais conservados deste cemitério... – explicou. Fiquei impressionado com seu conhecimento do local. Algo mórbido, sem dúvida, mas todo mundo tinha algo de louco. Das mulheres que eu conhecera até então quantas não tinham hábitos mais estranhos que os de Aurélia?
Por fim, andando por uma rua solitária, entre túmulos mal conservados, paramos subitamente, como se tivéssemos combinado. Olhei-a com atenção, enquanto sentia meu coração disparar.
- O que foi? - perguntou
- Você é muito linda... – respondi. Não precisamos de mais nada para nos enlaçarmos em um beijo. Assim ficamos por um bom tempo, sem palavras. Apenas os lábios e os braços em movimento.
- Está na hora de eu ir... – comentou, vendo que já estava anoitecendo
- Eu te deixo em casa
- Negativo. Você vai, e eu fico. Depois vou para casa.
- Por que isso?
- Eu quero assim.
- Mas eu quero te ver.
- Você vai me ver. Mas, aqui.
- Por que? Não consigo entender.
- Não precisa entender, basta concordar. Amanhã á tarde aqui mesmo, está bem, meu amor?
Como resistir? Concordei com aquela maluquice. Fui para casa meio apaixonado meio aborrecido. Por um lado, estava enfeitiçado por aquela mulher, por aqueles beijos...Por outro pensava se ela não queria me fazer de palhaço. Teria ela se comportado da mesma forma com outros homens? Seria uma tara dela querer se encontrar apenas no cemitério?
De qualquer maneira, no dia seguinte lá estava eu no cemitério. Estava acontecendo um sepultamento, portanto, de início não consegui encontra-la com o fluxo de pessoas. Por fim, na rua colada ao muro da rua Rafael Fernandes, bem próxima ao mausoléu da Liga Operária Norte-riograndense, encontrei a minha Aurélia.
Durante duas horas praticamente só nos beijamos e trocamos palavras de carinho. Mas, eu estava decidido a dar um rumo novo à nossa história.
- Vamos ao cinema,
- Não quero.
- Para onde você quer ir? Basta dizer que iremos.
- Quero ficar aqui mesmo
- Mas Aurélia...
Ela começou a lacrimar... – Quero que goste de mim do jeito que sou... – murmurou.
Como não ceder? Ficamos lá, entre os túmulos e fugindo do olhar desconfiado e vigilante do zelador. Ao ir embora –sozinho – pensei em ficar de tocaia na porta do cemitério e segui-la quando saísse, mas fiquem temerosos de ser flagrado e envergonhado de minha baixeza, fui para casa. Passamos a nos encontrar no cemitério. Em duas semanas, foram pelo menos seis encontros. Era estranho, admito, e parece absurdo, mas eu estava feliz, e quando se está feliz, tudo parece normal. Imaginei que ela tivesse vergonha de sua família, com um pai alcoólatra ou coisa parecida. Poderia ser também que fosse muito humilde e não quisesse que eu visse onde morava. Seja como for, decidi que enquanto eu estivesse me sentindo bem com a situação, não forçaria a barra. Um dia ela vai querer ir a um cinema, à praia, e então poderemos viver como um casal normal, pensei.
Contudo, em uma tarde algo nublada, fui ao cemitério e Aurélia não apareceu no local combinado, em frente ao túmulo de João Câmara. Esperei por uma, duas, três horas, até o cemitério fechar, e nada. Andei a esmo pelas ruas em volta do cemitério, entrei em bares, procurei em paradas de ônibus e nada. Voltei para casa com uma tristeza sólida sobre a minha cabeça.
No dia seguinte, lá estava eu de volta ao cemitério. Andei pelas ruas e nada. Até que, próximo à capela, encostei-me em um tumulo deteriorado e coloquei as mãos nos olhos. Fui despertado deste breve transe por um funcionário do cemitério, um rapaz alto que eu sempre via mas jamais havia trocado duas palavras. – Tudo bem com o senhor? – perguntou.
- Mais ou menos – respondi.
- Eu posso ajudar em alguma coisa?
- Na verdade, não. Estou esperando uma menina...
- Se é para visitar algum túmulo, eu até posso ajudar a encontra-la. Se for para namorar, como tantos aqui tentam fazer, o zelador não vai gostar nada disso.
- Bem, eu fico até sem jeito, mas é quase isso... – confessei. Ansioso para contar minha história insólita para alguém, resolvi fazer daquele trabalhador meu cúmplice. Relatei minha história com detalhes, e no fim, olhei-o como se pedindo uma solução.
- Eu moro aqui na Ary Parreiras desde moleque e conheço quase todo mundo por aqui. Qual é o nome da menina? Se ela morar por essas bandas eu devo conhecer.
- O nome dela é Aurélia. Aurélia Galvão Barreto, se não me engano.
- Aurélia Galvão Barreto? – assustou-se - Você está maluco, homem?
- Por quê?
- Olhe para o seu lado, homem e deixe fazer brincadeiras para me apavorar - Você está encostado justamente no túmulo de Aurélia Galvão Barreto. Ela morreu em 1932, aos dezoito anos, em um incêndio aqui mesmo no Alecrim...

