15 junho 2010

Vinicius que me perdoe, mas, beleza não é fundamental!


Cefas Carvalho

A campanha publicitária que mais me encantou nos últimos anos foi aquela "Campanha pela real beleza", realizada pela linha de produtos cosméticos femininos Dove. Não sei se o leitor lembra-se do filme inicial daquela campanha: um grupo de mulheres, todas fora do padrão de beleza atual (gordinhas, magrelas, sem peito, com peito demais, com pernas finas) apenas de calcinha e sutiã brancos, se divertindo e felizes com seus corpos.
A sentença final era o conceito da campanha: os produtos da Dove eram feitos não para modelos perfeitas, mas para mulheres normais. Do ponto de vista publicitário, a campanha foi genial, tanto que ainda está em andamento, foi levada para outros países e aumentou não apenas o faturamento, mas o prestígio da Dove. Do ponto de vista pessoal, a campanha atingiu algo que me é muito caro: meu fascínio por "mulheres normais". Como os amigos – conhecendo minhas predileções e vontades – vaticinaram, apaixonei-me platonicamente por duas ou três mulheres que abrilhantavam aquele comercial de TV. Todas lindas, para meus olhos.
É curioso constatar como nós (homens, mulheres em geral, talvez as mulheres ainda mais que os homens) somos levados a aceitar bovinamente o padrão de beleza que a mídia quer nos impor. Certo, este padrão de beleza mais que midiático, é cultural, também milenar, oriundo dos tempos da Grécia e Roma antigas, passando pela colonização européia. Mas é preciso reagir – ainda que em termos de libido – contra essa cultura e essa imposição. Recordo que numa roda de amigos quase levei uns tapas (mas das gargalhadas não escapei) quando disse que me sentia mais atraído sexualmente por Denise Fraga do que por Gisele Bundchen. Onde está escrito que eu tenho que achar Gisele Bundchen a mulher mais bela e gostosa do Brasil? Onde está meu direito de preferir a beleza de Cláudia Abreu, Dira Paes ou Lorena Calábria em detrimento de modelos curvilíneas e capas de Playboy? Prefiro a beleza madura de Totia Meireles à juventude de Carolina Dickermann e Mariana Ximenes. Assistindo ao filme "Chicago" reconheço os mil e um encantos de Catherine Zeta-Jones, mas minha libido pulsa mesmo é por Renee Zelwegger.
Gosto não se discute. O meu, cansei de discutir com os amigos. Por fim eles se acostumaram com meus gostos digamos normais. Em tom de picardia, eu argumentava que não era dono de agência de modelos, nunca fui obrigado a admirar preferencialmente pernas longas e torneadas, barrigas sem qualquer proeminência, seios exatos (aliás, tenho sérias ressalvas a homens que analisam mulheres por partes ... meus gostos pelas mulheres são pelo todo ...) No frigir dos ovos, admito que não vejo qualquer problema em pequenos supostos defeitos (uma barriguinha a mais, canelas finas etc). Creio mesmo que as mulheres são mais preocupadas com isso de celulite, estrias do que os homens. Meu olhar - que abrange o todo, repito – passa por estas supostas imperfeições sem sequer notar que elas existem. Pensando bem, o assunto sempre fez parte da cultura popular. Vide expressões como "beleza não põe mesa" e "quem ama o feio bonito lhe parece". Recordo agora de Vinicius de Moraes, um dos meus poetas preferidos, quando assinalava sua frase: "As feias que me perdoem, mas, beleza é fundamental". O poetinha que me perdoe, mas a beleza - nos padrões generalizados - não é fundamental. Maior exemplo disso p ode ser visto no filme "A insustentável leveza do ser", do americano Phillip Kaufmann, baseado no livro do tcheco Milan Kundera. A chamada "cena da mulher feia" é uma das mais significativas (e excitantes) tanto do livro como do filme: o protagonista Tomas, médico charmoso que é obrigado pelo regime comunista de então a trabalhar como limpador de vidraças, recebe um chamado profissional de uma mulher que se mostra gritantemente feia, de corpo e rosto, mas que flerta explicitamente com Tomas. As insinuações da mulher feia, suas caras e bocas, suas frases ambíguas e a forma como ela se senta numa cadeira chegam a tal grau de erotismo que não há um homem na platéia que não fique excitado. Nem Tomas consegue escapar de tais encantos. Não é a beleza que põe mesa, mas sim o charme. E este, felizmente, não se encaixa em padrões das revistas de moda e dos programas de TV. Ah, e voltando às lindas gordinhas e magrelas da Dove, quem quiser acessar o site, basta acessar www.campanhapelarealbeleza.com.br. E viva a beleza real!

(Texto publicado na Revista Papangu de junho de 2006)

04 junho 2010

O conga e o congresso





Cefas Carvalho

Cada um ouve as palavras como quer. Foi esta a conclusão que dia desses, eu e os amigos petistas Amorim e Fernando Mineiro chegamos, após uma conversa sobre músicas - após a conversa sobre política, claro - e os equívocos que as pessoas cometem em relação às letras. Eu havia recordado como o brasileiro erra a letra do hino nacional. Tudo bem que a letra é por demais pomposa e arcaica, mas, convenhamos, não saber duas frases de uma letra que ouvimos desde a mais tenra infância é dose. Em um artigo na revista Papangu, recordo que Damião Nobre escreveu sobre o tema, registrando que muita gente canta o “Ouviram do Ipiranga” como “Ouvirumdumpiranga”. Dúvidas? Confira quando os jogadores da seleção brasileira cantarem (?) o hino na Copa do Mundo.
Nos divertimos lembrando de equívocos em relação a canções de Fagner, Renato Russo e até Chico Buarque. Foi quando me lembrei da explicação que o zagueiro Odvan, revelado pelo Vasco da Gama e chegou a jogar pela seleção na malfadada era Vanderlei Luxemburgo, deu em uma entrevista ao Esporte Espetacular deu sobre seu nome: sua mãe era fã de Roberto Carlos e quis homenagear “O Rei” dando ao filho o nome de uma de suas canções. Mas, espere aí, Roberto não tem nenhuma canção chamada “Odvan”. Tem sim, segundo a mãe amorosa: “O divã”.
Foi quando Mineiro recordou de caso que ouviu em um programa de rádio do interior. O locutor, todo animado, recebia telefonemas dos ouvintes pedindo músicas. Foi quando uma senhora entrou no ar, feliz e serelepe, mandando beijos para toda a família e pedindo a música “O conga e o congresso”. O locutor estranhou. De quem, a música? Roberto Carlos, claro, disse a senhorinha. O locutor quebrou a cabeça e não conseguiu lembrar que o Rei tivesse escrito alguma canção sobre o Congresso Nacional e sobre um tipo de tênis (lembram-se do bom e velho conga?). Pediu para a mulher cantarolar um trecho da música. Então, ele entendeu. Ela pedia “O côncavo e o convexo”...

25 maio 2010

Despedida de Solteira


Cefas Carvalho

Surpreendi-me com o telefonema dela. Havia muito tempo (um ano?) que não me telefonava. Clarissa era sempre surpreendente. Primeiro conversou banalidades, perguntou sobre a vida, a esposa, os filhos, estas coisas... depois adentrou o terreno da malícia – território na qual ela tinha total domínio – relembrando histórias picantes do passado... Por fim, comunicou que iria se casar no mês seguinte. Desejei felicidades, ainda estranhando a conversa e ela comunicou que mandaria convites e fazia questão que eu e minha esposa Raíssa estivéssemos presentes no casamento. “Mas não é para isso que estou telefonando...”, comentou. “E qual a razão do telefonema?”, perguntei. “É que eu pretendo fazer uma despedida de solteira e gostaria de te convidar...”, sussurrou. “Pensei que as despedidas de solteira só envolvessem mulher”, retruquei. “Esta despedida de solteira é especial. Não haverá mulheres, apenas eu”. “Vai convidar apenas homens?”, ri. “Eu não disse isso... o único homem convidado é você...”, respondeu. Compreendi imediatamente. Entrei no jogo de Clarissa e combinamos então o dia, a hora e o local da tal despedida de solteira.
Na quarta-feira ao meio dia, “para evitar suspeitas, afinal, você é casado e eu sou uma noiva fiel e respeitadora...”, riu, debochando de si mesma e da situação. Clarissa continua louca!, Pensei. Mas, e daí? Eu não havia me apaixonado por ela no passado justamente por que era louca? Bem, confesso que esperei com apreensão a quarta-feira, que enfim chegou. Ela ligou para meu celular às onze confirmando tudo e marcou o encontro em um posto de gasolina na BR-101, já em Parnamirim. Lá, ela deixou o carro estacionado discretamente e entrou no meu. Discutimos rapidamente para qual motel iríamos e logo fechamos por um de qualidade que fosse discreto e nas proximidades. Na suíte, percebi logo que o tempo só havia melhorado Clarissa, como um vinho que eu iria começar a degustar. Não estou falando de seu corpo – ainda belo mas com as inevitáveis marcas do tempo e da gravidade – nem de seu rosto – não havia maquiagem que escondessem algumas rugas e um olhar cansado antes impensável – mas de sua personalidade e de seu modus operandi. Os olhos brilhantes, imensos, acastanhados, continuavam insanos... suas mãos estavam ainda mais hábeis, assim como seus lábios... seu corpo correspondia ainda mais ao meu corpo do que antes, como se no máximo de seu potencial. Comentei tudo isso com Clarissa durante o ato... “Você ainda não viu nada...”, sorriu, desvairada. Dito e feito. Eu ainda veria – e sentiria – muito mais coisas nas quatros horas que se seguiram, de um deleite que poucos vezes havia experimentado na minha vida já de tantos prazeres. Às quatro e quinze da tarde começamos a nos arrumar, pois que ela havia marcado com o noivo no Praia Shopping às cinco horas. Deixei-a no posto de gasolina e sem maiores delongas nos despedimos pragmaticamente. “Te vejo no meu casamento”, disparou. Não tivemos oportunidade de conversar sobre isso, mas comecei a me perguntar porque ela iria se casar e o que ela esperava do seu casamento. Tolice. Por que analisar as coisas se é melhor apenas vive-las e pronto? Desta forma, voltei à minha vida, a Raíssa e esqueci-me de Clarissa e de nossa tarde de idílio. Recebi em casa o convite de casamento, mas inventei um trabalho qualquer para não ter que ir. Tampouco Clarissa entrou em contato comigo antes ou depois das núpcias.
O tempo passou. Diria até que havia esquecido a despedida de solteira da qual participei quando, dois anos depois, vejo no visor do celular um telefone estranho. Atendo e eis minha surpresa: era Clarissa. Começou falando banalidades como sempre. Por fim, perguntou como estava meu casamento (muito mal), minha vida profissional (razoável) e falou sobre ela própria... Não apenas estava em crise no casamento como muito próxima da separação... Relatou alguns dos problemas que estava vivendo, choramingou um pouco... Como eu estava prestes a entrar em uma tensa reunião de trabalho e não estava com muita paciência, perguntei logo o que queria. Clarissa então respirou fundo e disparou: “Na verdade, eu queria uma despedida de casada”. “Como assim”, estranhei. “Quero ter certeza que o melhor a fazer é me separar... e só vou ter essa certeza se for para cama com outro homem. Seria então minha despedida de casada...”, assinalou, já com voz mais lasciva do que triste. O que fazer? Bem, se eu participei da despedida de solteira dela, achei que seria uma descortesia não fazer parte da despedida de casada. “Pode marcar dia, hora e local”, respondi. “Lembra-se daquele posto de gasolina?...”

