25 julho 2011

Era Poeta...

Era Poeta...de todas, a mais bela
De seus versos fiz meu pão e fiz meu vinho
Com régua e compasso fiz meu caminho
Da aquarela de teus olhos fiz minha tela

Era Poeta...envolta em seda e linho...
Ares de Safo, Cecília e Florbela...
Em devaneios, abri uma janela
E mergulhei em seu mar azul marinho

Mas, e agora? Tão pouca coisa aconteceu...
Sem poesia e tão mornos os dias passam
Não eras Julieta nem eu o seu Romeu

Onde irá levar-nos essa vida louca?
Se meus versos e seus versos não se enlaçam...
Se quero escrever sonetos em tua boca...

04 julho 2011

A Biblioteca Sagrada da Minha Mente

Cefas Carvalho

Por força de circunstancias que não pretendo relevar ao leitor curioso (que leitor não é curioso?) fiquei temporariamente afastado de minha Biblioteca. A princípio a separação dos meus livros me doeu na carne, acostumado que era a qualquer momento consultar algum deles ou simplesmente contemplá-los imperais, harmoniosos, arrumados verticalmente nas estantes de madeira.
Contudo, passados alguns dias longe da minha Biblioteca (sempre com B maiúsculo, como vaticinava mestre Borges, sábio maior desta entidade mágica e sagrada denominada biblioteca) a dor amainou. Não que a paixão (ou amor) pelos meus livros tivesse desaparecido com a, distância (como acorre com tantos amores ditos eternos...) mas sim pela descoberta, ou percepção (talvez revelação) que minha Biblioteca na verdade não é algo apertas físico, mas que existe prioritariamente em minha mente. Ela não precisa estar perto dos meus olhos para existir. Ela existe em mim. Pra levar o raciocínio metafisicamente mais longe, minha Biblioteca só existe porque eu existo; eu morrendo, a Biblioteca também não mais existirá.
De forma que a revelação fez com que eu veja e sinta meus livros a toda hora, estando em num há nova casa ou não. Consigo visualizar cada um dos meus... livros (leitor curioso, não importa o número de livros de uma Biblioteca, oito ou oitenta mil, o que importa é a relação - necessariamente doentia - entre o leitor-dono e a Biblioteca) O raciocínio apresentado entre os parênteses acima leva à constatação de que a minha Biblioteca só existe enquanto minha, posto que foi a aquisição particular de cada dos livros que a compõem que a torna uma Biblioteca. Ou seja, minha Biblioteca mãos alheias não passará de um amontoado de livros. Da mesma maneira que a Biblioteca de Câmara Cascudo só o era enquanto ele estava vivo e tomando viva a sua Biblioteca. Após sua morte, a Biblioteca de Câmara Cascudo passou a ser uma peça de museu, estática, pois que ninguém mais poderá acrescentar um livro nela. Idem com a biblioteca do felizmente ainda vivo José Mindlin. Sua Biblioteca só existe porque ele existe. A morte do primeiro acarretará na morte da Biblioteca enquanto ente sagrado, vivo, dinâmico.

Contemplando com os olhos sempre argutos da mente a minha Biblioteca, evoco livros que só existem como o são para mim. Como o exemplar de "O Jardim do Éden" de Hemingway, comprado em um sebo da avenida Ipiranga, quando eu morava em São Paulo no micro dos anos 90 Como não identificar o triângulo amoroso do livro com aqueles dias chuvosos e com a fumaça paulistana? Cada vez que leio o livro - e o fiz várias vezes - evoco aquele sebo (qual o seu nome? Não lembro...) e aquele período de minha vida.

Vejo com minha mente meu exemplar de "OS demônios de Loudun", de Huxley, comprado há meia década no Sebo Vermelho, de Abimael. Capa brega, livro quase caindo aos pedaços, mas cheio de marcações dos antigos donos e lido em uma época admirável da minha vida.

Vejo ainda outros livros. Possuo - três exemplares de “Dom Casmurro”, um deles, mais recente, de capa dura, mas para mim Capitu é mais Capitu e Bentinho mais Bentinho quando leio a edição da Ática em papel jornal comprada na livraria Universitária ainda nos anos 80, com papai ainda vivo. Salvo engano, compramos o livro, cujo nome me parecia enigmático, lanchamos na finada Lojas Brasileiras, fomos ao Café São Luiz, onde eu podia assistir a papai em ação com suas anedotas e gargalhadas e por fim, fomos para casa onde comecei a ler a obra prima machadiana. Claro que aos onze anos não entendi todas as nuances, mas o livro, de capa preta com um desenho multicolorido, ainda está nas minhas Bibliotecas (a real e a da minha mente).
Nesta Biblioteca da minha mente estão ate mesmo livros que já se foram É o caso de “O homem que olha”, de Moravia, que emprestei para meu amigo Cláudio em 1989 e ele perdeu em um bar durante uma bebedeira. Mas, para mim, o livro continua lá nas estantes ao lado de “1934” A romana e “A ciociara”. E se tiver que recuperá-lo, quero que seja da mesma edição da Nova Fronteira com a mesma capa azul e branca. Vejo também na minha estante o clássico hardcore “Albertine no inferno”, que está há um par de anos em poder da amiga jornalista Vilma Torres (desculpe a cobrança publica, mas para recuperar livros como no amor e na guerra vale tudo!) Ah, os livros emprestados que jamais voltaram para a Biblioteca... filhos queridos que se foram... que os amigos me perdoem, mas como alertou Cid Augusto em um artigo ladrão de livros vai para inferno...
Continuo de olhos fechados então e navego na minha Biblioteca sagrada, nas marcações que fiz com marca texto (geralmente cor laranja) nos endereços e telefones riscados nas páginas em branco dos livros, nas notas fiscais esquecidas dentro de exemplares. Velejo no mar dos poetas que admiro Pessoa, dos Anjos, Castro Alves... e me afogo nos versos das poetas por quem sou eternamente apaixonado (Cecília, Florbela, Zila, sempre elas ) e me perco nos braços e olhares de Capitu Oriane deGuermantes, Diadorin Lady Brett Ashley. Por fim me vejo da Biblioteca de Babel, hexagonal, sagrada, labiríntica, como escreveu Borges, que sem ver, a tudo via.
Acordo do sonho então, satisfeito como quem acorda de um noite amor carnal. Minha Biblioteca pode até ser incendiada, como aconteceu com a de Alexandria, mas jamais terá fim, por estar sempre dentro de mim. Em nome de Jorge Luis Borges amém!

(Texto publicado originalmente na Revista Papangu em maio de 2006)