28 agosto 2012

Perfis de Mulher: Dolores

Cefas Carvalho

Chamava-se Dolores. Como Dolores Duran, uma das heroínas de minha vida. Mas ela não conhecia Dolores Duran, não sabia nem quem era. Talvez sua mãe também não conhecesse a cantora e tivesse escolhido o nome por gosto, capricho ou influência, sabe-se lá. Mas, nada disso importa. Conheci Dolores em uma noite sem lua e sem estrelas, quase amaldiçoada, em um bar tipo inferninho nas Rocas. Surgiu na minha frente como quem vinha do nada – ou de algum dos quartos fétidos do bar onde as meninas operavam seus programas rápidos – e sorriu como se já me conhecesse havia muito. Também sorri e com um movimento sutil de cabeça convidei-a para sentar à mesa. Ela aceitou e bebeu da minha cerveja. Conversamos sobre a vida em geral e sobre nada em especial e pude perceber o quanto era estranhamente bela e triste. De uma beleza sofrida, claro, pele queimada, não de manhãs de praia, mas de quem veio do sol do interior. Cabelos maltratados, olheiras emoldurando um olhar castanho melancólico. Talvez meus amigos a achassem feia. Mas, aos meus olhos – também sofridos, admito – Dolores me pareceu bela como poucas.
Bastou meia hora para que eu me resolvesse a convidá-la para sair. Paguei sua saída do bar (exigência inegociável da dona do estabelecimento para quem quisesse sair com as meninas da casa) e fomos no meu carro para um motel em Mãe Luíza. Pedi cerveja, um jantar – ela estava morrendo de fome – e depois mergulhamos no mar sem fundo dos amores carnais envolvidos em dor e carência. No fim das contas e dos gozos, percebi que – como muitas vezes acontecia comigo – eu era um náufrago a me agarrar na bóia de amores circunstanciais e comprados. A diferença é que Dolores não parecia apenas estar trabalhando. Era como se ela também fosse uma náufraga.
No dia seguinte paguei o motel e deixei-a no inferninho onde morava. Trocamos números de celular e prometi telefonar e também voltar para outra noite juntos. Horas depois, já no trabalho, dei-me conta que Dolores em espanhol, significava “dores”. Os nomes femininos em língua espanhola muitas vezes evocam sentimentos: Dulce (Doce), Soledade (Saudade), Angustias, Martírio... e lembrei-me de um livro de Jack Kerouac – Tristessa – sobre uma jovem mexicana, igualmente bela e triste. Uma mulher chamada Tristeza..., pensei, com amargura, lembrando que a mulher sem destino e sem futuro que povoava meus pensamentos, ela mesma carregava no nome a antítese na alegria e da felicidade.
Voltei à minha vida normal, seja lá o que isso significasse, e confesso, esqueci-me de Dolores por alguns dias. Passada uma semana, porém, a lembrança dela me veio e me doeu na pele como uma agulha. Corri para as Rocas. Tudo continuava igual, o inferninho decadente, as mesas sujas, os sorrisos falsos das meninas... também Dolores estava lá e continuava igual. O mesmo olhar sofrido, a mesma atenção para comigo... era como se o tempo não se movesse naquele bar. Pedi uma cerveja, depois outra, depois uísque com coca para ambos e por fim acabamos em outro motel, novamente afogando nossas mágoas no corpo um do outro. Desta vez, contudo, consegui saber mais coisas sobre ela... já tinha sido casada duas vezes, tinha dois filhos, um de cada pai, era de Sousa, na Paraíba, mas com família em Pau dos Ferros... gostava de viajar e samba... Tinha estudado, fizera o segundo grau completo, gostava de escrever, chegara a sonhar, em certa altura imprecisa da vida, em ser professora numa cidadezinha do interior... Propus que viajássemos juntos. Para onde?, perguntou. Para lugar nenhum, respondi, na estrada decidimos... Pipa, João Pessoa, Recife, Tibau, Areia Branca... o vento seria nosso mapa. Com um sorriso triste ela concordou. Acordamos que faríamos a viagem no final de semana seguinte, quando eu prepararia tudo e ela inventaria uma desculpa para a dona do bar para não termos que pagar a saída. Vivi uma semana normal, mas algo excitante com a perspectiva da insólita viagem. Nada comuniquei aos amigos nem à família (como fazê-lo?). Na manhã de sábado, por fim, estacionei o carro em frente ao prédio abandonado nas Rocas onde havíamos combinado. Esperei durante quarenta minutos. Eu já me preparava para telefonar para ela quando aproximou-se do veículo uma mulher que eu conhecia do inferninho. Vinha me trazer um bilhete de Dolores, que fora embora com todos os seus pertences no dia anterior e nada dissera sobre seu destino: “Meu querido, descobri que sou dona das minhas dores e não quero dividi-las com você nem com ninguém. Não nasci para ser feliz. Melhor eu ir embora enquanto é tempo. Beijo. Dolores”. Guardei o bilhete no porta-luvas e peguei a estrada. Para onde? Quem sabia? Que importava?

22 agosto 2012

Perfis de mulher: Lana


Contendo nada menos que três obras primas, a trilogia chamada “Perfis de mulher” foi escrita pelo cearense José de Alecar e consiste em verdadeiras pérolas da literatura brasileira. Composta pelos romances “Diva”, “Lucíola” e “Senhora”, a série é subestimada e confundida com obras de menor cunho (como “Inocência” e “A moreninha”). Bem, como homenagem a Alencar e à  alma feminina, este espaço começa, a partir desta edição, a sequência “Perfis de mulher”, com textos já publicados neste blog (como o conto abaixo) e outros totalmente inéditos que virão. Confira agora o conto “Lana”.

Cefas Carvalho

Chamava-se Lana, como na canção de Roy Orbison. Ela era bela e triste, como todas as canções do Roy. Conheci-a em um bar, lugar sagrado onde geralmente conhecemos as pessoas importantes que marcam a nossa vida. É tolice tentar descrevê-la. Bem sei que não tinha uma beleza convencional, tampouco era dona de imensos olhos azuis, como nos clichês românticos. Era bela e normal. Estava sozinha na mesa, iluminando o local com seus olhos melancólicos e oblíquos, como diria Machado de Assis de sua Capitu. Ganhei coragem para abordá-la e me convidei para sentar à sua mesa. Ela concordou, disse como se chamava – Lana... – e conversamos sobre tudo e sobre nada... Compartilhamos nossas tristezas, rimos das nossas parcas alegrias nesta vida, descobrimos que ambos estávamos sozinhos e à deriva, tanto naquela noite como na própria vida, e por fim convidei-a para passar a noite no meu apartamento. Compramos uma garrafa de vinho tinto barato, pegamos um táxi e nos trancamos em nosso pequeno universo. Foi uma noite inesquecível, com Lana em meus braços...daquelas noites que não deveriam terminar nunca. Terminados os jogos amorosos, cogitei pedir seu número de telefone e perguntar onde ela morava, e talvez jurar aos seus pés que queria vê-la mais mil vezes, mas considerei que, quando acordássemos, pela manhã, eu faria tudo isso e muito mais. Dormi o sono dos justos e dos exaustos de tanto amar. Acordei com uma leve ressaca por volta das onze e, quando dei por mim, percebi que Lana não estava mais no quarto. Não estava mais no apartamento, havia ido embora. Dando uma geral pela casa, percebi que tudo estava em ordem, ela não levara nada, mas também não deixara nada. Talvez, só, ainda mais tristeza dentro de mim. Recordei, mais melancólico do que nunca da canção de Roy : Oh beautiful Lana...