19 maio 2010

Como assistir filmes em 3D nos anos 80


Cefas Carvalho

Dia desses, conversando on line com minha irmã, a mitológica Rosa Williams, sobre experiências cinematográficas, lembrei com humor que fui pioneiro em assistir filmes em 3D ainda nos anos 80.
Espere aí, tecnologia 3D em uma década que ainda assistíamos filmes em VHS nos velhos e bons (mas nem sempre) videocassetes? Explico.
Ano de 1989. Combino com um amigo roqueiro (guitarrista da banda Facínoras, que marcou época na Zona Sul do Rio de Janeiro sem ter feito sequer um show...) assistirmos a “Tommy” no Cineclube Cândido Mendes. Claro, já havia assistido meia dúzia de vezes a ópera-rock do The Who, mas na telinha na TV. Expectativa em ver o delírio de Ken Russel na tela grande. Chegamos no Centro cultural uma hora antes de começar o filme. “Que tal uma cerveja?”, propôs Breno. Rumamos para um boteco próximo. Contudo, separada a grana para as entradas, constatamos nosso liseu. Cerveja? Melhor não. Pensamos na boa, velha e barata cachaça, mas nem eu nem o amigo éramos chegados à “mardita”. Foi quando ele avistou numa prateleira uma garrafa de Campari. Barata a dose, forte o efeito. Não contamos conversa. Por falar em conversa, eis que conversa vai, conversa vem, entornamos cada um sete doses de Campari. E estava quase na hora de começar o filme.
Cinema quase vazio, apagam-se às luzes e percebo, então, que uma tonteira começa a se apossar de mim. De repente, sem trailler, sem aviso nenhum, começa o filme. Luzes, montagem rápida, um avião em chamas, uma guitarra ensandecida. “It´s a boy, Mrs. Walker, it´s a boy”, canta a enfermeira.
Logo depois, quando termina a cena em que Ann Margaret e Oliver Reed cantam “Christmas”, sinto a cabeça mais pesada e os olhos mais sensíveis à luz. “Acho que estamos um pouco bêbados”, comentou Breno. A partir daí, assisti o filme em terceira dimensão, o 3D. Em “Gypsy Queen” parecia que Tina Turner estava cantando na minha frente. E Elton John em “Pinball Wizzard”, que se abrisse os braços corria o risco de acertar meu rosto? Como confessar que tentei me proteger quando chove champanhe do aparelho de TV? Tudo 3D puro! Claro que na cena final também tentei escalar as montanhas, só que quando acenderam as luzes eu e Breno olhamos um para o outro espantados com a experiência que tivemos. E uma leve vontade de vomitar, claro.
Mas, vive experiência parecida dois anos depois, quando da estréia de “The Doors”, de Oliver Stone, no Cineclube Estação Botafogo. Iniciado que era na obra de Jim Morrison, estava na expectativa que o filme abordasse a relação do roqueiro com xamanismo e drogas. Tendo marcado com dois amigos que não apareciam (na época celulares não existiam, crianças), resolvi tomar umas cervejas no bar ao lado da bilheteria. Eis que três cervejas depois vendo o dinheiro escassear, venci meus pruridos e pedi uma dose de cana. Depois mais duas. E lá fui eu sozinho assistir ao filme.
Novamente, meio grogue na sala de exibição e vivendo meu 3D particular. Particularmente na cena em que Morrison está no palco e delira com índios dançando á sua volta, quase levantei da cadeira para invocar Mr. Mojo. No fim das contas, boas lembranças de anos que não mais voltam. O único problema deste tipo de 3D era a ressaca no dia seguinte.