21 junho 2011

Afrodite

Cefas Carvalho

Para meu deleite e minha desgraça, devo dizer que, sim, eu me lembro bem de tudo. Começou em uma tarde cinzenta de agosto, quando, desgostoso com a vida e com mim mesmo, procurei refúgio nas areias da Praia do Meio, sentado próximo à estátua de Iemanjá. Foi quando a percebi, olhar pedido no horizonte, sentada a alguns metros de mim, também na areia.
Estava com os joelhos à barriga e os braços segurando os joelhos. Olhava o horizonte com o mesmo desespero que eu julgava existir no meu olhar. Foi o que me atraiu, a princípio. Segundos depois, percebi o quanto era linda, com os cabelos castanhos, imensos, caindo sobre o rosto de menina em um corpo de mulher, para usar de um clichê. Subitamente, uniu os braços em concha e abaixou a cabeça, como se chorando. Movido tanto por compaixão como pela atração que senti, aproximei-me dela, e, ganhando coragem, perguntei:
- Algum problema?
- Muitos problemas... – respondeu, levantando a cabeça. Não chorava, mas parecia desesperada. Sentei-me ao lado dela.
- Qual o seu nome? – indaguei.
- Não me lembro – respondeu
- Como assim? – estranhei.
- Não lembro meu nome. Não lembro onde moro... não lembro de nada...
Parecia estranho, mas pelo seus olhos percebia-se que ela não estava brincando. Uma linda menina que perdeu a memória, pensei.
- Você não tem uma carteira, identidade, um celular, nada que possa dar uma pista...
- Tenho apenas a roupa do corpo. E não tenho uma só lembrança de absolutamente nada. Não sei se moro com meus pais, se sou casada, menina de rua... É como se eu tivesse acordado aqui na Praia do Meio.
- Vamos brincar de detetives... sorri – Se você sabe o nome desta praia e chegou sem ajuda até aqui é porque mora em Natal. Se você fosse casada, teria uma aliança na mão esquerda ou pelo menos uma marca e não estou vendo nada disso – analisei, pegando suavemente sal mão – Quanto a ser menina de rua, esqueça. Pelas roupas, percebe-se, você é de classe média.
- Você é mesmo um detetive... – divertiu-se, rindo pela primeira vez desde que a abordei. Contudo, a situação não convidava a risos. Urgia decidir o que fazer com aquela menina desmemoriada. Procurar a polícia? Leva-la aos jornais?
- Que tal rodarmos pela cidade para ver se você se lembra de algum lugar. Talvez a visão de um local que lhe seja importante faça sua memória voltar.
Hesitante, mas sem muitas opções, ela aceitou a insólita proposta, que, não nego, também tinha como objetivo, além da ajuda, fazer com que passássemos mais tempo juntos. Desnecessário registrar que eu estava mais que atraído pela bela desconhecida. Estava me apaixonando rapidamente. Olhei o relógio: eram treze e meia, e às catorze horas eu deveria estar na agência de propaganda onde trabalhava como arte-finalista. Não hesitei em tomar uma decisão: telefonei para a agência dizendo que desmaiei na rua e que amigos estavam me levando para um hospital.
- Você não consegue nem lembrar seu nome? Cláudia? Vanda? Tatiana? Maria? Eduarda?
Ela riu, para, segundos depois, deixar uma névoa escura atravessar sua expressão: - parece engraçado, mas não consigo lembrar mesmo... – e começou a chorar. Colhi seu rosto em meu ombro – Tenho que inventar um jeito de te chamar. Enquanto você não lembra seu verdadeiro nome, vou te chamar de Afrodite, está certo?
- Afrodite... – repetiu
- A deusa grega da beleza. Afinal, você parece tão bela quanto ela...
Envergonhada, baixou os olhos. Parecia sorrir, apesar da sua situação. Mas eu não queria que se entristecesse. Puxei-a pela mão.
- Vamos para Ponta Negra. Talvez algo por lá clareie a situação.
Sentados na areia, ficamos conversando horas a fio. Isto é, tentamos um arremedo de conversa, posto ser virtualmente impossível conversar com quem não tem o que contar. Mas ela sabia, sabe-se lá como, algumas piadas sujas, e afirmava amar algumas músicas clássicas, embora não soubesse o nome delas, apenas assobia-las.
Desta forma o tempo foi passando e subitamente, atentei que já anoitecia. - Que tal irmos para o Natal Shopping? – propus.
Pegamos um ônibus e o vento no rosto a fez sorrir melancolicamente.
- Não me lembro de já ter feito este passeio, mas esta sensação de liberdade, me é familiar...
Bebemos alguns chopes. Ela quis uma caipirinha. Quando dei por mim já eram quase dez da noite. O shopping iria fechar e teríamos de fazer alguma coisa.
- Quer recorrer à policia? – perguntei.
- Quero ficar com você... – respondeu – mas sei que você deve ter que ir para casa...
- Eu adoraria leva-Ia para casa, mas meus pais são complicados...
- Não tem problema, eu me viro...
Claro que eu jamais a deixaria sozinha naquelas circunstâncias e armado de toda a coragem, propus passarmos a noite em um hotel na Cidade Alta. Para minha surpresa ela concordou com a idéia. Após telefonar para meus pais e informa-los que eu dormiria na casa de um amigo, rumamos para o centro. Tentei leva-la para o Beco da Lama ou para o bar Amarelinho, para mais uma cerveja, mas ela argumentou que estava cansada. Fomos para o hotel, velho, decadente, mas barato e estranhamente luminoso.
Uma vez no quarto, eu não sabia exatamente o que fazer. Afrodite foi quem quebrou o gelo. - Estou louca para tomar banho... -sorriu. Depois que ela saiu do banheiro, foi minha vez de entrar debaixo do chuveiro. Nervoso, saí de toalha e a flagrei também enrolada na toalha penteando os cabelos.
- Encontrei um pente na escrivaninha...
- Que bom... - comentei, sentando ao lado dela na cama de casal. Preocupado, tentei explicar para ela como seria nossa noite. - Eu posso improvisar estes lençóis no chão para que você durma na cama.
- Por que isso?
- Não quero que você pense que eu me aproveitaria de você.
- E se eu me aproveitar de você?... - riu, encostando os lábios em minha orelha. Fechei os olhos, e senti sua boca na minha, depois sua língua caçando a minha... deitamos, na cama e minha deusa fez jus ao apelido que eu lhe dera...
No dia seguinte, despertamos juntos, e se durante alguns segundos vivi o torpor de quem acredita estar em um sonho - aquela mulher linda e nua deitada ao meu lado – logo me lembrei da situação insólita que vivíamos.
- Lembrou de alguma coisa?
- Só da noite de ontem... - sorriu - E do que fizemos durante o dia. Quanto ao resto, não me lembro nem do meu nome...
Continuávamos na mesma, então e decidi tirar outro dia de folga para curtir à cidade ao lado dela e à noite leva-Ia ou à Polícia ou a algum jornal. Passei no banco, tirei quase todo o dinheiro da minha conta e iniciei nosso programa: Redinha, depois Litoral Sul, Pirangi, Pium... Éramos um casal em lua de mel, enfim. Por volta das cinco da tarde, fomos à última etapa do passeio, o rio Potengi, assistir ao por do sol. Em frente ao espelho d'água, ficamos olhando o horizonte, quando ela confessou que uma tristeza imensa a invadira.
- Por quê? - perguntei
- Não sei, mas é como se não fôssemos nos ver mais... - murmurou.
De repente, um estranho vento se fez presente, nos encharcando de poeira. Tirei os óculos para tentar tirar os ciscos nos olhos, operação que não durou dez segundos, se muito. Quando recoloquei os óculos, percebi que estava só. Olhei para todos os lados, e nada. Onde estava Afrodite? Era como se ninguém tivesse estado comigo. Perplexo, olhei para a lagoa. Sua superfície estava limpa, contudo, bem à frente da margem me pareceu ter visto uma leve movimentação, como se alguém estivesse nadando, suavemente, por baixo da água. Tolice minha, pensei. Procurei Afrodite nas imediações, perguntei por ela em bares e lanchonetes próximas. Inútil. Minha Afrodite havia desaparecido tão misteriosamente quanto havia surgido em minha vida. Teria se jogado, sem barulho, sem alarde, nas águas poéticas do Potengi? Seria uma sereia retomando ao lar? Um anjo que retomara para o firmamento? Ou tudo não passara de minha imaginação? Jamais o saberei. De qualquer maneira, isso aconteceu há anos, e até hoje não se passa um dia em que eu não vá até à margem do rio Potengi na esperança de revê-la...

02 junho 2011

Falas em fantasias

Cefas Carvalho

Falas em fantasias...devaneios...
Queres sempre mais...jamais sossegas...
Corres em teus sonhos sempre às cegas...
Não sabes mais onde estão teus freios...

Citas frases feitas sem ser piegas...
Queres que eu declame em teus seios...
Faz joça de todos meus receios...
És louca de pedra... e não negas...

Voltaste às fantasias... adereços...
Trocas de cores... preto... vermelho...
Linhos finos... cetim... véus espessos...

Mais fantasias... outros ambientes...
Velas... acessórios... um espelho...
Meu corpo como alvo de teus dentes...

18 maio 2011

Lázaro

Cefas Carvalho

Tiraste-me do sepulcro
Levantaste-me das catacumbas
Despertaste-me do sono eterno

Ergueste-me de entre os mortos
Fizeste-me retornar à vida
Trouxeste-me de volta à luz

Fizeste de mim o teu Lázaro
Forjado para louvar o teu nome
Lapidado para viver por ti

Esquecestes... que eu queria partir
Ignorastes que entre os mortos era meu lar
Não percebestes que morte... Era minha vida!

11 maio 2011

Armagedom


Cefas Carvalho

Era o deus colérico a me perseguir
Em meu tortuoso caminho de Damasco?
Ou o demônio, vil, a espargir
Água amaldiçoada com fel e asco?

Seria o Armagedom, a, solene surgir
Em um arrebol de fúria e de som?
Ou o Paraíso de Milton a explodir
Em um surreal arco-iris marrom?

Era o demônio a chegar sorrateiro
Em uma nuvem de enxofre e carbono?
Ou o calor fantasmal do candeeiro
A transformar em inferno o meu sono?

Eram querubins a, com trombetas, anunciar
O Juízo Final a chegar finalmente?
Ou nada mais que outro dia a raiar
No lirismo banal de um sol nascente?

06 maio 2011

Coração

Cefas Carvalho

Ele, apaixonado ao extremo. Passional, verborrágico. Ela, bela e distante, deusa grega em mármore. Eu amo você - repetia ele – Você manda em meu coração! Ela resmungava: É mentira sua... Até o dia em que ela decidiu fazer o teste. Ordenou que o coração dele parasse! Ele sentiu o corpo gelado e, subitamente, caiu morto ao chão.

04 maio 2011

A Biblioteca de Babel (e de Borges)

Cefas Carvalho

Tenho uma relação obsessiva, doentia mesmo, com os livros e com a entidade sagrada Biblioteca. Como Borges, um dos heróis do meu panteão de ídolos (Hemingway, Maugham, Gide, os franceses....). Borges escreveu um conto maravilhoso chamado “A Biblioteca de Babel” (presente no livro “Ficções”) na qual fala deste febre que algumas pessoas tem em relação aos livros e às Bibliotecas. Tanto quando a leitura em si, gosto da sensação da posse de um livro, de marcá-lo, do momento em que, devidamente lido, ele vai repousar na Biblioteca.. Tenho dificuldade em ler livros emprestados por não antever o momento em que voltarão para as estantes, por não saber com que outros livros se acompanhará. Exceção feita para leitura de livros em Bibliotecas, algo que o pouco tempo e o stress não me deixam mais fazer. Mas, recordo com prazer dos tempos em que eu e amigos como Paulo César, nos anos dourados da adolescência, desbravávamos corajosamente as estantes da Biblioteca Câmara Cascudo, sob a complacência das bibliotecárias. Lembro com maior nitidez de quando encontramos uma raridade, o “Michael Kolhaas”, de Henrich Von Kleist. Também é doce a lembrança das tardes cariocas também adolescentes que passava na Biblioteca do MEC e na mítica Biblioteca Nacional, na Cinelândia. Ah, o gigantismo da Biblioteca... Não que eu tenha uma Biblioteca quantitativamente grande, mas não é isso que importa, como vaticina o mestre argentino, mas a relação que se tem com a Biblioteca. Segundo Borges no citado conto, “ a Biblioteca é interminável...um número indefinido e quiçá infinito de galerias hexagonais...” Neste texto delicioso, Borges assinala algo que suspeito desde tenra infância: “Nalguma estante de algum hexágono deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais; algum bibliotecário o consultou e é análogo a um deus”. A idéia de um livro que contenha todo o conhecimento humano (A Biblia? O Corão? O Mahabratara? A obra completa de Shakespeare? Dom Quixote? Grande Serão: Veredas?) em um só me fascina até hoje. Este livro estaria guardado na Biblioteca sagrada, que, como escreveu Borges, sempre existirá, pois que “suspeito que a espécie humana – a única – está por extinguir-se e que a Biblioteca permanecerá: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.”