Imagem: Egon Schiele

07 agosto 2012

Deixem o Tom fumar em paz!


Cefas Carvalho

Torturar, fatiar, eletrocutar, agredir, esfaquear, esbofetear, trair, carbonizar, pode! Fumar não pode. Esta é a conclusão a que este escrevinhador forçosamente chegou ao ler em um site uma informação bizarra: o desenho animado de Tom e Jerry, que fez a minha alegria na infância e a de onze em cada dez crianças de várias gerações, vem sendo duramente criticado na Inglaterra depois que um espectador telefonou para o Ofcom (órgão regulador da programação de TV no país) reclamando que o gato Tom costuma fumar, e isso representava um péssimo exemplo para as crianças.
Efetivamente no episódio “Texas Tom”, o gato azarado tenta impressionar uma gatinha enrolando um cigarro, acendendo-o e fumando-o com uma mão. No outro episódio, o “Tennis Chumps”, o adversário de Tom fuma um grande charuto. Resultado: em boletim publicado em seu website, a Ofcom apontou preocupações de que fumar na televisão possa influenciar a esse hábito. A empresa que licencia o desenho concordou em editar algumas cenas de fumo de Tom e Jerry. Quem diria, Tom e Jerry censurados e com cenas cortadas em um país democrático e em pleno século 21!
Mas, o curioso é perceber que o mesmo espectador que tanto se ofendeu com o cigarro do felino não se importou com toda a violência do desenho. Sim, pois Tom e Jerry, ao lado do Papa Léguas, é um manual quase didático de como impingir dor e sofrimento a um inimigo. Já assisti a Tom ser retalhado, esquartejado, torrado, agredido com bigornas, ter os dentes quebrados um a um, sempre pelo rato Jerry que o faz com um sádico sorriso e sem nenhum resquício de culpa. O curioso é que eu não lembrava de ter assistido aos episódios que Tom fuma cigarros. Devo ter assistido, mas nem por isso comecei a fumar.
Da mesma forma, também adorava Tom e Jerry nem por isso retalhei ou carbonizei minhas irmãs e meus amigos. Ah, e também ouvi muito heavy metal quando adolescente, em especial Iron Maiden e Metallica, meus preferidos nesta seara. A obra prima do Iron Maiden é “666-the number of the beast” (666 – o número da besta), que evidentemente fala sobre o demônio, ou como queria mestre Guimarães Rosa, o cramulhão, o capiroto, o tinhoso. Bem, o fato é que embora ouvisse a música com razoável freqüência, nem por isso adentrei nos caminhos de adoração do demo.
O politicamente correto é positivo porque luta pela cidadania e defende os direitos das minorias, mas tem lá seus exageros. Desenho animado não influencia criança alguma. Nem os mais violentos tipo Papa Léguas, nem os alucinados tipo Pokemon e nem os edificantes e mimosos como Bambi, Cinderela ou Pocahontas. Criança alguma fica boazinha ou adentra os caminhos da maldade com base em desenhos animados. Em suma, nenhum fumante que eu conheço, começou a fumar porque assistiu Tom ou qualquer outro personagem de desenho animado fumando, muito menos porque viu fumantes em filmes (passei boa parte da adolescência vendo Humphrey Bogart, Clark Gable e Bette Davis fumando centenas de cigarros nos clássicos americanos e nunca fui fumante). Animação só diverte, mesmo com excessos. Discutir a qualidade dos desenhos é outra coisa. E neste aspecto, convenhamos que Tom e Jerry são dos melhores. Deixem o pobre Tom fumar em paz!    

19 julho 2012

Desconstrução






















Cefas Carvalho 
 
Confissão: não mais te amo!
Como um estilete, um punhal
Um serviçal que insulta o amo
O amor estendido no varal

Submissão: aceito o não-amor
Como uma sina, um fado
Como quem destroça uma flor
E engole o espinho sagrado

Redenção: o amor morre!
Como morre a esperança
Hoje a indiferença me socorre
E o descaso me convida à dança...

Imagem: Kirchner

...