10 maio 2010

Exumando cadáveres


Cefas Carvalho

Pouco ou nada eu poderia reclamar da vida. Bem casado com Viviane, pai de dois filhos – Daniel e Jussara – e estabilizado no emprego, como gerente de uma concessionária de veículos, eu tinha virtualmente tudo que um homem poderia querer: uma mulher bonita, filhos saudáveis, um carro, uma moto, estava quitando minha casa e começando a adquirir uma casa de Praia em Tabatinga. De quebra, era ainda jovem – tinha 34 anos – e saudável, a ponto de jogar futebol religiosamente todos os sábados à noite e de quebra não fazer feio no squash. Enfim, eu não tinha o que reclamar da vida, repito.
Contudo, nem toda a felicidade do mundo consegue fazer um homem ficar quieto, e o demônio sempre à espreita da curiosidade acaba por atentar a qualquer um de nós. Não, que não se pense que estou falando de uma traição conjugal. Seria mentira dizer que fui totalmente fiel a Viviane em doze anos de namoro, noivado e casamento, mas tampouco nenhuma destas infidelidades passou de uma noite, com mulheres que mal soube o nome, gerando casos que jamais vieram à tona.
O problema começou quando comecei a usar o tempo ocioso no trabalho não mais na copa, bebendo cafezinho e discutindo futebol com os vendedores, mas sim à frente do computador, na minha sala. Respaldado pela privacidade e pela total confiança que os donos do negócio tinham em mim, comecei a usar este tempo livre para desestressar, como dizem hoje, jogando paciência.
Descobrindo a Internet, providenciei um e-mail para mim. Se no início ela me serviu para assuntos profissionais, logo comecei a me comunicar com amigos e conhecidos e não tardei a adentrar o universo dos bate papos virtuais, tão freqüentados por mulheres aparentemente interessantes. Não, ainda não foi aí que o diabo entrou em meus pensamentos. Contudo, a partir daquele momento, iniciei-me no mundo no MSN. Também nele nada fiz que não pudesse relatar à minha Viviane.
Todavia, um amigo convidou-me a entrar no Orkut. A princípio imaginei que explorar a tal comunidade virtual não me traria qualquer novidade, seria até mesmo tedioso. Ledo engano. Procurando comunidades em comum com pessoas que me eram caras, resgatei velhos amigos e amigas. Reencontrei colegas de trabalho cujo paradeiro que desconhecia havia anos. Viciei-me não em fazer novos amigos, mas procurar e reencontrar velhos conhecidos, enfim.
Em uma tarde monótona, véspera de feriado, eu me encontrava na frente do monitor, cansado do MSN e do Google, quando o diabo me soprou no ouvido o nome de uma antiga namorada de adolescência. Digitei o nome dela para procura no Orkut e eis que tive na minha frente o seu perfil, com foto. Gostei da brincadeira e repeti a operação com mais três ex-namoradas.
Foi quando ganhei coragem de procurar pelo perfil de Bruna, namorada durante um bom par de anos e que cheguei a ensaiar um noivado até que o conflito de nossas personalidades fortes nos levasse ao término do romance. Se digo romance, é porque nosso relacionamento foi marcado por nuances de amor e paixão. Juntos, fizemos viagens, planos, aventuras, realizamos fantasias...Durante algum tempo, mesmo quando já havia iniciado namoro com Viviane, acreditei, como tanta gente faz em relação a alguém, que Bruna, com seus longos cabelos castanhos, suas sardas, seu sorriso quase infernal, sua agitação, euforia e temperamento forte, tivesse sido o amor da minha vida.
Já casado com Viviane, descobri que ela também casara, com um microempresário do ramo de informática e fora morar no interior de Minas Gerais. Logo os amigos em comum perderam contato com ela e o cotidiano me fez com que ela fosse subtraída dos meus pensamentos mais constantes.
Portanto, foi com certa apreensão que iniciei a busca por ela no Orkut, torcendo, no íntimo, que não desse em nada. Pelo que lembro, ela não é chegada nestas coisas de tecnologia, pensei. Tolice. De repente, surgiu na minha frente uma foto dela, com os cabelos pintados de loiro, mas as mesmas sarda. Alguns anos mais velha – fato ratificado por algumas rugas – mas ainda linda e com os olhos em fogo. Li seu perfil. Muito do que estava escrito ali eu conhecia, seus gostos, suas paixões... O que me chamou a atenção foi seu estado civil: solteira. Teria ela se separado do marido? Resisti à tentação de entrar em contato durante alguns dias.
Contudo, em uma bela noite, em casa mesmo, com Viviane e as crianças em casa já dormindo, mandei uma mensagem para ela pelo Orkut. Não me interpretem mal...Fui formal, discreto, quase seco. Mandei lembranças, perguntei pelos filhos, e no final, despedi-me com um abraço. Que besteira, pensei, ela mal deve lembrar-se de mim lá em Minas.
Não era bem assim. No dia seguinte recebi a resposta dela. Dizia que jamais me esqueceram e que estava morando novamente em Natal, divorciada, havia alguns meses. Não tinha vontade de rever os antigos amigos, mas queria me encontrar.
Resolvi deixar o Orkut de lado e mandei uma mensagem para seu e-mail, mais privado. Contudo, eu continuava formal. A resposta de Bruna é que não o foi. Ela se lembrava de momentos ardentes do passado, fazia brincadeiras maliciosas... era a mesma de quinze anos atrás, enfim. Trocamos e-mails durante duas semanas até marcarmos um encontro no Praia Shopping. Abraçamos-nos, conversamos sobre nossas vidas, nossas famílias, ela riu dos cabelos brancos que insistiam em aparecer em meu couro cabeludo, bebemos chope... Ouvi seus desabafos sobre o casamento fracassado, a barra de cuidar dos filhos e de voltar a morar na casa da mãe... Pensei que neste ritmo ficaríamos bons amigos, como tantos ex-namorados o fazem.
Mas, quando estava no caminho natural para levá-la para casa – a Avenida Salgado Filho, já que ela morava em Petrópolis – Bruna murmurou que não queria ir para casa. Para onde quer ir então?, Perguntei tolamente. Para um lugar onde possamos ficar sozinhos e lembrar os velhos tempos, respondeu. Então, os hormônios, somados ao álcool e à memória, falaram mais alto e terminamos a noite na suíte Diamante do Motel Bahamas. Ela queria pernoitar e a muito custo consegui lembra-la que eu era casado e deveria não apenas voltar para casa em horário cabível, como satisfações á minha esposa. A contragosto, ela concordou em sairmos, sob minha jura que repetiríamos a dose. Concordei, claro. Quem não o faria?
Três dias depois repetimos a dose, desta vez iniciando o idílio às sete da noite. Ficamos desta vez no Romangarden, até meia noite. Preocupado, refleti o quanto aquela brincadeira era perigosa. Mas as delícias experimentadas com Bruna eram intensas demais para que eu tivesse forças para parar. Passamos a nos encontrar duas vezes por semana, tanto de tarde como de noite. Eu estava preocupado se Viviane não perceberia a situação, mas ela parecia não desconfiar de nada. Comecei a me sentir culpado, achava que deveria terminar o caso com Bruna, mas, repito, não conseguia parar. Minha vida com Viviane era maravilhosa, mas tranqüila, quase monótona. Com Bruna eu tinha sexo de primeiríssima qualidade, emoção, riscos e de quebra toda uma afinidade do passado.
Todavia, eu deveria ter previsto que Bruna não se contentaria com pouco. Ela queria mais. Passou a exigir mais tempo, mais atenção, mais presentes. No dia de seu aniversário, calhou que eu tinha um compromisso social com Viviane. Essa desfeita custou-me alguns dias sem vê-la. Foram dias pavorosos, admito. Implorei para reatarmos o, digamos, romance. Ela concordou, mas disse com todas as letras que queria me ter por mais tempo.
Que poderia eu fazer? Concordei, iniciando então um período de mentiras em casa e no trabalho para conseguir tempo para Bruna. Eram horas esporádicas, às vezes no intervalo para o almoço, outras no final da tarde, com a desculpa de reuniões... Enfim, passei a levar uma vida dupla, uma existência sobressaltada. Estranhamente, Viviane parecia não perceber nada. Felizmente, ela passava a maior parte do tempo cuidado da casa e das crianças ou trabalhando no computador. Para mim, estes trabalhos de digitação que ela começara a fazer em casa caíram do céu, já que a mantinham ocupada e de certa forma distante. Dediquei-me ainda mais a Bruna. Eram presentes, mimos, agrados, horas fortuitas em diversos motéis, saídas cada vez mais ousadas para barzinhos... Sim, não era mais como se fôssemos meros amantes. Eram como se estivéssemos namorando. Conversávamos longamente sobre o passado, sobre como poderia ter sido a nossa vida se tivéssemos ficado juntos. Comecei a retornar para casa para vez mais tarde, as vezes Viviane estava trabalhando no computador, outras vezes já estava dormindo... Acostumado a ser fiel e caseiro, sentia a consciência amargar.
Por fim, aconteceu o que era previsível. Com sua habitual personalidade forte, Bruna jogou-me contra a parede: estava apaixonada por mim, disse, e queria ficar comigo de vez, sem subterfúgios, sem escapadas. Enfim, queria um relacionamento. Ou então, o rompimento. Tentei contra-argumentar, mas ela se manteve irredutível. E queria a resposta rapidamente.
No caminho para casa, após tal conversa, percebi que, com o auxilio do Orkut, eu havia exumado um cadáver, para usar de uma expressão algo grosseira, mas que se aplicava exatamente ao que estava se passando comigo. Minha vida estava quieta, tranqüila, até que eu resgatara do passado algo que estava morto e enterrado, mas que mantinha imenso potencial de sedução.
Confuso, percebi que não sabia o que queria. Evidentemente, não pensava em terminar um casamento sólido, com filhos e segurança... mas por outro lado, não imaginava mais a minha vida com Bruna. Embora não fosse hábito meu, pensei que uns drinques me fariam raciocinar melhor. Enfurnei-me em um bar decadente na Praia do Meio e bebi o suficiente para embaralhar ainda mais minhas idéias. Por fim, não sabia mais o que queria.
Ao entrar no carro, para voltar para casa, pensei em contar tudo a Viviane e esperar pelo pior. Afinal, ela terminando o casamento eu estaria livre para ficar com Bruna. No meio do caminho raciocinei que seria uma besteira por fim a um casamento de tantos anos por causa de uma paixão... E se eu conseguisse protelar a situação com Bruna? Pouco provável. Eu conhecia seu poder de decisão. Se eu não concordasse com seus termos o mais provável é que ela me esquecesse novamente e fosse à procura de um novo amor, com grandes chances de encontrá-lo rapidamente.
Em suma, não sabia o que fazer. Apenas acreditava que não queria – ou não podia – mais viver sem Bruna. Chegando em casa, abri a porta da sala com todo o peso do mundo nas minhas costas. Minha esposa não merecia isso, pensei. Ao entrar em casa, todavia, tive uma surpresa. Viviane estava sentada no sofá, usando um vestido preto bastante curto, com um copo de uísque na mão direita. Um cigarro aceso crepitava em um cinzeiro ao seu lado. Ela reparou em minha expressão surpresa, afinal, Viviane nem bebia uísque nem fumava, mas não sorriu. Ela descobriu tudo sobre Bruna, pensei. O que deveria fazer? Confessar e pedir perdão? Negar?
- Precisamos conversar... – murmurou, com um fiapo de voz na garganta.
Sim, ela descobriu tudo, concluí. Derrotado, sentei-me no sofá á sua frente. Percebi então que não queria perde-la e decidi lutar com todas as forças para não perde-la por causa de minha infidelidade.
- Pode falar... – respondi. Ela bebeu do uísque, respirou fundo e disparou: - Nos últimos tempos temos andado distantes um do outro. Talvez você esteja trabalhando demais, talvez tenha uma amante, não sei...Mas isso não vem ao caso. O fato é que há alguns meses eu percebi que a vida que eu estava vivendo não era o que eu queria, não me satisfazia mais como antes, se é que algum dia eu me satisfiz com ela. Não estou reclamando de você....sempre te achei um ótimo marido, um ótimo pai, não tenho queixas quanto a você...o problema sou eu mesma. E justamente quando eu estava pensando no que deveria fazer da minha vida reencontrei em um bate papo na Internet um antigo namorado, o André. Você se lembra que eu já falei dele, não? Namoramos uns dois anos antes que eu te conhecesse. Eu era louca por ele, ou pelo menos achava que era. Eu não era mais virgem, mas tampouco sabia o que era prazer. Foi com ele que eu descobri tudo que se poderia fazer na cama...enfim, ele me ensinou muitas coisas. Um dia ele me pediu em noivado, falou em casamento. Como me sentia muito nova para casar, recusei, mas no fundo sentia vontade de dividir uma vida com aquele homem um pouco mais velho que eu, ousado, que tanto falava em viagens e aventuras. Meses após minha recusa, ele foi morar na Austrália. Deduzi que a partir dali ele iria correr pelo mundo e emocionalmente desisti dele. Comecei a namorar Rubinho, um rapaz que estudava no cursinho comigo, ciumento e imaturo como poucos e meses depois conheci você, que me parecia a perfeição: equilibrado, seguro, sem excessos, me apaixonei por você e também por... mas era uma paixão contida, segura, que até me faz bem, mas não me completa por inteiro...aí em um bate papo na Internet, numa noite dessas, eis que reencontro André em uma sala de bate papo...começamos a nos teclar, falamos sobre a vida, ele falou das viagens que fizera e de como continuava procurando algo mais...enfim, não tardou que trocássemos telefones e nos encontrássemos. Mas, não pense mal de mim, querido, eu estava decida apenas a encontrá-lo como amigo. O problema é que a situação saiu do meu controle. Ficamos juntos, relembramos o passado e o fato, meu querido, é que descobri que estou apaixonada por ele... Acho que eu e você somos maduros o suficiente para negociamos uma separação tranqüila e amigável... Por que está fazendo essa cara? Não fique assim, meu amor, eu só estou dizendo que quero morar e viver com André... Tenho certeza que você vai me compreender...
Claro que eu compreendera. Viviane também exumara um maldito cadáver. Deveríamos ter deixado os mortos sepultados, mas, eis que agora era tarde demais. Sorri, passei a mão suavemente em seus cabelos e fui para o quarto arrumar minhas malas.

26 abril 2010

Cachorro quente ou hot dog?


Cefas Carvalho

Receoso de ferir os brios patrióticos dos amigos e amigas do país de Mossoró, resisti bravamente a escrever o texto que se seguirá. Temia que ele colocasse mais lenha na centenária rixa entre natalenses e mossroenses, com os primeiros geralmente tecendo piadas ferinas e comentários maldosos a respeito do comportamento das gentes de Mossoró.
Contudo, durante recente confraternização cultural (e etílica) na 1ª Feirinha de Livros de Currais Novos, o comandante em chefe da Revista Papangu, Tulio Ratto, garantiu não somente a publicação de tal texto sem censuras como minha integridade física (tendo em vista a pouco hercúlea compleição física de Tulio, não estou certo que sua garantia de segurança me valerá de muita coisa...). Ainda assim ganhei coragem para escrever sobre uma aventura gastronômica que vivi na terra de Santa Luzia. Que os amigos Cid Augusto e Kydelmir Dantas, pacatos e bons companheiros, que viram gladiadores na hora de defender Mossoró, me perdoem.
Bem, vamos à história. O episódio aconteceu nos idos de 1992, quando eu acabava de ter o prazer de entrar na redação da Gazeta do Oeste, nos bons tempos em que Canindé Queiroz comandava uma equipe de até hoje bons amigos como Carlos Santos, Cesar Santos, Gutemberg Moura, Augusto Paiva, Emerson Linhares, e outros. Mas, deixemos de nostalgia. O fato é que eu acabava de chegar a Mossoró, cidade que conhecia apenas superficialmente, e ainda não havia me detido na vida cotidiana e nas particularidades mossoroenmses.
Na minha primeira semana, lanchava (e almoçava, diga-se) baurus no treiller de Titi, ao lado da Gazeta. Em uma bela tarde, o trailler se encontrava fechado e resolvi sair a esmo pelo centro à procura de uma lanchonete. Numa rua, cujo nome não recordo, lá perto do legendário Restaurante do Mathu, descobri uma lanchonetezinha. Estava vazia e parecia agradável, apesar de simples. Senti ao balcão caçando o cardápio ou coisa que o valasse. Inútil.
Por fim, surgiu da cozinha um rapaz resmungando um boa noite que mais parecia um convite para me retirar. Resolvi ficar, e perguntei se tinha algum salgado, tipo pastel ou empada. Secamente, ele respondeu que não. Perguntei então se tinha cachorro quente... O cidadão coçou a barba por fazer e disparou: “Amigo, você quer cachorro quente ou hot dog?”. Senti no momento um vazio mental, tal a irrealidade da pergunta.
“Mas, qual a diferença entre um e outro?”, perguntei, inocentemente. O cara me olhou como se eu fosse imbecil – talvez o fosse, naquele instante – e respondeu, todo senhor de sua secura: “Cachorro quente é com carne moída, hot dog é com salsicha!”. “Ah, é claro...”, concordei, como se respaldando uma verdade absoluta. Acostumado que era a comer os tradicionais cachorros-quentes com salsicha, à moda americana, lá no jurássico Passport, na Praça Cívica, em Natal, desde a mais tenra infância, deveria ter optado pelo que conhecia. Mas, a vontade de desbravar culinárias estrangeiras falou mais alto. “Me veja um cachorro quente aí”, pedi.
O camarada foi para a cozinha. Retornou logo trazendo em um prato azul, um pão cheio de carne e verduras, fumegante e cheiroso. Contudo, um detalhe: no prato, garfo e faca! Educadamente, peguei os talheres e coloquei-os no balcão. “Obrigado, mas não vou precisar”. O rapaz nada falou. Empolgado, com o aroma, puxei dois guardanapos de papel e avancei as mãos para o prato, dando início à minha tragédia. Mal levantei o pão á boca, o bicho começou a se liquefazer. Nervoso, inclinei o pão, derramando um caldo marrom em minha calça jeans. Ainda mais nervoso, coloquei o pão no prato e ele – já mais liquido do que sólido – praticamente se desmanchou. Olhei para a calça e parte da camisa, todas sujas e pensei em protestar, quando reparei na expressão impassível do cidadão, me olhando com a superioridade natural que um nativo de Mossoró encara forasteiros de culturas primitivas. Concluí que era inútil reclamar. O culpado, afinal de contas, era eu. Olhei para o cachorro quente que havia pedido, na verdade quase uma sopa, e não um sanduíche. Não havia como resistir àquele caldo onde boiavam pão molhado, carne, cebola, tomate e pimentão. Recolhido à minha insignificância, olhei com humildade para o sujeito, que esboçava um sutil sorriso nos cantos da boca e pedi: “Amigo, por favor, me veja garfo, faca e uma colher...”