25 abril 2011

Semana Santa

Cefas Carvalho


Sexta-feira da Paixão


Cristo morreu pelos meus pecados. É o que dizem. Sempre detestei esta afirmação, como detesto qualquer coisa que tenha a ver com o não-visível. Não quero que ninguém morra pelos meus pecados. Dos meus pecados cuido eu. E meu pecado maior naquela sexta-feira maldita foi ter deixado Clarissa ir embora. Ou será que eu quem a mandei embora? Talvez as duas coisas. Só recordo que a vi jogando algumas roupas na mochila velha e sair de casa batendo ruidosamente a porta. Ainda pensei em correr atrás dela, mas desisti. Fiquei em casa ouvindo CDs de blues e olhando com cara de idiota para o bacalhau dessalgado em cima da pia. Iríamos fazer um bacalhau a Gomes de Sá. Clarissa não comia carne nos dias da semana santa. Para mim isso era uma besteira, eu teria adorado preparar uma picanha mal passada naquela noite, mas a paixão por Clarissa me fazia respeitar suas opiniões, pelo menos algumas delas.
Pensei que Clarissa voltaria, mas, me enganei. Tomei alguns tranqulizantes para poder dormir, com o coração pesado de tristeza e paixão.

Sábado de Aleluia

Aleluia! Clarissa telefonou. Não falou praticamente nada, balbuciou meia dúvida de palavras. Mas, telefonou. Disse que estava tudo terminado e que na semana seguinte pegaria suas coisas no apartamento. Pensei em implorar para que voltasse, em sugerir que conversássemos, mas nada falei. Escutei o que ela falou até que pareceu que ela fosse chorar e ela então desligou o celular.
Resolvi ir uma igreja católica. Claro, desprezava o catolicismo, como a todas as demais religiões, mas senti vontade de ver os fiéis louvando a um ser superior. Contudo, quando estacionava o carro próximo a uma igreja, mudei de idéia repentinamente e decidi beber algo na praia. Olhar o mar costumava me acalmar. Bebi demais, contudo, e voltei para casa totalmente bêbado, arriscando bater o carro ou ser pego pela polícia dirigindo embriagado. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Talvez fosse melhor se eu tivesse morrido.

Domingo de Páscoa

Acordei de ressaca. Bebi quase um litro de água e tive de ver na geladeira os ovos de chocolate que Clarissa havia comprado para a gente. Estávamos juntos havia três anos e todo domingo de Páscoa ela me dava um ovo de chocolate. Como sabia que eu não compraria um para ela, tratava de se presentear com um ovo, quase sempre de chocolate branco. Joguei os dois ovos fora. Também atirei o bacalhau na lata de lixo. Em seguida, vomitei e, me sentindo menos enjoado, decidi recomeçar minha vida. Tomei um bom banho, recorri a um analgésico potente e me resolvi a sair da cidade. Joguei em uma mochila algumas roupas, laptop, escova de dentes e alguns livros. Iria para uma pousada litorânea para pensar na vida nova que teria de levar.
Estava abrindo a porta do carro quando o celular tocou. Clarissa, com voz lacrimosa, disse que queria conversar e retomar nosso casamento. Pediu desculpas e exigiu que eu as pedisse. Perguntou se eu não queria encontrá-la em um bar-restaurante onde costumávamos ir. Concordei. Subi ao apartamento para deixar a mochila e rumei para o supermercado mais próximo, para comprar dois ovos de chocolate...

07 abril 2011

O matador

Cefas Carvalho

Ele era magro, mirrado mesmo, baixo, uma coisinha assim de gente. Pálido e com o rosto cheio de cravos e caroços, feio até não poder mais. Tranquilo, bebia seu conhaque de alcatrão com o rosto sereno e compenetrado. Mas, era um matador. Dos melhores. Era conhecido em toda a região, não havia cidade ou vilarejo que não temesse Jão Bicheira, cujo nome ninguém sabia, nem a origem do apelido. O que se sabia era que ele já havia mandado uns dez sertanejos desta para melhor e era conhecido nos beréus e bares mal afamados como “fabricante de viúvas”.
Cá por mim, eu bebia quieto minha cana quando percebi o homem se aproximando. Claro que tremi nas bases. Não era bem medo, afinal, tenho lá minha coragem e sou de família de homens altos e parrudos. Mas Jão Bicheira tinha uma arma - talvez mais de uma - e eu não. Pois que o cidadão sentou-se no tamborete ao meu lado e perguntou meu nome. Raimundo Nonato, ao seu dispor, respondi.
O homem pegou um palito, limpou os dentes com zelo, tomou um gole do conheque de alcatrão, cuspiu no chão uma saliva preta e voltou-se para mim. Quero te pedir um favor! Minhas mãos tremeram. O cabra havia matado uns dez homens. Certo que uns não valiam nada, ficaram bem melhores mortos mesmos. Mas, metade deles, eram pais de família. Mas, engrossei a voz e respondi: Se eu puder ajudar...
Jão Bicheira tirou um papel dobrado do bolso. Sabe ler?, perguntou. Respondi que sim. Ele me passou o papel. Leia isso para mim. Abri o pedaço de folha. Era uma letra infantil, difícil de ler. Mas, de qualquer maneira, li em voz alta o que estava escrito: Papai, quando for trabalhar pense em mim. Assinado, sua filha Rosinha.
Ele respirou pesadamente, Bebeu mais um gole do alcatrão e cuspiu no chão. Devolvi o papel.
Você sabe qual é meus trabalho, não é? Engoli em seco. Mas, tinha que responder. Sei sim senhor. Ele pigarreou e suspeirou: É um trabalho enjoado, mas, alguém tem que fazer. Se não fosse eu seria outra pessoa, não é mesmo?
Olhou-me tristemente, pagou a conta, pegou um chapéu meio roto que estava no balcão e passou por mim.
Obrigado, amigo. Tem alguma coisa que queira pedir?
Respondi que não, mas, sei lá que diabo me tomou que disse ao homem que tinha apenas uma curiosidade. Pois pergunte, cabra, que perguntar nunca matou ninguém.
Respirei fundo, como quem vai para uma briga de peixeira, e disparei: O senhor sente alguma raiva das pessoas que mata?
Jão me olhou como se eu fosse louco por fazer aquela pergunta para ele, e a verdade é que era loucura mesmo. Encarou-me, pensei que ia me bater ou me gritar, mas abriu um sorriso triste.
Vou lhe responder. Você fez um favor para mim e merece que eu lhe responda. Rapaz, quando me contratam, não sinto nada não. Mas quando me dão a foto do cabra em questão eu vou olhando a foto e vai me dando um ódio...
Respirou, cuspiu mais uma vez, ajeitou o chapéu na cabeça e com um movimento de mão, despediu-se de mim. Aliviado, fui para o balcão e pedi um copo de cana. Derramei um gole para o santo e bebi o resto de uma lapada só!

31 março 2011

Navegar


Cefas Carvalho

Navegar
Não é preciso
Como viver
Não é preciso
Nada neste mundo
É preciso...
Viver, morrer
Tudo impreciso
Ler Pessoa
Não é preciso...

Navegar é necessário...
Viver, não...


Velas ao mar, pois então...

30 março 2011

Olhos de ressaca

Cefas Carvalho

Sempre fui apaixonado pela descrição que Machado de Assis fez de sua Capitu em “Dom Casmurro”, para mim o maior romance já escrito nestas terras brasileiras. A moça em questão – que enlouquece Bentinho de ciúmes e dúvidas – tem “o olhar oblíquo e dissimulado, olhos de ressaca”, segundo o gênio do Cosme Velho.

Nada mais normal que mulheres com este predicado me fascinarem, ainda que platonicamente. E nada ainda mais normal que o cinema – com suas musas – ser o veículo perfeito para este fascínio.

Entre as paixões cinematográficas, recordo dos olhos de Capitu de Nastassja Kinski em muitos filmes. Também do olhar de Hanna Schygulla, musa de Fassbinder.

Mas poucas atrizes encarnam o conceito “olhar de ressaca” como a francesa Ludvine Sagnier. Em pelo menos dois filmes ela desfila esse olhar “capituniano”: em “Swimming pool” (de Francois Ozon) ela encarna uma Lolita perversa e confronta a musa Charlotte Rampling. Em “Canções de amor”, musical de Christophe Honoré, ela vive uma burguesinha mimada que experimenta um ménage a trois.

Cada fotograma de Sagnier exprime o olhar que Machado descreveu. A personagem Julie é ambígua, estranha, talvez cínica, talvez carente. Canta cinco músicas no filme, todas sobre (des)amor, relacionamento e ciúmes. Todas com o olhar de ressaca que, no filme, fascina homens e mulheres e confunde a própria família.

É certo que o cinema francês sempre foi pródigo em musas. Há algumas décadas, Catherine Deneuve e o mito maior Brigitte Bardot. Nos anos oitenta, Isabelle Adjani e Juliette Binoche. Mais recentemente beldades talentosas como Julie Delpy, Emmanuelle Beart e Sophie Marceau. Sagnier pode ser a estrela da vez.

17 março 2011

Brincadeira de criança


Cefas Carvalho

Cercado então o animalzinho, a brincadeira pode começar...

Psss psss psss, vem cá bichano, que ninguém vai te machucar...

Cinco garotos...um gato...o sol quente do verão...
Férias, ócio... Que diabos, não temos o que fazer!
Mas, há o gato, sim, o gato vira-lata preto e branco, sarnento
Sujo! Quem liga para um gato de merda?
Cercado então o animal...
Um menino, o mais corajoso, o líder, pega o bichano pela cabeça...
Um arranhão, sangue à vista, os meninos gritam...
(eles ainda não sabem, mas sangue excita...)
Por dentro, o sangue ferve...

Gritos (de guerra)...meninos gostam de brincar de guerra!

O gato olha em volta, olha...Os meninos riem...
Em breve o gato não mais vai mais olhar para nenhum deles...