21 maio 2012

Lúcifer melancólico

Cefas Carvalho

Caído sabe-se lá de onde - posto que nas coisas sobrenaturais não existe em cima nem embaixo - desde primórdias eras, Lúcifer estava melancólico. Não que alguma vez tenha estado alegre (ao contrário do que se pensa, o Mal não é necessariamente sádico, ou seja, não tem prazer na dor alheia), mas, daquela vez, sua melancolia parecia mais aguda.
Havia alguns séculos pensava se tudo aquilo realmente valia a pena. É certo que o acordo que fizera com Deus era para toda a Eternidade, seja lá o que fosse isso, mas não conseguia mais ver sentido naquele mecanismo. Não era sequer mais necessário que ele, Lúcifer, semeasse o mal, na verdade, jamais o fora... O Homem era naturalmente mal, não havia nada que ele, pobre diabo, anjo caído incompreendido, pudesse criar de novo ou original (muito menos o pecado, criado pelo próprio Deus...) nesse quesito (pelo contrário, os seres humanos diariamente o surpreendiam quanto ao repertório de atrocidades), portanto - e dissera isso centenas de vezes a Deus - seu papel já era inútil.
- E o que você sugere?, perguntou Deus, com a mistura de ira e ironia habituais: Ir embora?
Lúcifer manteve o silêncio, mas, em seu íntimo, começou a tomar uma decisão.
Contudo, durante incontável tempo continuou desempenhando o papel que dele se esperava, de administrador dos lugares infernais. No início, divertia-se com a mitologia que faziam dele e seus domínios: Somente a fértil mente humana para criar figuras como Caronte, Cérbero e inventar caldeirões fumegantes e tridentes afiados. Aliás, detestava a imagem medieval que lhe fizeram, com chifres e patas de bode... Se não conseguia entender os propósitos de Deus entendia muito menos os seres humanos. Estava cansado tanto de um como de outros.
Até que lhe veio a vontade imperiosa, quase obsessiva, de terminar com aquilo tudo. Sabia que não seria fácil, na verdade, sabia que só havia uma maneira: a de desejar morrer com toda a vontade que possuia. Tanto as criaturas infernais como as celestiais eram imortais, porém, nem mesmo a imortalidade era imune ao desejo de desvanecer, definhar.
E foi o que aconteceu.
Definhando lentamente, Lúcifer preocupava aos demônios de estirpe inferior, temerosos tanto que ele - o primeiro dos anjos caídos - desaparecesse do universo e, pior, do imaginário humano, como que atraísse a ira divina (contudo, neste aspecto Lúcifer era mais lúcido que todos: o que Deus poderia fazer com ele? Que castigo poderia receber?).
Até que chegou o dia que Deus mandou um recado a Lúcífer. Desejava encontrá-lo no limbo onde conversavam, já que nem o Pai Celestial podia pisar no Inferno e nem o senhor das trevas tinha permissão para adentrar no Paraíso (embora o próprio Deus já estivesse entediado com essas regras milenares).
Mal chegou ao limbo, alquebrado, melancólico, realmente chegando ao fim, Lúcifer foi surpreendido por Deus.
- Que pensa que está fazendo, meu filho?
Surpreso com o tratamento delicado em vez da tradicional ira (os dois não conversavam civilizadamente desde o episódio de Jó), Lúcifer preferiu não recorrer às particularidades atribuídas a ele (mentira, intriga, falsidade) e foi sincero:
 - Estou cansado de tudo! Quero morrer!
 - Sabes que és imortal!
 - Mas, há uma maneira de morrermos. E, se não percebeu, eu já estou definhando.
 - Não faça isso, meu filho.
 - Odeio quando me chama de meu filho...
 - Mas, és meu filho, como todos os anjos, caídos ou não.
 - De-me uma razão para eu não morrer.
 - Sim, a darei: Por que sem tu, eu morrerei também...
 - Já discutimos isso...
 - Sim, e chegamos sempre a mesma conclusão. Não podes morrer. Preciso de você!
 - O senhor diz isso há milênios...
 - Por que é verdade! Sabes bem disso...
 - Era uma verdade em idos tempos. Hoje as coisas mudaram.
 - Nada mudou, meu filho. A humanidade é a mesma!
 - Eu não sou mais necessário. Além disso não aguento mais o meu papel na engrenagem das coisas...
- És tão necessário hoje como no ínicio dos tempos. Porque eu não seria mais necessário sem tua presença. De qualquer forma, para acabar com sua melancolia, proponho um acordo. Que achas de trocarmos de papéis?
 - Como assim? - estranhou Lucifer.
 - De tempos em tempos, e permito que você os determine, nós trocamos os papéis. Tu assumes o reino celestial e eu, os terrenos infernais.
 - Mas, como?
 - Esquecestes que eu sou onipotente e onipresente e determino o que pode ser feito ou não. Já brincamos com Jó, já testamos até onde Jesus poderia sentir dor, por que não trocarmos de lugar durante um tempo?
Lúcifer sentiu um comichão de vida envolver-lhe, e lembrou dos tempos imemoriais em que queria ser mais do que Deus, até que, os milênios no Hades lhe mostraram que não apenas era impossível ser mais do que Deus, mas que não havia razão para desejar se-lo. O mecanismo estava em funcionamento e nem o Pai Celestial conseguiria mais interrompe-lo, ainda que houvesse todas aquelas ameaças de Apocalipse, Fim dos Tempos... Apenas artifícios para manter os homens ocupados, pois que o mundo visível jamais acabaria, tanto Deus como Lúcifer sabiam com exatidão. Ambos sabiam também que, na verdade, faziam parte de um mecanismo ainda superior a eles mesmos, misterioso, desconhecido.
Já revigorado, Lucifer sorriu e aceitou a proposta. Voltou para o Inferno cheio de alegria, à espera dos dias em que comandaria as legiões divinas. Já era sábio o bastante para saber que nada mudaria. Mas, todos necessitam de uma mudança de ares, não é mesmo?


Imagem: Gustave Doré

14 abril 2012

Acessos


Cefas Carvalho

Havia uma passagem secreta por trás
da porta
Um atalho, uma trilha
Uma armadilha...

Havia um labirinto em meio
à tempestade
Havia uma antecâmara, um altar
Um santuário...

Havia uma clarabóia, uma janela
Um salto para o abismo
Havia o lirismo, outro atalho
Os retalhos pelo chão...
Mas não havia um mapa
Nada de acessos
Todos os caminhos levarão
realmente a Roma?
E que caminhos conduzem
ao meu coração?
...

Imagem: René Magritte

01 abril 2012

De como ganhei "Pet Sounds" de presente e resgatei emocionalmente minha coleção de discos de vinil

Cefas Carvalho

Presente dos sonhos ganhei de meu enteado (ou "filho torto", como diz Sandrinha) Pedro Victor, que chegou de Sydney, Austrália, neste fim de semana: um disco (sim, o velho LP de vinil) em cópia remasterizada e recém lançada de "Pet sounds", o clássico absoluto da banda americana The Beach Boys. A última vez que havia ouvido este disco fora no começo dos anos 90, na casa de meu amigo Breno, no Rio de Janeiro, fã de rockabilly e rock progresivo (até hoje agradeço a ele ter me apresentado a "Selling England by the pound", do Genesis - ainda com Peter Gabriel, claro - um dos meus discos preferidos ever).
Mas, voltemos ao "Pet sounds". Ouvir canções como "God only knows" e I´m waiting for the day" foi como rever velhos amigos, e sei que duas eternidades não serão suficientes para agradecer a Pedro - que é guitarrista dos bons em Natal, das bandas Fewell e Venice - o presente. Que teve ainda uma utilidade a mais. Para incluir o LP na coleção, acabei por limpá-la toda, disco a disco, e, assim, resgatando-a de relativo esquecimento, tanto constatar que os cupins haviam começado a devorar alguns encartes como reviver (e ouvir) clássicos pessoais e bizarrices diversas.
Entre os primeiros, alguns destaques absolutos, alguns que não tenho em CD e que havia condenado ao esquecimento até hoje. Como o álbum "Get close", do The Pretenders, comprado em 1989 em uma viagem a Campinas, na época em que eu era apaixonado por Chrysse Hynde. O LP tem canções maravilhosas como "When I change my life" e "The tradiction of love"
Outro disco resgatado foi o "Heart shaped world" de Chris Isaak, que fez sucesso no Brasil com apenas uma música, "Wicked game". Mas o LP tem pérolas que até hoje me emocionam como "Kings of the highway" e principalmente "Nothing´s changed", que considero uma das cinco maiores canções de amor já feitas.
Há os LPs de rock nacional. Resgatei do esquecimento o primeiro disco da banda Metrô, liderada pela bela Virginie (taí outra paixão de adolescência...) que apresenta preciosidades como "No balanço das horas" e "Johnny Love". E também o primeiro (e talvez único) vinil da banda mineira Sexo Explícito com a maravilhosa "Faca" (o guitarrista da banda, John, anos depois formaria o Pato Fu, com Fernanda Takai.Entre as bizarrices, coisas como Julio Iglesias (sim, eu curto, mea culpa, mea maxima culpa), Gigliola Cinquetti, Balão Mágico, o LP "Lambahia" com a música "Chorando se foi" (presente a gente não joga fora...), coletâneas esquisitíssimas (uma de pop brasileiro, reúne Herva Doce e Gangue 90 e Absurdetes - coisa fina!), outra, uma série de músicas country americanas com arranjos duvidosos... enfim, uma gama de coisas estranhas que ajudam a contar a história de minha vida. Isso sem falar nos discos de Lucio Dalla (recentemente falecido), Mercedes Sosa, Bille Holiday, Paco de Lucia... Já é uma surpresa terem (quase) todos chegado até aqui, após tantas mudanças de casa, encaixatomentos, casamentos e separações. Agora é continuar a garimpagem das pérolas e dos porcos da minha coleção de discos e ouvir o "Pet sounds" até cansar...

