13 abril 2009

Semana Santa



Cefas Carvalho


Sexta-feira da Paixão


Cristo morreu pelos meus pecados. É o que dizem. Sempre detestei esta afirmação, como detesto qualquer coisa que tenha a ver com o não-visível. Não quero que ninguém morra pelos meus pecados. Dos meus pecados cuido eu. E meu pecado maior naquela sexta-feira maldita foi ter deixado Clarissa ir embora. Ou será que eu quem a mandei embora? Talvez as duas coisas. Só recordo que a vi jogando algumas roupas na mochila velha e sair de casa batendo ruidosamente a porta. Ainda pensei em correr atrás dela, mas desisti. Fiquei em casa ouvindo CDs de blues e olhando com cara de idiota para o bacalhau dessalgado em cima da pia. Iríamos fazer um bacalhau a Gomes de Sá. Clarissa não comia carne nos dias da semana santa. Para mim isso era uma besteira, eu teria adorado preparar uma picanha mal passada naquela noite, mas a paixão por Clarissa me fazia respeitar suas opiniões, pelo menos algumas delas.
Pensei que Clarissa voltaria, mas, me enganei. Tomei alguns tranqulizantes para poder dormir, com o coração pesado de tristeza e paixão.

Sábado de Aleluia


Aleluia! Clarissa telefonou. Não falou praticamente nada, balbuciou meia dúvida de palavras. Mas, telefonou. Disse que estava tudo terminado e que na semana seguinte pegaria suas coisas no apartamento. Pensei em implorar para que voltasse, em sugerir que conversássemos, mas nada falei. Escutei o que ela falou até que pareceu que ela fosse chorar e ela então desligou o celular.
Resolvi ir uma igreja católica. Claro, desprezava o catolicismo, como a todas as demais religiões, mas senti vontade de ver os fiéis louvando a um ser superior. Contudo, quando estacionava o carro próximo a uma igreja, mudei de idéia repentinamente e decidi beber algo na praia. Olhar o mar costumava me acalmar. Bebi demais, contudo, e voltei para casa totalmente bêbado, arriscando bater o carro ou ser pego pela polícia dirigindo embriagado. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Talvez fosse melhor se eu tivesse morrido.

Domingo de Páscoa


Acordei de ressaca. Bebi quase um litro de água e tive de ver na geladeira os ovos de chocolate que Clarissa havia comprado para a gente. Estávamos juntos havia três anos e todo domingo de Páscoa ela me dava um ovo de chocolate. Como sabia que eu não compraria um para ela, tratava de se presentear com um ovo, quase sempre de chocolate branco. Joguei os dois ovos fora. Também atirei o bacalhau na lata de lixo. Em seguida, vomitei e, me sentindo menos enjoado, decidi recomeçar minha vida. Tomei um bom banho, recorri a um analgésico potente e me resolvi a sair da cidade. Joguei em uma mochila algumas roupas, laptop, escova de dentes e alguns livros. Iria para uma pousada litorânea para pensar na vida nova que teria de levar.
Estava abrindo a porta do carro quando o celular tocou. Clarissa, com voz lacrimosa, disse que queria conversar e retomar nosso casamento. Pediu desculpas e exigiu que eu as pedisse. Perguntou se eu não queria encontrá-la em um bar-restaurante onde costumávamos ir. Concordei. Subi ao apartamento para deixar a mochila e rumei para o supermercado mais próximo, para comprar dois ovos de chocolate...

31 março 2009

Homem que é homem mata pela honra



Cefas Carvalho

O sol castiga sem dó nem piedade minha carne durante esta jornada maldita que eu faço. De Santo Antão para Cruzeiro do Norte são três léguas, como bem sabe todo sertanejo que mora por estas bandas. De cavalo, a trote lento, dá coisa de uma hora de viagem. Tempo mais que suficiente para pensar. No bem e no mal. Quanto a mim, pois nesta vida que Deus me deu só posso responder por mim, só pensava no mal. Não poderia ser diferente, depois do que Tonha me fez. E do que Lázaro me fez também, verdade seja dita. Que o Cão leve os dois. Mas, entre o sim e o não, decidi não esperar nem o Cão nem Deus – amém – fazer justiça. Vou fazer justiça eu mesmo. Pois homem que é homem mata ou morre pela honra, como dizia meu pai, que foi morto por dois policiais em tocaia por causa de uma briga de bar. Perdeu a vida, mas não a honra. Homem é assim, e Tonha sabia que estava com um homem quando começou a namorar comigo naquela quermesse de São João, há uns dois anos. Ou três, não lembro. Quem lembra estas coisas de data é mulher. O que sei é que Tonha vai pagar com a vida o que fez comigo. Com homem, ainda mais sertanejo e filho de Chico Bebé, cabra macho morto na traição por polícia, como relatei, não se brinca. Muito menos um sujeito frouxo como Lázaro, que com aqueles óculos enormes na cara e aquele cabelo abestado repartido ao meio, nunca bebeu uma cana com a gente no bar de Biduca e nem vai com a macharada para a casa de Francisquinha, para o chamego com as meninas. Lázaro talvez nem homem macho seja, como diz Zé Amorim. Mas, me disseram que ele, há muito tempo, já se chegou em Tonha. Ela é que não quis. Não consigo tirar da cabeça o que o sarnento do Lázaro disse sobre minha Tonha. O que foi que ele disse mesmo? O difícil do lembrar é porque eu tinha bebido umas canas lá em Biduca. Mas, sei que Lázaro disse alguma coisa sobre minha Tonha. Que eu tinha que cuidar dela. Por que eu tinha que cuidar dela? O que ela estava fazendo para que eu cuidasse mais? Lázaro disse mais uma ruma de coisas, mas eu não lembro. Só recordo que não gostei e que saí de Biduca disposto a fazer justiça com minhas mãos. Com sangue. Repito: o sol me castiga e me faz suar feito um porco, mas não descanso nesta jornada rumo à casa de Tonha. Ela vai pagar pelo que me fez. Nem sei direito o que ela me fez, mas Lázaro disse. O que aquele excomungado havia dito? O ruim de beber cana e conversar é isso, que depois a gente não lembra direito o que os cabras falaram. E diziam que Lázaro nem macho é. Não sei e nem sei que quero saber. Só sei que nesta vida a honra vale mais que a vida. Lázaro vai pagar também. Ele e Tonha vão pagar pelo que fizeram a um cabra macho de verdade. Lázaro disse alguma coisa sobre Tonha precisar de mais atenção. Quem é aquele diabo para saber do que minha Tonha precisa ou não? Não sei porque não sangrei aquele afrescalhado na hora. Acho que levantei, dei boa noite e saí do bar de Biduca. Como bebi muito não lembro de tudo, mas penso que foi assim. E depois acordei na rede, na casa de mainha, com vontade de botar tudo para fora. Foi quando decidi ir a Cruzeiro do Norte para justiçar Tonha. Minha Tonha, de cabelos pretos feito a asa da graúna e pele cor de melaço de cana. Eu devia ter sangrado Lázaro. Homem que é homem mata pela honra. Chego, então a Cruzeiro do Norte, apeio do cavalo e passo no bar de seu Noronha. Ele oferece uma cana, mas eu peço só água bem gelada. Que eu tenho de ter com Tonha e quero estar bom para fazer o que tem de ser feito. Bebo a água, chupo umas siriguelas, vomito um pouco no banheiro e tomo o caminho da casa onde Tonha mora com os pais. Bato na porta. Dona Mariinha atende e sorri para mim, gritando Tonha, Tonha, seu noivo está aqui! Percebo que esqueci minha peixeira em Santo Antão. Esqueci também o que Lázaro disse de Tonha. Uns dizem que ele nem é macho. Tonha vem até a sala, com seu sorriso luminoso feito vaga lume, eu sorrio, pois não tem como não se abrir em riso vendo uma coisa mimosa e linda daquelas, e eu abro os braços para aconchegar minha Tonha em meu peito.

27 março 2009

O mundo é grande



Cefas Carvalho



Era necessário acreditar nela – na amada – como em um deus. Munido de fé, e sem qualquer evidência de que esta fé tornaria sua vida melhor ou mais feliz. Na verdade, sempre fora assim, desde os primórdios da relação, quando ela entrou em sua vida e ele permitiu que a amada – com sua beleza, sua paixão e sua fome de viver – lhe guiasse a vida como quem cede o leme de um navio em meio a uma tempestade.
Contudo, como todo cristão-novo, como todo convertido após certo tempo sem milagres, ansiava por provas, por sinais. Sabia que não conseguiria mais acreditar nela – e nem na relação – sem evidências, ainda que fossem tênues como pistas de um crime quase perfeito. Mas, necessitava de material palpável para trabalhar. Cansara dos êxtases, das orações, das promessas de fé que não se transubstanciavam em pão e vinho.
Acordaram conversar em um restaurante discreto próximo a praia, onde já haviam trocado juras de amor eterno e também destilado ódio um pelo outro. Ele chegou primeiro, pontual que era, o que lhe deu tempo para rabiscar pensamentos em um guardanapo de papel. Estava convicto do que queria – o fim da relação – mas conhecia a si mesmo, ou passara a conhecer naqueles últimos três anos, para saber que bastaria a amada caminhar pelo corredor do restaurante em sua direção, para sua alma estremecer e ele não saber mais o que desejava da vida.
Era justamente esse o problema. Acreditava na amada como quem acredita em um deus – com fé, e somente – e amava aquela mulher como a um ídolo sagrado. A imagem dela o hipnotizava, sentia-se um seguidor de seus rituais, da seita que era inventara unicamente para os dois... contudo, sabia que era impossível viver assim. Mesmo os fiéis mais fanáticos, enfurnam-se na igreja, oram de joelhos, mas depois se recolhem ao cotidiano, dormir, comer, criar os filhos, colocar a comida do cachorro...
Sabia – com a consciência dos que já passaram pela roda da tortura – que quando a amada chegasse, as palavras duras morreriam ainda em sua garganta e que o perfume dela dissolveria no ar todo o fel que destilara. Terminariam a noite entre lençóis, envolvidos em batalhas de carne, e ela juraria amor eterno, para recomeçarem, então, o circulo de agonia e êxtase que viviam.
Olhou, pela janela do restaurante, para o céu lá fora, de um azul quase absurdo e cheio de nuvens, e suspirou, imaginando como o mundo era grande. Não com ela. Ao lado da amada o mundo era só os dois, como convém aos amores loucos e às paixões suicidas. Queria a paixão, queria o amor, mas também queria o mundo real, grande, difuso, incerto...
Pagou a água mineral, desligou o celular e saiu do restaurante, rumo ao mundo, que era grande e que estava à sua espera...