Vem outro menino - bonito, sorridente, sardas – com um canivete...

Hesitação... Vai você!...Eu não!...Mariquinhas!... Mariquinhas é você!
Eu vou mostrar que sou homem, porra!...

Um gesto decidido, uma fração de segundo.
Um olho arrancado...um miado lancinante
Risos... Alguns nervosos... Não é fácil mutilar nem mesmo um gato...
(Mas, que merda, o sangue excita...)

Outro olho arrancado...

Uma massa de carne cega, sem direção, rumo à rua, se debatendo...

Risos, risinhos, tapinhas nas costas, um canivete sujo...
O futuro da nação, senhoras e senhores...
Advogados, médicos, jornalistas, Doutores, enfim!...

Afinal, por que tanta confusão, meu caro, são só crianças!...

03 março 2011

O carnaval da minha dor


Cefas Carvalho

O carnaval da minha dor começou em uma sexta-feira ensolarada como têm início os carnavais - sejam dolorosos ou não - em um ano qualquer e em uma cidade igualmente qualquer (o carnaval é igual em qualquer cidade quando o objetivo é sofrer, e não se alegrar. parafraseando Tolstói, todos os carnavais infelizes se parecem, os carnavais alegres é que são diferentes...)
Mas, voltemos à minha dor... toda ela gerada pela Colombina, posto que eu era, novamente, o Pierrô. Há quantos carnavais vivíamos esta história insana, excitante, mal contada?... Havia uma década, suponho. Eu não sabia nada sobre ela, apenas seu nome - Miriam - que ela revelou por um deslize enquanto fazíamos amor embaixo do palco das autoridades que assistiam ao desfile das escolas de samba na cidade de... deixemos para lá. E chamemos minha amada de Colombina, que é como sempre a chamei e como ela gosta de ser chamada (isso a excita, presumo).
O fato era que o que havia começado como uma fantasia (em todos os sentidos) passara a ser –pelo menos para mim – uma obsessão. Primeiro nos conhecemos, entre o confete, a serpentina, o álcool e o loló, como todos se conhecem durante a folia, entre a superficialidade e o desejo... depois o beijo, o desencontro e por fim o reencontro na noite de terça-feira e terminar a noite – e aquele carnaval – entre lençóis no meu quarto de hotel. Trocamos telefone, mas, para quê? Jamais nos telefonamos. A não ser na véspera do carnaval do ano seguinte, quando ela avisou que novamente se fantasiaria de Colombina e que queria me ver outra vez de Pierrô. Passamos o carnaval entre encontros e desencontros, ela com Arlequins, eu com Odaliscas... tentei brigar, mas ela só queria se divertir. Jurei que no carnaval seguinte não passaria mais por aquilo. Tolice. Uma semana antes da festa momesca, a Colombina me ligou dizendo em que cidade passaria o carnaval lá fui eu atrás dela, rumo a prazeres carnais rápidos e uma dose considerável de sofrimento. Identifiquei-me com a música... "Um pierrô apaixonado, que vivia só chorando, por causa de uma colombina acabou chorando, acabou chorando...” (Pierrô Apaixonado, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres)
Lá pelo quatro ou quinto carnaval que passávamos da mesma maneira, encontrando e desencontrando entre ladeiras, becos e multidões, tomei coragem e a pedi em casamento. Ela riu, argumentando que eu sequer a conhecia e continuou sua caminhada de Colombina desvairada, à procura de outras bocas, outros braços, outros pierrôs... Mas, na quarta-feira de cinzas lá estava ela em meus braços... E eu tentando fazer com que nos víssemos em outro período que não no carnaval. Inútil. “Eu gosto das coisas assim...”, enfatizou, despindo suas roupas de Colombina. Enquanto ela pegava um táxi rumo ao aeroporto (já morávamos em cidades diferentes) "O pierrô apaixonado chora pelo amor da colombina..." (Pierrot, de Marcelo Camelo, da banda Los Hermanos).
Passam os meses e fevereiro se aproximou, como sempre, trazendo consigo o Carnaval. Não telefonei para a Colombina e tampouco ela me ligou. Fiquei em minha cidade, e vesti-me de Pierrô – pela última vez – para pular sozinho meu carnaval. Eis que então que, entre lágrimas e cerveja, vi a Colombina – sim, só podia ser ela, era seu andar, seu jeito de mover os braços, de balançar os cabelos, de rir ao vento... - aos beijos com um Arlequim. Olhei fixamente para ela. Ela me viu e não esboçou qualquer reação. Era uma Colombina, mas, seria a minha Colombina? Que importava? Que mais havia a fazer? Comprei outra latinha de Skol e me entreguei à multidão que entoava uma marchinha qualquer, que aos meus ouvidos soava como a marcha fúnebre: eu estava condenado a ficar apaixonado pela imagem (literal e simbólica) da Colombina até o fim dos carnavais, ainda que toda Colombina que cruzasse meu infeliz caminho não fosse a minha... “Quanto riso, ó, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão... O pierrô está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão...”

22 fevereiro 2011

Sobre “True Grit” ou Os Irmãos Coen nunca erram


Cefas Carvalho

Assisti ontem, segunda dia 21, ao filme “Bravura indômita” e a primeira coisa a dizer sobre o filme é que ele deveria se chamar “Coragem verdadeira” ou “Um homem de caráter”, traduções aceitáveis para o “True grit” orginal. Por definição, “grit” é “firmeza de caráter”, “arrojo”. Também pode significar “brita”, “pedrinha”. Ok, a intenção da distribuidora era registrar que trata-se do remake do clássico de 1969, que deu o Oscar de ator a John Wayne (ele está ótimo naquele filme, mas suplantar Jon Voigt e Dustin Hoffman em “Perdidos da noite” e Richard Burton em “Ana dos mil dias” é brincadeira!).
A consideração inicial me faz lembrar a vocação que as distribuidoras brasileiras tem para “traduzir” títulos de faroestes (geralmente colocando títulos ridículos ou sem-noção). Exemplos são "Shane", que virou “Os brutos também amam” e “My Darling Clementine (Paixão dos fortes). Mas, isso é assunto para outro artigo. Vamos ao “True grit”.
Quase todo cinéfilo que o valha já discutiu a obra de Ethan e Joel, os irmãos Coen. Os fãs registram o óbvio: os Coen não erram, não fazem filmes ruins. Os detratores ou não-encantados com a dupla registram que eles podem não fazer maus filmes, mas nunca fazem nenhum filme realmente empolgante, arrebatador, por mais que ganhem prêmios (Uma palma de ouro em Cannes, Oscar de direção, dois Oscars de roteito, entre muitos outros).
O dramaturgo paulista Mário Bortolotto chegou a ensaiar uma polêmica na rede social Facebook justamente afirmando que jamais se encantou profundamente com nada que os Coen fizeram. Lembraram que, em compensação, os Coen nunca erraram a mão como já o fizeram os mestres Fellini (“Cidade das mulheres”), Bergman (“O ovo da serpente”) e Chaplin (“Monsieur Verdoux”).
Na verdade, na minha ótica os Coen fizeram, sim, um filme superlativo: “Onde os fracos não têm vez”, tradução banal e simplista para o poético “No country for old men”. Tudo ali funciona. Das interpretações magistrais de Javier Bardem e Tommy Lee Jones ao clima “seco” do filme (que sequer tem trilha sonora), passando pelo tema da ambição e estudando a violência dos dias de hoje. Tudo com fotografia e roteiro de primeira e o “estilo Coen” á última potência. Um clássico desde já.
Agora, os Coen conseguem a façanha de produzir outro clássico instantâneo adaptando um romance estilo faroeste apenas razoável da década de 60 e que já tinha sido adaptado com sucesso. Quem leu o livro assinala que a adptação é fiel. Contudo, o filme tem o “estilo Coen”. Humor negro aos borbotões, personagens estranhos, cinismo, violência, a fotografia sempre fantástica de Roger Deakins, ótima direção de atores. Jeff Bridges está fantástico como o beberrão Rooster Cogburn.
A trama é um apanhado de clichês do faroeste: jovem cujo pai foi assssinado contrata um pistoleiro policial federal para apanhar o criminoso. No caminho, problemas, desventuras e violência. Mas, dos clichês, os Coen (como Almodóvar) fazem um filme “deles”. No frigir dos ovos, os fãs dos Coen vão adorar. Os detratores vão encontrar o que criticar (os clichês, o bom mocismo de Cogburn no final, o tema escolhido, o fato de ser um remake). Enfim, mais de uma vez já assinalei que não assisto filmes com olho crítico. Gosto de autores e filmes por empatia e intuição. E os Coen mantiveram – em relação a mim - a tradição de me fazer esperar o próximo filme deles, seja que tema for, seja com quem for. A esperar. E até lá, rever parte da obra da dupla, como “Barton Fink”, “Fargo” e “Gosto de Sangue”.