Anjos caídos


Cefas Carvalho

Chuva de anjos caídos...
Expulsos do paraíso (perdido?) por um deus
colérico e intransigente...
A vagar pelo mundo, à procura de abrigo
(e vítimas)...
Eles batem à minha porta
e os deixo entrar... Luminosos...
Eles, então, invadem minha casa, capturam
minh´alma
Destroem os CDs, esvaziam a geladeira,
Violentam o meu corpo, degolam os gatos persas,
Bebem meu sangue, dilaceram minha carne,
Limpam-se com as cortinas, rasgam minhas cartas...
E partem, imperiais, à procura de novas delícias...


Imagem: Marc Chagall

16 março 2012

“Os olhos salgados”: Romance fica em 1º lugar em Concurso Literário Câmara Cascudo

Peço licença aos leitores deste blog para em meio a contos, crônicas e poesias, abrir espaço para um informe. Foi com imenso prazer e alguma surpresa que recebi a notícia que fui contemplado com o 1º lugar no Concurso Literário Câmara Cascudo (prosa) da Fundação capitania das Artes (Funcarte) – Prefeitura de Natal, com o romance “Os olhos salgados”. Honra ainda maior sabendo que o 2º e 3º colocados foram Racine Santos e João Andrade (respectivamente com “Macaíba em alvoroço” e “Evangelho segundo Frederich Nietzsche”), dois escritores que estimo e admiro. Dois outros romances de minha autoria, “Carla Lescaut” e “Os puxadores de piano” (ambos ainda inéditos) foram menções honrosas em 2001 e 2005 no mesmo concurso Câmara Cascudo. “Carla Lescaut”, drama sobre amor e submissão (e homenagem à literatura francesa) passado na Natal dos anos 90, deverá ser lançado ainda no primeiro semestre deste ano de 2012. No concurso de poesia (Othoniel Menezes), Renata Marques Pereira com "Tua" leva o 1º prêmio; João Andrade emplacou "Livro da Palavra" em segundo lugar e "Neurotrofina", de Ilany Katariny Costa Andrade em 3º.
Ah, e em breve neste blog o primeiro capítulo de “Os olhos salgados”, cuja trama se passa entre Natal e Pipa nos dias atuais.

Imagem: Man Ray

08 março 2012

Distância


Cefas Carvalho

Palavras demais...
Versos, cantos...
Tantos encantos verbais...

E você - aqui - de menos...

Textos demais...
Subtextos, pretextos...
Algumas frases banais...

Seu olhar - aqui - de menos...

Distância demais...
Possibilidades, veleidades...
Talvez devaneios carnais...

Seu corpo - aqui - de menos...

Bela demais...
Florbela, em uma janela...
da minha imaginação, nada mais...

Seu sorriso - aqui - de menos...
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13 fevereiro 2012