23 março 2009

A Biblia deveria ser proibida para menores


Cefas Carvalho

Faz algum tempo, escrevi crônica sobre as diferenças cerebrais entre homens e mulheres, fazendo uma analogia bem humorada entre humanos e primatas. Recebi críticas de um cidadão registrando que não existem comparações entre humanos – filhos de deus, disse ele – e animais irracionais. E recomendou que eu lesse a Bíblia. Dias depois, ao ler uma crônica erótica de minha autoria e saber que eu lancei uma plaquete intitulada “Sonetos eróticos e/ou pornográficos” uma amiga lamentou que eu gastasse tempo e energia louvando a devassidão e também recomendou que eu lesse mais a Bíblia.
Bem, resolvi seguir o conselho dos críticos. Não que eu não tivesse lido a Bíblia. Já a devorei de cabo a rabo por duas vezes (pulando os livros técnicos como Números, Deuteronômio), cada uma com um espírito diferente: na primeira vez, ainda crente na existência de um ser superior, li para ratificar essa certeza. Na segunda, já desconfiado que tal idéia poderia ser tão irreal como Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, ETs e Smurfs, li com olhos mais críticos, pinçando contradições e absurdos. Decidi nesta terceira lida, algo superficial e sem rigor cronológico, atentar para o pitoresco, o insólito, ou para ser mais grosseiro e exato, para a parte barra-pesada do livro sagrado do cristianismo.
Ou o leitor ainda acha que a Bíblia tem apenas ensinamentos edificantes e parábolas de Jesus? O livro está coalhado de episódios que nada ficam a dever ao Decamerão, de Boccaccio ou aos romances picantes de Fielding e Cleveland. Vamos, pois, aos trechos da Bíblia que poderiam – sob uma ótica moralista bem afeita aos cristãos – ser proibidos para menores de 18 anos. E que o leitor nem imagine Maria Madalena aqui. Ela é light para o padrão do Antigo Testamento.
Há alcoolismo: “Bebendo do vinho (Noé) embriagou-se e se pôs nu dentro de sua tenda” (Gênesis 9, 21). Há coito interrompido: “Sabia Onã que o filho não teria tido por seu e todas as vezes que possuía a mulher do seu irmão, deixava o sêmen cair na terra para não dar descendência a seu irmão” (Gênesis).
Bizarrices sexuais temos aos montes; adultério, incesto, ninfomania, satiríase, estupro etc. Quando Ló fugiu de Sodoma e Gomorra com as filhas para uma caverna, elas concluíram que não havia nenhum homem naquela terra com quem se unirem e continuarem a linhagem do pai. Decidiram digamos, deitar com o próprio pai para conservar sua descendência. Primeiro uma o embriagou com vinho e deitou-se com ele e na noite seguinte a irmã fez o mesmo. “E assim as duas filhas de Ló conceberam do próprio pai” (Gênesis 19, 30-35).
Mas, poucas histórias são tão insólitas (e lascivas) como a de Jacó, filho renegado de Isaac, que trabalhando com seu tio Labão resolveu casar-se com a prima Raquel, a quem amava. Contudo, na noite de núpcias, Labão entregou a Jacó não Raquel, mas sua outra filha, Lia. Jacó só percebeu a “pequena” diferença do dia seguinte, quando o casamento estava consumado. Labão concordou em também lhe entregar Raquel por esposa em troca de mais sete anos de trabalho. Assim foi feito e Jacó casou com a amada Raquel. Acontece que Raquel não engravidava, e Lia sim, de forma que Raquel deu sua escrava Bila para Jacó coabitar e ter um filho como se de Raquel. Mas, quando Lia pára de engravidar, recorre ao mesmo expediente e entrega sua escrava Zilpa para Jacó. Em suma: em uma década, Jacó teve 12 filhos com quatro mulheres diferentes e na mais perfeita harmonia (Gênesis caps 29 e 30).
Outro manancial de histórias eróticas e a do rei Davi e de seu filho Salomão. Que Davi era uma predador sexual parece evidente, tanto que apesar de já casado com Mical e Abigail, “tomou Davi mais concubinas e mulheres de Jerusalém, depois que veio de Hebron e nasceram mais filhos e filhas” (2º Samuel 5,13).
A epopéia erótica mais conhecida de Davi foi quando à noite, passeando pelo terraço do palácio, viu uma mulher tomando banho nua em outro terraço. Era Bate-Seba (Betesabá). Davi ordenou que a levassem ao palácio e a possui naquela mesma noite. Ela engravidou. O problema é que era casada com um bom soldado, Urias. Como solução para o problema, Davi mandou chamar Urias da guerra para que dormisse com a mulher e o filho passasse como do marido. Urias, em fidelidade à pátria e aos soldados que estava na batalha, recusou dormir com Bate-seba. Davi encontrou solução mais prática para o problema: manbdou Urias para a frente de batalha para deixar que fosse morto. Urias morreu em combate e Davi casou com a viúva (2º Samuel 11).
Antes de Salomão chegar ao poder, o filho rebelde de Davi, Absalão, proporcionou outra história picante: “Armaram para Abasalão uma tenda no eirado e ali, à vista de todo Israel, ele coabitou com as concubinas de seu pai” (2º Samuel 16,22). Cena de filme pornô...
Mas, vamos a Salomão, que no quesito se cercar de mulheres, dava de capote nos milionários e playboys de hoje. Diz 1º Reis, capítulo 11: “Ora, além da filha de faraó, amou Salomão muitas mulheres estrangeiras; moabitas, amonitas, edonitas, sidônias e hetéias. A estas, se apegou Salomão pelo amor. Tinha setecentas mulheres, princesas e trezentas concubinas...”
Mesmo com tanto tempo dedicado a mulheres ainda lhe sobravam algum para reinar e também para escrever. Foi Salomão o autor dos Salmos e do Eclesiastes, talvez os mais belos livros bíblicos. Ele também escreveu os “Cantares”, poema erótico encravado no meio da Bíblia. “Beija-me com os beijos de tua boca que melhor é teu amor do que o vinho”. “Leva-me à sala do banquete e o teu estandarte sobre mim é o amor”. “Já despi a minha túnica, hei de vesti-la outra vez?” e por aí vai.
Ah, e para finalizar este texto, uma curiosidade algo GLS, bem à moda do revisionismo feito pelos grupos gays (que sustentam que Zumbi e Shakespeare eram gays. Talvez o fossem, mas ter certeza, quem há de?). A relação do rei Davi, ainda guerreiro com Jônatas, filho do então rei Saul, era curiosa. Trechos suspeitos: “Acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1º Samuel 18, 1). “Jônatas fez jurar a Davi de novo pelo amor que este lhe tinha, porque Jônatas o amava com todo o amor da sua alma” (1º Samuel 20, 17). Quando Jônatas morreu, Davi se lamentou assim: “Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas, tu era amabilíssimo para comigo, excepcional era teu amor, ultrapassando o amor de mulheres” (2º Samuel 1, 26). "Brokeback mountain" perde para isso. Pensando bem, vou a ler a Biblia com mais assiduidade, como querem os críticos citados no primeiro parágrafo.

02 março 2009

O carnaval da minha dor


Cefas Carvalho

O carnaval da minha dor começou em uma sexta-feira ensolarada como têm início os carnavais - sejam dolorosos ou não - em um ano qualquer e em uma cidade igualmente qualquer (o carnaval é igual em qualquer cidade quando o objetivo é sofrer, e não se alegrar. parafraseando Tolstói, todos os carnavais infelizes se parecem, os carnavais alegres é que são diferentes...)
Mas, voltemos à minha dor... toda ela gerada pela Colombina, posto que eu era, novamente, o Pierrô. Há quantos carnavais vivíamos esta história insana, excitante, mal contada?... Havia uma década, suponho. Eu não sabia nada sobre ela, apenas seu nome - Miriam - que ela revelou por um deslize enquanto fazíamos amor embaixo do palco das autoridades que assistiam ao desfile das escolas de samba na cidade de... deixemos para lá. E chamemos minha amada de Colombina, que é como sempre a chamei e como ela gosta de ser chamada (isso a excita, presumo).
O fato era que o que havia começado como uma fantasia (em todos os sentidos) passara a ser –pelo menos para mim – uma obsessão. Primeiro nos conhecemos, entre o confete, a serpentina, o álcool e o loló, como todos se conhecem durante a folia, entre a superficialidade e o desejo... depois o beijo, o desencontro e por fim o reencontro na noite de terça-feira e terminar a noite – e aquele carnaval – entre lençóis no meu quarto de hotel. Trocamos telefone, mas, para quê? Jamais nos telefonamos. A não ser na véspera do carnaval do ano seguinte, quando ela avisou que novamente se fantasiaria de Colombina e que queria me ver outra vez de Pierrô. Passamos o carnaval entre encontros e desencontros, ela com Arlequins, eu com Odaliscas... tentei brigar, mas ela só queria se divertir. Jurei que no carnaval seguinte não passaria mais por aquilo. Tolice. Uma semana antes da festa momesca, a Colombina me ligou dizendo em que cidade passaria o carnaval lá fui eu atrás dela, rumo a prazeres carnais rápidos e uma dose considerável de sofrimento. Identifiquei-me com a música... "Um pierrô apaixonado, que vivia só chorando, por causa de uma colombina acabou chorando, acabou chorando...” (Pierrô Apaixonado, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres)
Lá pelo quatro ou quinto carnaval que passávamos da mesma maneira, encontrando e desencontrando entre ladeiras, becos e multidões, tomei coragem e a pedi em casamento. Ela riu, argumentando que eu sequer a conhecia e continuou sua caminhada de Colombina desvairada, à procura de outras bocas, outros braços, outros pierrôs... Mas, na quarta-feira de cinzas lá estava ela em meus braços... E eu tentando fazer com que nos víssemos em outro período que não no carnaval. Inútil. “Eu gosto das coisas assim...”, enfatizou, despindo suas roupas de Colombina. Enquanto ela pegava um táxi rumo ao aeroporto (já morávamos em cidades diferentes) "O pierrô apaixonado chora pelo amor da colombina..." (Pierrot, de Marcelo Camelo, da banda Los Hermanos).
Passam os meses e fevereiro se aproximou, como sempre, trazendo consigo o Carnaval. Não telefonei para a Colombina e tampouco ela me ligou. Fiquei em minha cidade, e vesti-me de Pierrô – pela última vez – para pular sozinho meu carnaval. Eis que então que, entre lágrimas e cerveja, vi a Colombina – sim, só podia ser ela, era seu andar, seu jeito de mover os braços, de balançar os cabelos, de rir ao vento... - aos beijos com um Arlequim. Olhei fixamente para ela. Ela me viu e não esboçou qualquer reação. Era uma Colombina, mas, seria a minha Colombina? Que importava? Que mais havia a fazer? Comprei outra latinha de Skol e me entreguei à multidão que entoava uma marchinha qualquer, que aos meus ouvidos soava como a marcha fúnebre: eu estava condenado a ficar apaixonado pela imagem (literal e simbólica) da Colombina até o fim dos carnavais, ainda que toda Colombina que cruzasse meu infeliz caminho não fosse a minha... “Quanto riso, ó, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão... O pierrô está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão...”

