15 agosto 2013

Admirável Mundo Novo!

Cefas Carvalho

Café sem cafeína. Casamento sem amor. Cerveja sem álcool. Sexo sem tesão. Feijoada sem toucinho. Refrigerante sem açúcar. Bronzeamento artificial. Churrasco sem gordura. Cigarro sem nicotina. Hambúrguer de soja. Miojo lámen. Faroeste sem tiroteio. Aromatizantes, eufemismos, conservantes, photoshop, silicone, adoçantes, maquiagem, botox, enchimentos, filtros, meios-termos, isso faz mal... não era bem assim... você entendeu errado... olhe o colesterol... 



Imagem: Clement Michele 
 

30 julho 2013

Tormenta


















Cefas Carvalho

Desejo meu
corpo violentado
pela tempestade

Mutilado por temporais
chuvas torrenciais...

Quero minh´alma
Afogada
Pelo dilúvio de Noé
(embriagada de
vinho tinto)

Misturada com azeite
Manjericão, orégano...

Quero que a tormenta
Afogue-me, me jogue
Aos leões pela manhã

Ser devorado com mel
Com ameixas, hortelã...

...


Ilustração: "Naufrágio", de William Turner

13 junho 2013

A Bela da tarde

Cefas Carvalho

Como se flutuasse, em vez de pisar no chão rude do bar, Ela andou em minha direção com o meio sorriso habitual e os olhinhos misteriosos que pareciam sempre fechados. Sentou-se à minha frente murmurando um boa tarde quase imperceptível. Havia cortado o cabelo, sim, eu percebera, estava naquele momento com um corte estilo chanel, com pontas em forma de onda se adiantando para a frente. Parecia uma francesa, não obstante a pele morena. Tamborilou os dedos na mesa – sinalizando que estava mais nervosa do que gostaria – e perguntou como eu estava. Bem, respondi apenas, também sorrindo.
Ela sorria como se jamais tivesse sorrido antes daquele jeito para ninguém, para pessoa alguma. Mas, Ele sabia que ela já mostrara seus encantos para outros homens, tinha consciência de que sua natureza – feita para amar – fazia com que corpo e alma conspirassem em encontrar amor. Talvez isso fosse o que mais o atraía Nela.
Ela começou a falar do dia, da vida. Relatou alguns problemas, contou algumas banalidades. Falou sobre o tempo, chuvoso. Entre uma conversa e outra, sorria, como se fosse devorá-lo.
Ele sabia que iriam para a cama e sabia que ela não apenas sabia disso mas que era seu desejo maior, mas, fazia parte da mágica não conversarem sobre o assunto e, mais que isso, se comportarem como amigos que há muito não se viam ou como quem acabasse de se conhecer. Ele propôs um vinho tinto, mas Ela preferiu cerveja, menos sofisticada e mais parecida com o espírito Dela naquela tarde.
Ela a chamava de Bela da tarde, pela razão simples – e nada poética – de que como ela trabalhava pela manhã e à noite, tinha apenas a parte da tarde para os encontros amorosos. Ele, morava em outra cidade, também não poderia se estender até a chegada do luar. De maneira que fizeram das tardes seu ninho de amor.
Sabiam que, se desejassem, poderiam iniciar um relacionamento (eram ambos solteiros), mas, por razões além da razão, gostavam que fosse daquela forma e sem dizer uma palavra sobre o tema, haviam convencionado que seria daquele jeito – sempre às tardes, sempre de maneira suave e fortuita – até que um dos dois se cansasse do jogo.
Ele sabia que a prova maior, se não de amor, mas de algum tipo especial de afeto, que ela lhe dava, era o fato de permitir que ele lesse suas poesias e contos. Professora por ofício, possuía uma alma de poeta que lhe consumia as estranhas, por vezes. Lendo as poesias Dela, ele percebia quantos vulcões aparentemente extintos estavam pestes a entrar em erupção naquela alma. Alguns versos chegavam a assustá-lo, mas, quando levantava os olhos das folhas de papel ofício e se deparava com aquele rosto suave, se perguntava o quanto é possível alma e corpo ilustrarem tantas diferenças.
Ela segurou a mão dele e confessou que  sentiu saudades. Por que não me telefonou, para que nos encontrássemos?ele perguntou. Não era o momento. Preferi esperar a tarde de hoje, na data que havíamos marcado. Ela sorriu novamente e Ele pensou em pedi-la em casamento. Ela sabia que, por alguma razão, jamais ficariam  realmente juntos, mas, também tinha certeza que da forma que viviam, jamais se separariam.
Quer beber outra cerveja?, perguntou Ele. Não. Quero agora ser a sua Bela da tarde, respondeu, com um sorriso de carne. Ele suspirou, oscilando entre o desejo que lhe queimava como um carvão em brasa e uma pontada de dor, que sempre sentia quando se preparavam para os jogos amorosos, talvez por  saber que, depois, se separariam.
Pagou a conta, levantou-se e estendeu a mão para Ela, que a segurou com força. Sorriram um para o outro e saíram lentamente do bar.


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Imagem: Modigliani
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28 maio 2013

Sonetos e hai-cais


Cefas Carvalho

Fazes hai-cais; sonetos, faço eu
Em suas frases curtas, estremeço...
Releio versos, volto ao começo...
Com fervor religioso de ateu...

 

Fazes versos para mim; não os mereço!
Jamais desci aos infernos, como Orfeu
Nunca acorrentado, tal Prometeu
Nem o poema virou-me pelo avesso...