15 fevereiro 2011

As leitoras de Renoir



Cefas Carvalho

Devoto que sou da pintura impressionista (como também o sou da literatura francesa do século 19), tenho Gauguin, Manet e Cezanne entre meus favotitos eternos. Mas, de todos os impressionistas, o meu favorito sempre foi Renoir. Não sou estudioso de artes plásticas, portanto, não gosto nem analiso por critérios e padrões técnicos. É gosto e empatia mesmo. Tem muito a ver em ter conhecido a obra de Renoir ainda criança (vale um agradecimento público aos meus pais por terem me comprado a coleção Gênios da Pintura quando eu tinha dez anos de idade) e pela impressão – perdão pelo trocadilho – que ele e os demais impressionistas me causaram.
De Renoir, gosto de quase tudo. Da leveza de “Mulher com sombrinha” ao raios-X social de Paris em “O baile no moulin de La Gallete”. Mas, tenho encantamento mesmo é pelas leitoras de Renoir. Sim, o mestre pintou diversas telas em que jovens se dedicam (às vezes com atenção, às vezes negligentemente) à leitura de livros. Sempre imaginei que livros seriam aqueles. Romances da época? Poesias? Aquelas meninas preferiam Stendhal ou novelinhas água com açúcar?
A devoção das leitoras de Renoir aos livros me remete a um trecho que li em algum livro de Balzac ou Stendhal (ah, maldita memória que me falha!). Dois jovens aristocratas parisienses conversam sobre a beleza e formosura de tal moça, quando um deles critica: “Ela é bela, mas culturalmente deixa a desejar. Tudo bem que sabe tocar piano e canta algumas árias de óperas. Também lê um pouco, pelo menos aqueles romances clássicos históricos que estão fora de moda...
Espere aí, então o rapaz considera a moça inculta porque ela apenas toca piano, canta trechos de ópera e lia Alexandre Dumas e Walter Scott? Que se dirá das moçoilas de hoje, às voltas com as novidades do BBB, ascenção profissional, mundo fashion e novidades para o cabelo? Daí talvez meu fascínio pelas leitoras da Belle Epoque. O fascínio por uma cultura social – a da leitura – que parace estar morrendo, principalmente no Brasil, triste país dos trópicos em que ler em lugares públicos (praças, recepções de clínicas médicas, filas de banco) é não apenas raro e estranho, como visto com maus olhos. As leitoras, o impressionismo, Renoir, tudo parte de um mundo que parece cada vez mais ultrapassado e condenado ao fim.

02 fevereiro 2011

Cada um vê o que quer




Cefas Carvalho

O recebimento de um e-mail sobre os supostos milagres contidos no manto de Nossa Senhora de Guadalupe e as posteriores discussões sobre o tema (nas redes sociais e na vida real) me levaram a retornar velhas pesquisas sobre o fenômeno da apofenia.
Na definição tradicional, Apofenia explica o fenômeno cognitivo de percepção de padrões ou conexões em dados aleatórios. Termo criado pelo professor alemão Klaus Conrad, em 1959, ele consiste em importante fator na criação de crenças supersticiosas, da crença no paranormal e em ilusão de ótica.
Trocando em miúdos: cada um vê o que quer. De acordo com cada crença, histórico, medos e circunstâncias de vida, claro. Um cristão que vê o rosto de Jesus em uma mancha na janela ou no café derramado no chão, está vivendo o fenômeno da Apofenia. Mais exatamente, um tipo de Apofenia denomonada Pareidolia.
Em definição, pareidolia descreve um fenômeno psicológico que envolve um vago e aleatório estímulo (em geral uma imagem ou som) sendo percebido como algo distinto e significativo. Exemplos comuns incluem imagens de animais ou faces em nuvens, em janelas de vidro e em mensagens ocultas em músicas executadas do contrário.
Estudando o tema, leio que “ocorrências de apofenia frequentemente são investidas de significado religioso e/ou paranormal ocasionalmente ganhando atenção da mídia”. Isso explica porque tantas pessoas vêem os rostos e Jesus ou Maria em qualquer coisa: panos velhos, árvores, manchas de óleo, paredes com infiltração.
É famosa a imagem do “rosto em Marte”, que muitos garantem ser a imagem de Cristo. Na verdade, trata-se da foto de uma cratera marciana que, no ângulo que foi tirada e com as devidas sombras, se assemelha a um rosto humano graças justamente à pareidolia.
Antropólogos registram que, por carga genética, o ser humano procura ver faces humanas em tudo, como uma tentativa instintiva de estar perto da própria espécie. Isso explica porque vemos o “relógio triste” (como na foto acima). E também porque bastam um circulo, dois pontos e uma linha para termos a impressão (ou a certeza) que trata-se de um rosto humano.
Pesquisando mais sobre o tema, leio que “em situações simples e ordinárias, este fenômeno fornece explicações psicológicas para muitas ilusões da mente como, por exemplo, as visões de OVNI alienígenas, mensagens gravadas ao contrário em músicas, Monstro do Lago Ness, Pé- Grande e a face de Jesus em Marte”. Ou seja, como o ser humano não consegue viver sem a presença de sobrenatural, da-lhe apofenia e criatividade para cada um ver o que lhe aprouver...

18 janeiro 2011

Ninho de mafagafos


Cefas Carvalho

Acordou cedo, antes mesmo de o sol nascer por completo, colocou a mochila nas costas e saiu para a mata, com o objetivo de capturar mafagafos. Pássaro arisco, de vôo curto, mas muita agilidade e percepção aguda do perigo, o mafagafo desafiava caçadores e pesquisadores. A tal ponto que muita gente acredita que ele não passa de uma lenda infantil, um mero trava-língua. Num ninho de mafagafos/ tinha sete mafagafinhos/quem os desmafagafizar/bom desmafagafizador será... Quanto a ele, não era nem caçador nem pesquisador. Era um obdecado. Tinha como missão desmafagafizar um mafagafo. Sabia como proceder e tinha, na mochila, os apetrechos necessários para tal. De maneira que saiu confiante em sua empreitada. Enquanto andava, riu baixinho lembrando-se das lendas que cercevam o mafagafo. Incrível que milhões de pessoas não soubessem de sua existência. Acaso seriam o ornitorrinco, o kiwi e o celacanto animais igualmente imaginários? Inclusive, o mito dos mafagafos denotava falta de leitura, desconhecimento mesmo, pensava ele. Tanto Sérgio Buarque de Hollanda como Gilberto Freyre citaram – embora de passagem, reconheça-se – o mafagafo em alguns dos seus escritos (os menos célebres, também era verdade), ele havia lido. Câmara Cascudo cita os mafagafos em seu livro Folclore no Brasil (mas não na 1ª edição pelo Fundo de Cultura, Rio, 1967, mas, sim, em uma reedição revisada de 1976, pela obscura editora Pegasus, onde os mafagafos são citados no capítulo 22, lembrava ele). Também recordou a primeira vez que saíra pelas matas sem fim para caçar mafagafos, anos antes, pouco depois que a esposa o abandonara. A partir daí, não obstante as agruras e surpresas da vida, dedicara-se a pegar mafagafos para os desmafagafizar. Naquela manhã estava disposto a realizar a maior caçada de mafagafos da sua vida. Procuraria não os mais comuns, de coloração laranja, mas os raros, de coloração acinzentada e bico curvo. Horas após percorrer a mata, que lhe parecia labiríntica, circular, achou uma árvore com ninhos nos galhos mais altos que pareciam ser de mafagafos. Tentou subir na árvore, mas o braço machucado não permitiu que o fizesse. Tão perto do ninho de mafagafos e não sabia como subir até o cume da árvore. Observou, próximo à árvore, um machado, milagrosamente esquecido na mata. Não pensou duas vezes e, com o instrumento nas mãos – mesmo com a dor no braço – iniciou a derrubada da árvore a fim que o ninho dos pássaros caísse ao chão. De súbito. Quando efetuava o corte do tronco, mãos fortes o seguraram por trás. Tentou desvencilhar-se, mas, sentiu uma picada no braço e em seguida, uma dormência seguida de sono, sensação já experimentada tantas outras meses. Descordado, foi conduzido para sua cama no quarto 14 no sanatório municipal. E o ninho de pardais continuou firme entre os galhos da mangueira.

11 janeiro 2011

Ad eternum


Cefas Carvalho


Minha receita para a vida eterna é simples:

Cicuta

Cianureto

Estricnina...



Queres de mim, o eterno

Queres do mundo, o infinito



Ah, como tudo poderia ser tão simples:

Punhal

Navalha

Guilhotina...

21 dezembro 2010

Morte em vida


Cefas Carvalho

Ela chamava-se Eurídice. Isto é, ela se chama Eurídice, afinal, ainda não morreu. Pelo menos não tecnicamente. Mas, e daí? Tantas pessoas parecem mortas em vida, enclausuradas em catacumbas de dor, remorso e solidão. Mas, isso não vem ao caso, pelo menos não as mortes (em vida) alheias. Quero falar de mim e de Eurídice e é isso que farei.

Conheci-a em um sarau literário, entre poesias insossas e drinques de maracujá igualmente enjoativos. Ela se aproximou de mim para comentar uma resenha que eu havia escrito sobre um livro de Faulkner. Mas, na verdade, jamais havia lido Faulkner, como vim a descobrir horas depois. Mas, não importava. Eu já estava caído de amores por ela. Era professora de francês e estudava grego, talvez para honrar o próprio nome.
Casamo-nos três meses depois daquele sarau.
Passamos a lua de mel em Petrópolis, mágica e fria cidade do estado do Rio de Janeiro. Na verdade, e lua de mel durou quase meio ano, tempo em que os demônios não tiveram acesso ao nosso mundo.
Contudo, toda Eurídíce deve ter seu quinhão de inferno. Descobri isso quando ela explodiu em ira ao ser demitida da escola de idiomas onde trabalhava. Entre xícaras quebradas, jurou de morte a diretora que a demitira e enfurnou-se em casa. Claro que imaginei que a fúria teria vida breve. Contudo, uniu-se a outro problema: a morte do gato que ela criava, envenenado por algum vizinho sem caráter.
Os dias passavam e o idílio inicial cedia lugar a uma melancolia agressiva por parte de Eurídice. Sugeri uma viagem – mesmo com nossa situação financeira não sendo das melhores – mas, ela recusou. Também não quis tentar outros empregos. Limitava-se a estudar grego e tentar traduzir trechos da Odisséia. Aos poucos, começou a negligenciar a aparência, as roupas, a casa, enfim.
Uma noite, tentou correr para a rua, para recitar versos de Homero para os mendigos, segundo ela. Foi quando percebi que havia enlouquecido. Procurei sua família para me aconselhar. Admitiram que ela já havia sofrido acessos semelhantes na adolescência, mas, imaginaram que já estivesse curada.
Decidimos – aliás, a família decidiu – interná-la em uma clínica séria e moderna, em um município vizinho. Em uma manhã ironicamente bela e ensolarada, foram buscá-la para o tratamento. Ela esperneou, agrediu fisicamente os médicos, teve de ser sedada.
Passei uma semana deprimido, em casa. Depois, tentei voltar a algo que se podia chamar de vida normal. Uma vez por semana visitava Eurídice na clínica. Parecia cada vez pior. Até que uma vez não me reconheceu mais. Um mês depois, um médico disse que ela havia tentado se matar com um pente. Estava morta em vida, na verdade, e talvez um resquício de sanidade tentava terminar de vez com aquela vida sem vida.
Repito, tentei voltar à vida normal. Comecei a ir ao cinema, jantar fora, revi os amigos. Mas, nada era mais a mesma coisa. A imagem de Eurídice me voltava à mente com freqüência. Perdi a vontade de sair. Afastei-me dos amigos. Aos poucos, enfurnei-me em casa – como ela havia feito – e percebi que também não tinha mais vontade de fazer nada. Talvez, nem mesmo de viver.
Em visita a Eurídice, fui informado que ela havia tentado se matar novamente e estava sedada. Seu estado era preeocupante e me explicaram com um emaranhado de palavras a doença dela etc e tal.; Mas, eu já não ouvia nada, já não queria saber.