18 fevereiro 2009

A fonte dos desejos


Cefas Carvalho

Oscilando entre a incredulidade e a fé, ele chegou, após longa e tortuosa caminhada, à fonte dos desejos. Passara anos ouvindo falar da fonte milagrosa ao pé da montanha sagrada de M., da cidade igualmente mística de S. Homens enriqueceram após uma visita à fonte e molharem o rosto com sua água cristalina. Outros obtiveram sucesso profissional. Mulheres estéreis tiveram filhos. Dizem que um cego retomou a visão; um surdo ganhava a voz. Claro, como em toda questão de fé, não se tinha certeza em nada. Acreditar era tudo.
Suando, apesar do frio que fazia, entrou na fila para se molhar com a água sagrada. Chegada a sua vez, olhou para a pequena fonte circular, como um poço, e contemplou a água esverdeada que – diziam – obrava milagres. Com a mão em concha, apanhou uma porção d´água e molhou o rosto lentamente, como se fazendo uma oração. Fez o seu pedido.
Terminado o ritual, afastou-se da fonte, dando espaço para outros romeiros e caminhou a esmo, contemplando a beleza da montanha. Havia de esperar que seu desejo fosse realizado. Não sabia quando. Talvez a fonte não passasse de uma lenda, de mais uma ilusão dos crentes em algo além do visível.
Retornou a pousada e comeu um sanduíche de frango com cerveja. Voltaria para casa no dia seguinte e decidiu passar o restante da tarde caminhando pelos morros em volta da montanha.
Olhando o céu, de um azul desbotado, andou por uma trilha adornada por pedras cor de rosa, escorregadias. Subitamente, ao observar com atenção uma nuvem amarelada, escorregou em um punhado de folhas úmidas e despencou morro abaixo, caindo pesadamente em um emaranhado de raízes pontudas. A dor foi quem o avisou que uma delas transpassara sua carne - na altura do estômago – de um lado para outro. Cuspindo sangue e com a respiração ofegante, percebeu que estava morrendo, que não viveria mais sequer dez minutos e ardeu em felicidade em saber que seu desejo fora atendido: que alegria, vou morrer!, pensou. Desde tenra idade, queria morrer. Pensara em suicídio – lâmina nos pulsos, cabeça no forno, arma de fogo – mas a covardia era mais forte que a vontade de morrer. Queria um acidente, um acaso. Soube da fonte dos desejos e resolveu recorrer à sua suposta magia. Sorriu em sangue e morreu tranquilamente, lembrando da água esverdeada da fonte dos desejos.

11 fevereiro 2009

De aberrações e de (verdadeiros) monstros




Cefas Carvalho

Todo cinéfilo tem uma gama de filmes que se tornam míticos de tanto que os tentamos assistir, que os procuramos, que tentamos baixá-los na internet, algumas vezes sem êxito. Na banca 7º Arte, no camelódromo do centro de Natal, encontrei totalmente por acaso um destes filmes: “Freaks”, o clássico de Tod Browning que nestas plagas tropicais ganhou o nome de “Monstros”. Nada mais errôneo. “Freaks” é um termo da língua inglesa que pode ser traduzido como “aberrações” e se refere principalmente a pessoas que são diferentes do que se chama “normal”: anões, malformados geneticamente etc. Existe inclusive uma ciência que estuda as deformações, a teratologia. Confesso que tenho um fascino por isso, e desde a adolescência coleciono informações e fotos de “freaks” (Não por acaso, “O homem elefante”, de David Lynch, foi desde os quinze anos um dos meus filmes preferidos. E Lynch é fascinado por teratologia). Bem, vamos ao filme: a trama é simples ao extremo e serve de mero pretexto para o diretor expor suas aberrações humanas na tela. Sim, os “freaks” do filme são reais. Nada de maquiagem ou efeitos especiais. O filme é de 1932, não nos esqueçamos. Não havia noções de politicamente correto no mundo e os circos com aberrações humanas eram sucesso e aceitáveis socialmente. Portanto, os “astros” do filme são anões, mulheres com microcefalia e “freaks” que fizeram história como Johnny Eck, o “homem torso”, cujo corpo terminava abaixo do umbigo; Olga, a famosa mulher barbada; e Raduan, o “homem verme”, que não tinha braços e pernas, mas ainda assim se locomovia, acendia sozinho seu cigarro (cena mostrada no filme), falava três línguas, se casou e teve filhos. Com este “elenco” recrutado nos circos, Browning fez seu filme na qual em um circo itinerante, uma ambiciosa trapezista se casa com um anão para herdar a fortuna dele e isso provoca problemas que levarão a um fim trágico. O filme foi combatido, proibido, cortado e posteriormente tido como preconceituoso e arcaico, posto que Browning teria feito o mesmo que os donos de circo: exposto os freaks como meras atrações para lidar com a morbidez e curiosidade dos espectadores. Mas, há quem discorde. Todos eles são tratados com carinho pelo roteiro e pela direção, e no frigir dos ovos o filme gera efeito similar ao causado por “O homem elefante”. Passada a estranheza inicial (inevitável, claro) nos sentimos à vontade com os freaks e logo percebemos que os monstros reais do filme são os “normais” Cleópatra (a trapezista) e o amante dela, o mau caráter Hércules. Assim como no filme de Lynch, o monstro do filme não é John Merrick, o homem elefante, mas sim o dono do circo que o explora e o agride. Na minha modesta opinião, “Freaks” acaba sendo um libelo contra o preconceito. Até mesmo na cena final, na vingança contra Cleópatra, os “freaks” são mostrados com dignidade, como gente que pode se defender e responder aos insultos e mau tratamento. Gosto de filmes que questionem os padrões pré-estabelecidos da sociedade, como o da beleza estética. Passada uma hora de filme você terá asco pela bela, alta e loira Cleopatra e terá vontade de bater papo com a anãzinha Frieda, com sua dignidade e tolerância. E perceberá que o “homem pela metade” Johnny Eck é mais alegre, educado e bom de se conviver que os outros “homens normais” do circo. Duvida? Assista o filme.

04 fevereiro 2009

Fome



Cefas Carvalho

Matei meu pai. Comi carne humana.
Tremo de tanta felicidade.
(Pasolini em Pocilga)


Acordou com uma fome mitológica. Com os olhos ainda enevoados de sono, sem preocupações inúteis com um banho ou higiene bucal, abriu a geladeira e pegou uma caixa de leite integral, um melão e preparou um sanduíche de presunto. Arrumou-se rapidamente para não chegar atrasado ao trabalho e, sem esquecer de pegar uma maçã para comer enquanto descia as escadas, começou a fazer telefonemas pelo celular.
O escritório de publicidade onde trabalhava ficava a um quarteirão de onde morava, costumando demorar o tempo de uma caminhada de dez minutos para ir de um a outro. Contudo, naquela manhã cinzenta percebeu, ainda no meio do caminho, que continuava com fome. Deteve-se em uma padaria, comprou um pastel de queijo e sentiu o prazer de comer enquanto andava. Chegou à agência, limpando os restos da comida na barba e na gola da camisa.
Tentou afundar no trabalho, como sempre fazia, mergulhando em textos, imagens e conceitos, mas, em dado momento percebeu que uma estranha fome parecia roer seu estômago. Na copa da agência, tomou um café com bolachas cream cracker, mas constatou que este lanche só fizera a fome aumentar. Sentindo dores no estômago e fraqueza nos ossos, esperou pacientemente chegar a hora do almoço, quando desvencilhou-se nos companheiros de trabalho e se refugiou em um restaurante barato.
Fez um prato incomum – para seus padrões alimentares - com bife, arroz, feijão, macarrão, farofa e salada. Terminando o almoço, pediu um pão com manteiga e uma laranja. Depois, um pudim de leite, que considerou insosso, e duas xícaras de café. Levantou-se com a sensação de que tinha aplacado a fome de forma definitiva e que sequer agüentaria jantar mais tarde.
Engano. Mal deu dois passos na calçada, sob o sol causticante, percebeu, horrorizado, que a fome continuava. Pensou em procurar um médico, cogitou telefonar para a irmã, nutricionista. Ou simplesmente ir para casa dormir e acordar sem a sensação de fome. Contudo, não poderia se enganar, e, na pior das hipóteses, muito menos enganar a seu próprio corpo. A fome que lhe carcomia, apesar do que já havia comido até então, era real, dolorida.
Sem muitas alternativas e beirando o desespero, entrou em uma pastelaria e debastou três pastéis de carne, um de queijo e uma coxinha de frango, ajudado por dois copos de caldo de cana. Na saída, deliciou-se com um sorvete de baunilha. Caminhou alguns passos em direção a agência e teve de admitir para si mesmo: continuava faminto.
Cansou de lutar contra si mesmo e contra os instintos do seu corpo; resolveu assumir a fome, ainda que por alguns instantes de desespero e incredulidade e refugiou-se em uma conhecida churrascaria ali perto. Durante um par de horas, refastelou-se com picanha, maminha, frango, cupim, lingüiça, fraldinha, filé mignon; saboreou farofa, vinagrete e arroz; experimentou feijão verde, pediu batatas fritas, enfim, comeu em uma refeição o que normalmente levava dias para ingerir. Estranhamente, ao término da epopéia de carnes, sentia-se leve como um bailarino. Preciso ir ao médico urgentemente, pensou. Porém, ao contrário do que acontecera horas antes, sentia-se bem com seu corpo, como se o organismo e os alimentos (e a necessidade deles) tivessem chegado a um acordo de cavalheiros.
Ao sair do restaurante, percebeu que não conseguiria trabalhar. Telefonou para a empresa pretextando uma doença súbita e, alegremente, foi a um shopping. Ignorou as vitrines chamativas e os cinemas, que tanto amava. Ancorou na praça de alimentação e iniciou uma turnê pelos restaurantes: experimentou comida tailandesa (pato apimentado), saboreou sushis e sashimis, provou de tutu à mineira e baião de dois... comeu o que pode, enquanto o dinheiro lhe deu condições, até começar a usar o cartão de crédito. Olhou a própria barriga; ninguém jamais diria que ele tinha se alimentado tanto naquele dia. Também não sentia nenhuma vontade de ir ao banheiro. Teria se transformado em algo estranho? Seu corpo teria aprendido a processar a comida de forma diferente?
Saiu do shopping Center à noite e, com fome, não sentia nenhuma vontade de ir para casa. Subitamente, o estômago lhe doeu, como se recebesse um golpe de agulha. Havia uma pizzaria por perto, mas teve senso de perceber que seu corpo não queria massas ou queijos. Precisava de carne. Mas, ao pensar em retornar à churrascaria – com o pouco crédito que lhe sobrara nos cartões – sentia que comer mais picanha não o satisfaria. E a fome lhe golpeava como um soco. Sentou-se em um banco de praça escuro no parque, para apertar os braços contra a barriga. Foi quando percebeu o adolescente um pouco à sua frente. Olhava a estátua de Saturno com devoção, como um escultor estuda as formas da modelo que vai retratar. Não devia ter mais que dezessete anos e era branco e magro.
Aproximou-se do rapaz pedindo um cigarro. O jovem respondeu que não fumava. Ele iniciou uma conversa sobre a estátua e conseguiu atrais a atenção do rapaz. Propôs verem outra estátua – de Diana, deusa da caça – do outro lado do parque. Percebeu que estavam praticamente sozinhos naquele lado do gramado e que a escuridão deixava tudo na penumbra. Um pouco antes de chegarem à Diana, em, um trecho particularmente escuro, ele apontou para o jovem uma estrela que brilhava no céu. Quando o rapaz levantou ingenuamente a cabeça para ver, recebeu o golpe de canivete, no meio das costelas.
Ele rodou o canivete até formar um buraco oval na carne do menino. Depois golpeou-o várias vezes, no coração, no pescoço, na barriga. Com uma habilidade que lhe era desconhecida, começou a destripar a carne e se deliciar com seu calor e com o sangue grosso. Arrancou os olhos do rapaz e os comeu. Fez o mesmo com os dedos, o fígado e as coxas. Tentou comer uma orelha, mas a carne era muito dura.
Por fim, vendo a massa disforme de carne retalhada e tripas do que fora um jovem, limpou-se com a camisa, guardou o canivete no bolso e sentiu, pela primeira vez naquele dia feliz e maldito, que a fome havia, enfim, passado.
Foi para casa com a certeza que alguém o abordaria, que iriam prendê-lo. Nada. Protegido pela escuridão e pela indiferença dos outros, chegou ao seu apartamento cansado, mas satisfeito. Tomou um banho quente e deitou-se. Pensou vagamente na carne crua e no sangue que comera e bebera. E de como era bom deitar na cama com o estômago satisfeito.
Dormiu para uma noite sem sonhos.