 

Mas faço da (sua) poesia o meu pão
Engulo seus hai-cais no desjejum
Janto suas rimas com manjericão...

 

Trocamos versos como juramentos
De paixão; recitados, um a um...
Soltos em seu corpo, como ungüentos...



Imagem: Primavera, de Botticelli

20 abril 2013

Cântico dos Cânticos

Cefas Carvalho

Para S...

Sim, você me beijou com os beijos da sua boca, pois meu amor é melhor que o vinho (palavras suas, não minhas)... E foi justamente o vinho que nos mergulhou no mar de sensações onde quase nos afogamos. Qual o vinho? Concha y Toro, tinto chileno, para ti que tanto sonhas em conhecer Santiago, capital do Chile, que tanto quer desbravar a América do Sul, que tanto planeja fazer amor comigo em um hotel em Buenos Aires depois de invadirmos casas de tango. Propus um coquetel, vodca com frutas, mas, recusaste tudo a não ser o vinho, logo o vinho que - três ou quatro taças depois - lhe faz falar rapida e demasiadamente, lhe faz revelar segredos...
Mas, falavas naquela noite não do vinho ou das viagens (planejadas ou meramente sonhadas), mas d´O cântico dos cânticos, o mais belo e mais perigoso dos livros biblicos, um bálsamo entre tantas regras, tanta violência e tantas contradições.
Você diz, entre risos maliciosos, que não é um texto religioso, mas que trata-se de um livro erótico (para desespero das beatas, dos devotos, dos evangélicos)... Mas, que tem nossa história a ver com dogmas, credos, doutrinas? Criamos nosso evangelho apócrifo de versículos sussurrados ao pé do ouvido e de ouvidos vermelhos graças a ação das línguas (não da língua dos anjos, que fique bem explicado. Que faríamos nós dois com a linguagem dos anjos? Nos caberia melhor a linguagem dos demônios, dos anjos caídos insatisfeitos com delícias limitadas e códigos de conduta sem sentido)...
Era uma noite de sexta-feira. Quando eu me preparava para adentrar a madrugada acompanhado da solidão e dos meus próprios demônios você me telefonou, avisando que voltara de viagem e que, apesar de cansada, não imaginava passar a noite de maneira nenhuma que não comigo. Disse que trouxera presentes e surpresas, sabia que a curiosidade era meu fraco.
Enquanto a esperava, abri a Biblia e ao me deter no nosso Cântico dos Canticos (ou Cantares de Salomão), voltei uma página para rever a marcação em laranja fosforescente que eu fizera em um trecho do Eclesiastes: Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-te o teu coração nos dias de tua mocidade... Claro que após tal oração, vem a fatura e o deus do antigo testamento, raivoso, vingativo, registra que ele próprio pedirá contas desta alegria e juventude, mas, a mim, isso não importava. Seu retorno era a única coisa que tinha valor naquela noite cinzenta e morna, noite de
Eu inocava espíritos quando percebi o ruído no meu celular. Era você, avisando que estava chegando, estacionava o carro na garagem do prédio. Voltei ao Cântico, sabia que você iria fechar o carro e, quatro passos depois, lembrando que esquecera algo importante dentro de veículo, retornaria a ele, e que o processo se repetiria mais duas vezes pelo menos, antes que você tomasse o elevador para - enfim - vir de encontro a meus braços. Leva-me tu; correremos após ti. O rei me introduziu nas suas câmaras; em ti nos regozijaremos e nos alegraremos; do teu amor nos lembraremos, mais do que do vinho; os retos te amam.
Cânticos 1:4... Introduzir, alegria, vinho... Como assim? Ah, regozijo, que seja eliminado todo regozijo que não venha do vinho e da sua consequência imediata, a alegria tramsutada em amor carnal (que mil demônios levem para longe todo amor que não seja carnal) Mais leitura: Já despi a minha roupa; como as tornarei a vestir? Já lavei os meus pés; como os tornarei a sujar? O meu amado pôs a sua mão pela fresta da porta, e as minhas entranhas estremeceram por amor dele. Cânticos 5:3-4... Decisão de fazer tais versos o lema da noite, não, uma vez despidas as roupas, nenhuma mais será vestida até o sol nasça... Havia que preparar o palco do espetáculo de desejo que se avizinhava... Assim, como ela, eu adorava velas, fumaças, incensos, luzes coloridas, velas, meia luz... Havia um pouco de tudo isso pelo apartamento, de maneira a iludir sentidos, brincar com sensações, gerar cegueiras e confusões olfativas, tudo em prol do amor carnal.
Até que a campanha tocou. Abri a porta com um rápido movimento na chave e te vi na minha frente. Devia estar segurando um CD, uma caixa de chocolate e um vinho tinto. Contudo, após o sorriso minha mente se viu possuída em devaneio de maneira que murmurei que entrasse. Você sorriu  e o Cântico dos Cânticos iria, enfim, ser declamado.



Imagem : Foto de Alexey Naumov

11 abril 2013

A última ceia

Cefas Carvalho
 
Da despedida ficou o lenço
Úmido, desbotado e tenso
Da partida, a mão em adeus
Destroçando sonhos teus...
Do amor, sobraram os retratos
Dos sonhos, os escombros
De nós dois, sobrou um só
(Amor...soterrado pelos fatos
Tudo tornou-se um dar de ombros
Tanto amor tornado pó...)
De um, os estilhaços
Da vida, um mar de sargaços
Do futuro, uma incerteza
A indiferença pôs a mesa
Servida a ceia para dois
(A última ceia...sem depois...)


Imagem: Foto de Henri Cartier Bresson