Pode-se dizer que ela está viva? Que o desgraçado leitor deste relato decida-o por si só. Quanto a mim, posso dizer que morri há muito. Ora, mais uma vez ele recorre ao eufemismo da morte em plena vida, haverão de pensar, talvez cvom certo tédio. Não culpo quem pense assim. Eu mesmo cansei desta imagem, desgastada por si só e, em última instância, ilusória, já que o morto em vida come, bebe, por vezes ri, defeca e dorme - ocasionalmente sonha - como qualquer um. Daí minha decisão final, pensada e articulada. escrevo este derradeiro relato em cima de um tamborete de madeira. Com uma corda apertada em laço e nó no pescoço e tranapassada em uma viga de madeira no teto, na granja deserta de um tio, onde eu e Eurídice havíamos passado momentos maravilhosos. Se posso alongar este relato para brincar com a morte e, talvez, esperar que algo aconteça e me salve? Claro. Mas, não o farei. Basta finalizá-lo agora, largar o caderno, chutar o tamborete onde estou e esperar que o impacto e a corda me transportem da morte em vida – onde estou – para a morte real. E ponto final.

30 novembro 2010

Quarteto de degustação


Cefas Carvalho


1

O que me engole e devora
É o súbito, o indigitado
O alimento que me apavora
O vômito regurgitado

2

O que me tange e apascenta
É o cajado, adestrado
Cujo golpe me arrebenta
Como o verbo bem amado

3

O que me desce à garganta
É a vida, mal mastigada
Que ainda nos espanta
E faz de nós quase nada

4

O que me sustenta e redime
É o verso em decomposição
Como quem comete um crime
E sonha com a redenção

11 novembro 2010

Celluloid & music


Cefas Carvalho

Take my brath away

Mesmo em ingles, sei!
O que me tira a respiração...


As time goes by
E então, amor, vai!
Faz do tempo, ilusão...

01 novembro 2010

Que os mortos enterrem os mortos


Cefas Carvalho

Odiava o Dia de Finados. Aquela data em tudo atrapalhva sua tranqüilidade e seu bem estar, valores que, depois de tudo que passara, ele prezava muito. Por que lembrar os mortos?, ele costumava se perguntar. Lágrimas e recordações nem fariam os mortos retornarem à vida e nem serviriam para coisa alguma no além-vida. Melhor seria que os vivos cuidassem das coisas da vida, como, aliás, preconizava o livro sagrado dos Cristão e o próprio bom senso. Contudo, não poderia se furtar e viver mais aquele Dia de Finados, a se fazer presente no cemitério. Mais quem uma obrigação, mais que uma necessidade, sentia apenas que deveria se fazer presente no cemitério. Talvez por respeito às pessoas, talvez por aquele estranho senso de obrigação que desenvolvemos em relação a alguns aspectos da vida. Diante de tantas reflexões e da celeridade da hora, terminou por se resolver e comparecer ao cemitério. Não lhe agravada estar em meio a túmulos, lápides, cruzes, mármore e flores. Detestava o cheio de flores e na verdade, mal se dava conta que não aspirava mais o cheiro delas, o que sentia era a lembrança do cheiro das flores. Observou sua esposa aos prantos – ela chorava por tudo, afinal – e seus dois filhos simulando tristeza e mal disfarçando a vontade de ir embora. Morrera havia quatro anos e – somente quando evocado no dia 2 de novembro - não conseguia ficar em paz em meio às trevas e ao nada que tanto lhe agradavam. Como odiava o Dia de Finados.

15 outubro 2010

O encontro marcado


Cefas Carvalho

Parecia um sonho. Talvez o fosse. O convite para sair – uma cerveja, um jantar, talvez uma pizza – se assemelhava a uma irrealidade. Havia quanto tempo não recebia um convite daquela natureza? Não, Raquel, você deve estar sonhando, disse, em voz alta para si mesma, enquanto fazia com o lápis o contorno dos olhos.
Olhando seu reflexo no espelho, sentiu-se aliviada por não estar com olheiras. Dormira cedo na noite anterior, beneficiada por uma leva enxaqueca e pelo movimento fraco na casa. Quando dormia tarde acordava com olheiras imensas que perduravam até a noite, lhe conferindo aparência mais envelhecida que a de seus vinte anos.
Conferiu mais uma vez o bilhete que Rômulo havia lhe escrito no verso de uma comanda de bar. Você é linda. Beijo. Rômulo. Não recebia uma mensagem romântica de verdade, havia quantos anos, meu deus do céu?
Conhecera Rômulo havia dez dias. Tímido, sentou-se sem olhar com atenção à sua volta e pediu uma cerveja. As outras meninas mal o perceberam, mas ela encantou-se com seu embaraço, seu cabelo mal penteado e seus enormes olhos acastanhados. Inventou um pretexto (Você tem cigarro?) para sentar-se à mesa dele. Passada a timidez inicial, a conversa fluiu e ele se mostrou educado, interessado em sua vida e cobriu-lhe de elogios. Teve que ir embora uma hora depois, mas, deixou pagas duas cervejas para ela. Prometeu voltar.
E voltou. Três dias depois, Raquel chegou ao bar e o viu sentado a uma mesa isolada, olhando fixamente para um ponto na parede. Desta feita, não precisou de pretextos e abordou-o como se fossem velhos amigos. Conversaram sobre a vida, riram, ele teve paciência para ouvir seus desabafos. Ele não parecia pertencer àquele ambiente. Por sua vez, sentia que ele pensava o mesmo em relação a ela. Por mais que ela precisasse de dinheiro, por mais que a casa estivesse cheia e ela não pudesse ficar apenas à mesa dele, Raquel sentiu uma festa no coração quando ele a convidou para jantar dali a alguns dias. Sim, um jantar, com direito a pizza, cerveja (ou vinho, que ela adorava), e não um programa, ele deixou bem claro.
No intervalo de dias entre o convite e a noite do jantar, Raquel realizou um inventário sobre sua vida. Entrara naquele estranho universo havia dois anos, incentivada por uma amiga que despertava inveja por ganhar em dois dias o que as vizinhas recebiam por um mês de trabalho. De início, era apenas uma aventura. Ganhara algum dinheiro, não passara por maus bocados, chegara a se divertir um pouco. Depois, venho a segunda vez (“Quem faz uma, faz duas”, ria a amiga) até que, quando percebeu, estava fazendo um programa por semana e com uma espécie de “carteira de clientes”. Pagava as contas e tinha dinheiro para mandar para a mãe, que morava no interior, isso era certo, mas, também gastava mais do que deveria (cigarros, perfumes em excesso, roupas caras, sapatos...) até que, mal sabia como, acabou por estabelecer-se uma casa (com vários nomes, mas, conhecida como “boate”), o que lhe dava – pelo menos aparentemente – mais segurança e possibilidades de ganhar dinheiro. Pensara em passar um mês na boate e lá estava havia quase oito meses, que se passavam sem sobressaltos e sem boas novas. Apenas na rotina de trabalhar até as quatro da manhã (ou até quando houvesse clientes na casa), arrastar-se para a quitinete que chamava de “minha casa” e acordar depois do meio dia para juntar os cacos da sua vida até a hora de reiniciar o trabalho, às sete da noite.
Até que Rômulo surgiu.
Era para ele se pintava – de forma discreta, não exagerada – e imaginava para onde iriam. Ao telefone, ele disse que havia economizado dinheiro e que pensou em um restaurante sofisticado. Falou de dormirem em um hotel, caso ela não quisesse ir à casa dele.
Olhou-se no espelho. Ainda eram dezenove horas. O encontro estava marcado para as vinte e trinta. Como Rômulo não tinha carro, combinaram se encontrar em uma praça, no Centro da cidade, para, de táxi, jantarem, passearem pela orla.
Enfim, sentindo-se linda como nunca, considerou-se arrumada. Pegou a bolsa e saiu. Eram dezenove e dez, havia tempo de sobra, Rômulo talvez ainda estivesse trabalhando. Decidiu passar na boate, para ver as amigas (na verdade, para esfregar sua felicidade incontida nas amigas que teriam de trabalhar no salão naquela noite) e para carregar a bateria do seu celular, antes que descarregasse.
Lá, tratou de espalhar sua alegria como quem atira arroz em recém-casados. Riu, falou sobre Rômulo, ouviu piadas maliciosas das colegas, trocou o sapato por um, de uma amiga, com o salto maior.
Para descontrair (estava nervosa com a proximidade do encontro. Havia quanto tempo não tinha um encontro sem envolvimento financeiro?...), pediu um rum com coca-cola. Sentou-se à mesa com uma colega, que reclamava da falta de dinheiro, quando dois homens entraram no salão, sentaram-se a uma mesa e acenaram com a mão para Raquel e a amiga. Eu tenho um compromisso, reagiu Raquel. Sente-se comigo só uns vinte minutos para quebrar o gelo. Quero ver se faço um programa com um deles e aí você vai embora, pediu a amiga. Raquel concordou. Na mesa com os homens, teve de agüentar as perguntas de sempre, os comentários de sempre, a mão na perna, o alisar de cabelos e teve ganas de sumir daquele lugar. Suportou meia hora para ajudar a amiga e preparava-se para sair quando o dono da boate chamou-a ao balcão. Raquel descobriu que um dos seus clientes telefonara para ele para saber se ela estava na casa.
Hoje nem é meu dia de trabalho, tenho um compromisso daqui a pouco, explicou.
Sim, minha filha, mas, dinheiro a gente não joga fora não. Deixe-o chegar, peça umas bebidas e tente levar uma menina que o agrade para a mesa, aí depois você vai para seu compromisso, argumentou.
Sem poder de reação (estava devendo ao dono da boate) concordou e tão logo o cliente chegou, Raquel sentou-o a uma mesa e explicou que teria de ir, mas que o deixaria em boa companhia. Conseguiu fazê-lo, mas, tendo que ouvir antes algumas piadas sem graça e alguns desabafos sobre a vida, perdeu mais tempo que o esperado. Olhou para o relógio: 20h20. Vou pegar um táxi, pensou. Contudo, já na rua – mal iluminada e deserta, como convinha – nenhum táxi. Andou – atrapalhada pelo salto alto com que não estava acostumada – até o posto de táxi mais próximo. Nenhum no ponto. Decidiu andar um quarteirão até a parada de ônibus mais próxima. Eram 20h35. Percebeu que naquele trecho os ônibus para o centro demorariam a passar e começou a se desesperar. Decidiu ir andando até o centro. Já conseguira fazer aquele percurso em vinte minutos, seria melhor que esperar o maldito ônibus! Começou a andar quando se lembrou de passar uma mensagem para Rômulo, avisando que estava a caminho.
O celular desligara, estava descarregado. Esquecera-se de carregar a bateria.
Hesitou entre caminhar rapidamente – se é que isso era possível com aquele salto! – ou parar em algum bar e pedir para carregar o celular durante dez minutos, tempo suficiente para poder ligar para Rômulo ou passar-lhe uma mensagem.
Acabou não fazendo nem uma coisa nem outra. Parou para pensar e desesperou-se ao ver passar um taxi vazio. Então, decidiu tirar os sapatos e caminhar até o centro. Quando chegasse perto da praça, os colocaria nos pés, entraria em um bar nas imediações para olhar-se no espelho (estaria descabelada? A maquiagem estaria desfeita?) e garantir que estaria linda para Rômulo.
Ofegante – o caminho para o centro tinha ladeiras e subidas – Raquel chegou na rua que antecedia a praça. Calçou os sapatos e olhou o relógio, eram 21h20. Mesmo com quase uma hora de atraso, não queria estar feia ao encontrar Rômulo e manteve a decisão de entrar no bar para ver como estava. Ajeitou-se rapidamente, e foi para a praça. Ele não estava lá. Na expectativa que ele tivesse isso comprar cigarros e voltasse, esperou quase meia hora. Um pouco antes das dez da noite, concluiu que ele não voltaria e que o mais sensato a fazer era tentar carregar o maldito celular. Voltou ao bar e conseguiu fazê-lo. Quinze minutos depois, percebeu – com o celular já ligado – que Rômulo fizera quatro ligações para seu número. Teve medo de ligar para ele e preferiu passar uma mensagem: “Meu amor, me perdoe pelo atraso. Ligue para mim. Beijos”.
Sentou-se no meio fio, esperando um retorno. Dez minutos depois, ouviu o ruído que indicava a chegada de mensagens. Com o coração aos pulos, leu a mensagem: “Me esqueça”.
Raquel pediu um copo d´água no bar e viu um táxi parado em frente ao local. Pagou a corrida até a boate. Lá, pediu um conhaque sem gelo, abriu o botão da blusa para deixar parte de seus seios à mostra e sentou-se a uma mesa, olhando para os clientes que chegavam e pensando na longa e amarga noite que teria pela frente.