26 janeiro 2009

A flor e a pedra



Cefas Carvalho

Uma mulher como esta deve ter nome de flor, pensei, quando a vi pela primeira vez. Era o lançamento do livro de poesias de um amigo, e, entre o vinho e conversas tediosas, apercebi-me da mulher à minha frente.
Era linda, de pele leitosa e olhos indecisos entre o negro e o castanho. Cabelos negros presos em coque e um sorriso luminoso. Decidi que precisava conhecê-la e o destino conspirou a meu favor. Uma amiga em comum nos apresentou. Chamava-se Violeta. Contei a ela minha impressão sobre seu nome; ela riu e disse que queria ouvir mais sobre minhas primeiras impressões.
Jantamos no dia seguinte, e o vinho branco serviu como senha para que descobríssemos gostos em comum; livros, filmes, músicas, hábitos... Eu, artista plástico de relativo destaque – ou assim imaginava – ela, uma atriz e encenadora em ascensão, como vim a descobrir. Os muitos gostos em comum se tornaram cumplicidade e esta cumplicidade não tardou a se tornar amor.
Um amor que desaguou em casamento - no cartório e na igreja – e na benção de amigos e conhecidos. Nem mesmo os invejosos de plantão, eternamente alertas como Iago, conseguiram tirar um pedregulho do castelo onde erguemos nossa história de amor. O êxito emocional fez-se seguir pelo sucesso profissional; tive telas vendidas para a Holanda e a Itália; Violeta ganhou ovações e prêmios por uma ousada encenação de Medeia... Consideramos-nos preparados para conquistar o mundo. Quem ou o que poderia nos impedir? Éramos jovens, belos, inteligentes, ousados... e quando tínhamos alguma dúvida destas pretensas qualidades, os amigos e admiradores não demoravam a nos lembrar delas. Violeta era a flor, de nome e trato; eu, era a pedra, pela personalidade e firmeza em ações e opiniões. O casal perfeito, disseram. E cometemos o erro de acreditar cegamente nisso.
Não tardaram os conflitos que, como ondas noturnas, começaram a erosão no castelo do nosso amor. Ciúmes, quase sempre sem razões e intempestivos; intolerância, muitas vezes próxima da grosseria; ambos guardando rancores como quem guarda bijuterias em uma caixa. Minhas telas sofreram o efeito da crise; os temas se tornaram mais lúgubres, as cores, mais escuras. Violeta, por sua vez, desaguava nas personagens a raiva que carcomia seu coração. Atrasei a entrega de telas e diminui o ritmo de trabalho. Ela, chegava atrasada a ensaios e se tornava mais ríspida com os colegas de palco. Afinal, a maior parte do tempo era dedicada ao jogo das ofensas, da espera pela ironia para responder a uma ironia antes colocada à mesa. Os corações acelerados, a mão trêmula de medo ou ódio. E o castelo ruiu, como seria de se esperar. Os amigos, sem surpresa, testemunharam a flor se recolher ao seu jardim e a pedra rumar para a aridez do deserto.
Encontramos-nos três vezes Violeta e eu, após a separação. Ensaiamos retomar o casamento, trocamos mais frases ferinas, choramos um pouco, mas, por fim, decidimos manter-nos longe um do outro. O tempo curaria as dores, como costumam dizer e era, possivelmente, verdade.
Porém, a separação parece ter atraído a sorte contra nós. Meses depois, dirigindo com sono, voltando de uma apresentação de Macbeth, Violeta bateu o carro contra um caminhão na BR-101. Ficou meia hora sangrando presa às ferragens. Perdeu a perna direita. Estava fazendo fisioterapia e tentando se adaptar a uma prótese.
Quanto a mim? Cá estou em um restaurante, lembrando de tudo que relatei agora e esperando Violeta chegar. Ouvi sua voz atrás de mim, dizendo meu nome com suavidade. Senti sua mão em meu ombro esquerdo. Com um barulho estranho – a prótese, claro – ela sentou-se à minha frente. Talvez estivesse sorrindo. Talvez tivesse pintado novamente o cabelo. Esqueci de relatar somente este detalhe, sobre mim; uma semana depois do acidente de Violeta, senti uma imensa dor nos olhos, que tentei aplacar com colírios e soro biológico. Como a dor não passava e a vista começou a ficar enevoada, recorri a um oftalmologista para trocar os óculos. Descobri que havia contraído uma bactéria rara, similar ao glaucoma, e que estava ficando cego. Fui cirurgiado, na esperança de manter a visão, mas foi inútil. Como Édipo, como Borges, fiquei cego.
Eu e Violeta estamos aqui, rindo de nosso quinhão de sofrimento nesta vida. Um cego e uma aleijada, ela riu. Agora, não era o mundo que tínhamos para conquistar, mas sim, a vida cotidiana, como fazer um café ou fritar um ovo. Rimos disso e pedi que ela colocasse mais vinho em minha taça...

14 janeiro 2009

O envelope amarelo



Cefas Carvalho

Estava em casa assistindo televisão e bebendo café com leite quando ouviu o som da campainha. Pensou que era um dos filhos, sempre esquecem a chave!, ou o vizinho querendo emprestado alguma ferramenta, sempre o fazia! Pelo olho mágico não viu ninguém, e intrigado, abriu a porta. Percebeu em cima do tapete da entrada um envelope grande, amarelo. Pegou-o e entrou em casa. Que diabos será isso?, pensou, imaginando uma cobrança ou um engano. Nada estava escrito no envelope. E estava aberto. Com a mão, retirou de dentro uma série de folhas de papel grampeadas. Sentou-se para ler. Logo na primeira página, ficou intrigado. Viu o nome de Marcos Alexandre, seu amigo de infância, e em seguida, uma série de informações sobre ele: nome completo, identidade, CPF, data de nascimento, signo, ascendente, onde morava, nome dos filhos etc.
Na página seguinte, outra surpresa, esta maior: uma série de informações sobre a vida de seu amigo. Leu um pequeno trecho: “Apesar de casado com Iracema, Marcos mantém um relacionamento extraconjugal com Celeste, professora da rede pública de ensino e que mora no bairro das Quintas, há pelo menos cinco anos. Seus amigos sabem disso. Seus filhos também”. Ficou preocupado com o que leu. Seria uma brincadeira de mau gosto? Passou a página. Lá estava o nome de Carlos Buarque, companheiro de trabalho e de peladas no fim se semana. Na primeira página, a mesma coisa: informações básicas, número do RG, endereço, e-mail, número de contas de banco. Na página seguinte, informações mais bizarras: “Carlos, embora um pai de família considerado exemplar, assediou sexualmente a sobrinha de 15 anos, e há alguns anos, manteve um caso com uma garota de 14”. Respirou fundo. Aquilo estava muito estranho...
Continuou a passar as páginas. Leu então o nome de Raimundo Santarém. Tratava-se de um antigo desafeto com quem chegara a trocar desaforos havia alguns anos. Era um homem ranzinza e meticuloso, que gostava de esfregar sua verdade na cara dos outros. Com atenção, leu as informações básicas do inimigo, na verdade já as conhecia. Passando a página, deparou-se com mais uma surpresa: descobriu que o homem esnobe e orgulhoso de sua retidão, não apenas estava do SPC e Serasa, como ainda devia uma fortuna para bancos. Seu carro do ano, da qual se gabava, não passava de uma compra por leasing e estava prestes a ser tomado por um outro banco. Passava cheques sem fundo. Por três vezes, recorrera a agiotas. Era um fracassado, em termos financeiros.
Mais páginas. Descobriu o nome da secretária do escritório onde trabalhava, Clarissa Maciel, evangélica ferrenha, que tentava convencê-lo a aceitar a palavra de Deus, mas na igreja que ela frequentava, claro. Lendo, descobriu que ela fizera – já convertida - dois abortos de um homem casado com quem mantinha um envolvimento secreto. Também batia na mãe setuagenária, a quem mantinha em uma espécie de cárcere privado. Chegou à página de seu chefe, Patrício Guimarães, homem espirituoso e alegre, orgulhoso da vida que levava. Contudo, segundo o relatório detalhado, tentara o suicídio havia um ano, quando a mulher – que costumeiramente o traía, revelação que o surpreendera – o abandonara e aos filhos para viver com outro homem. Após ela ser rejeitada pelo amante, voltara para Patrício.
Meu Deus, de onde veio isso? - Indagou-se, já com um estranho contentamento. Pensou no que poderia fazer com tantas informações. Tinha consciência que saber das coisas era um trunfo em quaisquer circunstâncias. Percebeu que tinha a vida de muita gente – que gostava ou que odiava – em suas mãos. Não dizem que informação é tudo? - Divertiu-se. Continuou a ler. Descobriu coisas ocultas e estranhas sobre a vida dos vizinhos, da atendente da farmácia, do dono da padaria do bairro. Sentiu-se um deus. Parou de ler, encheu um copo de uísque e acendeu um cigarro. Não cabia em si de tanta euforia. O que posso fazer com tantas informações? - Pensou. Como tirar vantagem deste presente que o destino colocou em minhas mãos?
Alegre, percebeu que faltavam poucas páginas para terminar o relatório. Continuou a ler, esperançoso em saber mais informações sobre desafetos, amigos e conhecidos. Teve uma surpresa ao ler o nome de Eduardo Pinheiro. Era seu filho. Pulou a primeira página, com todas as informações de praxe, todas detalhadas e absolutamente corretas. Na página seguinte, sofreu um baque: descobriu que o filho o odiava, que cheirava pó havia meses, que fora ele – o filho amado – quem furtara produtos em um supermercado na rua vizinha.
Abatido, continuou a leitura. Chegou então ao nome de Laura Pinheiro, sua filha adolescente. Entre mentiras e intrigas, descobrira que ela fazia assaltos regulares à sua carteira. E ele que sempre pensara que as cédulas eram subtraídas pela esposa, para seus badulaques e futilidades. Mas, o pior estava por vir: descobriu, na leitura amarga, que Laura não era sua filha. Era o produto maldito de uma rápida traição da sua esposa.
Sabia o que viria nas últimas páginas do relato, agora macabro. Leu com alguma dor o nome de sua esposa, Lucia Bertioga Pinheiro. Bebeu de um gole o uísque e armou-se para a leitura que viria. Soube então que ela já o traíra algumas vezes, como descobrira amargamente na leitura anterior, que mantivera um caso com um amigo da família e pensava seriamente em abandoná-lo. Que ainda desprezava seu comodismo profissional, comentava com as amigas o esfriamento – quase morte – de sua vida sexual com o marido.
Correu para o banheiro. Ligou o chuveiro e deixou-se ficar na água gelada por imprecisos minutos, talvez horas. Cansado e com frio, desistiu do suplício. Enxugou-se, e ainda trancado no banheiro ouviu o barulho da chave girando na maçaneta da porta e o barulho do sapato da esposa. Pensou em matá-la e depois se matar. Cogitou gritar, quebrar a sala inteira. Primeiro iria olhá-la nos olhos, fingir não saber de nada, pressioná-la contra a parede. Saiu com a decisão de confrontar a mulher falsa com quem vivera ao longo dos anos.
Na sala, encarou-a. Surpreendeu-se com o olhar de fúria impresso em seu rosto.
- Quem é Vanda? – perguntou a esposa.
- Como assim?
- Já sei de tudo.
- Tudo o quê?...
- De você e Vanda. Sei que tem uma filha com ela. Cecília, não é mesmo?
Engoliu a seco. Tentou falar, a mulher não deixou.
- E o caso que teve com minha prima Janaína, foi bom? E ter transado com ela na nossa cama no reveillon do ano retrasado, foi bom, seu canalha?
Tentou se defender, mas não encontrava palavras no vazio imenso que se apossara dele. Sabia que era tudo verdade, não teria como contra-argumentar. Percebeu então na mão da mulher uma série de folhas de papel. E debaixo do seu braço esquerdo, um envelope amarelo...