(Publicado originalmente na Revista Papangu de 31 de agosto de 2006)

05 abril 2010

"Para o inferno"


Cefas Carvalho

Entrou no táxi apressado – os olhos injetados e doentios - e instalou-se no banco traseiro. O taxista, envolto em suor e tédio perguntou: “O senhor quer ir para onde?” "Para o inferno", respondeu o passageiro. O taxista virou-se. Percebeu no olhar do estranho passageiro - um homem maduro, corpulento e de modos sombrios - um desespero mesclado com uma inusitada serenidade. O homem sustentou o olhar do taxista e implorou: "Por favor, siga em frente". O taxista suspirou e obedeceu. Esperou que alguns segundos se passassem para perguntar novamente: "Para onde o senhor vai?". "Se eu soubesse...", suspirou o passageiro, para completar: "Quem sabe para onde vai? Você sabe para onde vai?". O taxista hesitou: "Eu vou para onde o senhor disser que iremos". "Se eu não sei para onde vou, como pode dizer isso?". "Preciso que o senhor diga para onde quer ir, ou vou ter que parar o carro para não gastar gasolina". "Eu entrei no seu táxi dizendo para onde queria ir: para o inferno.". "Não posso te levar para o inferno". "Então me leve para algum lugar parecido". O taxista hesitou novamente. Que lugar lhe assemelharia mais aos mundos infernais? Sua própria casa, com sua esposa que mal lhe dirigia a palavra havia anos e os filhos adolescentes que não o respeitavam? O clube no domingo com os amigos interesseiros e as brigas que fatalmente aconteciam? Os encontros semanais com o dono do táxi, que lhe cobrava impiedosamente o aluguel do veículo e sempre reclamava de alguma coisa? De repente todos os aspectos de sua vida lhe pareceram infernais, e em uma questão de segundos se perguntou se valia a pena estar vivo. Mais: se queria ainda continuar vivendo. Realmente vivera ao longo daqueles anos todos de necessidades e humilhações. Freou o carro, subitamente. "O que houve?", perguntou o passageiro. "Que houve?". "Não posso te levar para o inferno. Descobri que já vivo nele". "Então, faça o que tem que fazer". "É o que o senhor quer?". "Com certeza. Vamos, homem, resolva tudo por nós dois". O taxista então deu partida e rumou para a ponte quebrada e abandonada na zona noroeste da cidade. Sempre quis passar direto pelos cones que alertavam os motoristas do perigo. Sempre quis saber se a água do rio era realmente gelada e lodosa, como diziam. Sempre quis descansar de sua própria vida. Ainda que fosse no inferno.

19 março 2010

Noite passada sonhei que alguém me amava


Cefas Carvalho

Ela olha para a taça de vinho como quem observa uma escultura de Rodin, entre a contemplação e o espanto. Olhos fixos na bebida, mas como se nem ela - a mulher – nem o vinho estivessem ali, mas, muito longe. É estranho que esteja bebendo vinho. Normalmente bebemos vinho quando acompanhados, não sozinhos. A solidão é mais convidativa para uísque, aperitivos, coquetéis. Mas, ela bebe vinho tinto e isso torna a solidão dela mais extensa, como se fosse crescer e engolir todo o bar, todo o mundo.
O nome dela é Luiza. Tem trinta anos. Talvez durante o dia pareça ter menos e seja mais bonita, mas, sentada à mesa com os olhos fixos na bebida, parece carregar todo o peso e a tristeza do universo. Rugas e olheiras despontam de seu rosto como plantas. Mas, nada disso importa.
Quanto a mim, me chamo Carlos, trabalho como barman neste local há seis meses e estou completamente apaixonado por ela.
Ela jamais me olhou, isto é, jamais me viu como um ser humano. Sou apenas o barman a quem ela pede vinho, cigarros e isqueiro. Depois paga a conta, desfralda um sorriso amargo e vai embora. Mas, repito, não importa. Eu a considero a mulher mais linda do mundo e se ela me dignasse a trocar três frases comigo, eu iria para casa feliz, sozinho, mas feliz.
Sei que se chama Luiza porque, uma noite, ela pagou a conta com cheque. Chama-se Luiza Nunes dos Santos. Pela tonalidade mais clara no dedo anelar da mão, deduzo que usava aliança até pouco tempo. Era casada, portanto.
Que mais sei sobre ela? Que quando gosta da música ambiente tamborila na madeira do balcão, como se acompanhando a melodia. Por vezes, sua tristeza parece ceder espaço a um encantamento produzido pela música. Recordo de uma noite, antevéspera de natal, quando coloquei no som uma canção antiga do The Smiths:
Last night I dreamt that somebody Love me
No hope, but no harm, just another false alarm

Ela olhou para o teto como se esperando algo – uma revelação, um manual de instruções – cair do céu. Em seguida, roeu as unhas, o que fazia quando estava mais tensa que o habitual, eu o percebia, e pediu outra taça de vinho.
Jamais se embriagava. Jamais perdia a compostura. Apenas bebia vinho e respirava seu próprio desespero. Quantas noites não pensei em tirá-la do seu transe e dialogar com ela. Saber se tinha filhos, o que fazia durante o dia, onde trabalhava, do que gostava de comer. Mas, como resgatá-la do poço onde ela se jogara com sua solidão?
Hoje, ela se foi mais cedo. Com mais tristeza no olhar do que o habitual. Também bebeu mais vinho que de costume. Usava um vestido preto com manchas esbranquiçadas. Sem maquiagem, seu rosto parecia precocemente envelhecido. Não importa, eu continuo apaixonado por ela.

*

Ela olha para o copo de uísque com amargura milenar, como se o peso de séculos tivessem caído sobre sua cabeça. Ela tem cabelos loiros amarrados com negligência. Usa batom e tem os olhos moldurados por rímel preto. Termina a dose com rapidez pede outro uísque. Reclama que a dose poderia ser maior e que coloquei gelo em excesso no copo. Depois reclama que está calor no bar. Em seguida pede o isqueiro e comenta sobre as chuvas que caíram na cidade na noite anterior.
Não, a mulher sentada ao balcão não é Luiza. Chama-se Julia, e sei disso porque ela se apresentou tão logo servi a segunda dose. Sorri para mim, depois diz que está sem cigarros. Pergunta se eu fumo e respondo que não. Ela está sentada onde Luiza costumava sentar, para beber vinho tinto em lentas taças, tamborilar ao som de velhas canções e exalar toda a tristeza que uma pessoa pode sentir.
Sirvo mais uma dose para Julia. Em seguida, atendo a outros clientes. Tenho dificuldade para olhar em direção onde ela está sentada. Onde Luiza costumava ficar.
Luiza tirou a própria vida na noite de ontem. Tomou dezenas de anfetaminas com vodca. Não houve dúvida que foi suicídio. A polícia encontrou junto ao corpo um breve bilhete dela despedindo-se da vida. O dono do bar, passando pelo prédio onde morava, testemunhou o corpo, embalsamado em plástico preto, ser retirado do local.
Descobri, então, que morava duas rias depois do bar. Nada mais sei sobre ela. Nem quero saber mais nada. Sei que eu a amava, por estranho que possa parecer.
Julia pede uma porção de azeitonas e sorri para mim. Com uma súbita dor nas costas e na cabeça, sirvo-a com educação e me volto para colocar um CD:
Last night I felt real arms around me
No hope, no harm, just another false alarm…

Espero agora o expediente terminar para recolher os cacos de mim no bar e me arrastar até meu apartamento, desejando ardentemente que o teto caia sobre minha cabeça. Desejando morrer.

12 março 2010

Uma ciranda ao redor da fonte


Cefas Carvalho

Então, era chegada a hora da revelação sobre como envelheceste uma criança tomando-a pela mão... Dançamos uma ciranda em volta da fonte e lá recebo tua mão rude em meu rosto e aceito isso neste instante!
Quinze minutos ao teu lado... bem sabes que eu jamais diria “não”. Todos diziam que estavas virtualmente morto. E como estavam todos tão errados... Apenas quinze minutos ao teu lado, mas, sabes que eu jamais diria “não”. Todos diziam que eras maria-vai-com-as-outras. E não estavam de todo errados...
Chegou a hora da revelação. Contemos como envelheceste uma criança tomando-a pela mão... Quinze minutos ao seu lado... Sabes que eu jamais diria “não”. Ninguém reconhece teu valor. Apenas eu, meu amor!
Sonhei contigo noite passada e por duas vezes caí da cama gelada. Portanto, se desejar, me pregue com um alfinete em sua coleção de insetos... Mas, “leve-me para o abrigo de tua cama”, tu nunca disseste a quem tanto te chama. Apenas duas colheres de açúcar, por favor. Podes até bancar a mais fina flor, pois também eu, o farei...
E então, mais um encontro lá na fonte. Um empurrão bem no meio do pátio... Também isso aceitarei com devoção... Quinze minutos ao seu lado, bem sabes que eu jamais diria “não”. Ninguém reconhece teu valor, apenas eu, meu amor!...