Um banquinho, um violão e uma letra errada

Cefas Carvalho

Alguns amigos meus adoram música ao vivo em barzinhos. Mapeiam os lugares onde os músicos se apresentam e conhecem alguns deles pelo nome e o repetório. Outros amigos, fogem destes barzinhos e tem verdadeiro horror a música ao vivo e se vêem em um bar onde já estão alguém afinando um violão, pagam a conta às pressas e vão embora correndo. Sou da turma do meio termo. Não amo música ao vivo em barzinhos, mas também não fujo deles como o diabo da cruz.
Na verdade, meu problema com cantores de barzinho é a chacina que alguns deles fazem com as letras das músicas. Sim, é besteira minha exigir que todos tenham as letras 100% decoradas, principalmente se os clientes – eu incluso – estão lá no bar para namorar, beber e papear, não para ouvir a música com atenção de maestro. Se um deles, por exemplo, errar o tom ou desafinar sutilmente jamais perceberei. Mas, dilacerar letras conhecidas é algo que me irrita, confesso.
Após anos e anos de peregrinação a barzinhos com música ao vivo, sei de cor não apenas o inexorável repertório de 90% deles (“Canteiros”, “Sampa”, “Sozinho”, “Nem um dia”, aquela música chata que começa com "Um dia frio... um bom lugar pra ler um livro...") como os artistas cujas letras são mais trucidadas: Zeca Baleiro, Renato Russo, e aqueles que gostam de jogos de palavras como Djavan, Humberto Gessinger e Caetano Veloso.
Recordo, com alguma dor, de erros brutais que cantores de barzinhos cometerem nas letras. Lembro de um que, empolgado com a paixão de “Como eu quero”, do Kid Abelha, cantou: “Jogos de guitarrra não vão me conquistar” (Seria mais fácil conquistar Paulinha Toller com solos de guitarra...). Outra vez, atacando com Legião Urbana, o cantor reformulou “Tempo perdido”: “Fomos são jovens” (E Renato Russo, iludido, escreveu a música no presente: “Somos tão jovens”).
Em “Regra três”, de Toquinho, o autor disserta sobre os vacilos do protagonista da música e explica porque a amada vai embora: “Porque o perdão também cansa de perdoar”. Mas, certa vez o cantor detonou: “Porque o perdão não se cansa de perdoar”. Ou seja, para aquele cantor, a moça sequer foi embora de casa...
Outra recordação de cantor de barzinho, esse mandando ver na sensual “Girassol”: “Ai, teu jeito em meu lençol” (Ter uma mulher jeitosa no lençol da gente não é uma má idéia, mas Alceu Valença quer dizer “Teu cheiro em meu lençol”.)
Recentemente, desbravando bares em Parnamirim, eu e os amigos demos de cara com um cantor não com violão, mas com teclado com bateria eletrônica... Como o cidadão estava interpretando clássicos de Zé Ramalho, superamos o pavor inicial e ficamos. Contudo, na hora de “Kriptônia”, o artista aloprou: “Não admiro que me fale assim”... Enquanto ainda respirávamos depois dessa, ele continuou: “Sou primo gênio do seu avô, primeiro curandeiro”. O primeiro vacilo (trocar admito por admiro), a duras penas, passaria, mas cantar “primo gênio” em vez de primogênito é dose!...
Mas nada se compara a algo que ouvi nos idos anos 90, em um barzinho ali na Ponta do Morcego. Uma bela morena cantava clássicos de Ednardo e Geraldo Azevedo, até que resolveu mandar “Mulher nova, bonita e carinhosa”, de Zé Ramalho, imortalizada por Amelinha, atraindo a atenção dos marmanjos pela beleza, suavidade e talento. Pelo menos até o momento em que, empolgada, cantou: “Quem não ama o sorriso feminino, desconhece a poesia dos Cervantes”. Ou seja, transformou o escritor espanhol Miguel de Cervantes, criador do ilustre fidalgo Don Quixote de La Mancha, em um povo, uma tribo, saba-se lá, talvez em moradores de mais uma região espanhola, lá entre a Catalunha e Valencia. Depois deste estupro musical, fomos recuando de fininho rumo ao balcão do barzinho. E fizemos um brinde aos Cervantes, seja lá quem eles forem...

25 janeiro 2012

Sou doador de órgãos

Cefas Carvalho

Sou doador de orgãos. Tinha carteirinha de doador e tudo, perdida em ocasião que perdi a carteira e terminei por tirar 2ª via de RG, CPF, menos da carteira de doador. Mas, não importa (embora eu pretenda providenciar nova via). Meus filhos, minha mãe, minha namorada e meus amigos do peito sabem que na hipótese de eu vir a morrer - o que espero que não aconteça nos próximos 235 anos - em meio à alguma tristeza e inevitáveis lágrimas, uma alma sensata e de boa memória se lembre de dizer aos médicos que assinarem meu atestado de óbito que eu manifestava total vontade de doar meus órgãos e que fazia questão que assim fosse procedido. Não sou dado a arroubos de bom mocismo desnecessário e muito menos tenho alma de Madre Teresa de Calcutá (pelo contrário, me considero pragmático, chato e tenho o pavio curto), mas, me encanto com a idéia de que uma vez morto, posso salvar a vida de algumas pessoas ou, no mínimo melhorar a qualidade de vida delas. E doando partes do corpo que serviriam de comida para os vermes da terra! Ou seja, além de beneficiar seres humanos, ainda posso minimizar os prazeres gastronômicos dos vermes que deglutem de igual maneira reis e mendigos, divas egocêntricas e senhorinhas. Não pretendo fazer apologia à doação de órgãos, mas, acho saudável pensar que, uma vez sem vida, meu corpo pode oferecer a outrem nada menos que coração, rins, pâncreas, cóneas. Leio que o Brasil tem uma fila imensa de pacientes esperando transplantes e que o número de doadores é limitado, não obstante os milhões de católicos e evangélicos e de gente religiosa que predica o amor ao próximo
Quem quiser saber um pouco mais sobre doação de órgãos, pode recorrer ao site www.adote.org.br , que é referência no assunto.
No site, um resumo sobre o tema: “A legislação brasileira sobre o processo doação transplante estabelece que somos todos doadores de órgãos desde que após a nossa morte um familiar (até segundo-grau de parentesco) autorize, por escrito, a retirada dos órgãos. Portanto, não basta querer ser um doador de órgãos. Sua família também precisa saber. São eles que vão autorizar os médicos a fazer o transplante da sua vida para outras vidas. Diga em casa, diga para seus amigos, diga para todo mundo que você quer ser um doador. Qualquer pessoa pode doar órgãos. Nenhuma religião é contra a doação.”

09 janeiro 2012

Cartografia

Cefas Carvalho

(Para Sandra...)

Tua pele, mapa cego onde me guio
E onde me perco em perigosos atalhos
Até me encontrar em um outro arrepio
E me perder novamente em atos falhos

No trajeto, entre o temor e o frio
Operando o amoroso trabalho
Do seu corpo faço o delta do meu rio
Desaguando em um oceano de orvalho

Tua pele, teu corpo mapa-mundi
Desbravado por mim - peregrino
Com a coragem que o desejo infunde
Fez do cartógrafo um mero menino
Sonhando com um mar que afunde
Em seu bojo, o próprio destino