06 janeiro 2009

A menina do cemitério


Cefas Carvalho


Essa história aconteceu há pouco tempo, mas, somente agora, ganhei forças para contá-la.
Nascido em Pendências, mas órfão de pai e mãe desde a infância, fui criado em Natal, mais exatamente em uma tranqüila rua do Alecrim por minha tia Lucia e por seu marido, que eu chamava de Tio Baltasar. Ele, coitado, morreu de cirrose no dia do meu aniversário de quinze anos. Minha tia passou a ser minha única referência afetiva e vice-versa. Jamais tive o que me queixar dela ou da vida. Fui bem criado, estudei em ótimas escolas, entrei na universidade e por fim formei-me em Educação Física.
Incentivado por tia Lucia, fui fazer um curso de um mês em Recife sobre técnicas desportivas. Foi na capital pernambucana, porém, que recebi a noticia que tia Lucia havia morrido, vítima de infarto. Confesso que viajei chorando durante as quatro horas de ônibus que separam Recife de Natal.
No enterro, no Cemitério do Alecrim, poucos parentes, uma e outra amiga e eu, me sentindo pela primeira vez sozinho no mundo. Após todos irem embora, ainda fiquei um bom tempo a olhar para os túmulos e mausoléus, até que o zelador gentilmente me mandou embora, advertindo que era hora de fechar.
No dia seguinte voltei ao cemitério. Depositei mais flores no túmulo de minha tia. Sem que ninguém me visse – era proibido fumar ali, me dissera o zelador – acendi um cigarro a vagar pelas ruas no cemitério. Tantos anos morando no Alecrim e eu jamais entrara ali até então, afinal, meu tio fora enterrado no interior e nenhum conhecido ou amigo jamais fora sepultado naquele solo.
Na segunda semana sem tia Lucia, trabalhando em uma escola apenas de manhã e com a tarde e noite livres, passei a dedicar mais tempo a pensar na morte em si do que na perda específica da minha tia. Não sentia vontade de sair ou beber com os amigos, e tampouco estava atrás de companhia feminina, posto que havia terminado um longo namoro havia alguns meses. Também comecei a ir três vezes por semana ao cemitério, ambiente que me parecia cada vez mais familiar. Fiz amizade com o zelador, os funcionários. Conheci a administradora do local, dona Lenilde. O cemitério tem o poder de convidar à reflexão e mais que morbidez a visão de tantas pessoas que se foram me trazia uma estranha espécie de paz, em lugar de repulsa ou morbidez.
Em uma dessas tardes, passeava pelos túmulos, contemplando alguns imponentes, como o de Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, quando de repente avistei uma jovem na minha frente, a me olhar como se eu estivesse fazendo algo errado.
- Estou observando você há alguns dias...-sorriu
- É, eu estou vindo aqui com freqüência respondi, atordoado com a abordagem.
- Eu também gosto muito daqui. É calmo, tranqüilo, tão diferente do mundo...
- Você mora aqui no Alecrim?
- Exatamente.
- Qual seu nome?
- Aurélia – sorriu. Um sorriso doce, sereno. Reparei então na menina, de longos cabelos castanhos se derramando pelo vestido azul claro. Os olhos, imensos, vivos, fixos em mim. Deveria ter entre dezoito e vinte anos. Bela como poucas eu tinha visto.
- Bem, vou te deixar na sua caminhada. Até logo – sorriu, se afastando. Tentei falar algo para impedi-la de ir, mas as palavras não saíram. Pensei em rodar pelas ruas do cemitério, que afinal não era tão grande assim, mas desisti. Voltei para casa com uma sensação estranha, de quem deixou para trás algo importante.
Passei boa parte da noite pensando na menina. Aurélia, lembrei do nome.
No dia seguinte, retornei ao cemitério. Talvez nem tanto para prantear sobre o túmulo de tia Lucia, mas para procurar Aurélia. Não foi difícil encontra-la. Passeava entre os túmulos, como se o local fosse um parque, não um cemitério.
- Boa tarde.
- Boa tarde, Aurélia.
- Lembra meu nome...
- Claro. Como poderia esquecer? – sorri. Ela perguntou o meu – Carlos – o que não fizera no dia anterior.
- Gosto daqui – comentou com ar triste – Acho que já me acostumei
- Qual a sua idade?
- Quantos anos você me dá
- Vamos ver...dezoito?
- Errou...- disse, após certa hesitação. Eu estava certo que ela tinha dezoito.
- Vou tentar novamente...dezenove?
- Errou de novo. Mas desista, não vou dizer minha idade...
- Está bem, você manda.
- Vamos passear pelo cemitério? – indagou. Eu já o fizera tantas vezes sozinho naqueles dias tristes...Que bom seria faze-lo com uma mulher linda pela qual eu estava fascinado.
Pelas ruas do local, contemplamos os imponentes mausoléus familiares, vimos os túmulos dos judeus, com inscrições em hebraico...Aurélia me levou também para os túmulos dos três soldados ingleses que morreram no oceano, em 1944, durante a 2º Guerra Mundial e que foram sepultados em solo natalense.
- Todos os anos as famílias e oficiais ingleses vem aqui no cemitério rezar pelas almas deles e limpar os túmulos. Pode observar que são dos mais conservados deste cemitério... – explicou. Fiquei impressionado com seu conhecimento do local. Algo mórbido, sem dúvida, mas todo mundo tinha algo de louco. Das mulheres que eu conhecera até então quantas não tinham hábitos mais estranhos que os de Aurélia?
Por fim, andando por uma rua solitária, entre túmulos mal conservados, paramos subitamente, como se tivéssemos combinado. Olhei-a com atenção, enquanto sentia meu coração disparar.
- O que foi? - perguntou
- Você é muito linda... – respondi. Não precisamos de mais nada para nos enlaçarmos em um beijo. Assim ficamos por um bom tempo, sem palavras. Apenas os lábios e os braços em movimento.
- Está na hora de eu ir... – comentou, vendo que já estava anoitecendo
- Eu te deixo em casa
- Negativo. Você vai, e eu fico. Depois vou para casa.
- Por que isso?
- Eu quero assim.
- Mas eu quero te ver.
- Você vai me ver. Mas, aqui.
- Por que? Não consigo entender.
- Não precisa entender, basta concordar. Amanhã á tarde aqui mesmo, está bem, meu amor?
Como resistir? Concordei com aquela maluquice. Fui para casa meio apaixonado meio aborrecido. Por um lado, estava enfeitiçado por aquela mulher, por aqueles beijos...Por outro pensava se ela não queria me fazer de palhaço. Teria ela se comportado da mesma forma com outros homens? Seria uma tara dela querer se encontrar apenas no cemitério?
De qualquer maneira, no dia seguinte lá estava eu no cemitério. Estava acontecendo um sepultamento, portanto, de início não consegui encontra-la com o fluxo de pessoas. Por fim, na rua colada ao muro da rua Rafael Fernandes, bem próxima ao mausoléu da Liga Operária Norte-riograndense, encontrei a minha Aurélia.
Durante duas horas praticamente só nos beijamos e trocamos palavras de carinho. Mas, eu estava decidido a dar um rumo novo à nossa história.
- Vamos ao cinema,
- Não quero.
- Para onde você quer ir? Basta dizer que iremos.
- Quero ficar aqui mesmo
- Mas Aurélia...
Ela começou a lacrimar... – Quero que goste de mim do jeito que sou... – murmurou.
Como não ceder? Ficamos lá, entre os túmulos e fugindo do olhar desconfiado e vigilante do zelador. Ao ir embora –sozinho – pensei em ficar de tocaia na porta do cemitério e segui-la quando saísse, mas fiquem temerosos de ser flagrado e envergonhado de minha baixeza, fui para casa. Passamos a nos encontrar no cemitério. Em duas semanas, foram pelo menos seis encontros. Era estranho, admito, e parece absurdo, mas eu estava feliz, e quando se está feliz, tudo parece normal. Imaginei que ela tivesse vergonha de sua família, com um pai alcoólatra ou coisa parecida. Poderia ser também que fosse muito humilde e não quisesse que eu visse onde morava. Seja como for, decidi que enquanto eu estivesse me sentindo bem com a situação, não forçaria a barra. Um dia ela vai querer ir a um cinema, à praia, e então poderemos viver como um casal normal, pensei.
Contudo, em uma tarde algo nublada, fui ao cemitério e Aurélia não apareceu no local combinado, em frente ao túmulo de João Câmara. Esperei por uma, duas, três horas, até o cemitério fechar, e nada. Andei a esmo pelas ruas em volta do cemitério, entrei em bares, procurei em paradas de ônibus e nada. Voltei para casa com uma tristeza sólida sobre a minha cabeça.
No dia seguinte, lá estava eu de volta ao cemitério. Andei pelas ruas e nada. Até que, próximo à capela, encostei-me em um tumulo deteriorado e coloquei as mãos nos olhos. Fui despertado deste breve transe por um funcionário do cemitério, um rapaz alto que eu sempre via mas jamais havia trocado duas palavras. – Tudo bem com o senhor? – perguntou.
- Mais ou menos – respondi.
- Eu posso ajudar em alguma coisa?
- Na verdade, não. Estou esperando uma menina...
- Se é para visitar algum túmulo, eu até posso ajudar a encontra-la. Se for para namorar, como tantos aqui tentam fazer, o zelador não vai gostar nada disso.
- Bem, eu fico até sem jeito, mas é quase isso... – confessei. Ansioso para contar minha história insólita para alguém, resolvi fazer daquele trabalhador meu cúmplice. Relatei minha história com detalhes, e no fim, olhei-o como se pedindo uma solução.
- Eu moro aqui na Ary Parreiras desde moleque e conheço quase todo mundo por aqui. Qual é o nome da menina? Se ela morar por essas bandas eu devo conhecer.
- O nome dela é Aurélia. Aurélia Galvão Barreto, se não me engano.
- Aurélia Galvão Barreto? – assustou-se - Você está maluco, homem?
- Por quê?
- Olhe para o seu lado, homem e deixe fazer brincadeiras para me apavorar - Você está encostado justamente no túmulo de Aurélia Galvão Barreto. Ela morreu em 1932, aos dezoito anos, em um incêndio aqui mesmo no Alecrim...