(Conto experimental baseado na tradução livre-poética que fiz da canção “Reel around the fountain”, letra de Morrissey e música de Johnny Marr, da banda inglesa The Smiths, gravada para o álbum “The Smiths”/1984)

24 fevereiro 2010

O túmulo


Cefas Carvalho

Sabemos todos que as coisas sobrenaturais existem com tanta intensidade quanto as naturais, apenas não se oferecendo à vista humana as primeiras tanto como as segundas, com as quais nossos olhos já estão acostumados. Dito isso e com a certeza que o mundo invisível é tão ou mais real que o visível, inicio meu relato sobre os fatos que aconteceram naquela malfadada noite de agosto.
Éramos quatro; eu, Borba, Bento e Machado, que, de tanto beber e contar vantagens tornamo-nos corajosos de súbito. Ainda no bar, um de nós pensou em subirmos a estrutura metálica da ponte velha. Outro cogitou jogarmos estrume à porta de igreja. Até que Bento foi enfático: Sejamos homens e hereges de verdade! Violemos um túmulo!
O medo de ter medo e o grau etílico que estávamos nos impulsionaram para o cemitério. Uma vez entre as tumbas, munidos apenas de uma lanterna velha e ajudados pela lua cheia, procuramos um Túmulo ideal para profanarmos. Até que Bento, como se tomado por um espírito, gritou: É esse o túmulo!, e apontou para uma cova cuja terra – recém cavada – ainda estava fresca. Por alguma razão, evitam os ler o nome na lápide, e, com as pequenas pás que carregamos, começamos a cavar. Não tardou para que chagássemos ao caixão, de madeira ordinária e gelada.
Com certo temor – admito, com desespero – olhamos um para o outro na expectativa de levantar a tampa e concluir a profanação do túmulo, nosso terrível objetivo. Decidido, Machado segurou com força a tampa e puxou-a, conseguindo abri-la com ajuda de Borba. Tenso, olhei para dentro, curioso em ver o corpo frio de alguém que outrora fora um ser humano.
Qual não foi nossa surpresa! O caixão estava vazio. Será alguma brincadeira de mau gosto?, sussurrou Machado, mandando Bento ler o nome escrito na lápide. Nosso infeliz amigo iluminou a placa e lemos a inscrição: “Aqui jaz Bento Araújo Alencar, profanador de túmulos. Que o inferno o leve!”.
Sem acreditar, olhamo-nos novamente. Bento leu a data de nascimento. Era exatamente o dia em que nascera. Quanto a data de morte? Aquele mesmo dia: 13 de agosto daquele ano amaldiçoado.
Entre o horror e o desejo de sair dali, vimos nosso amigo Bento desmaiar e cair deitado dentro do caixão. Paralisados pelo medo, demos um passo para trás. A tampa do caixão fechou-se sozinha e saímos então daquele lugar maldito. Para nunca mais voltar.

26 janeiro 2010

Sete vidas


Cefas Carvalho

Ela resolvera criar um gato. Ou melhor, nada resolvera, tudo não passou de um acaso. Andava pela calçada entretida com sua própria solidão quando se deparou com um filhote de gato no meio-fio. Jamais gostara de gatos. Quando muito, sua afeição por animais limitara-se a um poodle que tivera quando adolescente e um trio de peixes beta que morreram por excesso de alimentação.
Portanto, surpreendeu-se interrompendo a caminhada para olhar o felino: era cinza, completamente cinza, o que conferia a seus olhos azulados uma tristeza infinita. Emitiu um miado indicando fome, certamente. Quase reiniciara a caminhada quando olhou novamente para o gato; teria sido abandonado, com o ela mesma o fora? Talvez por essa associação de idéias, somada à compaixão, resolveu, com alguma repulsa, pegar o animal e levá-lo para casa.
Uma vez em seu apartamento, arrependeu-se do que fizera. O felino miava com desespero e tremia de fome. Pensou em ligar para uma miga que criava um par de gatos persas, mas, desistiu. Cortou em pedaços pequenos um peito de frango esquecido na geladeira e colocou em um pires no chão da área de serviço. O animal devorou a comida rapidamente e continuou miando. Ela lembrou-se que ele teria de beber água e colocou uma vasilha ao lado do pires. Tendo bebido a água, o gato encolheu-se em um canto perto da máquina de lavar e dormiu como guerreiro que sobrevive a uma encarniçada batalha.
Igualmente cansada e também sobrevivente, ela olhou o gato insone e teve vontade de chorar. Conseguiu controlar-se, tomou um banho e deitou no sofá tentando entender porque Roberto a deixara. Era certo que estavam brigando quase diariamente e também era certo que ela mesma pensava em separação. O que ela não conseguia aceitar era que ele tivesse feito as malas e partido, quase na calada da noite, sem uma conversa a mais, sem uma despedida, sem deixar que ela desabafasse tudo que lhe envenenava e sufocava.
Acordou no dia seguinte, molhada de suor e torta da noite no sofá, com o gato lambendo seu tornozelo. Seu primeiro impulso foi de chutar o animal, mas, controlou-se e terminou comovida com os olhos tristes que a fitavam, a pedir comida, água e, talvez, um pouco de carinho. Não sabia como alimentá-lo. Durante dois dias dividiu com o bichano os restos de hambúrgueres e enlatados. Nas compras semanais incluiu ração para gatos. Percebeu que estava se afeiçoando ao pequeno animal, que cada vez mais mostrava menos melancolia nos olhos. Superou a repulsa inicial e passou a segurá-lo, descobrindo que se tratava de um macho. Já que não vou conseguir me livrar dele e vou mantê-lo aqui, é melhor que lhe dê um nome., pensou. Resolveu chamá-lo de Victor, em homenagem ao compositor chileno assassinado pela ditadura. Com o passar dos dias passou a chamá-lo de Vitinho, mas, por aquela razão enigmática pela qual surgem os apelidos, começou a tratá-lo como Zequinha. Gato tranqüilo e silencioso – quando bem alimentado – pouco ou nada alterou a vida da nova dona, salvo, talvez, a caixa de areia que tivera de providenciar, ajudada pelo zelador do prédio.
Zequinha passou a ser a única companhia na solidão de sua dona, que, por mais que passarem os dias, semanas, esperava que Roberto entrasse pela porta adentro. Desejava mostrar ao ex-marido o gato, por quem aprendera a nutrir carinho e respeito. Até que um dia Roberto ligou, mas, não para comunicar a volta para casa. Queria o divórcio, pois pensava em se casar novamente. Ela mergulhou em pranto e vodca, naquela noite em que sua alma parecia querer sair do corpo. No dia seguinte, ressacada, tentou se recompor para tomar decisões. Ainda enjoada, saiu do banheiro e viu Zequinha na mureta da varanda. Não acostumada ao equilíbrio inerente aos gatos, desesperou-se e correu na direção dele, que, por precaução ou susto, pulou para baixo, caindo do terceiro andar. Não teve coragem de olhar para baixo, imaginando o bicho de estimação em uma poça de sangue. Sentou-se ao sofá chorando, quando ouviu a campainha. Era o zelador com o gato, vivo, inteiro, na mão. Gato tem sete vidas, dona, sorriu.
Passou a amar Zequinha. Comprou-lhe uma cesta para dormir, rações mais saborosas, brinquedos. Dormia sentada no sofá acariciando a cabeça ou o pescoço do gato, que dormia junto com ela. Sentia-se mais sozinha do que nunca, sem família, sem amigos, sem Roberto. Tinha apenas o bichano, com nome de poeta e apelido carinhoso.
Até que um dia aconteceu tudo ao mesmo tempo. Roberto ligou comunicando que se casaria em breve e os papeis do divórcio estariam prestes e sair. Foi quando ela saboreava sorvete de nata na mesa da sala e viu Zequinha saltar pela janela. Nada demais, ele retornaria em breve, guiado pelo instinto e pela afeição, ou o zelador o traria de volta. Nada disso aconteceu. Passaram os dias e o gato não retornava. Primeiro ela se desesperou, depois procurou-o na rua, na vizinhança, e, por fim, se confirmou. Não nasci para ter nada nem ninguém, pensou. Alternava sorvete, comida enlatada e uísque barato em dias mortos, até que tomou a decisão, de forma serena e natural. Comprou, com a ajuda de uma amiga farmacêutica e uma desculpa esfarrapada, duas cartelas de Drazil. À noite, juntou os comprimidos todos – dezesseis – em um pires, armou-se de um copo d´água e outro de uísque, à espera da coragem necessária para a decisão final. Bebeu duas doses de uísque e sentiu o sangue se aquecer. Em seguida, lembrou de Zequinha, do aia em que, seduzida pelo olhar triste do gato, acolheu-o em sua casa. Ele poderia ter morrido na rua, atropelado, envenenado, mas, conseguiu sobreviver. Ele tinha sete vidas, divertiu-se. Porém, eu não tenho sete vidas, mas, apenas uma!, pensou Ficou um longo tempo imóvel, ouvindo o som desconexo dos apresentadores do telejornal. Em seguida levantou-se, foi até o banheiro, onde jogou os remédios no vaso sanitário e deu descarga. Suspirou e entrou no banho tentando lembrar se o restaurante oriental da esquina ainda estaria aberto àquela hora.

06 janeiro 2010

Perdendo a cabeça


Cefas Carvalho

Amava revoltas, revoluções, turbas e tumultos. Barulho e agitação o faziam perder a cabeça. Violento, sangue quente; perdia a cabeça com freqüência, agrediu os irmãos, e a família o mandou para a Capital, onde fez amizade com os revolucionários. Gritava nas tabernas e nas ruas parisienses, tanto o vinho como a política o faziam perder a cabeça. Decidiu fazer a revolução e depor a família real. Conseguiu. Contudo, escolheu o lado errado. Traiu amigos. Foi condenado. Olhando a multidão aos gritos à sua frente, ouviu o barulho do metal e a guilhotina se aproximando do seu pescoço. Perdeu a cabeça pela última vez.