13 setembro 2010

As nuvens


Cefas Carvalho

Amava a esposa. Sabia de suas qualidades e as reconhecia sendo, igualmente, um bom marido. Contudo, aborrecia-se com a falta de memória de Tânia.
Nada grave. Tânia era profissional competente – publicitária de primeiro escalão – com vida social e cultural intensas. Era bela e atraente, dona de olhinhos miúdos que pareciam mudar de cor de acordo com seus humores. Mas, para Augusto, professor universitário dos mais conceituados na cidade, a falta de memória da mulher amada lhe doía como uma ferida não cicatrizada.
Claro que ele, com a sensatez que lhe era peculiar, raciocinava que ninguém tem a obrigação de se lembrar de tudo. Se ele sentia prazer em recordar datas, citações, nomes, números (era professor de filosofia, que fique explicado), não poderia exigir o mesmo da esposa.
Porém, mais que a falta de memória, Augusto reprova em Tânia o desrespeito para com a memória.
Posso explicar: em uma reunião social, regada a queijos e bons vinhos, como costumavam, fazer, uma amiga comentava com Tânia sobre um amigo em comum que fora morar em Portugal. A amiga pergunta se Tânia recorda que estudaram juntos os três e que foram juntos a um congresso em Manaus. Tânia responde que sim, se lembra, e registra que naquele congresso um outro amigo em comum passara mal e tivera que ser internado. Imediatamente a amiga responde que não, Tânia está confundindo. O amigo internado o fora em Salvador, em outro congresso anos depois. Tânia insiste. Foi em Salvador, eu me lembro. A amiga pacientemente descreve o hospital e o bairro onde está localizado, e registra que após visitarem o amigo foram para o Pelourinho, provando que, obviamente, ela está com a razão. Tânia ri inocentemente, toma mais um gole de vinho e comenta: Ah, foi em Salvador. Mas, o que se importa? Poderia ter sido em Manaus ou em qualquer outro lugar...
Augusto já fora vitimado pela falta de memória (corrijo-me: pelo desrespeito à memória) da esposa. Em mais de uma ocasião, Tânia trocara datas e locais onde passaram férias. Em certa feita, tendo bebido mais do que devia em uma festa, fincou pé que um determinado momento que haviam vivido em Pipa (e ele tinha certeza disso) na verdade acontecera em Porto de Galinhos. Para não constranger a mulher, Augusto assumiu o engano. Mas – rigoroso que era não apenas com seus conhecimentos, mas, com sua memória – engoliu com dificuldade o fato.
Para ele, a memória (ou melhor, os fatos evocados por esta memória) era como equações matemáticas. Mais que isso: era granito, mármore.
Para ela, os fatos (sinônimo de memória neste texto) eram como nuvens. A cada momento mudavam de posição e formato.
(Abro um parêntese para registrar o desespero que se apossava de Augusto ao ver, com o passar dos anos, as histórias de Tânia se modificarem, tal como acontece naquela brincadeira de infância conhecida como telefone sem-fio. Quando se conheceram, Tânia falava em um ex-namorado com quem tivera um romance durante dois anos e com quem viajara para Porto Seguro. Anos depois, vindo o nome do ex-namorado à tona por uma razão corriqueira qualquer, o namoro com o rapaz tinha durado um ano, segundo Tânia, e depois ela recordou que viajara para Porto Seguro com uma amiga e o namorado desta.
Outro homem poderia se dar por feliz pelo fato da esposa lembrar com tão pouca nitidez dos romances do passado. Mas, não Augusto. Aquilo lhe aborrecia por 1) O amor aos fatos e às datas ser superior ao ciúme, principalmente o retroativo, que ele achava absurdo e infantil. 2) Porque sabia que um dia poderia chegar a vez dele! Afinal, nada garantia que o casamento deles seria eterno. Era tão comum casais se separarem. Contudo, ele próprio sabia que jamais esqueceria os momentos que viveu com Tânia. E a experiência lhe mostrara que, tão logo se recuperasse da dor inicial inerente à qualquer separação, Tânia transformaria toda a bagagem de coisas que viveram em uma massa disforme de lembranças)...
Augusto começou, aos poucos, claro, a perceber que as sensações geradas pela falta de memória/desrespeito à memória da esposa lhe estavam fazendo mal. Não conseguia falar sobre o assunto. Também se espantava com o fato de Tânia não perceber o quanto aquilo o desagradava. Mas, não haveria como perceber nada, afinal, elegantemente Augusto não demonstrava seu descontentamento.
Em uma noite particularmente quente, quando os filhos pré-adolescentes haviam saído, decidiram sentar à varanda com um balde de cervejas e alguns petiscos. Tânia afagou a cabeça do marido e perguntou o que aquilo recordava. Ele não soube dizer e teve medo da resposta da mulher. Tânia então recordou que ele a pedira em noivado na casa dela, justamente com um cenário igual aquele: um balde de cervejas, azeitonas e queijos. Augusto brincou: Você nem lembra a data. Tânia imediatamente disse a data exata do pedido de noivado. Descreveu a roupa que usava na ocasião: um vestido florido que depois do casamento havia virado pano de chão.
Augusto bebeu - no gargalo - um longo gole da cerveja e sorriu para a esposa, achando-a bela como nunca. Em seguida, arrastou-se para o som para colocar um CD de Bille Holiday. Como havia feito naquela noite – do pedido de noivado – catorze anos antes.