05 janeiro 2009

Dolores


Cefas Carvalho

Chamava-se Dolores. Como Dolores Duran, uma das heroínas de minha vida. Mas ela não conhecia Dolores Duran, não sabia nem quem era. Talvez sua mãe também não conhecesse a cantora e tivesse escolhido o nome por gosto, capricho ou influência, sabe-se lá. Mas, nada disso importa. Conheci Dolores em uma noite sem lua e sem estrelas, quase amaldiçoada, em um bar tipo inferninho nas Rocas. Surgiu na minha frente como quem vinha do nada – ou de algum dos quartos fétidos do bar onde as meninas operavam seus programas rápidos – e sorriu como se já me conhecesse havia muito. Também sorri e com um movimento sutil de cabeça convidei-a para sentar à mesa. Ela aceitou e bebeu da minha cerveja. Conversamos sobre a vida em geral e sobre nada em especial e pude perceber o quanto era estranhamente bela e triste. De uma beleza sofrida, claro, pele queimada, não de manhãs de praia, mas de quem veio do sol do interior. Cabelos maltratados, olheiras emoldurando um olhar castanho melancólico. Talvez meus amigos a achassem feia. Mas, aos meus olhos – também sofridos, admito – Dolores me pareceu bela como poucas.
Bastou meia hora para que eu me resolvesse a convidá-la para sair. Paguei sua saída do bar (exigência inegociável da dona do estabelecimento para quem quisesse sair com as meninas da casa) e fomos no meu carro para um motel em Mãe Luíza. Pedi cerveja, um jantar – ela estava morrendo de fome – e depois mergulhamos no mar sem fundo dos amores carnais envolvidos em dor e carência. No fim das contas e dos gozos, percebi que – como muitas vezes acontecia comigo – eu era um náufrago a me agarrar na bóia de amores circunstanciais e comprados. A diferença é que Dolores não parecia apenas estar trabalhando. Era como se ela também fosse uma náufraga.
No dia seguinte paguei o motel e deixei-a no inferninho onde morava. Trocamos números de celular e prometi telefonar e também voltar para outra noite juntos. Horas depois, já no trabalho, dei-me conta que Dolores em espanhol, significava “dores”. Os nomes femininos em língua espanhola muitas vezes evocam sentimentos: Dulce (Doce), Soledade (Saudade), Angustias, Martírio... e lembrei-me de um livro de Jack Kerouac – Tristessa – sobre uma jovem mexicana, igualmente bela e triste. Uma mulher chamada Tristeza..., pensei, com amargura, lembrando que a mulher sem destino e sem futuro que povoava meus pensamentos, ela mesma carregava no nome a antítese na alegria e da felicidade.
Voltei à minha vida normal, seja lá o que isso significasse, e confesso, esqueci-me de Dolores por alguns dias. Passada uma semana, porém, a lembrança dela me veio e me doeu na pele como uma agulha. Corri para as Rocas. Tudo continuava igual, o inferninho decadente, as mesas sujas, os sorrisos falsos das meninas... também Dolores estava lá e continuava igual. O mesmo olhar sofrido, a mesma atenção para comigo... era como se o tempo não se movesse naquele bar. Pedi uma cerveja, depois outra, depois uísque com coca para ambos e por fim acabamos em outro motel, novamente afogando nossas mágoas no corpo um do outro. Desta vez, contudo, consegui saber mais coisas sobre ela... já tinha sido casada duas vezes, tinha dois filhos, um de cada pai, era de Sousa, na Paraíba, mas com família em Pau dos Ferros... gostava de viajar e samba... Tinha estudado, fizera o segundo grau completo, gostava de escrever, chegara a sonhar, em certa altura imprecisa da vida, em ser professora numa cidadezinha do interior... Propus que viajássemos juntos. Para onde?, perguntou. Para lugar nenhum, respondi, na estrada decidimos... Pipa, João Pessoa, Recife, Tibau, Areia Branca... o vento seria nosso mapa. Com um sorriso triste ela concordou. Acordamos que faríamos a viagem no final de semana seguinte, quando eu prepararia tudo e ela inventaria uma desculpa para a dona do bar para não termos que pagar a saída. Vivi uma semana normal, mas algo excitante com a perspectiva da insólita viagem. Nada comuniquei aos amigos nem à família (como fazê-lo?). Na manhã de sábado, por fim, estacionei o carro em frente ao prédio abandonado nas Rocas onde havíamos combinado. Esperei durante quarenta minutos. Eu já me preparava para telefonar para ela quando aproximou-se do veículo uma mulher que eu conhecia do inferninho. Vinha me trazer um bilhete de Dolores, que fora embora com todos os seus pertences no dia anterior e nada dissera sobre seu destino: “Meu querido, descobri que sou dona das minhas dores e não quero dividi-las com você nem com ninguém. Não nasci para ser feliz. Melhor eu ir embora enquanto é tempo. Beijo. Dolores”. Guardei o bilhete no porta-luvas e peguei a estrada. Para onde? Quem sabia? Que importava?

23 dezembro 2008

Em sonhos


Cefas Carvalho


In dreams I walk with you
In dreams I talk to you
(Roy Orbison em In dreams)



Molhado de suor, acordou de repente e ouviu aquela música lenta e repetitiva, como um mantra, e pensou que ainda estava sonhando. Percebeu, após alguns segundos, que o som vinha do CD Player, que deixara ligado. Levantou-se a contragosto e desligou o som. Aproveitou que estava de pé e arrastou-se sonambulamente até a cozinha, para beber um copo de água bem gelada. Não resistiu a um gole de Coca-Cola, bebida na garrafa, e retornou ao quarto. Tinha medo de não dormir e ao mesmo tempo, medo de dormir. Dormir significava esquecer... mas também significava sonhar, e nos últimos tempos seus sonhos eram, assim como a música, lentos e repetitivos.
O sonho era basicamente a presença dela, primeiro surgindo do nada, quase dançando, como uma Isadora Duncan etérea e irreal. Depois ela falava alguma coisa... mas ele não conseguia ouvi-la. Sabia que ela falava seu nome, podia ler seus lábios, mas o restante da mensagem lhe era misterioso, como se ela falasse uma língua estranha e há muito morta.
Por fim ela se aproximava dele e lhe beijava, suavemente, como em um balé. Ele desejava segurá-la junto a ele, mas, por alguma razão, não conseguia fazê-lo. Ela inevitável que ela se fosse. Para algum lugar misterioso e obscuro onde sua entrada não era permitida. E então ele acordava, banhado de suor, mesmo com o ar condicionado ligado na potência máxima.
Em outro sonho, quase a mesma coisa acontecia, com a diferença que a entrada dela era antecedida pela presença de um palhaço, se fazendo de mestre de cerimônias. Um palhaço colorido, mas pouco alegre, na verdade, triste em sua maquiagem desbotada e a lágrima pintada que lhe caía do olho esquerdo. Em uma linguagem exótica, como se usando de palavras arcaicas ou com um sotaque estranho, ele anunciava a entrada dela, que vinha, dançarina esvoaçante, lhe beijava e partia.
Havia um terceiro sonho, na qual ela e o palhaço chegavam juntos, e passavam vários minutos rindo descaradamente dele. Em seguida ela contraía o rosto como se arrependida e lentamente se aproximava dele, enquanto o palhaço ia sendo tragado pelas sombras. Ela o beijava suavemente e, com passos de dança, retornava para de onde veio e onde não era permitido a ele sequer avistar.
Aquela noite estava tão desesperada quanto as noites anteriores, como sempre era desde que ela se fora. Mas, resolveu enfrentar seus próprios sonhos. Decidiu que tentaria dormir, ajudado pelos comprimidos de sempre, e, uma vez sonhando, não apenas enfrentaria o palhaço triste como seguiria a amada até o reino das sombras para onde ela mergulhava.
Demorou a dormir. Cantou lentamente diversas músicas, assobiou, olhou pela janela a noite cinzenta que se fazia, ridiculamente contou carneirinhos, até que a soma de fazer tantas coisas e ao mesmo tempo nada fazer o levou ao mundo do sono.
Sonhou, como quase sempre, que o palhaço chegava. Contudo, conscientemente, resolveu nada fazer com ele. Queria esperar a chegada dela. O palhaço cantou alguma magia em alguma língua e por fim ela chegou, cheia de véus transparentes, um girassol nos cabelos, etérea e inalcançável. Fechou os olhos á espera do que aconteceria. Sentiu a respiração quente dela e anteviu o beijo suave que ela lhe daria. Recebeu o beijo como quem recebe uma benção e assistiu à sua lenta partida, em passos de balé. Subitamente, reagindo contra as leis daquele sonho, conseguiu fazer com que as pernas andassem e correu para ela. Percebeu o palhaço, com um olhar assustado caminhar em sua direção. Inútil. Com um movimento rápido, forte e inesperado, golpeou-o com a mão direita fechada e assistiu a sua queda sangrenta no chão.
Ela abriu uma cortina negra, feita de sombras e entrou. Ele, a um passo dela, fez a mesma coisa e entrou em algo que parecia uma caverna negra, um mundo infernal. Não conseguia vê-la, mas sabia que ela estava lá. De repente, ouviu ela falando algo que aos seus ouvidos pareceu uma prece: não me abandone jamais...
Acordou, então, suado, com um grito dele próprio. Demorou alguns segundos para perceber que estava lacrimando e dificilmente foi ao banheiro lavar o rosto. Sentou-se no sofá da sala e chorou copiosamente. Pensou em telefonar para ela, mesmo sendo de madrugada. Pensou em dar cabo da própria vida, como talvez fosse melhor, desde que ela se fora e sua vida mergulhara naquela sequência de sonhos e tristezas.
Pegou o celular e discou o número dela. Tocou cinco vezes até que atenderam. Para seu espanto e sua dor, ouviu do outro lado da linha a voz do palhaço triste a debochar de sua dor...
Molhado de suor, acordou de repente e ouviu aquela música lenta e repetitiva, como um mantra, e pensou que ainda estava sonhando. Percebeu, após alguns segundos, que o som vinha do CD Player, que deixara ligado. Aliás, que a esposa deixara ligado. Olhou para o lado e viu a amada dormindo, respirando pesadamente e com o lençol abraçado ao rosto. Levantou-se e desligou a música. Foi até a cozinha onde viu na mesa os pratos com os restos de atum com ervas que jantaram na noite anterior. Depois fizeram amor como havia muito não faziam e dormiram nos braços um do outro. O estranho era sonhar todas as noites o mesmo sonho: que havia sido abandonado pela amada e que ao dormir sonhava com um palhaço triste e uma dançarina enevoada. Comentara isso com a amada que sorrira: isso é medo de me perder... é normal sentir isso quando se ama, porque eu também tenho medo de te perder...
Ele sorriu para ele mesmo, abriu a geladeira e bebeu um copo de leite gelado. Em seguida aninhou-se ao lado da amada para dormir.

16 dezembro 2008

Feliz Natal em junho ou dezembro!