01 dezembro 2009

Desabrochando


Cefas Carvalho

Ainda que não fosse religioso, lembrei do Eclesiastes naquela manhã chuvosa de agosto: Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de afastar-se. Na verdade, eu começara a refletir sobre a questão desde que os cabelos insistiam em partir e as dores nas pernas e nas costas ficavam mais constantes. Mas, o passar dos anos não me assustava: realizado profissionalmente, bem casado com Helena, pai de Amanda, uma filha linda e saudável, eu fizera do tempo um bom amigo.
Às voltas com a administração da minha empresa de informática, recebi – naquela manhã de forte chuva – um telefonema de Helena. Disse que tinha algo importante a me comunicar. Imaginei tratar-se de contas a pagar ou o pedido para levar algo para casa. Nada disso. Entre a satisfação e indisfarçável constrangimento, ela disse que Amanda menstruara pela primeira vez.
A primeira sensação foi de uma estranha angústia. Claro que eu sabia – posto que ela tinha treze anos – que tal dia chegaria. Contudo, uma vez acontecido o fato temos uma estranha sensação de surpresa, como se tal coisa jamais fosse acontecer. Tolice. Claro que aconteceria, e naquele instante eu percebia que o fato provocaria mudanças na vida de Amanda e, certamente, na minha.
O pensamento que me invadiu foi o óbvio: a minha menina estava se transformando em mulher. Não sem certa melancolia, lembrei de quando ela era um bebê, ninada em meus braços sob o encanto de velhas cantigas. Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta...
Recordei das fraldas sujas que troquei nela e das vezes que a levantei do chão, quando caía, no exercício penoso – e por fim bem sucedido – de andar sozinha. Como um filme, todas as cenas da menina que vi nascer e crescer passaram por mim como se em despedida. Afinal, a menina não existiria mais. Daria lugar a uma mulher – antes disso a uma adolescente, com suas espinhas, neuras, chiliques e caprichos - que teria de encontrar seu espaço em meio a um mundo de homens, como se diz.
Outra recordação: das aulas de biologia. Menarca era o nome da primeira menstruação, sim, o termo me vinha à cabeça como um chicote, a lembrar de tecnicidades, de ações hormonais, do sangue, enfim. Um sangue simbólico que levaria minha menina para sempre para as terras da memória e me daria alguém diferente em troca.
Fui tomar um café na copa enquanto meu cérebro funcionava febrilmente. Pouco ou nada eu havia conversado com Amanda, embora fôssemos tão próximos, sobre menstruação e a passagem da infância para a adolescência. Talvez eu acreditasse que era um assunto para ser trado com a mãe delas, em uma conversa de mulheres. Quem sabe meu subconsciente não quisesse esconder dela própria que minha menininha um dia cresceria. De qualquer maneira eu estava arrependido de jamais ter explorando o tema. Como fazê-lo a partir dali? Como adentrar no mundo secreto que Amanda e Helena viveriam a partir de então, um mundo feito de absorventes íntimos, olhares cúmplices, alterações de humor. Era como se Amanda estivesse definitivamente abandonando o universo que eu construíra para nós dois e adentrasse em um mundo onde qualquer coleguinha de colégio teria mais peso do que eu. Recordei dos estudos que fizera nos tempos de universidade, sobre como a sociedade ocidental estigmatiza a menstruação, principalmente a menarca. Tudo tratado com segredos, olhares fortuitos, termos grosseiros. Nada da suavidade de povos ditos selvagens, mas, que celebravam a passagem de fase da menina com dignidade e alegria.
Em seguida, comecei a me sentir ridículo. Claro que Amanda continuaria sendo a filha que sempre foi, com a diferença que estava crescendo. Comecei a imaginá-la como uma flor. Era uma flor, uma flor desabrochando: uma flor que, mais tarde, possibilitaria o nascimento dos frutos, frutos que seriam meus netos e então fui inebriado pela imagem de mim mesmo correndo no jardim com os netos.
Tomei, então, uma decisão. Saí do trabalho mais cedo, passei em um shopping e comprei uma caixa de bombons com licor e um buquê de rosas brancas. Celebraria com minha filha e com minha esposa a nova fase que aguardava a todos nós. Daria adeus a menina e daria um abraço na mulher que eu teria o prazer de ver surgir aos poucos.

26 outubro 2009

O dia em que Jesus não foi crucificado


Cefas Carvalho

Por pura coincidência, na semana passada acabei tendo como tema, em três conversas distintas, a encenação na Paixão de Cristo em Nova Jerusalém. Todas sobre como o espetáculo perdeu seu encanto com a modernidade e a “invasão” de atores globais nos papéis principais. Nada mais a ver com a coisa rústica que, dizem, existia nos anos oitenta. Hoje, me relataram, as fãs dão gritinhos enquanto Thiago Lacerda está sendo crucificado como Jesus e, sem resistir aos apupos, chega a sorrir e piscar o olho para as moçoilas em vez de sofrer e gritar Pai, por que me abandonaste?! Deve ser coisa do mundo globalizado.

Esses papos me recordaram histórias outras envolvendo encenações da paixão de Cristo. Uma delas, salvo engano, me foi relatada pelo amigo jornalista Rômulo Estânrley e ganhou manchetes de jornais à época, anos noventa. Macaíba realizava sua Paixão de Cristo habitual, os atores se empenhavam nos seus santos papéis, quando, re repente, o centurião começa a flagelar Cristo que segurava a pesada – mas de isopor, na peça, claro – cruz às costas. Eis que um sujeito que bebia suas canas desde manhã cedinho e já estava meio triscado, se emociona mais do que deveria e pula no meio dos atores com a peixeira levantada para o centurião: Aqui em Macaíba você não vai bater em Jesus, não, seu cabra safado!, e foi um tal de gente correr para todo lado. No frigir dos ovos, a intenção do bebum acabou se realizando: naquele ano, pelo menos em Macaíba, Jesus foi salvo da cruz.

Outra anedota do gênero, me foi contada há anos por uma amigo e teria acontecido num município da região Oeste deste Rio Grande do Norte. O dono de um circo mambembe resolveu montar uma paixão de Cristo no período de Páscoa. Colocou sua mulher como Maria Madalena, ele próprio no papel de Centurião e escolheu para Jesus o trapezista cabeludo que era o bonitão do circo. Pois, com o circo lotado, a trupe começou a encenar a paixão, quando, numa breve pausa, o dono do circo flagrou num canto escondido sua mulher aos beijos com o Jesus pé de lã. Possesso, resolveu se controlar e continuar o espetáculo. Contudo, quando chegou a cena de Jesus carregar a cruz sob o flagelo dos soldados romanos, a raiva bateu mais forte no marido traído e lapt lapt com o chicote nas costas do Jesus bonitão. Na terceira chibatada o Jesus olhou para trás nervoso, foi quando o cornudo não agüentou mais e gritou: Gosta de pegar mulher dos outros não, é, felá da puta, pois tome mais essa e essa!, e novamente foi gente para tudo que é lado com a confusão. Também neste espetáculo Jesus escapou da crucificação...

15 outubro 2009

A barata

Cefas Carvalho


O bicho, enorme, asqueroso, entre o preto e o marrom, passeava pela casa, imponente, como se fosse seu dono. Para não confessar a minha filha o medo que tenho de barata, disse a Sofia que a barata se chamava Kafka e que estava nos fazendo uma visita. Besteira, mamãe, você está falando isso para disfarçar seu medo!, respondeu, do alto da sabedoria que seus seis anos lhe davam. Irritada, decidi pegar a vassoura para matar a intrusa, mas, quando ela atravessou a sala rapidamente, pelo tapete, dei dois passos para trás e quase tropecei na mesa de jantar. Viu, mãe, você está morrendo de medo!, zombou Sofia. Desafiada e já nervosa – com a barata e com a petulância da menina – perguntei se ela não tinha medo. Respondeu que não. Então por que não mata você a barata?, provoquei. Primeiro porque matar insetos é tarefa das mães, não das filhas. Segundo, porque você disse que era uma visitante. Desisti da vassoura e bebi um copo d´água para me acalmar. Não sabia se repreendia minha filha ou se tentava achar a barata debaixo do sofá. Decidi pela segunda opção, mas, após afastar o sofá, virar o tapete e quase derrubar a cortina, não tive sucesso. Sentei no sofá, fora do lugar, e comecei a chorar, baixinho. Sofia veio em minha direção e me abraçou. Mamãe, eu retiro o que disse. Matar baratas não é tarefa para as mães, mas para os pais!, sorriu. Não segurei o choro e desabei a cabeça entre as mãos. Sofia alisou delicadamente meus cabelos. Mamãe, o papai vai voltar? Não, minha filha, ele foi de vez. Tem certeza, mãe? Tenho sim, filhinha. Então vamos nós duas matar esta barata, mãe. Como é mesmo o nome dela? Kafka!, sorri. Por que este nome estranho? É uma brincadeira com o escritor muito famoso que escreveu um livro sobre um homem que se transformava em uma barata gigante. Que coisa estranha, mãe! Um dia você me conta essa história? Conto sim, juro!, sorri, voltando a sentir a alma tranqüila. Neste momento, a barata saiu de trás da cortina, parando como que para nos olhar. Sofia correu para ela pelo lado esquerdo e ela, Kafka, sem alternativas, correu para a minha direção. Golpeei-a com a vassoura, uma, duas, três vezes até que vimos, eu e Sofia, os restos do inseto esmagado e um líquido esbranquiçado no tapete. Nojo? Que nada! Nos abraçamos, morrendo de rir de nós mesmas.