02 setembro 2010

Nem só de Pokemons e Disney vive a animação



Cefas Carvalho

É certo que a Pixar lança animações fantásticas (“Toy Story” e “Procurando Nemo” são meus favoritos) e que de vez em quando um grande estúdio acerta a mão em animações que agradam crianças e não envergonham o cérebro dos adultos que os têm (“Shrek”, claro). Mas, a verdade é que, assim como venho fazendo em relação a filmes há uns bons anos, também em relação a animações venho me afastando dos habituais mega-lançamentos dos estúdios americanos e iniciei um “garimpo” a coisas mais originais, autênticas e, sobretudo, de mais qualidade.
Meus filhos, Pedro (adolescente de 14 anos que ainda adora animação) e Ananda, de 8, vem aprovando minha nova mania cinéfila. E o garimpo vem sendo produtivo e nem tão difícil quanto se poderia esperar. Jóias como “As bicicletas de Belleville” e “Wallace e Gromitt” ganharam fama e prêmios. Uma glória foi descobrir Mizao Miyazaki (de “A viagem de Chiriro” e “O castelo animado”), já idolatrado pelos meus filhos, de quem achei o fantástico “Porco Rosso”, dos anos 80.
Recentemente duas animações recentes me encantaram: “Persepolis” e “Mary & Max”. O primeiro, premiado em Cannes e indicado ao Oscar, trata-se de uma animação francesa basicamente em preto e branco. É a história autobiográfica de Marjane Satrapi, menina iraniana que cresce durante a Revolução Islâmica. A animação fala sobre política, amadurecimento, família e religião. Como a menina Marjane, hiperativa, falante e esperta, lembra minha princesa Ananda, “Persepolis” ainda ganhou pontos comigo.
Já “Mary & Max”, animação australiana á moda antiga, é uma pérola. Estranho, adulto e inquietante, ele fala sobre a amizade à distância de uma menina de 10 anos e um senhor de 44. Ambos solitários e com vidas não convencionais.
O próxima pepita a ser garimpada é “O segredo dos Kells”, animação irlandesa que concorreu ao Oscar e fala sobre mitos celtas. “Madagascar 3 ou 4”, desenhos japoneses ultra-violentos e os xaropes musicais da Disney? Por ora, não, obrigado!

11 agosto 2010

Chuva de fogo


Cefas Carvalho

O ruído que vinha de trás era ensurdecedor, mais que isso, espetacular, sedutor. Era absurdo não poder voltar-se e contemplar o espetáculo. Na verdade, pouco ou nada em sua vida de menos de quarenta anos tivera algo que pudesse se chamar de intenso. Casara cedo com um homem mais velho. Engravidara duas vezes, em um par de anos, sem saber o que fosse carinho ou prazer. Ouvira – longe dos homens que tanto a fiscalizavam, claro – as mulheres falar nos gozos escondidos nos meio das pernas das filhas de Eva, mas, aquele era um mundo que não lhe pertencia. O que lhe cabia era a obediência. Desde tenra idade, primeiro ao pai, depois ao marido, e sempre, sempre a deus, aquele ser todo-poderoso que tudo poderia em sua onipotência. Contudo, apesar de boa filha, boa esposa, mãe irrepreensível, guardava desde seu nascimento em meio a vísceras uma rebeldia, uma tendência à desobediência que sempre estivera oculta, embora latente.
Era uma filha de deus, sim, mas era mulher! E como tal, fazia dos seus desejos incompletos, insatisfeitos, uma ponte para um derradeiro e alucinado ato de rebeldia contra tudo e contra deus. O que perderia com a desobediência? Sua vida, um amontoado de gozos não vividos, suor e resignação. O marido - bom, honesto e temente a deus – não a via como senão uma companheira de luta e abnegação. Sim, nada perderia com um instante de arrebatamento, uma desobediência calculada e que lhe poderia abrir as portas de um outro mundo. Era filha de Eva, e como tal, tinha direito ao seu pecado, a sua traição às leis divinas e humanas em prol da curiosidade inata ao seu sexo e à sua vida sem paixões.

Decidiu olhar para trás – desafiando seu marido, seu deus – quando viu as cidades vizinhas, Sodoma e Gomorra, engolidas por uma chuva de fogo e enxofre. Pareceu-lhe bela a profusão de luzes e fumaças, quando sentiu um formigamento em todo o corpo e a uma estranha sonolência. Ainda teve tempo de pensar no marido, Ló, e nas filhas, que deviam estar longe e que – sabia ela – jamais olhariam para trás. Em poucos segundos estava transformada em uma estátua de sal.

09 agosto 2010

A tua língua em minha língua


A tua língua em minha língua; eis
Nossas bocas firmando uma aliança...
Corpos entrelaçados em uma dança
Em um palco desnudo de vãs leis...
Da tormenta, fizemos a bonança!
Invertendo os corpos de uma vez...
Peças no tabuleiro de xadrez
Tendo o xeque-mate como herança...
E teus lábios (!), em minha boca, enfim...
Que me cortam, faca de um gume!
E desprendem odor de alecrim...
Se eu teus lábios derramo meu prazer...
Em meu rosto destilas teu perfume
Na madrugada pronta p´ra morrer...

26 julho 2010

Crime perfeito


Cefas Carvalho

Depois de borboletearem, indecisos, entre mesas, sentaram-se, à mesa ao meu lado. Eram quatro. O casal - o homem grisalho, a mulher loira e magra, de olhos de hamster - o de bigode felpudo e o mal barbeado, banhado de suor. Formavam uma orquestra de barulhos em tons diferentes, um grupo estranho e heterogêneo. Contudo, sentaram-se na mesa da praça de alimentação do shopping, entreolharam-se e conversaram baixinho entre si.
Bebendo minha cerveja, percebi que eles destoavam do público do shopping: casais sorridentes, crianças alegres com mães estressadas, adolescentes barulhentos. O quarteto parecia ansioso e com ares de sujeira. De repente, o grisalho sussurra algo no ouvido da mulher, que esboça um sorriso falso e se volta para o mal barbeado, que esfrega as mãos nervosamente.
Não, não havia mais dúvidas. Era como se fossem cometer um crime. Pior; como se já o tivessem cometido.
Decidi observá-los com atenção. O homem de bigode, com ar de tédio, olhava o cardápio com ar distraído. O grisalho e a mulher – que pareciam casados, ou fingiam ser um casal – conversaram alternadamente com os outros dois. Deduzi que o crime já havia sido cometido, certamente um roubo. Havia duas ou três agências bancárias naquela área. Além do escritório financeiro do próprio shopping, claro. Deviam ter roubado uma boa quantia, mandado o dinheiro embora pelos cúmplices e ali estavam para disfarçar o crime e combinar os próximos passos.
Bebiam cerveja, os quatro. Barulhenta e sofregamente. Chamaram o garçom por mais duas, três vezes. Até, com dificuldade, se decidirem. Pediram algo caro, pude perceber. Um deles, o suarento, chegou a dizer para os outros que dinheiro não era problema. A mulher, com aqueles olhinhos inquietos de rato, começou a fumar, nervosamente. Trocou três ou quatro frases com o grisalho (seu marido?). O de bigode felpudo percebeu, enfim, o cantor que se apresentava, e bateu palmas, de forma exagerada. Tudo naquele quarteto parecia suspeito. Mais que isso: denunciador.
Quando chegou o pedido, notei que era um imenso prato de carne em tiras com batatas e legumes. Mas, veio também uma tábua de frios, muitos queijos. Ainda que fossem em quatro, parecia um excesso. Dinheiro não era problema, disse (ou teria dito, um deles). Comiam com voracidade, como se o mundo fosse acabar naquele instante. Comiam como se fossem seus últimos momentos em liberdade.
O homem com o bigode felpudo não se cansava de bater palmas, para qualquer tipo de música. Dir-se-ia que desejava chamar atenção. Mas, por que alguém que comete um crime gostaria de chamar a atenção? Como disfarce, talvez. Os seguranças o olhavam como um homem barulhento, não como um criminoso.
De repente, o grisalho sacou do bolso uma caderneta de anotações e uma caneta. Certamente iriam repartir o fruto do roubo. Talvez planejar o próximo crime. O grisalho escreveu algo e entregou o papel para a mulher. Em seguida, o mal barbeado, sempre suando, apesar do ar condicionado, pegou caderneta e caneta e rabiscou algo. Chamaram o garçom, que recebeu da mão suada o papel e o entregou ao músico. Então, pediam músicas ao cantor... certamente para mostrarem normalidade. Ao fim da música, o bigodudo bateu palmas ruidosamente. Tudo muito estranho. A mulher magra acendeu mais dois ou três cigarros, incrível, como não pediam para que parasse de fumar. Talvez ela quisesse justamente isso, que a proibissem de fumar. Para despistar suas verdadeiras atividades nocivas. Contudo, ninguém se dirigiu a ela. O grisalho, pegou na sua mão, como se tentando acalmá-la e me pareceu que iniciaram uma espécie de discussão. Estariam brigando devido à divisão do dinheiro?
Foi quando o cantor anunciou que tocaria a última música da noite. Bateram palmas com mais entusiasmo e barulho do que o normal. Tudo para não despertar suspeitas, certamente. Mas, a mim não enganavam. Terminaram de comer (o suarento chegou a raspar o prato de carne e comer toda a alface, como se precisasse provar que estava faminto) e pediram a conta, com barulho.
Minutos depois, o garçom a trouxe. Deliberaram sobre algo (o pagamento da conta? Como usar o dinheiro do roubo? Novas estratégicas e disfarces?). Até que, os três homens, sacaram cada um das respectivas carteiras uma certa quantia de dinheiro e as depositaram na mão do garçom, sorridente com a possível gorjeta. Típico. Tinham muito dinheiro para gastar.
Em seguida, levantaram-se, despediram-se e foram embora, o suarento e o bigodudo para um lado (o esquerdo, do estacionamento) e o casal para o outro (o direito, onde ficava o posto de táxis). Fiquei na praça de alimentação do shopping ainda uns minutos, terminando minha cerveja e avaliando o que tinha testemunhado. Na verdade, nada tinha acontecido. Na verdade, sempre acontece algo, apenas não queremos admitir. Embora nem sempre as coisas sejam como pensamos que são, confesso.
Penso que tinham cometido um crime. Ou talvez não.