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23 dezembro 2011

O desespero diante da página em branco

Cefas Carvalho

Acordei antes das oito, segui os mesmos velhos rituais – o banho, fazer a barba, suco de laranja, cortar as unhas – e me lancei em frente à tela do computador (também ele cheio de rituais; inicializar, lançar sons, abrir “janelas”, comunicar que o antivírus está instalado...) na tentativa de escrever o texto que me fora pedido.
Na verdade, eu já o havia iniciado. Dispunha do primeiro parágrafo já pronto, o conceito já definido e os “ganchos” para unir começo e fim, como manda o manual de uma boa redáção, se é que existem regras para uma boa redação. Enfim, o texto era um feto já gerado, vivo, esperando apenas o mínimo necessário para crescer e vir ao mundo.
Contudo, a mente não produzia o alimento deste feto e os dedos tamborilavam a fórmica da mesa do computador, esperando a convocação para transformarem idéias em letras, palavras, frases, mas, era inútil.
Percebi que o branco da página do Word, no computador, é ainda mais solitária e assustadora que a papel de celulose. É um branco brilhoso, de onde irradia uma luz esquisita. Isso sem falar que, durante o “branco mental” é fácil recorrer à Internet, música, imagens, tudo que prejudica o oficio de escrever, enfim.
Mantive a calma, desliguei o computador e recorri a uma velha amiga, a folha de papel ofício A4, companheira de tantas noites febris nos tempos em que o computador parecia um devaneio dos filmes norte-americanos. Armado com a fiel escudeira que era a caneta Bic cor azul, tratei de macular o papel com rabiscos, na esperança de que, pela magia do contato da tinta da caneta no papel, as idéias transformassem em um texto. Mas, nada. Nada além de palavras soltas, frases desconexas, cubos desenhados em terceira dimensão e jogos da velha onde eu enfrentava a mim mesmo. Retomei ao truque velho de escrever o próprio nome, várias vezes: Cefas, Cefas, Cefas, depois a assinatura, tal qual no documento de identidade, e depois a forjar assinaturas. Amassei o papel e retomei à suposta seriedade para enfrentar a folha em branco.
Decidi recorrer à sabedoria alheia. Quem sabia se escrevendo pensamento e idéias de meus heróis, a inspiração não viria por osmose. Rabisquei sentenças de Shakespeare, frases de Platão, versos de Pessoa e, claro, máximas sarcásticas de Oscar Wilde. Por mim, perdi-me em letras de canções de rock até chegar a hai kais pavorosos da época em que eu tentava ser poeta. Voltei à página em branco – outra, claro – e recordei que, salvo engano, Rubem Braga havia escrito uma crônica sobre a mesma falta de inspiração.
Como seria com as outras pessoas? Outros sentiam o mesmo desepero que eu diante da folha em branco ou, diante disso, dariam uma gargalhada e se dedicariam a atividades tais como assistir um programa de TV ou ir a um shopping fazer compras?
Uma idéia me surgiu e quando lancei mão da caneta para, enfim, macular a folha em branco, parei como se acometido de uma idéia tresloucada. Havia uma vontade mórida em mim de que a folha continuasse branca – cor de pureza e da inocência – sem a intromissão da caneta, uma vez que a tinta fixada no papel se assemelhava a uma violência. Uma violência quase filosófica, posto que era irreversível (claro, é possível amassar ou queimar uma folha de papel, e uma borracha de qualidade pode apagar a tinta, mas, a folha branca original, jamais volta a ser o que era após a caneta trabalhar em sua superfície).
Debati-me uma vez mais na intenção de produzir alguma coisa, escrever nem que fosse apenas um parágrafo, quiçá uma frase, que sequer precisava ser genial, bastava apenas ter sentido.
Foi quando o texto desceu sobre mim como o Espírito Santo sobre um cristão devoto e a caneta – guiada pela mão direita nervosa – começou a trabalhar no papel...


(Texto originalmente publicado na coletânea de crônicas "Travessa da Alfândega" - organizador: José Correia Torres Neto. Selo Caravela)

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23 novembro 2011

Morrer, talvez sonhar

Cefas Carvalho

Decidira morrer. Era simples assim. Não havia metáfora em sua decisão, nada de angústias existenciais, crises religiosas, nada de metafísica. Tampouco sofria com traumas de infância. Fora uma criança feliz na medida do possível. Não, também não havia um amor não correpondido, uma mulher fatal pela a qual valia a pena morrer.
Era uma decisão racional, portanto. Considerou que a vida já havia lhe dado tudo que poderia desejar e merecer e que tivera seu quinhão de alegria e dor em medidas exatas e que nada mais havia a fazer neste mundo (e na verdade, em nenhum outro, posto que desconfiasse com uma quase-certeza que nada havia além do pó deste mundo).
Tomada a decisão, se deteve na maneira de fazê-lo. Nada de decisões que resultassem em sangue e carne deformada como um tiro na boca ou no ouvido. Não queria ninguém limpando paredes cheias de seu sangue. Nada de posturas igualmente melodramáticas, como o enforcamento. Pensou no gás. Talvez na ingestão de um veneno indolor. Sonhava em morrer dormindo. Neste caso, a morte poderia chegar tal qual um sonho.
Indeciso, deixou que os dias passassem e, como já se acostumara a despedir-se deste – único – mundo, passou a ver as coisas com outros olhos, talvez mais complacentes, nostálgicos. De maneira que em uma ensolarada manhã de segunda-feira, em pleno centro da cidade, após ter tomado um café forte e com pouco açúcar, decidiu que não desejava mais morrer. Simples assim. Talvez a vida ainda tivesse o que lhe oferecer (de dor ou prazer) e sentiu-se subitamente forte para viver o tempo que lhe fosse dado.
Enebriado com a nova decisão, atravessou a rua rumo ao carro e não percebeu a caminhonete. Sentiu um impacto, ouviu um barulho estranho e alguns gritos (seus? De outros?) e o quebrar dos ossos das pernas. Percebeu que não conseguia movimentar a cabeça. Quero viver, balbuciou, inutilmente, mas já coneçando a sonhar.
Morreu a caminho do hospital.

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16 novembro 2011

Estrelas

Cefas Carvalho

Estrelas não brotam do chão
Estrelas não nascem em árvores
Estrelas enfeitam telas de Van Gogh
Estrelas são cadentes
Para se aninhar em seus cabelos...

Estrelas não desafiam a lei de Newton
Estrelas não colidem entre si
Estrelas abrilhantam cartões de natal
Estrelas são dementes
Quando refletidas em seus olhos...

Estrelas, em suave delírio, pousam
Em sua íris
Fazem de seu olhar, a Ursa menor
Alfa centauro, Cruzeiro do Sul...

Você estrelas...Cadente...Vaga...

Olhos de constelação

04 novembro 2011

No calor na batalha

Cefas Carvalho

Se a batalha se mostra lenta e bruta
E a vitória tão distante quanto o céu
Cabe o silêncio diante do escarcéu
E persistir quando nos cabe a luta

Se o inimigo invade o teu quartel
Se és forçado a ingerir cicuta
Não deixe que nenhum filho da puta
Te transforme em carrasco ou réu

É no calor da guerra tão renhida
Que surge o homem forte que devias
Ser. Que se perde em mornos dias...