14 setembro 2009

Eu não danço


Cefas Carvalho

A festa estava um tédio, como era de se prever. Aniversário de uma prima distante, chata e prepotente. Eu me perguntava, enquanto bebia mais um uísque, porque não ia embora, quando a vi, sentada à mesa, próxima de mim, com duas amigas de cada lado. Como eu não a vira antes? Não era a mulher mais linda da festa, mas, ao contrário das outras, parecia brilhar, como as madonas das pinturas renascentistas, ofuscando quem lhe circundava. Mas, que fique registrado, seu brilho era sereno e discreto. Ela olhava como se, na verdade, não estivesse ali, mas eu algum lugar longínquo. Quando percebeu que eu a olhava, sorriu rapidamente e voltou a cabeça para o lado. Voltei à minha mesa, mas não desisti de encará-la, até que, munido com a coragem dos que sentem o coração acelerar, esperei que estivesse sozinha e a abordei:
- Boa noite. Quer dançar?
- Obrigada. Eu não danço.
- Não gosta de dançar?
- Eu disse que não danço... – sorriu.
- Se não sabe dançar, eu te ensino...
Ela lançou um olhar de carinhosa reprovação que me inibiu, e parei com a insistência. Perguntei seu nome, Laura, e disse o meu, Ricardo. Ela convidou-me para sentar a seu lado.
- Há algo em você que me encanta. Não me olhe como se eu fosse um conquistador barato. Estou falando a verdade. Talvez sejam seus olhos alheios a tudo...
- Eu não sou uma mulher comum
- Eu sei disso.
- Não, você não sabe de nada – sorriu. Conversamos sobre banalidades – o tempo chuvoso, o trânsito caótico da cidade – e sobre nossos gostos – cinema europeu, literatura, poesia. Recitei trechos de Zila Mamede e Florbela Espanca para ela, que cantarolou, com uma linda voz de soprano, pérolas de Janis Joplin.
Sim, eu estava encantado por ela e as horas se passaram sem que eu sentisse, até que a festa foi chegando ao fim. Convidei-a para bebermos um último drinque no balcão, mas ela recusou. Não posso sair daqui, sorriu.
- Mas, sua família pode nos observar daqui mesmo. Aceite meu convite.
Ela sorriu, passou a mão em meu rosto suavemente e virou a cabeça para o outro lado, onde sua irmã – a quem eu já tinha sido apresentado – olhou-a com um sorriso enigmático.
- Ricardo, eu tenho que ir...
- Podemos nos ver amanhã? Dê-me seu número de celular...
- Ricardo, há coisas que você tem que saber...
- Você é casada? Noiva? Tem namorado? Seu pai é violento? Ora, se não acontece nada disso e nem eu sou um Montecchio e nem você uma Capuletto, o que mais eu preciso saber? – brinquei. Ela riu, mas amargamente e baixou a cabeça.
- Margarete está chegando. Terei que ir... –suspirou. Olhei para o lado e vi a irmã empurrando uma cadeira de rodas e a colocando ao lado de Laura.
- Ricardo, você pode ajudar minha irmã a me colocar aqui.
Compreendi tudo em um instante. Também em um instante eu teria que tomar a minha decisão. Pedi licença para tomá-la no colo e colocá-la na cadeira de rodas.
- Agora eu poderia beber o drinque com você no balcão, se não fosse hora de ir, mas infelizmente, não dançaria.
- Pois eu dançaria com você assim mesmo.
- Vamos lá, seja um cavalheiro e empurre minha cadeira até o nosso carro.
Obedeci a ordem e fomos conversando até o estacionamento. Enquanto a mãe e a irmã se despediam da minha prima chata e família, ficamos fumando e conversando besteiras.
- Posso te deixar em casa – disse.
- Você não iria querer isso.
- Eu quero isso, sim.
- Você me deixaria por pena.
- Negativo. Farei isso porque estou me apaixonando por você.
Laura me olhou e ficou em silêncio. Quando a mãe a Margarete voltaram e a família se preparava para entrar no carro, notei que Laura conversava algo com elas. Após alguns segundos de visível tensão, percebi as três mulheres me olhando e me avaliando. Por fim, Margarete veio até mim.
- Laura quer que você a deixe em casa. Nós concordamos, embora isso não seja muito comum. Podem esticar a saída, claro, beber alguma coisa, jantar, mas tenha cuidado com ela, por favor...
- Pode ter certeza que cuidarei bem dela. E agradeço a confiança – respondi. Coloquei Laura no banco do passageiro, dobrei a cadeira de rodas para que coubesse no banco de trás e saímos.
- Viu como sou diferente das outras mulheres?...
- É sim, mas não pelas razões que está pensando.
Perguntei a ela onde queria ir, propus uma volta pela praia ou comermos uma massa em algum restaurante.
- Ricardo, se eu não fosse deficiente você me faria essas mesmas propostas?
- Claro – respondi.
- Então vamos fazer as duas coisas.
Passeamos pela orla, vimos a lua cheia e seu efeito na maré e depois comemos, não a massa, mas camarão em um restaurante simples e discreto.
Já rumo a casa dela, percebi uma névoa em seu olhar.
- Se eu não fosse deficiente, você me deixaria em casa agora?
Hesitei. Como não soubesse o que dizer, ela continuou:
- Esta noite está maravilhosa. Gostaria que continuasse assim.
- Qual a sua sugestão?
- Sou uma mulher adulta e sadia, com exceção das pernas, que não me mexem, tenho meus desejos e vontades. Você é um homem aparentemente adulto e sadio – riu – estamos nos conhecendo e temos a noite pela frente.
Não foi necessária mais nenhuma palavra. Conduzi o carro a um motel que havia ali perto.
Também não foram necessárias palavras de explicação. Claro que eu estava um pouco tenso, mas nada que o carinho e a excitação não suplantassem com sobras. Como se por instinto, como se tivesse feito tais coisas a vida inteira, levei-a de colo para a cama, depois a ajudei a tomar banho, abri um vinho e conversamos um pouco.
- Ricardo, me beije como nunca beijou mulher alguma em sua vida – pediu, de repente, deitando-se. Comecei beijando as pontas dos pés. Mandei às favas a razão, que insistia em me lembrar que ela nada sentia naquela parte do corpo. Afastei delicadamente suas pernas e mergulhei na flor cravada entre elas. Senti suas unhas em meus cabelos, primeiro afagando o couro cabeludo levemente... Depois senti os dedos com mais força, e, então, as horas viraram uma sucessão de prazeres. Desnecessário registrar que em nenhum momento ela me pareceu diferente de qualquer outra mulher. Minto. Na verdade ela era diferente das outras sim, de uma maneira que me seria difícil explicar, mas que meu coração já começava a compreender.
Acordamos às sete da manhã, tomamos café, um banho rápido e deixei-a em casa.
- Eu te vejo hoje?
- Com uma condição.
- Qual?
- Se você me levar em algum lugar para dançar.
- Pensei que não dançasse.
- Com você eu dançarei.
Beijei-a e empurrei a cadeira até o hall da casa, onde Margarete nos recebeu com um sorriso aliviado. Despedi-me delas e rumei para casa. Pensei que estaria cansado, mas não consegui dormir. Coloquei uma música animada no som – What a wonderful world, cantada por Sam Cooke – e comecei a dançar sozinho. Pensando em Laura.

10 agosto 2009

O verbo se fez carne


Cefas Carvalho

Tenho medo de objetos cortantes
Principalmente palavras
(Carito)


Com esses olhos negros de desespero você me olha como se eu fosse um objeto, não um pedaço de carne – o que seria vulgar, mas, instigante, afinal, sou mulher e mulheres gostam de olhos cobiçosos, meu bem – mas, pior, bem pior, como se eu fizesse parte da mobília – que você escolheu e comprou sozinho – desta maldita mobília escura e pesada, que não parece em nada comigo, com minha alegria, minha vontade de viver. Talvez os móveis pareçam com você, aliás, com sua alma, negra e cheia de poeira. Pensando bem, você me olha como se eu fosse uma louca, sim, eu sou louca, enlouquecida que fui pelas suas promessas, suas juras, pelos laços que você inventou para me amarrar, como um belo caçador que joga frutas no chão para atrair e aprisionar um pássaro raro. Sim, meu bem, eu era um pássaro, livre, liberta, com capacidade para voar, até que, de repente me vi presa em seus rancores, seus ciúmes, seus ódios... Por deus, não me olhe assim, odeio este olhar vazio... Mas, não quero recordar nossa triste história. Basta lembrar que, por você, abandonei meu trabalho, minha família, negligenciei meus amigos, amofinei meus gostos. Tive de guardar meus prazeres em uma gaveta e trancá-la, definitivamente. Minha vida passou a ser a sua vida. Meus prazeres, os seus. Eu ouvi a sua música, assisti os filmes que você amava, passei a comer - e a preparar – as comidas que você gostava. Não fale nada, não fale, sei que você vai dizer que não me pediu nada disso. Talvez não verbalmente, mas eu sentia em seus olhos – pesados, intensos - a pressão sobre mim, me induzindo a mudar, a deixar de ser eu mesma e me tornar algo como um fantoche. Não abra a boca, por todos os demônios, sei que você vai insistir que nunca me olhou desta forma, e que em seu olhar havia apenas admiração, contemplação e desejo. Você seria até capaz de dizer que fui eu quem insistiu na mudança, talvez para me aproximar do seu mundo, para mostrar que merecia sua companhia. Por que está se aproximando de mim, não chegue perto, não me toque. Eu sei que você não me toca há anos, provavelmente você não me ama mais. Como poderia? E quanto a mim? Você tem vontade de saber se ainda te amo? A resposta deveria ser um sonoro e poderoso não. Como eu poderia amá-lo? Talvez eu o amasse quando o via escrevendo seus livros, concentrado na escrivaninha, com a xícara de café ao lado e o cigarro repousado no cinzeiro exalando fumaça como um incenso... Sim, eu te amava então. E você, me amava naquela época? Por que não dizia que me amava? Por que ficava mudo, às vezes tão mudo quando hoje? Por que não me enlaçava – eu que achava seus braços tão fortes – e dizia que eu era a coisa mais importante de sua vida, mais que seus livros, suas músicas, seus projetos? Era só insegurança, meu bem, era só aquela bobagem de não se sentir amada, de pensar, tolamente, sei, que você não pensava mais em mim quando seus amigos e editores vinham para cá debater seus projetos e livros. Enquanto vocês fumavam e discutiam o futuro da arte, eu me trancava no banheiro para chorar, Primeiro passava um batom bem vermelho, que você odiava, depois maquiava os olhos e me punha a chorar, assistindo pelo espelho as lágrimas pintarem meu rosto de um preto meio aguado que lembra tristeza e decadência. Por deus, como eu te admirava, meu bem... Tenho que te dizer, mais uma vez, que eu menti, menti, sim, quando disse que não te amava, que tinha nojo de você e queria terminar tudo. E menti quando disse que sairia para me entregar ao primeiro homem que encontrasse na rua. Na verdade, fui para um bar, chorar e beber uma dose de uísque com vontade de morrer... depois fui para a casa da minha irmã e choramos juntas lembrando dos sonhos que tínhamos quando éramos crianças. Quando voltei para casa no dia seguinte, era para te abraçar, te pedir perdão e dizer que te amava. Não imaginei nunca que você estaria jogado no chão, imóvel, como morto. Primeiro achei que era uma brincadeira. Depois, que você tentou se matar por minha causa – é mesquinho dizer isso, mas uma parte de mim exultou, ficou lisonjeada – até que o médico explicou que você, ao subir a escada, escorregou no café que deve ter derramado – sempre desastrado... – e rolou degraus abaixo, quebrando a espinha dorsal em três pedaços. E como explicar a névoa que me passou pela mente quando ouvi que meu marido ficaria tetraplégico e mudo para sempre? Como saber se você ouve o que eu digo? Vamos, meu bem, fale alguma coisa... Vou limpar a baba que escorre de sua boca, não me olhe desse jeito. Um dia eu te amei. Talvez ainda te ame. Vamos, vou passar a toalha em você, pois a fisioterapeuta vai chegar em meia hora...