Cefas Carvalho

Este escrevinhador leu nos blogs que um astrônomo australiano pode ter descoberto que o nascimento de Jesus não teria acontecido em dezembro e sim em junho. E dois anos antes do que se pensava. De acordo com Dave Reneke, a "estrela de Natal" que, segundo a Bíblia, teria guiado os Três Reis Magos até a Manjedoura, em Belém, não apenas teria aparecido no céu seis meses mais cedo.
O astrônomo explica que a conclusão é fruto do mapeamento dos corpos celestes da época em que Jesus nasceu. O rastreamento foi possível a partir de um software que permite rever o posicionamento de estrelas e planetas há milhares de anos.
Baseando-se no Evangelho de Mateus, que descreve a aparição de uma "estrela" como sinal do nascimento de Jesus, Reneke identificou a conjunção dos planetas Vênus e Júpiter, que teriam emitido uma forte luz que poderia ter sido confundida com uma estrela. "Vênus e Júpiter chegaram muito perto no ano 2 a.C refletindo muita luz. Não podemos dizer com certeza que esta era a estrela de Natal descrita na Bíblia, mas até agora esta é a explicação mais plausível que já vi sobre isso", disse Reneke à BBC Brasil.
A notícia não mexeu muito comigo, ateu iconoclasta que sou. Mas, diverti-me sozinho pensando que o cristianismo ocidental pode estar há dois mil anos comemorando o Natal na data errada.
Há muito já desmistifiquei a festa de natal. Não pretendo ultrajar os amigos cristãos que vêem na data o momento de pensar em Cristo e na fraternidade universal. Tampouco quero estragar a ansiedade dos filhos e da amada, à espera dos presentes de natal. Não, nada disso. Respeito a opinião dos amigos e como quase todos, troco presentes na noite natalina e me farto com a ceia de natal. Só não acredito que a data sirva para qualquer tipo de reflexão ou de transformação. Assim como datas cívicas (Dia da Independência, Proclamação da República) não fazem ninguém refletir sobre a nação, mas sim proporcionam um belo churrasco ou ir a praia com a família, que ninguém é de ferro.
Se o astrônomo tiver razão, que celebremos o nascimento de Jesus em junho. Tudo bem que na Europa e nos EUA não é época de inverno e neve, portanto, toda a mística do natal gelado e com trenó do Papai Noel iria por água abaixo.
Em julho ou em dezembro, como sempre foi, o natal é uma bela festa e serve, sim, para congregar a família, rever os amigos e sermos todos um pouquinho mais felizes, como é válido. Só não venham me dizer que a data é para refletir sobre o nascimento do menino Jesus, pobre e sofrido em uma manjedoura. É uma hipocrisia light, feita sob encomenda para nos sentirmos menos culpados. Ninguém pensa no menino Jesus ou nas crianças pobres de Felipe Camarão enquanto se farta com tender e bacalhau e se enche de vinho. Infelizmente. E feliz natal para todos nós.

10 dezembro 2008

"Ela vestia veludo azul..."


Cefas Carvalho


Tive minha vida mudada por um filme. É certo que livros, músicas, bandas de rock também mudaram minha vida, de uma forma ou de outra, mas neste texto falaremos de cinema. Cinéfilo desde a pré-adolescência, daqueles de adorar a magia da projeção cinematográfica, como o menino Totó de “Cinema Paradiso”, poderia listar uma penca de filmes que me encantaram e me impressionaram. Contudo, foi “Veludo azul” o filme que mudou efetivamente minha forma de ver o cinema, de ver a vida em geral e a minha própria vida. Porém, não se trata do filme da minha vida (que é “Verão de 42”) nem o que mais vezes assisti (“Jesus Cristo Superstar”, que vi 19 vezes contadas, cantadas e catalogadas). Tudo bem que assistir “Hair”, em 1988, foi uma espécie de revelação divina e o filme foi responsável direto por eu deixar crescer os cabelos nos anos dourados da juventude, mas nesta altura “Veludo azul” já tinha feito minha cabeça.
A paixão começou nos idos de 1986, quando, adolescente tímido recém chegado no Rio de Janeiro, passava boa parte do meu tempo assistindo filmes, fosse na TV (nos bons tempos em que a Rede Globo exibia clássicos à noite), vídeo-cassete e cinema. Na tela grande, gostava de filmes bem hollywoodianos, tipo “Passagem para a Índia” e “Amadeus”, sucessos à época. Mas, nas resenhas dos cadernos culturais dos jornais os críticos só falavam de um tal “Veludo Azul”, do americano David Lynch, que era instigante, macabro, melhor filme do ano etc. Bateu a curiosidade de assisti-lo, claro, mas deparei com um problema: a censura do filme - sim ela existia naquele tempo e era razoavelmente rigorosa - era 18 anos. Eu mal contava dezesseis. Preferi não arriscar ser barrado no cinema e convenci papai e ir comigo, me autorizando para o bilheteiro a entrar. Lá fomos nós em uma tarde de sábado na sala 1 do finado (tornou-se uma sede da Igreja Universal...) Cine Lido, na Praia do Flamengo. Entrei na sala como uma pessoa e duas horas depois, saí outra.
Tudo me encantou e me impressionou no filme. Papai pouco se impressionou com o filme e até cochilou uma meia hora - velho hábito dele - na sala de projeção. Para quem desgraçadamente não viu o filme, um resumo: a trama é extremamente simples. Jeffrey (Kyle McLaughan, alter-ego e sósia do diretor) vive uma existência pacata naquelas cidadezinhas insípidas dos Estados Unidos quando de repente encontra uma orelha em um jardim. A partir deste fato corriqueiro, ele trava contato com a bela e misteriosa Dorothy (Isabela Rosselini) e com o perigoso Frank (Dennis Hopper, espetacular!) e se envolve com pessoas e situações que mostram a ele que o mundo não era exatamente cor de rosa como ele pensava.
Em suma, a experiência que Jeffrey viveu na trama, vivi durante a exibição do filme. Ao se acenderem as luzes eu tinha certeza que, como Jeffrey, jamais veria o mundo da mesma forma. Como diz a namorada de Jeffrey (Laura Dern) em uma cena, “este é um estranho mundo”.
E coisas estranhas não faltam no filme: um vilão que respira gás hélio e chora com músicas antigas, um travesti dublando Roy Orbison, perversões sexuais, gente morta em pé, como um abajur... uma série de bizarrices tão comuns que evocam Caetano Veloso: “de perto, ninguém é normal”.
Há a trilha sonora... está gravada no HD da minha mente a cena em que Isabella Rosselini canta o clássico “Blue velvet” aos sussurros, na boate... “she wore blue velvet, bluer than velvet was her eyes…” E Dean Stockwell dublando “In dreams” do mestre Roy Orbison? E o uso da belíssima “Love letters”? Mas nada se compara ao cinismo agridoce da cena final, um pastiche de final feliz com Julee Cruise - cantora fetiche de Lynch - cantando a macabra “Mysteries of Love”. Seria impossível eu sair imune a tal filme. Não saí. Tanto que no dia seguinte comecei a abandonar - embora não totalmente - os dramas tradicionais de Hollywood e adentrar no terreno pantanoso de Scorcese, Woody Allen, Jim Jarmush, à procura de sensações como a que “Veludo azul” me proporcionou. Daí para mergulhar no universo de Bergman, Almodóvar,Pasolini, Saura e Scola foi um passo. E adeus dramas lacrimosos com Sally Field e Sissy Speacek. E adeus filmes como “Robocop” e “Os Goonies”. Passei a economizar meus trocados para descobrir filmes estranhos nos cineclubes.
Quatro anos depois, David Lynch faria mais um filme que se inscreveria a fogo em minh´alma: “Coração selvagem”, um on the road maluco com Nicholas Cage e Laura Dern, músicas de Elvis Presley, sangue a rodo e uma estética alucinada. Assisti ao longa sozinho, em um cinema vazio e sujo em São Paulo, com a consciência que aquele filme também mudaria minha vida. Mudou, mas aí já seria uma outra história. Lynch continuaria agradando aos devotos com a série “Twin Peaks”, que para quem não se lembra mudou a história da televisão americana e filmes como “A estrada perdida” e “Mullholland drive - Cidade dos Sonhos”. Filmes sem pé nem cabeça e sem lógica, mas, que diabos, quem precisa de lógica na vida ou no cinema? Assistir a um filme de Lynch é uma experiência extra-sensorial. Nem todos gostam, é claro. Mas, quem vai ver um filme de Lynch é bom saber que vai adentrar um universo alucinado, pessoal e surreal. Este ano ele lançou nos EUA e na Europa seu mais novo filme, “Inland Empire”, que dificilmente chegará nestas terras cinematográficas tomadas por Piratas e Aracnídeos e comédias americanas cretinas. Enquanto isso, resta aos lynchmaníacos, espécie de confraria de gente que não bate muito bem da bola (alô, Rosa Williams!) e que sabe que o mundo real não é este que vemos, rever toda a cinematografia do cineasta mais esquisito do mundo. Afinal, she wore blue velvet...

05 dezembro 2008

Deixem o Tom fumar em paz


Cefas Carvalho


Torturar, fatiar, eletrocutar, agredir, esfaquear, esbofetear, trair, enrolar, pode! Fumar não pode. Esta é a conclusão a que este escrevinhador forçosamente chegou ao ler em um site uma informação bizarra: o desenho animado de Tom e Jerry, que fez a minha alegria na infância e a de onze em cada dez crianças de várias gerações, vem sendo duramente criticado na Inglaterra depois que um espectador telefonou para o Ofcom (órgão regulador da programação de TV no país) reclamando que o gato Tom costuma fumar, e isso representava um péssimo exemplo para as crianças.
Efetivamente no episódio "Texas Tom", o gato azarado tenta impressionar uma gatinha enrolando um cigarro, acendendo-o e fumando-o com uma mão. No outro episódio, o "Tennis Chumps", o adversário de Tom fuma um grande charuto. Resultado: em boletim publicado em seu website, a Ofcom apontou preocupações de que fumar na televisão possa influenciar a esse hábito. A empresa que licencia o desenho concordou em editar algumas cenas de fumo de Tom e Jerry. Quem diria, Tom e Jerry censurados e com cenas cortadas em um país democrático e em pleno século 21!
Mas, o curioso é perceber que o mesmo espectador que tanto se ofendeu com o cigarro do felino não se importou com toda a violência do desenho. Sim, pois Tom e Jerry, ao lado do Papa Léguas, é um manual quase didático de como impingir dor e sofrimento a um inimigo. Já assisti a Tom ser retalhado, esquartejado, torrado, agredido com bigornas, ter os dentes quebrados um a um, sempre pelo rato Jerry que o faz com um sádico sorriso e sem nenhum resquício de culpa. O curioso é que eu não lembrava de ter assistido aos episódios que Tom fuma cigarros. Devo ter assistido, mas nem por isso comecei a fumar.
Da mesma forma, também adorava Tom e Jerry nem por isso retalhei ou carbonizei minhas irmãs e meus amigos. Ah, e também ouvi muito heavy metal quando adolescente, em especial Iron Maiden e Metallica, meus preferidos nesta seara. A obra prima do Iron Maiden é "666-the number of the beast" (666 – o número da besta), que evidentemente fala sobre o demônio, ou como queria mestre Guimarães Rosa, o cramulhão, o capiroto, o tinhoso. Bem, o fato é que embora ouvisse a música com razoável freqüência, nem por isso adentrei nos caminhos de adoração do demo. O politicamente correto é positivo porque luta pela cidadania e defende os direitos das minorias, mas tem lá seus exageros. Desenho animado não influencia criança alguma. Nem os mais violentos tipo Papa Léguas, nem os alucinados tipo Pokemon e nem os edificantes e mimosos como Bambi, Cinderela ou Pocahontas. Criança alguma fica boazinha ou adentra os caminhos da maldade com base em desenhos animados. Animação só diverte, mesmo com excessos. Discutir a qualidade dos desenhos é outra coisa. E neste aspecto, convenhamos que Tom e Jerry são dos melhores. Deixem o pobre Tom fumar em paz!