Eis que a batalha não está perdida...
Defenda teus castelos de areia
Enquanto osangue corre em tuas veias

17 outubro 2011

Presente

Cefas Carvalho

Esqueça mimos, galanteios,
adornos, mimoseios
Esqueça mesuras, fricotes
badulaques,decotes
Esqueça carteiras, gravatas
cintos, bravatas
Esqueça o camafeu,
O afago, o bombom
Presenteie-me, amor meu
Com um Saramago,
Ou um Drummond...

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14 setembro 2011

Quarteto-ode (quase infantil) ao amor em terras lusitanas

Cefas Carvalho

Amar sem mágoas, ao som
Das águas do Tejo
Ouvindo fados...
Fadados a fazer amor...

Suores de vinho do Porto
Fadigado, morto
De amor, de desejo...
Tudo impresso no azulejo...

Navegar em um oceano
De saliva... Lábios
Em carne viva, na Alfama...
(Como quem ama...)

Amores carnais
Em Estoril, em Cascais...
No Chiado, o último fado!
Do amor que morre em paz...

24 agosto 2011

Uma mulher com cabelos de fogo

Cefas Carvalho

Contava eu dezenove anos, se muito, mergulhado naquela idade contraditória quando às vezes acordamos sentindo que podemos mudar o mundo e no dia seguinte, dormimos como se fôssemos estrangeiros em nossa própria casa. No dia em questão, tratava-se de uma manhã ensolerada de quarta-feira daquelas que eu acreditava com todas as minhas forças que poderia incendiar o mundo. Havia conseguido um emprego em uma agência de publicidade dias antes, estava cursando filosofia na Universidade Federal e plenajando sair de casa (por mais que amasse meus pais, eles representavam o “sistema” e eu estava na fase ingênua e necessária de combater esse “sistema”) de maneira que caminhava na praça central com uma despreocupação arrogante e um sorriso de conquistador de impérios em meu rosto.
Foi quando parei para olhar a estátua central da praça que a vi, sentada em um banquinho no meio da praça, ao lado da fonte. Em principio chamou minha atenção porque tinha imensos cabelos vermelhos, quase que de fogo. Depois percebi seus muitos outros encantos; olhos imensos e melancólicos entre o preto e o castanho, um meio sorriso que poderia tanto felicidade como sofrimento.
Olhou-me de repente e me envergonheii de ter parado para observá-la. Decidi continuar o caminho, quando surpreendentemente ela me chamou.
- Ei, você tem um cigarro?
- Não fumo, lamento...
- Eu também não. Mas, agora, estou louca por um cigarro.
- Entendo...
- Não acontece com você, de querer fumar de repente, como se seus problemas fossem embora junto com a fumaça?...
- Acontece sim... – menti.
- Posso pedir um favor.
- Claro
- Me faça companhia durante meia hora. Somente trinta minutos.
Assustei-me com o pedido. Encantado por ela como eu estava, claro que ficaria com ela, trinta minutos, duas horas, o dia inteiro. Mas, não podia ignorar o insólito da situação. Lindas mulheres com cabelos de fogo não sentavam em bancos de praça e convidavam estranhos para ficar meia hora com elas.
Mas, sentei-me ao seu lado, com um pouco de receio, confesso. Ela pareceu ter lido meus pensamentos, pois sorriu de verdade e passou a mão em meu cabelo.
- Não se preocupe. Não sou uma louca, nem uma aventureira e nem vou te fazer mal algum. Quero apenas que fique ao meu lado durante o tempo em que te falei...
Ainda desnorteado, concordei. Tentei fazer algumas perguntas (nome, idade, onde morava) mas, com elegância e algum humor, ela conseguiu não responder nenhuma delas e decidiu contar uma história. Sobre uma menina que fugiu de casa e acabou em um lugar como uma floresta, onde teve de fugir de seres bestiais, como dragões, e espíritos maus. Uma história sem pé nem cabeça, mas contada com tanta suavidade que não teria como não me encantar.
- Agora é sua vez de contar uma história.
- Eu? Não sei contar histórias...
- Bobagem, todo mundo sabe contar histórias. Vamos lá, por favor.
Com algum custo, consegui me lembrar de um conto russo que havia lido havia tempos, sobre um senhor e um servo que viajavam na neve de trenó e percebiam que a relação de poderes se invertia com os problemas e privações. Embora imperfeita, ela adorou a história e me pediu outra. Respondo que só contaria uma nova história se ela dissesse seu nome.
- Não vale impor condições... – sorriu, melancolicamente – Mas, já que você quer assim... me chame de Moira.
- Moira... – repeti, inicindo uma nova história, desta vez bem humorada, sobre um homem pobre que pensa ter ganhado na loteria e imagina o que faria com a fortura a receber. Claro que ele não ganhou e a história termina com sua decepção e consciência de sua triste realidade. Moira riu e contou mais uma história, desta vez sobre um amor impossível na idade média. Eu já estava me acostumando com aquela troca de histórias e me perguntava sobre como manter aquele momento indefinidamente quando ela olhou para o relógio na praça. Havia passado a meia hora.
- Obrigado pela companhia, mas tenho que ir.
- Mas, não podemos ficar mais um pouco?... – pedi, quase implorando.
- Realmente tenho que ir – sorriu – Obrigada por me suportar neste tempo...
Preparei-me para dizer que, pelo contrário, fora a meia hora mais sublime da minha vida, mas tive medo de ser piegas e estragar tudo. Limitei a me perguntar se nos veríamos novamente.
- Quem sabe não nos encontramos por acaso neste mundo...
Propus trocarmos telefone, marcarmos tomar um café em algum lugar, mas, ela sorriu em negação: - É melhor, não. Nem queira saber porquê. Mas, saiba que esta hora que você passou comigo pode ter salvado a minha vida...
Arrumou a alça da bolsa no ombro e se foi, com o mesmo sorriso ambíguo que eu havia notado no início. Andava rapidamente com os cabelos de fogo balançando ao sabor do vento. Sentei-me no banco para pensar no que havia vivido quando reparei, ao lado da minha perna, uma lâmina pequena, como se tirada de um aparlho de barbear. Olhei ao longe, mas Moira já havia desaparecido do meu campo de visão. Guardei cuidadosamente a lâmina no bolso de minha jeans e levantei-me para tocar meu dia, com a imagem da linda menina de cabelos de fogo e a sensação de que, de alguma insólita maneira, eu havia, sim, salvo uma vida.