29 julho 2009

Beleza não põe mesa


Cefas Carvalho

Não, a estética convencional não me agrada e não pretendo ser escrava da beleza tradicional, esta beleza das estátuas gregas e dos astros e estrelas de cinema. Por esta razão, arranquei as unhas, sim, uma por uma, com uma tesourinha afiada... depois foram os dedos, não todos, claro, mas, arranquei fora o dedo mindinho da mão esquerda... Ora, por que se precisa do dedo mindinho, para quê ele é necessário. Cabelos? Arranquei os fios, primeiro um por um, depois, sem paciência, em chumaços, em tufos, mas ainda sobraram alguns fios desconectados entre si... Já disse que a beleza convencional não me atrai, e, por mim, pode ser destruída, como fiz com os lábios, primeiro, enchi-os de batom, depois com uma chave de fenda, despedacei-os, quero ver eles se abrirem para um sorriso sedutor, pois sim... Bem, depois lanhei as pernas, com a mesma chave de fenda, sim, passei a chave nas pernas como quem passa um giz em um quadro negro, com conhecimento e decisão. Para completar a obra, rasguei as roupas, fúteis, banais, tecido em farrapos... Repito que a beleza não me interessa, gosto do feio – que para mim é belo - do destroçado, do imperfeito, sempre fui assim, fazer o quê? Ora, mãe, não faça essa cara! Eu digo há anos que detesto bonecas, odeio bonecas!, e você ainda me compra esta Barbie!... Sinceramente, mãe! No ano que vem posso ganhar de presente de aniversário um Banco Imobiliário?

14 julho 2009

Ícaro


Cefas Carvalho

“One day I am going grow wings/ a chemical reaction”
(Thom Yorke, da banda Radiohead)


Era como um inseto, uma formiga, um besouro, andando pelas suas costas, na altura das costelas e subindo para os ombros. Pelo menos começou assim. Uma comichão nas costas, às vezes na pele, outras vezes como se fosse um formigamento nos ossos. No início desprezou a coceira, mas ela se tornou forte, imperiosa, quase insuportável. Desprezou o conselho da namorada - procure um médico, ela disse - e resolveu ignorar o desconforto, até que em uma tarde tediosa de julho, enquanto caminhava pela avenida principal da cidade, sentiu a dor nas costelas de forma lancinante. Contorcendo-se de joelhos, percebeu que as pessoas o olhavam com medo e fascínio, e em meio a tanta dor – como um punhal cravado em sua carne – sentiu que algo lhe brotava da pele. Olhou, aturdido, para trás e viu o imenso par de asas, viscosas e sangrentas, que lhe nascera. Percebeu tudo, então, e, entre as lágrimas da dor que não mais sentia, e uma saudade que já se anunciava, levantou vôo...

23 junho 2009

Quando Piaf ressurgir das cinzas


Cefas Carvalho

Merda, borrei o olho!, murmurou, sentindo o lápis escorregar para a direita. Rápida e habilmente, consertou o traço preto embaixo da pálpebra. Terminado o desenho dos olhos, parte da maquiagem que mais lhe dava prazer, cuidou de passar o batom. Adorava o cheiro exalado pelos batons, principalmente os vermelhos, mas, não gostava do efeito que produziam em seus lábios. De batom, não se sentia uma mulher, ou mais mulher, ao contrário das amigas, mas, sim, como um palhaço triste que representa uma tragédia com ares de comédia.
Minha tragédia não é ter o corpo de um homem, mas, a alma de uma mulher, pensou. Talvez por esta razão, sentia-se sempre estranha com aquele vestido, os seios postiços – incômodos, pavorosos – a peruca ruiva, os olhos pintados, o batom ultrajante... Por mais de uma ocasião implorou para fazer seu show sem aquela fantasia. Mas, era inútil.
Jorge pensava que a insistência em se apresentar era pelo cachê. Que ele pensasse assim, afinal, o dinheiro quase sempre ia parar nas mãos dele. Mas, ela concordava em se fantasiar de mulher – mesmo sendo, em alma, uma mulher verdadeira – para poder cantar. Mais exatamente para poder interpretar as canções de Piaf.
Ele se apaixonou por mim quando me viu em uma boate cantando Je ne regrette rien, pensou, retocando o batom. Isso acontecera seis meses antes. A partir dali, mergulhou – com Jorge – em um universo de amor, sexo, bebida, drogas, violência física e humilhações, em doses cavalares. Já expulsara Jorge do apartamento milhares de vezes e, outras mil vezes telefonaram, em prantos, para que ele voltasse. Com Jorge, vivera céu e inferno, som e fúria, como jamais havia experimentado com homem algum.
Pensando nisso, estremeceu levemente e sorriu para si mesmo no espelho. Seu corpo soltava choques elétricos quando pensava em Jorge. E a lembrança dele se unia ao amor por Piaf... Cantarolou sua música preferida...
C'est sûr que j'en mourrais
Que j'en mourrais d'amour,
Mon amour, mon amour...

Assim como Piaf, se eu tivesse que morrer, seria de amor. Ela está enterrada em um cemitério chamado Pére Lachaise, em Paris, Recordou. Havia lido isso em alguma revista, e desde então, economizava dinheiro para ir à capital francesa e visitar o túmulo da cantora.
Foi quando lembrou - como uma pedra que lhe golpeasse a cabeça – que Jorge não estaria no apartamento quando retornasse. Havia ido embora, e, daquela vez, definitivamente, como mostrava a carta que mandara de muito longe. Voltara para a mulher e os três filhos, no interior onde nascera. Não iria mais a Paris, não conseguiria viajar sem ele.
Mas, não, não se arrependia de nada. Segurou a lágrima que iria, mais uma vez borrar a maquiagem, sorriu para sua face no espelho, levantou-se e foi para o lar onde não existia nenhum Jorge, onde não existia ninguém além dela mesma e de Piaf: o palco.
Si jamais tu partais,
Partais et me quittais
Me quittais pour toujours...

15 junho 2009

Loteria


Cefas Carvalho

O homem alto, corpulento, pesado como o tempo e levemente encurvado, pediu licença à senhora miúda que tentava - em vão – fechar uma sombrinha velha e postou-se na bancada lateral da casa lotérica. Tirou no bolso o papel da aposta e tentou se posicionar de forma que conseguisse enxergar o quadro de resultados. Estava ficando velho e seus olhos mais cansados.
Pediu licença ao homem – também corpulento, mas, baixo e com uns olhinhos de ave de rapina – que estava riscando um bilhete no balcão. O sujeito afastou, dando espaço, olhou para o outro e disparou:
- Vai conferir a posta, amigo? Fez uma fezinha, não? Eu também fiz a minha, está aqui, ó, na minha mão. Toda semana faço três apostas, sei que um dia vou ganhar. Quem espera sempre alcança. Não é assim que diz a Bíblia? E Deus sempre premia os persistentes. Por isso eu persisto, amigão. Já pensou se a gente ganha. A primeira coisa que faço é mandar meu chefe para o inferno... Isso para não dizer pior... Aí pego o dinheirão todo e compro uma ruma de mansões, umas coberturas... Podíamos fazer umas festas de arromba, já pensou, amigão... Tudo do bom e do melhor, churrasco, carne de primeira, caviar... Não sei nem qual é o gosto, mas faço questão de caviar... E enchemos a festa de mulheres, rapaz, porque, você sabe, mulher gosta de homem estribado, com dinheiro, aí começa a chover mulher... Já pensou uma piscina cheia de mulheres e um garçom servindo uísque para a gente... Rapaz, e podemos comprar um jatinho particular, já imaginou, viajar para todo canto na hora que a gente quer?... bla blá blá...
Enquanto o homem de olhos de ave de rapina falava sem parar, o outro conferiu rapidamente sua aposta e viu que não tinha vencido. Na verdade, não acertara nenhum dos cinco números sorteados. Murmurou um até logo para o outro, que não parava de falar e voltou para casa com a cabeça tonta... Mulheres, carros, piscinas, coberturas...
Entrou em casa e, de olhos baixos, aproximou-se da esposa.
- Então, homem. Conseguiu o dinheiro e comprou o leite?
Ele não respondeu. A mulher percebeu o peso que caía sobre ele e foi para a cozinha preparar a papa de farinha para os gêmeos, que logo iriam chorar de fome. Ele foi até o quarto, olhou os bebês no berço improvisado, lamentou não ter conseguido nem o emprego desejado e nem o empréstimo com o amigo e tirou o bolso o bilhete de loteria, amassando-o e jogando no chão, ao lado do berço. Sentindo o cheiro da papa quente de farinha, tentou não chorar.

03 junho 2009

Uma nação de cuspidores


Cefas Carvalho

Otorrinos e gastroenterogistas do Brasil, atenção! O brasileiro em geral tem seriíssimos problemas de salivação e glândulas! Pelo menos é minha humilde opinião, afinal, isso poderia explicar a paixão que o brasileiro tem pela cuspideira. É incrível como o brasileiro cospe! Em qualquer lugar que se vá, sempre vemos alguém pigarrear e, tchan!, cuspir no chão. O curioso é que os cuspidores não estão nem aí com a presença de testemunhas. Já presenciei sujeito abraçado à namorada virar a cabeça e, zás, cusparada no chão. Ela deve ter achado tão romântico... Mas, o pior é o cuspe a distância. O sujeito sequer observa se alguém está passando e puf! Lá vai o jato de cuspe meio metro à frente! Os passantes que se desviem do “atleta” (afinal, cuspe a distância é um esporte nacional). E que não se pense que cuspideira é questão de classe social. Vá em eventos sociais de “gente chique”, com “partidóns” e endinheirados... no estacionamento ou antes de entrar é a mesma cusparada. Deve ser, realmente, algo no metabolismo do brasileiro. Este escrevinhador já andou nas ruas de cidades como Londres, Paris e Lisboa e não viu ninguém cuspindo na rua. O europeu não junta saliva na boca? Não tem vontade/necessidade de cuspir? Não sei. O fato é que lá, no chamado Primeiro Mundo, não se cospe em público. Há quem diga que a questão é simples, sinal de falta de educação. Neste caso, somos uma nação de mal-educados incorrigíveis. Tanto que, em outro texto, já externei minha revolta em freqüentar banheiros químicos em eventos festivos realizados em Natal. Poucas horas após instalados, eles – pelo menos os masculinos – se tornam um amálgama de fezes, urina e papéis colocados estrategicamente para entupir o escoamento. Amigos garantem que trata-se de uma questão de Educação, um retrato do (baixo) nível do ensino nacional (seja público ou privado). Outros garantem que este tipo de educação começa em casa. Este escrevinhador não sabe e confessa já estar cansado de pensar sobre o tema. E, preciso pedir licença para cuspir. Na pia do banheiro do trabalho. Afinal, mesmo com um cesto de lixo a centímetros no meu pé direito, não preciso obrigar os colegas de redação a testemunharem minhas secreções. Com licença, e até a próxima.

PS: A foto que ilustra este post mostra o escritor marginal americano Charles Bukowski, mestre em produzir contos sobre excreções. Se não leu nada dele, sugiro começar pelos sensacionais "Crônica do amor louco" e "Mulheres".