21 novembro 2008

À flor da pele



Cefas Carvalho

Quando menina, mirrada, magrinha, um toco assim de gente, caiu feio na terra empedrada, quando brincava de pique-esconde com os moleques na rua. Foi para casa choramingando, cheia de arranhões e ferimentos pincelados com sangue. A mãe, enternecida, passou mertiolate nos braços e pernas da menina e advertiu-a que ela sentiria dor por alguns dias. Mas, a dor que sentiu era quase uma cócega agradável. Depois, divertiu-se arrancando as cascas das feridas mal cicatrizadas, testemunhando um fio de sangue brotar novamente e também um líquido amarelado.
Caiu outras vezes, brincando, correndo, jogando handebol, arranhou-se, e cada vez que via o sangue jorrar da carne lacerada sentia, além da dor imediata, uma estranha satisfação. Começou a brincar com as feridas como outras meninas brincavam com bonecas. Tornou-se íntima de seu próprio sangue e de sua carne sempre aberta, sempre mutilada. Percebeu que tinha de esconder este estranho comportamento da família.
Mais crescida, encontrou um novo prazer em se depilar com a pinça. A sensação dos fios saindo de sua epiderme lhe proporcionava tal prazer que ela se descobriu enquanto mulher – sensações de gozo e um formigamento no sexo – quando arrancava pêlos das sobrancelhas, braços, pernas e virilha. Não queria o puxão rápido, indolor. Desejava a agulhada dolorida, o arrepio da dor mais lenta.
Na adolescência, tornou-se uma moça estudiosa, quieta e enigmática. Enquanto as amigas investiam em decotes e biquínis, ela escondia o corpo o máximo possível. Ao despir-se, contemplava no corpo as marcas do prazer que arrancava de todas as maneiras: arranhando-se com chaves, lanhando as pernas com canivete, roendo as unhas eternamente em sangue... No dia em que fez dezoito anos, tendo recusado todos os presentes e mimos dos pais, precisou ir ao dentista. Precisando ter um dente obturado, decidiu que queria fazê-lo sem anestesia. O dentista recusou-se e, em casa, ela descobriu novo prazer trincando os dentes com um garfo até ver o sangue escorrer pelas gengivas.
Incentivada pelos pais e pelas amigas, começou a sair mais, para, supostamente, divertir-se. Em uma boate, enquanto as colegas dançavam, ela percebeu um rapaz brincando com a ponta de um cigarro em sua própria mão. Sentiu uma vontade desenfreada de beijar e cheirar aquela mão de carne queimada e não tardou a travar contato com o rapaz. Ele mostrou como fazia aquilo, na verdade uma maneira banal de sentir dor e controlá-la, e ela pediu que ele fizesse tal brincadeira com ela. Não na boate, ele respondeu. Onde você quiser, ela sorriu. Horas depois perdia a virgindade e aliou o prazer sexual com a descoberta da carne queimada pela brasa do cigarro. Começou a fumar. Comprou charutos e percebeu que a brasa do charuto beijando sua coxa lhe proporcionava sensações mais agudas que os beijos do namorado. Terminou o namoro e procurou novas sensações; arranhar-se com facas de pão, arrancar fios de cabelo com os dedos, morder os cantos da boca de forma a destilar sangue... iniciou uma frase extremamente criativa quando a maneiras de se mutilar e descobriu que seu prazer era inconciliável com a vida familiar. Em meio a constantes atritos com os pais, passou a gerenciar uma loja de tatuagens e decidiu morar sozinha.
Trabalhando em meio à carne sendo queimada e colorida, descobriu novos prazeres com agulhas, tintas, ferramentas e brocas, e á noite, conciliava namoros ocasionais que pouco ou nada lhe acrescentavam, e bastante solidão, assistindo a filmes e comendo pipoca, em meio a brincadeiras com lâminas e facas de cozinha.
Em uma manhã cinzenta, não desejava conversar com os colegas de trabalho e deixou-os no restaurante habitual preferindo refugiar-se em um bar estranho, sujo, quase em frente ao trabalho. Lá, almoçando um bife mal passado com arroz e fritas, observou à mesa em frente um homem que tomava uma cerveja e com uma pequena chave de fenda, arrancava a frio as unhas da mão esquerda, em um ritual estranho e, para ela, fascinante. Inventou um pretexto para entrar em contato com ele, e como esperava, foi convidada para sentar-se à mesa.
Olhou-o de perto com a devida atenção. Era bem mais velho que ela, talvez beirando os cinqüenta anos, tinha uma barba mal feita e olhos amarelos, adoentados, mas que guardavam malicia e algo de mal. Tinha ares de pirata e latrocida. Seu mau hálito, ela o sentiu assim que ele perguntou seu nome e disse que ela era linda, como se querendo queimar etapas para seu evidente desejo. Ela teria nojo dele não fosse a visão inebriante das suas unhas em sangue, dos dedos calosos em uma mão marcada e forte, de estivador, de assassino.
Na gangorra entre o asco e a excitação, deixou-se levar para um quarto de hotel decadente onde, encantada, descobriu nele marcas e cicatrizes em todo o corpo. Amou o latrocida de olhos cerrados, sentindo em suas costas os nacos de unhas arrancadas. Pediu que ele puxasse seus cabelos, que a esbofeteasse, que apertasse seu pescoço... sentiu prazer como nunca; descobriu que podia – e devia – aplicar a dor e a mutilação ao amor físico. Perguntou a ele, enquanto se vestiam, não seu nome, informação que não lhe interessava, mas, porque arrancava as unhas até o sangue. Porque gosto, respondeu, com um sorriso maníaco. Sentir dor é bom, concluiu.
À noite, em casa, não conseguiu assistir a filmes, comer pipoca ou conversar com as amigas pelo telefone. Munida de compressas de gelo e mercúrio cromo, lembrou da tarde que tivera, das unhas arrancadas daquele homem pavoroso que a encantara. Olhou no espelho imenso que mantinha na parede junto à cama as muitas cicatrizes em seu corpo nu. Cicatrizes que como palavras, como frases, contavam a história de seu corpo, de sua vida.
Decidiu, no dia seguinte, procurar no mesmo restaurante barato onde almoçara, o homem estranho que se mutilava. Se não o encontrasse, perguntaria, iria atrás de seu paradeiro. Continuava com nojo dele, mas não podia mentir para si mesma; ele lhe dera o que ela desejava.
Afinal de contas, pensou, sorrindo, sentir dor é bom!...

05 novembro 2008

A Ilha do Fim do Mundo


Cefas Carvalho

Começou como uma brincadeira.
Abrindo o mapa mundi para planejarmos nossa viagem a Lisboa, imaginamos uma outra viagem, esta, para algum lugar distante, perdido, algo como o fim do mundo.
Entre vinhos e queijos, sonhos e risos, elegemos a Escócia como o nosso fim do mundo particular e ideal. Razões para isso não faltavam: a Escócia ficava próxima a Londres, metrópole que conhecíamos e que serviria como ponto de apoio para a aventura. Também porque queríamos um fim do mundo estruturado, confortável, preferencialmente com clima frio. Também favorecia o fato da Escócia ter algo de mágico... talvez pelos castelos, pelo Lago Ness e seu lendário monstro...
Do sonho, passamos ao mapeamento, à prática: descobrimos ilhas isoladas ao oeste da Escócia, bem distantes de Glasgow e Edinburgh. Nomes como Ilha de Berneray, Ilha de Skye, Castlebay e Benbecula começaram a fazer parte do nosso imaginário. Eu e Clarissa pesquisamos itinerários, pousadas idílicas, preços de passagens aéreas e férreas, cotação da libra. Pela Internet sondamos instalações, preços... logo a viagem algo irreal para a Ilha do Fim do Mundo ganhou mais espaço em nossos corações e mentes do que a viagem real, a ser empreendida para Lisboa. O que poderia frear nosso sonho? Éramos jovens, ambos com a idade de Cristo quando morreu, não tínhamos filhos e estávamos profissional e financeiramente estruturados. Queríamos conquistar o mundo, e certamente riríamos de quem nos dissesse que o mundo não existia apenas para ser conquistado por nós.
Viajamos a Lisboa, como tinha de ser. O que relatar da viagem às terras portuguesas? É certo que conhecemos a linda capital lusitana, que andamos de mãos dadas pela Avenida da Liberdade até desembocar no Tejo, que experimentamos todas as delícias de bacalhau disponíveis nos restaurantes e bares e que fizemos amor na mais linda das pousadas de Coimbra, olhando o sol nascer. Mas, também trocamos ofensas muitas e diversos espinhos verbais.Maculamos o Castelo de São Jorge com uma briga estúpida e que beirou a violência física e encharcamos a bela cidade do Porto com os ciúmes dela e com minha intolerância.
Retornamos ao Brasil decididos não apenas a nunca mais viajar juntos, como a terminarmos nosso relacionamento. Não havíamos sequer desarrumado as malas da viagem com os presentes para amigos e parentes quando me vi obrigado a, com o coração comprimido, a arrumar minhas malas com roupas e coisas básicas. Foram dois dias em um hotel, imaginando o que fazer da vida e procurando um apartamento para alugar. Até que Clarissa me telefonou, propondo um encontro. Marcamos em um restaurante oriental perto da praia, onde costumávamos ir com freqüência.
Quando eu a vi, no restaurante, mais linda do que nunca e com os olhos ainda soltando faíscas, apesar da vermelhidão e do cansaço, pensei em me ajoelhar aos seus pés e implorar para que voltássemos. Não foi necessário. Serenamente, ela propôs que puséssemos uma pedra no passado recente e que retomássemos nosso casamento, mais que isso, nossa história de amor.
Na mesma noite peguei minhas coisas no hotel e rumamos para uma pousada em uma praia num município litorâneo próximo. Jurei para ela, mas, principalmente para mim mesmo, que jamais a deixaria novamente.
Retomamos o casamento, o cotidiano e também os sonhos. Voltamos ao mapa da Escócia. Encontramos mais cidadezinhas com nomes estranhos, próximas da Islândia e do Pólo Norte. Começamos a comprar libras e a economizar dinheiro. Passamos a trabalhar e a fazer planos unicamente em prol da viagem para a Ilha do Fim do Mundo. Clarissa sugeriu que, se nos apaixonássemos pelo lugar, fizéssemos planos de morar lá definitivamente. Talvez comprar uma pousada. E vivermos de amor, cerveja preta, rosbife, livros e músicas. O que mais da vida eu poderia pedir?
Tudo isso que relato aconteceu há alguns anos. Hoje, moro em Ullapool, uma cidadezinha bem ao norte da Escócia, como se saída de um conto de fadas. Trabalho em um pub local, servindo cervejas. Todos são educados e gentis comigo e me chamam de The solitary man, por razões que o apelido, em inglês, explica por si só e que sintetiza minha vida e o que ela será para sempre.
Quanto a Clarissa? Morreu em um acidente de trânsito na avenida principal da cidade. Voltava para casa com uma pizza e duas garrafas de vinho no banco de trás do carro e nossas passagens para Londres e conexão para Glasgow no porta luvas do carro. Era o nosso sonho materializado, porém, destruído pela precipitação de um motorista de caminhão que tentou uma ultrapassagem arriscada e desnecessária. Ele fugiu sem prestar socorro, após o acidente. Espero sinceramente que tenha ido para o inferno e que lá permaneça por várias eternidades. Meu consolo é que Clarissa não sofreu, tendo morrido na hora e, segundo a médica que atendeu, com um estranho sorriso nos lábios. Após a tragédia, queimei uma das passagens aéreas juntamente com os mapas, guias de viagens e informações sobre a Escócia. Em seguida, vendi tudo que tinha e rumei para as terras frias – onde estou até hoje – para conhecer a Ilha do Fim do Mundo, ver seus lagos, seus castelos, suas montanhas, por mim e por Clarissa. Coisa que faço todo dia. Até a hora sagrada em que terei de morrer, aqui nesta Ilha do Fim do Mundo onde encontro Clarissa todos os dias e de onde não sairei jamais...